Como se lê um verbete latino, como se chega da forma do texto à forma do dicionário, o que fazer com homógrafos, grafias variantes, o enclítico -que e os prefixos, e como montar um vocabulário básico com a lista de frequência DCC e as ferramentas gratuitas, sem deixar o analisador automático pensar por você.
Neste capítulo você vai
Ler um verbete de nome, de adjetivo e de verbo, dizendo o que cada parte informa: genitivo, gênero, terminações, partes principais e abreviaturas.
Chegar à forma de dicionário a partir de uma forma flexionada: separar a terminação, testar as declinações e conjugações possíveis e conferir o tema no verbete.
Resolver homógrafos pelo contexto e não perder uma palavra por causa de grafias variantes (u/v, i/j, prefixos assimilados) ou do enclítico -que.
Reconhecer os prefixos in-, ad-, con-, ex-, re-, dē- e as famílias de palavras, distinguindo cognatos úteis de falsos amigos.
Montar um plano de vocabulário com a lista de frequência DCC e usar Whitaker's Words, Logeion e Lewis & Short para conferir uma análise já feita, e não para substituí-la.
verbete de dicionárionominativo, genitivo e gênerotema do nomeadjetivos de três terminaçõespartes principais do verboabreviaturas de dicionárioforma de dicionário a partir da forma flexionadahomógrafosgrafias u/v e i/jenclítico -queprefixos e assimilaçãofamílias de palavrascognatos e falsos amigosvocabulário básico e frequênciaWhitaker's Words, Logeion, Lewis & Shortanálise de frase autêntica
Antes deste capítulo: Capítulos 5 e 6: as duas primeiras declinações com os adjetivos de primeira classe, e o presente do indicativo de esse e das quatro conjugações (com a entrada de dicionário do verbo). · capítulo 5 · capítulo 6
Um dicionário latino não registra as palavras na forma em que elas aparecem nos textos, e sim numa forma de citação (o lema), seguida de algumas formas-chave que permitem reconstruir todas as outras. A primeira linha de um verbete é, portanto, um pequeno resumo gramatical. Quem a lê inteira sabe declinar ou conjugar a palavra; quem lê só a primeira forma e pula para a tradução terá problemas mais adiante. Nesta seção você aprende a ler essa linha nas três classes que já conhece: nomes, adjetivos e verbos.
Nomes: nominativo, genitivo, gênero
Para um nome, o dicionário dá o nominativo singular, logo depois a terminação do genitivo singular e, por fim, o gênero abreviado. O Pe. Ravizza descreve exatamente esse formato e acrescenta que, quando o nome não tem singular, o verbete começa pelo nominativo plural (Ravizza n. 17). Cada parte responde a uma pergunta diferente. O genitivo diz a declinação, porque as cinco declinações se distinguem justamente pela terminação do genitivo singular (-ae, -ī, -is, -ūs, -ēī ou -eī; Bennett § 18; A&G §§ 37 e 39), e mostra o tema: tirando a terminação do genitivo, sobra a parte da palavra a que se acrescentam as terminações de todos os casos (Ravizza n. 17; A&G § 37.a dá essa regra para os temas em consoante e, nos temas em vogal, inclui no tema a vogal característica: rosā-). O gênero diz como os adjetivos vão concordar, e não se deduz da terminação: nauta termina em -a e é masculino.
Como ler o verbete de um nome
Verbete
Declinação (pelo genitivo)
Tema
O que mais o verbete ensina
rosa, -ae, f.
1ª (-ae)
ros-
o caso típico: nominativo, genitivo, gênero
nauta, -ae, m.
1ª (-ae)
naut-
o gênero vem do verbete, não da terminação -a
dominus, -ī, m.
2ª (-ī)
domin-
masculino em -us
ager, agrī, m.
2ª (-ī)
agr-
o genitivo vem por extenso porque o tema perde o e do nominativo
puer, -ī, m.
2ª (-ī)
puer-
aqui o e fica: basta acrescentar -ī
bellum, -ī, n.
2ª (-ī)
bell-
neutro: nominativo = acusativo
arma, -ōrum, n. pl.
2ª (genitivo plural -ōrum)
arm-
só se usa no plural; o verbete começa pelo nominativo plural
Repare em ager, agrī e puer, puerī, que você viu no capítulo 5: o nominativo é o mesmo tipo de palavra, mas os temas são diferentes, e só o genitivo mostra isso. É por isso que muitos dicionários escrevem o genitivo inteiro quando o tema muda, e só a terminação (-ī) quando basta acrescentá-la. A mesma lógica vai valer, com mais força, na terceira declinação (capítulo 9), em que o nominativo muitas vezes esconde o tema: só o genitivo revela, por exemplo, que o tema de rēx ("rei") é rēg- (rēx, rēgis).
Adjetivos: as três formas do nominativo
O adjetivo de primeira classe aparece com as três formas do nominativo singular, masculino, feminino e neutro, quase sempre abreviadas: bonus, -a, -um. Nos adjetivos em -er, o feminino abreviado faz o papel que o genitivo faz nos nomes, porque mostra se o e fica ou cai: pulcher, -chra, -chrum (tema pulchr-, como ager) e līber, -era, -erum (tema līber-, como puer). A declinação é a que o capítulo 5 apresentou: masculino e neutro na 2ª, feminino na 1ª (Bennett §§ 63–65).
