Colloquia Personarum
Hans H. Ørberg
Diálogos graduados que acompanham a progressão de Familia Romana, para leitura em voz alta e prática de conversa. Livro comercial da Hackett Publishing; aqui, apenas a referência oficial.
Elementa Linguae Latinae·Parte II · Grammatica·Capítulo 17·75 minReportar problema
Dē interrogātīvīs et indēfīnītīs
Como se pergunta em latim: o pronome quis, quid e o adjetivo quī, quae, quod; as partículas -ne, nōnne e num, que anunciam a resposta esperada; a pergunta dupla com utrum … an; os advérbios ubi, quō, unde, cūr, quandō, quōmodo; como se responde "sim" e "não" sem ter palavras para isso. Depois, os indefinidos: aliquis, quis depois de sī, nisi, num e nē, quīdam, quisque, quisquam e ūllus, nēmō e nihil. Um diálogo do Gênesis analisado palavra a palavra.
Antes deste capítulo: Capítulo 16: o pronome relativo quī, quae, quod, cujas formas o interrogativo e os indefinidos repetem, e o relativo de ligação, que aparece no texto analisado. Também o capítulo 15 (declinação pronominal; nūllus, uter). · capítulo 16 · capítulo 15
Toda pergunta pede uma de duas coisas. Ou pede uma informação que falta ("quem chegou?", "onde está o livro?", "por que você não trabalha?"), e então começa por uma palavra interrogativa que marca o lugar do que falta; ou pede a confirmação de uma frase inteira ("você vê o menino?"), e então espera um sim ou um não. As gramáticas chamam as primeiras de perguntas de palavra e as segundas de perguntas de frase (Bennett § 162).
O português marca a pergunta de frase só pela entoação: "você vê o menino." e "você vê o menino?" têm as mesmas palavras na mesma ordem. O latim também não muda a ordem das palavras numa pergunta (Allen e Greenough § 331), mas costuma marcá-la com uma partícula, que, além de anunciar a pergunta, muitas vezes diz que resposta se espera. O ponto de interrogação que você vê nos textos é obra dos editores (a escrita antiga não tinha pontuação regular); ler uma pergunta latina é, portanto, aprender a reconhecer os sinais que estão nas próprias palavras.
| Tipo | Sinal | Exemplo | Resposta esperada |
|---|---|---|---|
| Pergunta de palavra | pronome ou advérbio interrogativo | Quis venit? Quem vem? | uma informação: Mārcus. |
| Pergunta de frase neutra | -ne colado à primeira palavra | Vidēsne puerum? Você vê o menino? | sim ou não |
| Pergunta que espera "sim" | nōnne | Nōnne puerum vidēs? Você não vê o menino? | sim |
| Pergunta que espera "não" | num | Num puerum vidēs? Por acaso você vê o menino? | não |
| Pergunta dupla | utrum … an | Utrum puer an puella cantat? Quem canta, o menino ou a menina? | uma das alternativas |
| Pergunta sem partícula | só o tom (e o contexto) | Puerum vidēs? Você vê o menino? | sim ou não; muitas vezes com surpresa |
A pergunta sem partícula é mais comum do que as gramáticas escolares fazem crer, sobretudo em diálogos vivos e em expressões de surpresa ou indignação (Bennett § 162.2 d; Allen e Greenough § 332 a). No Evangelho de João, os enviados de Jerusalém interrogam João Batista assim: Elias es tū? … Prophēta es tū?, "Você é Elias? … Você é o profeta?" (Jo 1,21). Nada, além do contexto e da pontuação do editor, indica a pergunta.
Há também a pergunta retórica, que tem forma de pergunta mas é uma afirmação enfática: Quis dubitat?, "quem duvida?", isto é, "ninguém duvida" (Bennett § 162.3). O português usa o mesmo recurso, e a tradução pode conservá-lo.
O latim não tem uma palavra de uso corrente que signifique simplesmente "sim" ou "não" (Allen e Greenough § 336). Para responder que sim, repete-se o verbo ou a palavra principal da pergunta; para responder que não, repete-se com nōn. É exatamente o que o português faz quando responde "vejo" ou "não vejo" a "você vê?". Também se usam advérbios de reforço: para "sim", ita ("assim é"), etiam, vērō, sānē ("certamente"), certē; para "não", nōn, minimē ("de modo nenhum"), minimē vērō.
