O pronome quī, quae, quod e as orações que ele introduz: a declinação, a regra de ouro da concordância (gênero e número do antecedente, caso da própria oração), a pessoa do verbo, o antecedente omitido (quī = "quem, aquele que"), o par is … quī, a oração relativa que vem antes da principal, e o relativo de ligação no começo da frase (quī = et is). Um versículo de Mateus analisado palavra a palavra.
Neste capítulo você vai
Declinar quī, quae, quod e reconhecer suas formas ambíguas (quī, quae, quibus).
Aplicar a regra de concordância: gênero e número do antecedente, caso da função que o relativo exerce na sua própria oração; e a pessoa do verbo da relativa.
Delimitar uma oração relativa dentro da frase e traduzi-la por "que, o qual, quem, cujo".
Ler orações relativas sem antecedente expresso (quī = "quem, aquele que"), com is … quī e antepostas à principal.
Reconhecer e traduzir o relativo de ligação no início de frase (quī = "e ele, este").
pronome relativoquī, quae, quodoração relativaantecedenteconcordância do relativocaso do relativopessoa do verbo na relativacuius e o português cujoquōcum, quibuscumantecedente omitidois … quī, id quodrelativa antes da principalrelativo de ligaçãoanálise de frase autêntica
Antes deste capítulo: Capítulo 15: os demonstrativos, sobretudo is, ea, id, que é o antecedente típico do relativo, e a declinação pronominal (genitivo e dativo em -ius, -ī). Capítulo 10: os adjetivos de segunda classe (omnis, fortis), usados em alguns exemplos. Os capítulos 6 e 9 dão os verbos e os nomes da terceira declinação dos exercícios. · capítulo 15 · capítulo 10 · capítulo 14
Compare duas frases simples: Puer librum legit, "o menino lê um livro", e Puer fīlius meus est, "o menino é meu filho". O mesmo menino aparece nas duas. O português as junta numa só com a palavra "que": "o menino que lê um livro é meu filho". Esse "que" faz duas coisas ao mesmo tempo: liga uma oração à outra e representa, dentro da segunda, o nome que já apareceu na primeira. É um pronome relativo, e o nome que ele representa chama-se antecedente. O latim faz exatamente o mesmo:
Puer quī librum legit fīlius meus est.
O menino que lê o livro é meu filho. (quī representa puer e é o sujeito de legit)
Liber quem puer legit meus est.
O livro que o menino lê é meu. (quem representa liber e é o objeto de legit)
O antecedente fica na oração principal; o relativo abre uma oração relativa, que funciona como um grande adjetivo do antecedente: "o menino que lê o livro" equivale a "o menino leitor". Daí o nome técnico que as gramáticas também usam, oração adjetiva. Ravizza (n. 71) resume a definição em uma linha: o relativo "serve para unir duas proposições, representando na segunda um nome ou pronome expresso na primeira".
A diferença entre as duas línguas está no que vem a seguir. O "que" português é invariável: serve a sujeito, objeto, masculino, feminino, singular e plural ("o menino que lê", "o livro que leio", "as meninas que cantam"). O relativo latino se declina, como um adjetivo de três gêneros, e por isso carrega em cada forma três informações: o gênero, o número e o caso. Ler bem uma oração relativa é saber o que cada uma dessas três informações diz.
Como achar a oração relativa. Ela começa no relativo e, em regra, termina no seu próprio verbo. Ao ler, ponha mentalmente a oração entre colchetes: Puer [quī librum legit] fīlius meus est. Fora dos colchetes sobra a oração principal inteira, Puer … fīlius meus est, que se lê como qualquer frase. Dentro dos colchetes, o relativo exerce uma função como qualquer outra palavra.