Verbos: as partes principais
O verbo aparece pelas partes principais: a 1ª pessoa do singular do presente, o infinitivo presente, o perfeito e uma quarta forma ligada ao particípio (Bennett § 99; A&G § 172), que Ravizza chama de "tempos primitivos" (n. 84). O capítulo 6 já mostrou por que as duas primeiras bastam por enquanto: a 1ª pessoa sozinha engana (amō e regō terminam igual), e o infinitivo decide a conjugação (amāre, monēre, regere, audīre; capiō, capere é a 3ª em -iō). O perfeito e a quarta forma serão estudados no capítulo 13; até lá, leia-os no verbete e siga adiante.
O que muda de um dicionário para outro é o formato, não a informação. Compare o mesmo verbo em três ferramentas que você vai usar:
O mesmo verbo, três formatos de verbete
Onde
Como aparece
O que observar
Lista DCC
amō -āre; videō vidēre vīdī vīsum
nos verbos regulares da 1ª conjugação dá só o infinitivo abreviado: o resto é previsível
Lewis & Short
ămo, āvi, ātum, 1, v. a.
não escreve o infinitivo: o número 1 indica a conjugação; marca também as breves (ă); escreve v e j consonantais
Whitaker's Words
porto, portare, portavi, portatus
sem macrons; a quarta forma é o particípio em -us, e não a forma em -um dos dicionários
As abreviaturas
Os dicionários economizam espaço com abreviaturas, quase sempre de palavras latinas ou inglesas. As listas completas ficam no começo de cada dicionário; as mais frequentes são estas:
Abreviaturas frequentes nos dicionários latinos
Abreviatura
Significa
Exemplo ou comentário
m. · f. · n.
masculino · feminino · neutro
nauta, -ae, m.
comm. ou c.
comum de dois (masculino ou feminino conforme a pessoa)
Lewis & Short: cīvis, is, comm., "cidadão, cidadã"; na lista do L&S, c. também abrevia cum ("com")
Lewis & Short: nēquam, adj. indecl., "imprestável"
1 · 2 · 3 · 4 (depois de um verbo)
a conjugação
Lewis & Short: mŏnĕo, ŭi, ĭtum, 2
v. a. · v. n.
verbo ativo (transitivo) · verbo neutro (intransitivo): na lista do L&S, v. = verb, a. = active, n. = neuter
Lewis & Short: ămo … 1, v. a.; ambŭlo … 1, v. n.
intr. · intrans.
intransitivo
intr. na lista do Lewis & Short; intrans. na do Elementary Latin Dictionary. Cuidado: no Lewis & Short, trans. quer dizer "traduzido" (translated), não "transitivo"
dep.
depoente: forma passiva, sentido ativo
Lewis & Short: hortor, ātus, 1, v. dep. (capítulo 25)
impers.
impessoal: só na 3ª pessoa do singular
verbos como "chove"
freq.
frequentativo: verbo derivado que indica ação repetida ou intensa
Lewis & Short classifica porto como v. freq. a.
comp. · sup.
comparativo · superlativo
formas como "melhor", "ótimo" (capítulo 18); no Lewis & Short, comp. também é "compare" e sup. também é "supino"
lit. · trop. (fig.)
sentido literal · sentido figurado
os sentidos vêm numerados: I, II, A, B, 1, 2…
cf. · v. · syn.
cōnfer (compare) · vidē (veja) · sinônimos
remetem a outro verbete; no Lewis & Short, v. pode ser vidē, verb ou vox, e o contexto decide
Cic. · Caes. · Verg. · Ov. · Vulg.
Cícero · César · Virgílio · Ovídio · Vulgata
abreviaturas de autores e obras: indicam onde o sentido está documentado
Da forma do texto ao verbete: o caminho de volta ⚑
No texto você não encontra ager, encontra agrōs; não encontra capiō, encontra capiunt. Procurar agrōs no dicionário não dá em nada. O trabalho é fazer de trás para frente o que a declinação e a conjugação fazem: separar a terminação, levantar hipóteses e reconstruir a forma de citação. Feito com método, ele quase nunca falha, e é ele que distingue quem lê de quem adivinha.
O caminho de volta, num exemplo: da forma agrōs ao verbete ager, agrī e ao sentido.
Os passos, um a um:
Classe da palavra. Pela terminação e pela posição, é nome, adjetivo ou verbo? Terminações pessoais (-ō, -s, -t, -mus, -tis, -nt) apontam para verbo; terminações de caso, para nome ou adjetivo. Algumas formas servem para os dois, e aí entram os homógrafos (seção 3).
Separe a terminação. Use as tabelas dos capítulos 3 a 6. Em agrōs, a terminação -ōs é acusativo plural da 2ª declinação; o que sobra, agr-, é o tema provável.
Liste as hipóteses. Uma terminação raramente tem uma só leitura. -ae pode ser genitivo ou dativo singular ou nominativo plural da 1ª; -unt pode ser presente da 3ª, da 3ª em -iō ou da 4ª conjugação. Anote todas antes de escolher.
Reconstrua a forma de citação. Para cada hipótese, monte o nominativo singular (nomes), o masculino singular (adjetivos) ou a 1ª pessoa do presente (verbos). Do tema agr- da 2ª declinação saem dois candidatos: agrus ou ager.
Confira no verbete. Procure os candidatos. Agrus não existe; ager, agrī existe e o genitivo confirma o tema agr-. Se o tema do verbete não bate com o que você separou, a hipótese está errada.
Escolha o sentido pelo contexto. O verbete traz vários sentidos ("campo", "território", "propriedade"); fique com o que a frase pede.
O passo 5 é o que muitos pulam, e é o mais importante. Conferir o tema é o que impede, por exemplo, de achar que librōs vem de līber, "livre": o genitivo librī mostra que o tema de liber, "livro", perde o e, enquanto līber, -era, -erum o conserva (līberōs). As duas palavras são parecidas no nominativo e se separam no tema.