A pergunta de palavra precisa de um pronome que ocupe o lugar da informação que falta. O latim tem dois: um substantivo, quis, "quem?", com o neutro quid, "o quê?"; e um adjetivo, quī, quae, quod, "que …? qual …?", que acompanha um nome (Bennett § 90; Allen e Greenough § 148). O adjetivo declina-se exatamente como o relativo do capítulo 16. O substantivo difere do relativo só no nominativo singular e no acusativo neutro:
| Caso | Masculino e feminino | Neutro |
|---|---|---|
| Nominativo | quis | quid |
| Genitivo | cuius | cuius |
| Dativo | cui | cui |
| Acusativo | quem | quid |
| Ablativo | quō | quō |
O plural, pouco usado, é igual ao do relativo: quī, quae, quae; quōrum etc. Note que quis não tem forma feminina própria: serve para "quem?" sem distinção de sexo. As formas oblíquas dão as perguntas que o português faz com preposição: Cuius liber est?, "de quem é o livro?"; Cui librum dās?, "a quem você dá o livro?"; Quem vidēs?, "quem você vê?"; Quōcum ambulās?, "com quem você passeia?", com o cum posposto, como no relativo.
A diferença entre os dois pronomes é a de qualquer substantivo e qualquer adjetivo. Quis e quid ficam sozinhos; quī, quae, quod concordam com um nome:
| Latim | Tradução | Por quê |
|---|---|---|
| Quis venit? | Quem vem? | sozinho: substantivo |
| Quī homō venit? | Que homem vem? | com homō: adjetivo, nom. sing. m. |
| Quid vidēs? | O que você vê? | sozinho, neutro: substantivo |
| Quod templum vidēs? | Que templo você vê? | com templum: adjetivo, ac. sing. n. |
| Quae puella cantat? | Que menina canta? | com puella: adjetivo, nom. sing. f. |
| Quem librum legis? | Que livro você lê? | com librum: adjetivo, ac. sing. m. (igual a quem, "quem?") |
Os exemplos das duas primeiras linhas são os mesmos de Kennedy (§ 99) e de Allen e Greenough (§ 148). Na prática, os autores misturam um pouco as duas séries: quis aparece como adjetivo junto de nomes de pessoa, e então há uma nuance que Bennett (§ 90.2 c) registra: quis homō? é "que homem? quem é esse homem?", e quī homō? é "que tipo de homem?". Para escrever, siga a regra: quis, quid sozinhos; quī, quae, quod com um nome.
O neutro quid, por ser substantivo, não acompanha um nome; quando quer dizer "que coisa de …", leva o nome no genitivo: quid novī?, "que (há de) novo?", literalmente "o que de novidade?" (Ravizza n. 72; o genitivo partitivo é estudado no capítulo 20). E, quando a pergunta escolhe entre duas pessoas ou coisas, usa-se uter, utra, utrum, "qual dos dois?", que se declina como os adjetivos pronominais do capítulo 15 (genitivo utrīus, dativo utrī): Uter melior est, pater an fīlius?, "qual dos dois é melhor, o pai ou o filho?" (Ravizza; melior, melhor, capítulo 18).
A pergunta de frase neutra, a que apenas pede informação, forma-se com a partícula enclítica -ne, colada à palavra sobre a qual recai a pergunta, que normalmente vai para o início da frase (Bennett § 162.2 c; Allen e Greenough § 332). Na maioria das vezes é o verbo: Vidēsne?, "você vê?"; Estne frāter intus?, "o irmão está dentro?". Mas pode ser qualquer palavra que se queira pôr em questão: Tūne hōc dīcis?, "é você que diz isso?".
Duas partículas fazem mais do que perguntar: antecipam a resposta. Nōnne (que é nōn + -ne) espera "sim", como o "não é?" português: Nōnne vidēs?, "você não está vendo?", isto é, "claro que está". Num espera "não": Num dubium est?, "por acaso há dúvida?", isto é, "não há, não é?" (Allen e Greenough § 332 b). Para num, o português tem várias soluções: "por acaso…?", "será que…?", ou uma frase afirmativa com "…, não é?" invertido: "você não está esperando isso, está?".