O relativo tem formas para os três gêneros e os dois números, como bonus, mas segue em parte a declinação pronominal do capítulo 15: o genitivo singular cuius e o dativo cui são iguais nos três gêneros, como huius, huic e eius, eī.
quī, quae, quod, "que, o qual, a qual, quem"
Caso
M. sing.
F. sing.
N. sing.
M. pl.
F. pl.
N. pl.
Nominativo
quī
quae
quod
quī
quae
quae
Genitivo
cuius
cuius
cuius
quōrum
quārum
quōrum
Dativo
cui
cui
cui
quibus
quibus
quibus
Acusativo
quem
quam
quod
quōs
quās
quae
Ablativo
quō
quā
quō
quibus
quibus
quibus
O plural lembra muito a primeira e a segunda declinação (quōrum, quārum, quōs, quās), com o dativo e ablativo quibus, que parece da terceira. No singular, o acusativo masculino quem também tem cara de terceira declinação (rēgem). Cuius e cui se pronunciam com a vogal u e um i que funciona como consoante em cuius (cui-ius) e forma ditongo em cui. O português guarda o genitivo na palavra "cujo", que vem de cuius.
Como em todo pronome, há formas que servem a mais de um caso. Convém tê-las bem presentes, porque a regra de leitura da próxima seção depende de decidir o caso:
As formas ambíguas do relativo
Forma
Possibilidades
Como decidir
quī
nom. sing. m. · nom. pl. m.
o número do verbo da relativa, se quī for sujeito; o número do antecedente
quae
nom. sing. f. · nom. pl. f. · nom. e ac. pl. n.
o gênero e o número do antecedente; a função que falta na relativa
quod
nom. e ac. sing. n.
se a relativa já tem sujeito, é objeto (e cuidado com a conjunção quod, "porque", do capítulo 37)
quibus
dat. ou abl. pl., três gêneros
preposição ao lado → ablativo; "a quem" → dativo
quō, quā
abl. sing.
em geral com preposição: in quō, "no qual"; dē quā, "da qual"
A preposição cum costuma ir depois do relativo, colada a ele, como em mēcum, tēcum (capítulo 14): quōcum, quācum, quibuscum, "com o qual, com a qual, com os quais" (Allen e Greenough § 150 d; Ravizza n. 71). As outras preposições vêm antes: in quō, ad quem, dē quibus.
Esta é a regra que organiza todo o capítulo, e todas as gramáticas a formulam da mesma maneira (Bennett § 250.1; Allen e Greenough § 305; Kennedy § 195): o relativo concorda com o antecedente em gênero e número, mas o seu caso é determinado pela função que ele exerce na sua própria oração. A razão é simples. Gênero e número dizem a quem o relativo se refere, e por isso vêm do antecedente; o caso diz o que o relativo faz, e o que ele faz acontece dentro da relativa, não na principal.
Veja o mesmo antecedente, puella (feminino singular), com o relativo em cinco casos. O gênero e o número não mudam nunca; o caso muda conforme a função dentro dos colchetes:
Um antecedente, cinco casos do relativo
Frase
Função do relativo na sua oração
Caso
Tradução
Puella [quae cantat] fīlia mea est.
sujeito de cantat
nominativo
A menina que canta é minha filha.
Puella [cuius patrem vidēs] fīlia mea est.
possuidor de patrem
genitivo
A menina cujo pai você vê é minha filha.
Puella [cui rosam dō] fīlia mea est.
a quem se dá
dativo
A menina a quem dou a rosa é minha filha.
Puella [quam laudās] fīlia mea est.
objeto de laudās
acusativo
A menina que você elogia é minha filha.
Puella [quācum ambulō] fīlia mea est.
companhia (cum + abl.)
ablativo
A menina com quem passeio é minha filha.