Os macrons do dicionário servem para conferir. A maioria dos textos que você vai ler não tem macrons; o dicionário tem. Depois de achar o verbete, releia a forma do texto com as quantidades do verbete: isso confirma a pronúncia e às vezes desfaz a dúvida (līberōs com ī longo, librōs sem o e).
Homógrafos, grafias variantes e o enclítico -que ⚑
Homógrafos: duas palavras, a mesma forma
Homógrafos são formas que se escrevem igual e pertencem a palavras diferentes. O latim tem muitos, porque as mesmas terminações servem a nomes e verbos e porque, sem macrons, vogais longas e breves se confundem. Alguns que você já pode reconhecer:
O contexto decide, e decide quase sempre pelo mesmo raciocínio por exclusão que você aprendeu no capítulo 3. Em Nautae portās spectant, o verbo já existe (spectant, "olham") e o sujeito é plural; portās não pode ser "carregas", e é "as portas". Em Aquam portās, não há outro verbo; portās é "(tu) carregas". Os analisadores automáticos, como o Whitaker's Words, listam as duas leituras de portās e de servō sem escolher entre elas: a escolha é sua.
u ou v, i ou j
Os romanos escreviam com a mesma letra o i vogal e o i consoante, e com a mesma letra o u vogal e o u consoante (V). As edições modernas resolveram isso de maneiras diferentes, e o dicionário que você abrir pode seguir uma convenção diferente da do seu texto. Bennett escreve j e v para as consoantes, mas reconhece que muitos estudiosos usam i e u para tudo (§ 1.2); Allen & Greenough usam i para os dois sons e distinguem u de v (§ 1.b); a lista DCC escreve iaciō; o Lewis & Short escreve jacio, e na edição do Perseus a busca por iacio não encontra o verbete. Algumas edições de textos clássicos usam u para os dois sons e escrevem uiuit onde outras escrevem vīvit.
A regra prática é simples: se uma palavra começada por i + vogal não aparece, procure com j (e vice-versa); se uma palavra com u + vogal não aparece, procure com v. O mesmo vale para outras grafias que conviviam na mesma época, como epistula e epistola, exspectō e expectō (Bennett § 9.2), e para os compostos com prefixo, que você verá na seção 4.
O enclítico -que
-que quer dizer "e", mas não é uma palavra separada: é um enclítico, que se cola ao fim da palavra seguinte à que ele liga. Puerī puellaeque é "os meninos e as meninas"; arma virumque, "as armas e o homem". Quando liga duas orações, cola-se à primeira palavra da segunda, mas, se essa palavra for uma preposição, passa para a palavra seguinte (Bennett § 341.2.a; A&G § 224.a). Bennett observa ainda que -que une mais estreitamente que et, de preferência coisas que formam um par natural (§ 341.1.b), e a lista DCC põe -que entre as cinco palavras mais frequentes do latim (posição 4).
Na consulta, a regra é: tire o -que antes de procurar. Agrōsque se procura como agrōs (→ ager); servatque, como servat (→ servō, -āre). Mas cuidado com as palavras que terminam em -que e não têm enclítico nenhum, como atque ("e também"), neque ("e não") e quoque ("também"): se, tirando o -que, o que sobra não existe ou não faz sentido, procure a palavra inteira. Na pronúncia, o enclítico atrai o acento para a sílaba anterior quando ela é longa: virúmque, e em puellaeque o acento cai no ditongo -lae- (Bennett § 6.3). Os enclíticos -ne (pergunta) e -ve ("ou") funcionam do mesmo modo, e você os verá mais adiante.
Boa parte do vocabulário latino é feita de peças. Um verbo simples recebe uma preposição na frente e vira um verbo novo, com sentido previsível a partir das duas partes (A&G § 267.a; Bennett § 159.3.e; Ravizza n. 159). Isso tem duas consequências para quem usa o dicionário: o composto tem verbete próprio (procure importō em i, e não em portō), e, conhecendo o verbo simples e o prefixo, você muitas vezes adivinha o sentido do composto antes de abri-lo.
Seis prefixos e duas famílias de palavras
Prefixo
Sentido básico
Família de portō, "carregar"
Família de vocō, "chamar"
Português
in-
em, para dentro; contra
importō, levar para dentro
invocō, chamar por, invocar
importar, invocar
ad-
para, junto a
apportō, trazer para junto
advocō, chamar para junto (como auxiliar)
advogado
con- (com-, co-)
junto; por completo
comportō, levar junto, reunir
convocō, chamar todos juntos
comportar, convocar
ex- (ē-)
para fora
exportō, levar para fora
ēvocō, chamar para fora
exportar, evocar
re- (red-)
para trás; de novo
reportō, levar de volta
revocō, chamar de volta
reportar, revogar
dē-
de cima para baixo; para longe; por completo
dēportō, levar embora
dēvocō, chamar para baixo; chamar para longe, desviar
deportar
Dois avisos. Primeiro, o prefixo in- tem dois homônimos: diante de verbos é a preposição ("em, para dentro"); diante de adjetivos é quase sempre negativo, "não", como em inimīcus ("não amigo, inimigo"), impūrus ("impuro"), indignus ("indigno"). Ravizza alerta para não confundir os dois (n. 160c), e Allen & Greenough tratam o in- negativo à parte (§ 267.d). Segundo, re- e dis- nunca aparecem sozinhos: são partículas inseparáveis, que só existem em composição (Bennett § 159, nota; A&G § 267.b).