Quando a pergunta oferece duas ou mais alternativas, ela é dupla (ou alternativa): o primeiro membro começa por utrum ou leva -ne, e o segundo começa por an, "ou"; se o segundo é negativo, "ou não", usa-se annōn (Bennett § 162.4; Allen e Greenough § 335). O primeiro membro também pode ficar sem partícula. Utrum não se traduz: só avisa que vem uma alternativa.
As perguntas sobre as circunstâncias usam advérbios interrogativos. A maioria tem a mesma raiz qu- do pronome, e cada um tem um correspondente demonstrativo, que dá a resposta: à pergunta ubi?, "onde?", responde-se hīc, "aqui", ou ibi, "ali". Bennett (§ 140) apresenta essas famílias num quadro de correlativos que vale a pena ter à mão:
| Interrogativo | Pergunta | Respostas demonstrativas | Observação |
|---|---|---|---|
| ubi? | onde? (sem movimento) | hīc aqui; ibi, illīc ali | lugar em que se está |
| quō? | para onde? aonde? | hūc para cá; eō, illūc para lá | movimento em direção a |
| unde? | de onde? | hinc daqui; inde, illinc dali | movimento a partir de |
| quā? | por onde? por que caminho? | hāc por aqui; eā, illāc por ali | passagem |
| quandō? | quando? | nunc agora; tum, tunc então | nas perguntas, nunca cum |
| cūr? | por quê? para quê? | (a resposta vem em geral com quia ou quod, "porque", capítulo 37) | também quārē?, "por que razão?" |
| quōmodo? | como? de que modo? | sīc, ita assim | literalmente "de que modo", ablativo de quī modus |
| quam diū? | por quanto tempo? | tam diū por tanto tempo | |
| quotiēns? | quantas vezes? | totiēns tantas vezes | |
| quot? | quantos? | tot tantos | indeclinável |
| quantus, -a, -um? | quão grande? quanto? | tantus tão grande | adjetivo de primeira classe |
| quālis, -e? | de que tipo? qual? | tālis tal | adjetivo de segunda classe (capítulo 10) |
A linha que mais engana o falante de português é a primeira. Em português do Brasil, "onde" serve hoje a três perguntas: "onde você está?", "onde você vai?" (por "aonde") e "de onde você vem?". O latim tem três palavras diferentes, e escolher a errada muda o sentido: Ubi est pater?, "onde está o pai?"; Quō ambulās?, "para onde você está indo?"; Unde venīs?, "de onde você vem?". A pergunta é sempre a mesma que você aprendeu para os casos: há movimento? para onde ou a partir de onde?
Duas observações. Quandō é a palavra para perguntar "quando?"; a conjunção cum, que também se traduz por "quando", introduz orações subordinadas e nunca uma pergunta (Ravizza observa isso expressamente; cum é o assunto do capítulo 34). E vários desses advérbios são também relativos: locus ubi habitō, "o lugar onde moro"; oppidum unde venit, "a cidade de onde vem". Como com o pronome, o que decide é haver ou não um antecedente.
Os pronomes indefinidos indicam que se fala de alguma pessoa ou coisa sem dizer qual (Allen e Greenough § 309). Quase todos são formados a partir de quis ou quī, com um prefixo ou um sufixo, e só a parte pronominal se declina: aliquis faz alicuius, alicui, aliquem; quīdam faz cuiusdam, cuidam (Bennett § 91.1). Quem domina o relativo e o interrogativo já sabe declinar quase todos.
| Indefinido | Substantivo / adjetivo | Sentido | Onde aparece |
|---|---|---|---|
| aliquis, aliquid / aliquī, aliqua, aliquod | subst. / adj. | alguém, algo; algum | em frases afirmativas; o mais comum |
| quis, quid / quī, qua, quod | subst. / adj. | alguém, algo; algum (fraco) | quase só depois de sī, nisi, num, nē |
| quīdam, quaedam, quiddam (adj. quoddam) | subst. e adj. | um certo, uma certa | alguém que o falante conhece, mas não nomeia |
| quisque, quidque / quīque, quaeque, quodque | subst. / adj. | cada um, cada | raramente no início da oração |
| quisquam, quidquam / ūllus, -a, -um | subst. / adj. | alguém, algum (qualquer que seja) | em frases negativas, condicionais e perguntas que esperam "não" |
| nēmō / nūllus, -a, -um | subst. / adj. | ninguém; nenhum | nēmō só para pessoas |
| nihil (nīl) | subst. neutro | nada | indeclinável |
Aliquis é o indefinido comum: Aliquis portam pulsat, "alguém bate à porta". Declina-se como quis (substantivo) e quī (adjetivo), mas o feminino singular e o neutro plural do adjetivo são aliqua, e não *aliquae (Bennett § 91.2): aliqua puella, "alguma menina".