Kennedy (§§ 330–331) propõe uma imagem útil: o relativo está "entre dois casos do mesmo nome" e concorda com o segundo. Em vir quem vidēs rēx est, "o homem que você vê é rei", é como se se dissesse vir, quem virum vidēs, rēx est: o primeiro vir está no caso da principal (nominativo, sujeito de est), o segundo virum, que não se diz, estaria no caso da relativa (acusativo, objeto de vidēs), e o relativo toma esse segundo caso. Às vezes os autores escrevem mesmo os dois nomes (Bennett § 251.3: erant itinera duo, quibus itineribus), e você verá na seção 4 o caso em que o nome aparece só dentro da relativa.
Na prática, faça sempre três perguntas ao encontrar um relativo: (1) qual o gênero e o número? Isso aponta o antecedente, em geral o nome mais próximo antes do relativo com o mesmo gênero e número. (2) Qual o caso? Isso diz a função dentro da relativa. (3) Onde termina a relativa? Normalmente no seu verbo. O exemplo a seguir mostra por que a primeira pergunta importa:
Fīlia agricolae [quem vidēs] mea est = A filha do agricultor que você vê é minha. Quem é masculino: retoma agricolae, não fīlia; você vê o agricultor.
Em português, "a filha do agricultor que você vê" é ambíguo: quem você vê, a filha ou o agricultor? Em latim não há ambiguidade. Agricola é masculino (nome de homem, apesar da primeira declinação), e quem é masculino; se o relativo se referisse à filha, seria quam. O caso, acusativo, vem de vidēs e nada tem a ver com o genitivo agricolae.
O relativo concorda também em pessoa (Bennett § 250.1; Kennedy § 195): se o antecedente é "eu" ou "você", o verbo da relativa vai para a primeira ou a segunda pessoa, como em português culto. Kennedy dá o exemplo Amō tē, māter, quae mē amās, "amo-te, mãe, que me amas"; e a oração que milhões de pessoas rezam em latim começa assim:
Pater noster, quī es in caelīs …
Pai nosso, que estás nos céus … (Mt 6,9; quī: nom. sing. m., concorda com Pater; es, 2ª pessoa, porque o antecedente é a pessoa a quem se fala)
Até aqui o antecedente estava sempre escrito, logo antes do relativo. Nos textos, três outras situações são frequentes, e todas se resolvem com a mesma regra.
1. Antecedente omitido
Quando o antecedente é uma pessoa qualquer, indefinida, o latim muitas vezes não o escreve (Bennett § 251.1; Allen e Greenough § 307 c). Quī sozinho significa então "quem, aquele que"; quae neutro plural, "as coisas que, o que". É o mesmo "quem" do português "quem espera sempre alcança". O gênero e o número do relativo dizem que tipo de antecedente se subentende: masculino, uma pessoa; neutro, uma coisa.
Quī bene labōrat, bene vīvit.
Quem trabalha bem vive bem. (antecedente subentendido: "aquele"; bene, bem)
Quī nātūram sequitur sapiēns est.
Quem segue a natureza é sábio. (Bennett § 251.1; sequitur, segue)
Omnis quī est ex vēritāte, audit vōcem meam.
Todo aquele que é da verdade ouve a minha voz. (Jo 18,37; aqui o antecedente é o adjetivo substantivado omnis, "todo aquele")
2. Is … quī: o antecedente demonstrativo
Quando é preciso dar ao antecedente um caso na principal, o latim o explicita com o demonstrativo fraco do capítulo 15: is quī, "aquele que"; ea quae, "aquela que" ou "as coisas que"; id quod, "aquilo que, o que" (Bennett § 247.1). Cada um dos dois pronomes tem o seu caso, o da sua oração; só o gênero e o número coincidem.
Laudō eum quī labōrat.
Elogio aquele que trabalha. (eum: objeto de laudō; quī: sujeito de labōrat)
Id quod dīcis vērum est.
O que você diz é verdade. (id: sujeito de est; quod: objeto de dīcis; vērus, verdadeiro)
Nōn amō eōs quī semper rīdent.