Assimilação e mudança de vogal
Quando o prefixo termina em consoante e o verbo começa por outra, a primeira muitas vezes se assimila à segunda, isto é, torna-se igual a ela ou parecida com ela, para facilitar a pronúncia (Bennett § 8.4–5; A&G § 16): ad + portō dá apportō; con + mittō, committō; in + portō, importō (diante de b, m, p, o n vira m); ex + ferō, efferō. O português herdou o fenômeno: "acorrer" (de accurrō, ad + currō), "cometer", "importar". A assimilação nem sempre foi escrita: Bennett mostra que os compostos com preposição podiam ser grafados com ou sem ela, ad-serō ou asserō, in-lātus ou illātus (§ 9.2). Por isso o Lewis & Short registra ap-porto e informa, no próprio verbete, que alguns editores escrevem adp-. Se você não acha uma palavra com app-, coll-, imm-, procure a forma sem assimilação (adp-, conl-, inm-), e vice-versa.
A vogal do verbo também pode mudar no composto: o a breve se enfraquece em i diante de uma consoante (A&G § 267, nota 2; Bennett § 7.1.b). Assim, de capiō ("pegar") vêm accipiō ("receber"), recipiō ("retomar, receber") e incipiō ("começar"); de faciō ("fazer"), cōnficiō ("concluir"). Quem procura accipiunt e só pensa em capiō não acha nada; quem conhece a regra reconhece a família e procura accipiō.
Cognatos e falsos amigos
Para quem fala português, a maior parte do vocabulário latino tem parentes conhecidos, os cognatos: aqua, água; terra, terra; vīta, vida; oculus, olho; populus, povo; liber, livro. Use-os para lembrar, não para traduzir, porque o sentido mudou em muitas palavras ao longo de dois mil anos. Esses são os falsos amigos, palavras de forma parecida e sentido diferente:
Falsos amigos frequentes
Latim
Parece
Quer dizer
Exemplo
studium, -ī, n.
estudo
empenho, dedicação, gosto por algo
studium agricolae: a dedicação do agricultor
cūra, -ae, f.
cura (de doença)
cuidado, preocupação
cūra puerōrum: o cuidado com os meninos
officium, -ī, n.
ofício, escritório
dever, serviço prestado
officium servī: o dever do escravo
līberī, -ōrum, m. pl.
livres
os filhos
līberī dominī: os filhos do senhor
parentēs (de parēns, -entis, c.)
parentes
os pais (pai e mãe)
terceira declinação: capítulo 9
familia, -ae, f.
família (pais e filhos)
todos os da casa, inclusive os escravos
familia dominī: a casa do senhor, com seus escravos
Esperar e esperar. O português usa "esperar" para duas ideias que o latim separa: exspectō, -āre, "aguardar" (de ex- + spectō, "olhar para fora", ficar de olho em quem vem), e spērō, -āre, "ter esperança". O prefixo de exspectō explica o sentido.
O latim conservado tem dezenas de milhares de palavras, mas umas poucas centenas formam a maior parte de qualquer texto. A DCC Latin Core Vocabulary, preparada no Dickinson College sob a coordenação de Christopher Francese, reúne cerca de mil lemas mais frequentes da língua, que, segundo a apresentação da lista, geram aproximadamente 70% das formas de um texto latino típico. A mesma página cita estudos segundo os quais cerca de 250 palavras já respondem pela metade de um texto. A ordem de frequência vem de um levantamento estatístico feito em Liège sobre cerca de 800 mil palavras de autores clássicos (os dados LASLA), e não da intuição de quem montou a lista.
Veja as primeiras posições, que confirmam o que você já percebeu nas frases dos capítulos anteriores:
Algumas das palavras mais frequentes do latim, segundo a lista DCC
Posição
Verbete na lista DCC
Sentido
1
et
e
2
sum esse fuī futūrum
ser, existir
4
-que
e (enclítico)
5
in
em, sobre (+ abl.); para dentro de, para (+ ac.)
6
nōn
não
10
cum
com (prep. + abl.)
14
ad
para, até (+ ac.)
A lista tem uma versão em português (tradução de Vittorio Pastelli), em que cada verbete traz o sentido, a classificação (por exemplo, "Substantivo: 2a Declinação" ou "Verbo: 3a Conjugação -iō"), um grupo semântico ("A Casa", "Guerra e Paz", "Movimento") e a posição de frequência. É possível filtrar por classificação e por grupo, e baixar tudo como planilha. As traduções são úteis, mas foram feitas a partir do inglês e algumas ficaram imprecisas (mittō, por exemplo, aparece como "remeter, livrar", quando o sentido básico é "enviar"): confira sempre no dicionário as palavras que você for decorar.
Como estudar o vocabulário
A experiência dos professores e o próprio formato dos verbetes sugerem um método:
Aprenda o verbete inteiro, nunca só a palavra. Para um nome, nominativo, genitivo e gênero (ager, agrī, m.); para um adjetivo, as três formas (līber, -era, -erum); para um verbo, pelo menos as duas primeiras partes (capiō, capere), e as quatro quando chegar ao capítulo 13. Saber só ager = "campo" não permite reconhecer agrōs.
Pela frequência, não pela ordem alfabética. Comece pelas cem primeiras posições da lista e avance em blocos. Quando uma palavra do texto estiver na lista, ela merece ser decorada; quando for rara, basta entendê-la ali.
Em famílias. Junte o simples e os compostos (portō, importō, exportō, reportō), o nome e o adjetivo (amīcus, amīca, inimīcus). Uma palavra aprendida assim traz outras de graça.
Com um cognato ou uma imagem. "Agrário" para ager; "pueril" para puer. Mas anote ao lado os falsos amigos, para não cair neles.