Quis, sem prefixo, também pode ser indefinido, mas é a forma mais fraca e quase só aparece depois de sī ("se"), nisi ("se não"), num e nē (Bennett § 252.1; Allen e Greenough § 310 a). As gramáticas escolares resumem: depois de sī, nisi, num, nē, o ali- cai. Sī quis venit é "se alguém vem", e não "se quem vem"; num quis é "acaso alguém?". O Evangelho de João tem um exemplo célebre: Sī quis sitit, veniat ad mē et bibat, "se alguém tem sede, venha a mim e beba" (Jo 7,37; sitit, tem sede; veniat e bibat são subjuntivos de ordem, capítulo 32).
Quīdam é o mais definido dos três: designa alguém que o falante tem em mente, mas não nomeia (Bennett § 252.3): homō quīdam, "um certo homem". Antes do d, o m vira n, como em eundem: acusativo quendam, quandam, genitivo plural quōrundam, quārundam (Bennett § 91.3). A escala é, portanto: quis (o mais vago) < aliquis < quīdam (o mais definido) (Allen e Greenough § 310).
Quisque, "cada um", raramente abre a oração; costuma vir depois de outra palavra, muitas vezes do reflexivo: suum cuique, "a cada um o que é seu" (Allen e Greenough § 313). Com superlativos, forma expressões como "todos os melhores", que você verá no capítulo 18.
Quisquam (substantivo, sem plural) e ūllus (adjetivo) significam "alguém, algum, qualquer que seja" e aparecem em frases negativas, condicionais e perguntas que esperam "não" (Bennett § 252.4; Allen e Greenough § 311). Onde o português diz "não … ninguém" ou "nunca … a ninguém", o latim diz "nunca … a alguém": Iūstitia numquam nocet cuiquam, "a justiça nunca faz mal a ninguém" (Cícero, citado por Bennett e por Allen e Greenough). Sine ūllō metū é "sem medo algum".
Nēmō, "ninguém", usa só três formas próprias: nēmō, nēminī, nēminem; o genitivo e o ablativo vêm de nūllus: nūllīus, nūllō (Bennett § 57.3). Nūllus, "nenhum", é o adjetivo correspondente, com o genitivo em -īus do capítulo 15. Nihil, "nada", é indeclinável. Lembre que em latim, como em português culto, duas negações valem uma afirmação (Bennett § 347.2): nōn nēmō, "alguém" (não ninguém); nēmō nōn, "todos" (ninguém deixa de); nōn nihil, "alguma coisa".
Depois da morte de Abel, Deus interroga Caim. O versículo traz uma pergunta de palavra, uma resposta que começa por um relativo de ligação e uma pergunta com num, que espera "não":
| Palavra | Dicionário | Análise | Função |
|---|---|---|---|
| Et | et (conjunção), e | invariável | liga o versículo ao anterior |
| ait | aiō, dizer (verbo defectivo) | 3ª pessoa do singular; na narração, "disse" | verbo da frase introdutória |
| Dominus | dominus, -ī (m.), senhor; na Bíblia, o Senhor | nominativo singular, 2ª declinação | sujeito de ait |
| ad Cain | ad (preposição) + Cain, nome hebraico indeclinável | ad com acusativo | a quem se fala: "a Caim" |
| Ubi | ubi (advérbio interrogativo), onde? | invariável | abre a pergunta de palavra: lugar onde, sem movimento |
| est | sum, esse, ser, estar | 3ª pessoa do singular do presente | verbo da pergunta |
| Abel | nome hebraico indeclinável | aqui nominativo, pela função | sujeito de est |
| frāter tuus | frāter, frātris (m.), irmão; tuus, -a, -um, teu | nominativo singular | aposto de Abel: "teu irmão" |
| Quī | quī, quae, quod, relativo | nominativo singular masculino | relativo de ligação (capítulo 16): quī = et is, "e ele" (Caim); sujeito de respondit |
| respondit | respondeō, -ēre, respondī, respōnsum, responder | 3ª pessoa do singular do perfeito (capítulo 13) | verbo: "respondeu" |
| Nesciō | nesciō, -īre, não saber (prefixo negativo ne- + sciō) | 1ª pessoa do singular do presente, 4ª conjugação | primeira resposta: "não sei" |