Em frases, não em listas soltas. Escreva cada palavra nova numa frase curta que você entenda (Agricola agrōs servat). Reveja em intervalos crescentes: no dia seguinte, depois de três dias, depois de uma semana.
Lendo muito. A lista diz o que priorizar; quem fixa o vocabulário é a leitura. As palavras frequentes voltam sozinhas, centenas de vezes, nos textos graduados indicados ao fim de cada capítulo.
O catálogo da Bibliotheca Latina reúne as ferramentas gratuitas que você vai usar daqui em diante. Cada uma faz uma coisa bem e outra mal; conhecer os limites é o que permite usá-las com proveito.
Ferramentas gratuitas do catálogo
Ferramenta
O que faz
Quando usar
Cuidado
Whitaker's Words
analisador morfológico: recebe uma forma flexionada, devolve todas as análises possíveis e o verbete de cada uma, em inglês
para conferir uma análise que você já fez, ou quando não consegue chegar ao lema (por exemplo, um tema irregular)
lista tudo, sem escolher; não usa macrons; inclui palavras raras e medievais
Logeion
busca o lema em vários dicionários ao mesmo tempo, entre eles o Lewis & Short, o Elementary Latin Dictionary e o Du Cange (latim medieval)
depois de saber o lema, para ver os sentidos, a regência e exemplos
você precisa chegar à forma de citação primeiro (seção 2)
Lewis & Short
o grande dicionário latim-inglês de 1879, com abonações dos autores
para sentidos raros, construções e o latim cristão
escreve j e v; indica a conjugação por número; separa os homógrafos em verbetes numerados (o adjetivo līber remete a "2. Liber", o deus Líber)
Lista DCC
as mil palavras mais frequentes, com sentido em português
para decidir o que decorar
traduções a conferir
Ravizza, Gramática Latina
gramática em português que explica como o dicionário registra nomes e verbos (n. 17 e 84)
para entender o verbete em português
não é dicionário; é o manual para lê-lo
O analisador não analisa por você
Ponha no Whitaker's Words a forma virumque. Ele separa corretamente o enclítico -que, e depois oferece três leituras de virum: acusativo singular de vir, virī, "homem"; nominativo ou acusativo de um virum, -ī, "vírus", que o próprio programa marca como latim moderno e pouco comum; e genitivo plural de vīs, "força", uma forma que o programa gera pela regra mas que o latim clássico não usa (o genitivo plural atestado é vīrium, com ī longo). E falta uma leitura útil: em poesia, virum pode ser genitivo plural de vir, forma antiga de virōrum. Para canō, devolve, antes do verbo "cantar", formas de dativo e ablativo de dois nomes raros e de um adjetivo cānus, "grisalho". Algumas dessas leituras são possíveis como morfologia, uma é teórica, e quase todas estão erradas na frase. O programa não lê a frase: ele só conhece a palavra isolada.
Daí a regra de ouro deste capítulo: analise primeiro, consulte depois. Escreva no caderno a sua hipótese (classe, caso ou pessoa, lema) e só então abra a ferramenta, para confirmar ou corrigir. Usado assim, o analisador é um professor paciente; usado antes de pensar, ele é uma muleta que impede de aprender a andar. O capítulo 8 mostra quando abrir o dicionário durante a leitura de um texto inteiro.
Uma frase autêntica, verbete a verbete
O primeiro verso da Eneida de Virgílio começa assim:
Arma virumque canō…
Canto as armas e o herói… (Virgílio, En. 1.1)
Eneida 1.1: o que o dicionário diz de cada palavra
Palavra
Dicionário
Análise
Função
Arma
arma, -ōrum, n. pl., armas
acusativo plural, 2ª declinação (neutro: igual ao nominativo)
objeto direto de canō
virum
vir, virī, m., homem, herói
acusativo singular, 2ª declinação
objeto direto, coordenado a arma
-que
-que, conj. enclítica, e
invariável
liga virum a arma
canō
canō, -ere (3ª), cantar, celebrar em versos
presente do indicativo, 1ª pessoa do singular
verbo da oração: "(eu) canto"
Três decisões dependem do verbete e do contexto, e não do analisador. Arma poderia ser nominativo ou acusativo plural (neutro), e o Whitaker's Words acrescenta ainda o imperativo de um verbo armō, "armar"; mas a frase já tem um verbo, canō, cuja 1ª pessoa diz que o sujeito é "eu": arma só pode ser o que se canta, o objeto. Virum se decide pelo -que, que coordena palavras no mesmo caso: ligado a arma, é outro objeto, e o verbete de vir oferece, entre os sentidos, "herói", que é o que a epopeia pede. E arma se procura no nominativo plural, porque o verbete, como ensina Ravizza (n. 17), começa pelo plural quando a palavra não tem singular.
Erro: Procurar no dicionário a forma exatamente como está no texto (agrōs, capiunt, portās).
Por quê, e como evitar: O dicionário só registra o lema. Separe a terminação, reconstrua o nominativo singular ou a 1ª pessoa do presente e procure essa forma. Se não souber reconstruí-la, use o analisador para descobrir o lema, mas anote antes a sua hipótese.
Erro: Ler só a primeira palavra do verbete e pular para a tradução.
Por quê, e como evitar: O genitivo, o gênero e o infinitivo são a parte gramatical do verbete. Sem o genitivo agrī, você não reconhece agrōs; sem o gênero m. de nauta, erra a concordância; sem o infinitivo capere, conjuga capiō como audiō.
Erro: Aceitar a primeira resposta do Whitaker's Words, ou o primeiro sentido do verbete.
Por quê, e como evitar: O analisador lista todas as possibilidades na ordem dele, não na da frase (para canō ele começa por um nome que significa "cabelos brancos"). O dicionário põe primeiro o sentido etimológico, não o mais comum. Teste cada leitura na frase e fique com a que cabe na construção.
Erro: Traduzir pelo cognato português: studium = "estudo", cūra = "cura", līberī = "livres".
Por quê, e como evitar: Os cognatos ajudam a lembrar, mas o sentido mudou em muitas palavras. Confira no verbete: studium é "empenho", cūra é "cuidado", līberī (substantivo) são "os filhos". Desconfie quando a tradução pelo cognato deixa a frase estranha.
Erro: Concluir que uma palavra "não existe" porque não está no dicionário com aquela grafia.
Por quê, e como evitar: Tire o enclítico (agrōsque → agrōs), troque i/j e u/v (iacit → jacio no Lewis & Short), desfaça a assimilação do prefixo (apportō / adportō) e lembre o enfraquecimento da vogal (accipiō é da família de capiō).
Erro: Tirar o -que de toda palavra que termina assim.
Por quê, e como evitar:Atque, neque e quoque são palavras inteiras, com verbete próprio. Se o que sobra depois de tirar o -que não existe (at existe, mas não faz sentido ali; ne, quo…), procure a palavra inteira.
Resolvida passo a passo: leia a pergunta, tente responder e só então abra cada passo.
Prática guiada 1 · Três consultas, passo a passo
Encontre o verbete de cada forma destacada e traduza a frase. Vocabulário já visto: nauta, marinheiro; spectō, -āre, olhar; agricola, agricultor; videō, -ēre, ver; puer, -ī, menino; mālum, -ī (n.), maçã. As frases: (a) Nautae portās spectant. (b) Agricola līberōs in agrō videt. (c) Puerī māla capiunt.
(a) portās: que terminação se pode separar, e que hipóteses ela abre?Ver o passo
-ās. Pode ser acusativo plural da 1ª declinação (tema port- → porta, -ae) ou 2ª pessoa do singular do presente da 1ª conjugação (portō, -āre, "tu carregas"). São duas palavras diferentes: um homógrafo.
(a) Qual das duas a frase aceita?Ver o passo
A frase já tem verbo, spectant, com sujeito plural (nautae). Uma segunda forma verbal de 2ª pessoa não tem lugar; portās é o objeto de spectant: verbete porta, -ae, f. "Os marinheiros olham as portas (da cidade)."
(b) līberōs: separe a terminação e reconstrua os candidatos.Ver o passo
-ōs: acusativo plural masculino da 2ª declinação. Tema līber-. Candidatos ao nominativo: līberus ou līber. O verbete existente é līber, -era, -erum, "livre", que conserva o e (o tipo de puer).
(b) Poderia ser liber, librī, "livro"?Ver o passo
Não: o tema de "livro" é libr- (acusativo plural librōs), sem o e. Conferir o tema exclui a hipótese. E o adjetivo, aqui sem nome a que se ligue, está usado como substantivo: o masculino plural līberī quer dizer "os filhos" (capítulo 5). "O agricultor vê os filhos no campo."
(c) capiunt: que conjugações terminam em -iunt?Ver o passo
A 4ª (audiunt) e a 3ª em -iō (capiunt). Os dois candidatos ao lema são capiō, capīre (4ª) ou capiō, capere (3ª em -iō). A 1ª pessoa é a mesma; só o infinitivo do verbete decide.
(c) O que diz o verbete?Ver o passo
capiō, capere, com e breve: 3ª conjugação em -iō, "pegar, tomar". Māla é o acusativo plural neutro de mālum (o sujeito é puerī, nominativo plural, de acordo com -unt). "Os meninos pegam as maçãs."
Repare que em nenhum dos três casos o dicionário sozinho resolveu: ele confirmou um tema ou uma conjugação, e a frase escolheu entre as hipóteses.
Prática guiada 2 · Uma frase com -que e um homógrafo
Quantos verbos há na frase, e quais são?Ver o passo
Dois: dat e servat, ambos na 3ª pessoa do singular. O sujeito dos dois é dominus, o único nominativo singular.
servō: nome ou verbo?Ver o passo
As duas leituras existem: dativo/ablativo de servus ou 1ª pessoa de servō, -āre ("eu guardo"). Um verbo de 1ª pessoa não cabe numa frase cujo sujeito é dominus; e dat pede um destinatário no dativo. É o dativo de servus: "ao escravo".
agrōsque: como procurar?Ver o passo
Tire o enclítico: agrōs + -que. Agrōs é acusativo plural de ager, agrī. O -que liga a segunda oração à primeira e se colou à primeira palavra dela.
servat: qual o verbete, e o que significa aqui?Ver o passo
servō, -āre (1ª conjugação), "guardar, conservar". É o mesmo verbete que se descartou para servō: agora a forma servat só pode ser verbo. O objeto é agrōs.
Monte a tradução.Ver o passo
"O senhor dá dinheiro ao escravo e conserva os campos." O par servō / servat mostra bem o que é um homógrafo: o mesmo verbete servō, -āre aparece em servat, mas não na forma servō desta frase.
Faça por escrito ou em voz alta; abra "Ver resposta" só depois de tentar. A explicação da resposta faz parte da lição.