| num | num (partícula interrogativa) | invariável | abre uma pergunta que espera resposta negativa |
| custōs | custōs, custōdis (m.), guarda, guardião | nominativo singular, 3ª declinação (tema custōd-) | predicativo do sujeito ego |
| frātris meī | frāter, frātris; meus, -a, -um | genitivo singular | complemento de custōs: "do meu irmão" |
| sum ego | sum; ego | 1ª pessoa do singular do presente; nominativo | verbo e sujeito; ego expresso e no fim da frase, com ênfase: "eu" |
Repare em três coisas. A primeira pergunta é de palavra: ubi marca o lugar da informação que falta, e a resposta esperada seria um lugar. Caim não a dá. A segunda observação é o quī: nenhuma oração principal o acolhe; ele retoma Cain, da frase anterior, e é o relativo de ligação do capítulo 16, que se traduz "e ele" ou simplesmente "Caim". A terceira é o num. Caim não pergunta para saber: a partícula já fornece a resposta que ele quer ouvir, "não, você não é o guarda do seu irmão". A pergunta é uma recusa disfarçada, e a tradução "por acaso sou eu…?" conserva esse tom; uma tradução com "sou eu…?" neutro perderia o que o latim diz. O pronome ego, expresso e posto no fim, reforça a recusa (sobre o pronome sujeito expresso, veja o capítulo 14).
No Evangelho de João, Pilatos responde a Jesus com uma pergunta de palavra que se tornou proverbial e que você já pode ler sozinho: Dīcit eī Pīlātus: Quid est vēritās?, "Pilatos lhe diz: Que é a verdade?" (Jo 18,38). Quid, neutro, sozinho, é o pronome substantivo; eī é o dativo de is.
As perguntas deste capítulo são diretas. Quando uma pergunta passa a depender de um verbo como "sei", "pergunto", "não sei" (nesciō quid dīcās, "não sei o que você diz"), ela se torna uma interrogativa indireta e pede o subjuntivo: é o assunto do capítulo 35.
Erro: Usar quid ou quis junto de um nome: *Quid librum legis? para "que livro você lê?".
Por quê, e como evitar: Junto de um nome, use o adjetivo quī, quae, quod, concordando com ele: Quem librum legis? (m., ac.); Quod templum vidēs? (n., ac.). Quid fica sozinho: Quid legis?, "o que você lê?".
Erro: Ler num como uma pergunta neutra, ou como se esperasse "sim".
Por quê, e como evitar: Num antecipa a resposta "não"; quem espera "sim" usa nōnne. Traduza num por "por acaso…?", "será que…?", e nōnne por "não é verdade que…?", "…, não é?". No Gênesis, num custōs frātris meī sum ego? é uma recusa, não uma dúvida.
Erro: Traduzir todo "onde" por ubi: *Ubi ambulās? para "aonde você vai?".
Por quê, e como evitar: Ubi é só o lugar em que se está. Movimento para: quō?; movimento a partir de: unde?. Antes de escolher, pergunte se há movimento e em que direção, como faria com os casos (in + ablativo, in + acusativo, ex + ablativo).
Erro: Ler sī quis como "se quem" ou nē quis como "que quem não".
Por quê, e como evitar: Depois de sī, nisi, num, nē, quis é o indefinido, "alguém": sī quis venit, "se alguém vem"; sī quid habēs, "se você tem alguma coisa". É o aliquis sem o ali-.
Erro: Usar aliquis numa frase negativa, ou somar negações à maneira do português popular: *Nēmō nōn venit para "ninguém não veio".
Por quê, e como evitar: Em frase negativa, "alguém, qualquer" é quisquam ou ūllus: numquam cuiquam nocet, "nunca faz mal a ninguém". E duas negações se anulam: nēmō nōn venit quer dizer "todos vieram". Para "ninguém veio", basta nēmō venit.
Erro: Confundir -ne interrogativo com nē ou -que.
Por quê, e como evitar: -ne é breve e colado ao fim da palavra (vidēsne); tirando-o, sobra uma palavra inteira. Nē é palavra separada e negativa; -que significa "e". Em bene ou homine, o -ne é parte da própria palavra.
Resolvida passo a passo: leia a pergunta, tente responder e só então abra cada passo.
Analise e traduza: Quem librum legis? Num eum quem magister tibi dat?
Adjetivo: está junto de librum e concorda com ele (masculino, singular, acusativo). É o interrogativo quī no acusativo: "que livro?".
Pergunta de palavra: espera a identificação de um livro.
Uma pergunta de frase que espera "não": "por acaso é aquele…?". Quem pergunta desconfia de que não seja.
Tem antecedente: eum (m. sing., ac., subentendido librum). É, portanto, relativo: masculino singular por causa de eum, acusativo por ser o objeto de dat. A relativa é [quem magister tibi dat].
"Que livro você está lendo? Por acaso aquele que o mestre lhe dá?" O verbo da segunda pergunta (legis) fica subentendido.
Traduza, explicando cada indefinido: Sī quis puerum vocat, puer nihil respondet; quīdam enim puerī nēminī respondent. Vocabulário: respondeō, -ēre, responder; enim, pois (vem sempre depois da primeira palavra).
Indefinido: "alguém". Sī quis puerum vocat, "se alguém chama o menino". Nominativo singular, sujeito de vocat.
Nihil, indeclinável, é aqui o objeto de respondet: "não responde nada". Nēminī é o dativo de nēmō: "a ninguém".
Nominativo plural masculino de quīdam, adjetivo concordando com puerī: "certos meninos", isto é, meninos de um tipo que o falante conhece.
"Se alguém chama o menino, o menino não responde nada; pois certos meninos não respondem a ninguém." Note que o latim usa uma só negação em cada oração (nihil, nēminī), e o português precisa de duas ("não … nada", "não … a ninguém").
Conclusão: o português nega duas vezes ("não … nada"); o latim, uma só. Ao verter, não acrescente um nōn a nēmō ou nihil.
Faça por escrito ou em voz alta; abra "Ver resposta" só depois de tentar. A explicação da resposta faz parte da lição.
Diga o tipo de pergunta e a resposta esperada, e traduza.
Pergunta de frase neutra (-ne): "Você vê o menino?" Resposta: videō ou nōn videō.
Pergunta que espera "sim": "Você não está vendo o menino?" Resposta esperada: videō.
Pergunta que espera "não": "Por acaso você vê o menino?" Resposta esperada: nōn videō.
Pergunta dupla: "Quem canta, o menino ou a menina?" Resposta: uma das duas (puella).
Pergunta de palavra: "Quem canta?" Resposta: um nome.
Pergunta retórica: "Quem duvida?" = ninguém duvida. Não espera resposta.
Complete com a forma certa de quis, quid ou quī, quae, quod e explique.
Quis: sozinho, nominativo, substantivo.
Quae: adjetivo, nom. sing. f., concordando com puella.
Quid: neutro, sozinho, acusativo.
Quem: adjetivo, ac. sing. m., com librum.
Quod: adjetivo, ac. sing. n., com templum.
Cui: dativo de quis.
Cuius: genitivo de quis.
Quōcum: ablativo de companhia, com cum posposto.
Traduza. Vocabulário: habitō, -āre, morar; valeō, -ēre, estar bem de saúde.
"Onde mora o poeta?" Lugar onde, sem movimento: ubi.
"Para onde você está indo?" Movimento para: quō.
"De onde você vem?" Movimento a partir de: unde.
"Por que você não trabalha?"
"Quando vem o mestre?" Nas perguntas, quandō, nunca cum.
"Como você está (de saúde)?" Quōmodo, "de que modo".
Traduza e diga por que se usou cada indefinido. Vocabulário: pulsō, -āre, bater; porta, -ae, porta; iūstitia, -ae, justiça; numquam, nunca; noceō, -ēre (+ dat.), prejudicar, fazer mal a.
"Alguém bate à porta." Frase afirmativa, pessoa indeterminada: aliquis.
"Se alguém vem, eu o vejo." Depois de sī, o indefinido é quis, sem ali-.
"Um certo soldado chega à cidade." Quīdam: alguém determinado, que o narrador não nomeia.
"A cada um o seu." Cuique é o dativo de quisque; o verbo ("dê-se") fica subentendido.
"A justiça nunca faz mal a ninguém." Frase negativa (numquam): "alguém" é quisquam, aqui no dativo, pedido por nocet. O português diz "ninguém"; o latim, com uma só negação, "alguém".