Exercício 1 · Leia o verbete
Para cada verbete, diga a classe, a declinação ou conjugação, o gênero (nos nomes) e o tema, e explique como o verbete mostrou isso.
silva, -ae, f., florestaVer resposta
Nome da 1ª declinação (genitivo -ae), feminino, tema silv-.
magister, magistrī, m., professorVer resposta
Nome da 2ª declinação (genitivo -ī), masculino. O genitivo por extenso mostra que o tema é magistr-: o e do nominativo cai, como em ager.
perīculum, -ī, n., perigoVer resposta
Nome da 2ª declinação, neutro, tema perīcul-. Por ser neutro, nominativo e acusativo são iguais (perīculum; plural perīcula).
miser, -era, -erum, infelizVer resposta
Adjetivo de primeira classe. O feminino -era mostra que o e fica: tema miser-, como līber (e não como pulcher, -chra).
teneō, -ēre, segurarVer resposta
Verbo da 2ª conjugação: infinitivo em -ēre, com ē longo.
mittō, -ere, enviarVer resposta
Verbo da 3ª conjugação: infinitivo em -ere breve, e a 1ª pessoa não tem i antes do -ō.
fugiō, -ere, fugirVer resposta
Verbo da 3ª conjugação em -iō: a 1ª pessoa parece de 4ª (audiō), mas o infinitivo em -ere breve decide.
veniō, -īre, virVer resposta
Verbo da 4ª conjugação: infinitivo em -īre.
Exercício 2 · Da forma ao verbete
Use os verbetes do exercício 1 e os dos capítulos anteriores. Para cada forma, diga a análise (caso e número, ou pessoa e número) e o verbete em que ela se procura.
magistrōVer resposta
Dativo ou ablativo singular de magister, magistrī. Tema magistr- + -ō.
perīculaVer resposta
Nominativo ou acusativo plural de perīculum, -ī (neutro plural em -a). Não é da 1ª declinação: não existe perīcula, -ae.
silvārumVer resposta
Genitivo plural de silva, -ae.
miserāsVer resposta
Acusativo plural feminino de miser, -era, -erum. O tema miser-, com e, confirma o verbete.
mittuntVer resposta
3ª pessoa do plural do presente de mittō, -ere (3ª conjugação: -unt sem i).
fugiuntVer resposta
3ª pessoa do plural de fugiō, -ere. A terminação -iunt serve à 4ª e à 3ª em -iō; o verbete (-ere) mostra que é a segunda.
venīsVer resposta
2ª pessoa do singular de veniō, -īre (4ª conjugação, ī longo).
tenēmusVer resposta
1ª pessoa do plural de teneō, -ēre.
Exercício 3 · Homógrafos: o contexto decide
Diga a que verbete pertence a forma destacada e por quê. Vocabulário: liber, librī, livro; servō, -āre, guardar; portō, -āre, carregar; porta, -ae, porta; amant, amam.
Dominus servō librum dat.Ver resposta
servus, -ī, dativo singular: o verbo é dat, que pede um destinatário, e o sujeito é dominus. "O senhor dá um livro ao escravo."
Librum servō.Ver resposta
servō, -āre, 1ª pessoa do singular: é o único verbo possível na frase. "Guardo o livro."
Aquam portās.Ver resposta
portō, -āre, 2ª pessoa do singular: não há outro verbo. "Carregas água."
Puellae portās spectant.Ver resposta
porta, -ae, acusativo plural: o verbo é spectant. "As meninas olham as portas."
Agricolae līberōs amant.Ver resposta
līber, -era, -erum, usado como nome: "os filhos". O tema līber- exclui liber, librī. "Os agricultores amam os filhos."
Puerī librōs amant.Ver resposta
liber, librī, acusativo plural: o tema libr- não tem o e. "Os meninos amam os livros."
Exercício 4 · Enclíticos, grafias e prefixos
Diga em que verbete você procuraria cada forma e explique o que precisou desfazer.
virīqueVer resposta
Tire o -que: virī, de vir, virī (genitivo singular ou nominativo plural). "e dos homens" ou "e os homens", conforme a frase.
terrāsqueVer resposta
terrās + -que: acusativo plural de terra, -ae. "e as terras".
nequeVer resposta
Não tire nada: neque, "e não, nem", é uma palavra com verbete próprio. Tirando -que, sobraria ne, que não faz sentido como lema aqui.
uiuit (assim, numa edição moderna)Ver resposta
Os dois u, cada um diante de vogal, são consoantes: vīvit, 3ª pessoa de vīvō, -ere, "viver". Procure com v.
iacitVer resposta
3ª pessoa de iaciō, -ere (3ª em -iō), "lançar". No Lewis & Short, o verbete está em jacio.
adportatVer resposta
É a grafia sem assimilação de apportat, de apportō, -āre (ad + portō), "trazer para junto". Se não achar uma das grafias, procure a outra.
accipiuntVer resposta
accipiō, -ere (ad + capiō, com assimilação de d e enfraquecimento de a em i), "receber". Procure em a, não em capiō.
inimīcus (decomponha)Ver resposta
in- negativo + amīcus, com o a enfraquecido em i: "não amigo", "inimigo". Diante de adjetivo, in- é "não", e não "em".
Exercício 5 · Cognatos e falsos amigos
Traduza, cuidando dos falsos amigos. Nas duas últimas, verta para o latim. Vocabulário: studium, -ī; cūra, -ae; officium, -ī; magnus, -a, -um, grande; est, é; sunt, estão, são.
Studium agricolae magnum est.Ver resposta
"A dedicação do agricultor é grande." Studium é empenho, não "estudo"; magnum, neutro, concorda com ele como predicativo.
Cūra puellārum magna est.Ver resposta
"A preocupação (o cuidado) das meninas é grande." Cūra não é "cura" de doença.
Līberī dominī in vīllā sunt.Ver resposta
"Os filhos do senhor estão na casa." Līberī, nominativo plural usado como nome, são "os filhos", e o verbo sunt confirma o plural.
Officium servōrum magnum est.Ver resposta
"O dever (o serviço) dos escravos é grande." Officium não é "escritório".