"Ninguém sabe isto; não vejo nada." Uma negação em cada frase latina; duas em cada frase portuguesa.
Verta. Vocabulário: casa, -ae, casa; habitō, -āre, morar.
Quem vidēs? Acusativo de quis.
Quī puer cantat? Adjetivo, nom. sing. m.
Nōnne tū magister es?
Num puella dormit?
Cuius haec casa est? Genitivo de quis; haec concorda com casa.
Quō ambulant mīlitēs? Movimento em direção a um lugar: quō, e não ubi.
Nēmō hīc habitat. Uma só negação; hīc advérbio, "aqui".
Jo 1,19 e 21, Vulgata Clementina (macrons acrescentados, exceto nos nomes próprios): … ut interrogārent eum: Tū quis es? … Et interrogāvērunt eum: Quid ergō? Elias es tū? Et dīxit: Nōn sum. Prophēta es tū? Et respondit: Nōn. Vocabulário: ut interrogārent eum, para o interrogarem (subjuntivo, capítulo 33); interrogāvērunt, interrogaram; ergō, então; dīxit, disse; respondit, respondeu; prophēta, -ae (m.), profeta.
Pergunta de palavra, com quis (nominativo, predicativo). O sujeito é tū, expresso e posto antes do interrogativo, com ênfase: "Tu, quem és?"
Nada além do contexto e da pontuação do editor: é uma pergunta de frase sem partícula, comum em diálogos vivos.
Na primeira, repetindo o verbo com negação: Nōn sum, "não sou"; na segunda, só com nōn. É o modo latino de responder, já que não há uma palavra corrente para "não".
É o interrogativo neutro, sozinho, numa pergunta elíptica: "Que (és) então?", "E então?".
"… para o interrogarem: Tu, quem és? … E interrogaram-no: E então? Tu és Elias? E ele disse: Não sou. Tu és o profeta? E respondeu: Não."
Perguntas e respostas se aprendem em diálogos. Os Colloquia Personarum de Ørberg e os colóquios escolares de Hessus são conversas curtas, cheias de quis, cūr, ubi, -ne e num, boas para ler em voz alta; Familia Romana também os usa desde cedo. Na Vulgata, leia Gn 4,1–16 e Jo 1,19–28 (o interrogatório de João Batista) contando as perguntas e classificando-as. Os Colloquia Familiaria de Erasmo são o passo seguinte, já em nível intermediário. Allen e Greenough (§§ 309–315 e 330–337) explicam os indefinidos e as perguntas com muitos exemplos de Cícero.
Hans H. Ørberg
Diálogos graduados que acompanham a progressão de Familia Romana, para leitura em voz alta e prática de conversa. Livro comercial da Hackett Publishing; aqui, apenas a referência oficial.
Hermannus Schottennius Hessus
Diálogos de escolares do século XVI (cumprimentos, refeições, hora de dormir, como estudar, como escrever cartas), em latim coloquial e simples, macronizado nesta edição. Um texto original renascentista acessível a iniciantes, parecido com os Colloquia do método Ørberg.
Hans H. Ørberg
O método de latim mais recomendado hoje: 35 capítulos inteiramente em latim, com ilustrações e notas marginais que explicam cada palavra nova pelo contexto, sem tradução. Narra a vida de uma família romana. Livro comercial da Hackett Publishing; aqui, apenas a referência oficial.
Hieronymus Stridonensis (Vulgata)
A Vulgata Clementina completa, do Gênesis ao Apocalipse, livro a livro. Comece por Marcos, Gênesis ou os Salmos: frases curtas, vocabulário repetitivo e um texto que você já conhece em português. A leitura cristã fundamental e, para muitos, a primeira obra longa lida em latim. No LibriVox há, por ora, só o Salmo 22 gravado.
Desiderius Erasmus Roterodamus
Os Colóquios de Erasmo, diálogos vivos e humorísticos sobre a vida cotidiana do século XVI, na edição escolar de 1892 com breves explicações. Latim humanista fluente; cada diálogo é autocontido. Boa continuação para os Colloquia do método Ørberg.
J. H. Allen e J. B. Greenough
A gramática de referência clássica em inglês (1903), em hipertexto com os parágrafos numerados tradicionais: pronúncia, morfologia, sintaxe, prosódia. Os comentários do DCC remetem a ela em cada nota. Para consultar, não para decorar.