Os filhos do agricultor carregam água.Ver resposta
Līberī agricolae aquam portant. Sujeito līberī (nominativo plural), genitivo agricolae, objeto aquam, verbo no plural.
Os marinheiros guardam os livros e as armas.Ver resposta
Nautae librōs armaque servant. (ou librōs et arma). Librōs de liber, librī; arma é neutro plural, igual no nominativo e no acusativo; o -que se cola à segunda palavra.
Exercício 6 · Usando as ferramentas
Responda com base no que o capítulo mostrou sobre a lista DCC, o Whitaker's Words e o Lewis & Short.
Qual é a palavra mais frequente do latim na lista DCC, e em que posição está in?Ver resposta
Et, na posição 1; in está na posição 5. Por isso vale a pena dominar cedo as preposições e conjunções: elas aparecem em quase toda frase.
O Whitaker's Words diz que virum pode ser "vírus". Por que descartar essa leitura em Arma virumque canō?Ver resposta
Porque o próprio programa marca essa palavra como latim moderno e pouco comum, e porque o sentido não cabe na frase de um poema antigo sobre armas e heróis. O analisador lista possibilidades da palavra isolada; a frase escolhe.
Por que o Lewis & Short registra ămo, āvi, ātum, 1 sem o infinitivo?Ver resposta
Porque o número 1 já diz a conjugação, e o infinitivo da 1ª é previsível (amāre). É uma convenção do dicionário, não uma informação a menos.
Você procurou iacio no Lewis & Short e não achou. O que fazer?Ver resposta
Procurar jacio: o Lewis & Short escreve j para o i consonantal. A palavra existe; só a grafia do dicionário é outra.
Em que ordem usar o caderno e o analisador?Ver resposta
Primeiro o caderno: classe, análise e lema hipotéticos. Depois o analisador ou o dicionário, para confirmar ou corrigir. Só assim a consulta ensina alguma coisa.
Leituras recomendadas
Comece pela lista DCC em português: filtre os nomes da 1ª e da 2ª declinação e os verbos das quatro conjugações e estude as cem primeiras posições, verbete inteiro. Use o Logeion para consultar o Lewis & Short e o Elementary Latin Dictionary pelo lema, e o Whitaker's Words só para conferir uma análise já anotada. Ravizza (n. 17 e 84) explica em português como o dicionário registra nomes e verbos. Para praticar a consulta em texto corrido, leia os primeiros capítulos de Ora Maritima procurando no dicionário só as palavras que o contexto não resolver.
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DCC Latin Core Vocabulary
Christopher Francese e Dickinson College
Lista das cerca de mil palavras mais frequentes do latim (cobrem cerca de 70% de qualquer texto), com definições, classe gramatical e grupo semântico; a página remete a uma versão em português. Os comentários do DCC só glosam as palavras fora desta lista.
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Ferramenta · Moderno (material didático) · consulta · Whitaker's Words
O grande dicionário latino-inglês de 1879, integral e pesquisável, ligado a cada palavra dos textos do Perseus. Verbetes com etimologia, sentidos e exemplos de autores. Continua sendo a referência gratuita mais completa.
Gramática latina completa em português, usada por gerações nas escolas brasileiras, com um compêndio de história da literatura latina. Nona edição (1940), em domínio público (autor falecido em 1941). Fac-símile em PDF no Internet Archive.
Gramática · Moderno (material didático) · consulta · Internet Archive
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Ora Maritima: a Latin story for beginners
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Uma história contínua para iniciantes absolutos (1902): as férias de um menino na costa de Kent, com gramática e exercícios em inglês. Começa com a primeira declinação e avança devagar; muito usado com o Familia Romana. Fac-símile em PDF no Internet Archive.
Leitor graduado · Moderno (material didático) · algumas semanas · Internet Archive
Bibliotheca Latina. Conteúdo original com trechos de obras em domínio público; licença CC BY 4.0.
Fontes consultadas
New Latin Grammar, Charles E. Bennett (no catálogo) · domínio público · § 1.2 (i/j e u/v), § 7.1 (mudança de vogal nos compostos), § 8.4–5 (assimilação), § 9.2–3 (grafias variáveis; compostos de jaciō), § 17.3 (tema e terminação), § 18 (as declinações pelo genitivo), §§ 63–65 (adjetivos de 1ª e 2ª declinação), § 99 (partes principais), §§ 158–159 (compostos; preposições inseparáveis), § 341.1–2 (-que)
Allen and Greenough's New Latin Grammar, J. H. Allen e J. B. Greenough (no catálogo) · domínio público · § 1.b (i e u/v nesta gramática), § 16 (assimilação nos compostos com preposição), § 37 e § 37.a (declinação pelo genitivo; como achar o tema), § 39 (quadro das terminações das cinco declinações, PDF da edição DCC), §§ 171–173 (conjugações e partes principais), § 224.a (-que), §§ 264–267 (compostos; prefixos; enfraquecimento da vogal, § 267 nota 2)
Gramática Latina, Pe. João Ravizza (no catálogo) · domínio público · n. 17 (como o dicionário registra os substantivos e como achar o tema pelo genitivo), n. 84 (os "tempos primitivos" que o dicionário fornece), n. 159–160 (composição; partículas inseparáveis; in- negativo distinto da preposição in)
DCC Latin Core Vocabulary, Christopher Francese e Dickinson College (no catálogo) · página de apresentação (cerca de mil lemas, c. 70% das formas de um texto típico; frequência a partir dos dados LASLA) e versão em português (tradução de Vittorio Pastelli); posições de frequência citadas conferidas na lista