Não gosto dos que estão sempre rindo. (semper, sempre; rīdent, riem)
3. A relativa antes da principal
Em latim cuidado e enfático, a oração relativa vem muitas vezes antes da principal, e a principal retoma o antecedente com um demonstrativo, quase sempre is ou hīc (Allen e Greenough §§ 307 b e 308 d; Bennett § 251.4). Às vezes o próprio nome antecedente fica dentro da relativa. A ordem portuguesa natural é inverter: começar pela principal.
… quae audīvī ab eō, haec loquor in mundō.
… o que ouvi dele, isto falo ao mundo. (Jo 8,26; audīvī, perfeito de audiō, capítulo 13; loquor, falo, verbo depoente, capítulo 25)
Quem librum legis, eum ego quoque legō.
Leio também o livro que você lê. (o nome librum está dentro da relativa; quoque, também)
Repare que em nenhuma dessas construções o relativo desaparece. O inglês às vezes o dispensa (the book you gave me); o português e o latim, nunca: "o livro que você me deu", liber quem mihi dedistī (Bennett § 251.5; Allen e Greenough § 308 a).
Uma das construções mais características da prosa latina, e uma das que mais confundem quem começa a ler textos autênticos, é o relativo no início de uma frase, depois de ponto ou de ponto e vírgula, retomando algo da frase anterior. Ele não introduz uma oração subordinada: liga duas frases independentes, e equivale a um demonstrativo com "e" ou "mas" (Bennett § 251.6; Allen e Greenough §§ 303 e 308 f). Quī vale et is, "e ele"; quem vale et eum, "e o"; quod vale et id, "e isso".
Magister puerīs fābulam nārrat. Quam puerī libenter audiunt.
O mestre conta uma história aos meninos. E os meninos a ouvem com gosto. (quam = et eam; libenter, com gosto)
Rēx epistulam scrībit. Quam mīles ad ducem portat.
O rei escreve uma carta. O soldado a leva ao general. (portat, leva)
Quō factum est …
Por isso aconteceu … (expressão citada por Bennett § 251.6; quō = "por isto", ablativo)
Traduzir esses relativos por "que" ou "o qual" produz um português pesado e, às vezes, sem sentido. A tradução natural usa um pronome pessoal ou demonstrativo, com ou sem "e": "e ele", "este", "isso". Para reconhecê-los, basta notar que não há, na mesma frase, uma oração principal a que a relativa se prenda: o antecedente ficou na frase anterior. A regra de concordância continua valendo: quam é feminino singular porque retoma fābulam ou epistulam, e acusativo porque é o objeto de audiunt ou portat.
No capítulo 17 você vai ler um diálogo do Gênesis em que Caim responde a uma pergunta de Deus; a resposta começa por Quī respondit, "e ele respondeu", com um relativo de ligação. Cícero e César usam a construção com muita frequência, muitas vezes em fórmulas como quae cum ita sint, "e, sendo assim" (Allen e Greenough § 303), que você poderá analisar inteiras depois do capítulo 34.
No discurso de missão aos doze apóstolos, no Evangelho de Mateus, há um versículo que é quase um exercício sobre o relativo: três orações relativas, duas com antecedente omitido e uma com is … quī:
Quī recipit vōs, mē recipit: et quī mē recipit, recipit eum quī mē mīsit.
Quem vos recebe, a mim recebe; e quem me recebe, recebe aquele que me enviou. (Mt 10,40, Vulgata Clementina)
sujeito de recipit na relativa; a relativa inteira é sujeito da principal
recipit
recipiō, -ere, receber (3ª em -iō, como capiō)
3ª pessoa do singular do presente
verbo da primeira relativa
vōs
vōs, vós, vocês
acusativo plural
objeto de recipit
mē
ego, eu
acusativo singular
objeto do segundo recipit, posto em destaque antes do verbo
recipit
recipiō, -ere
3ª pessoa do singular do presente
verbo da principal
et quī mē recipit
(as mesmas palavras)
relativa com antecedente omitido, como a primeira
sujeito do recipit seguinte
recipit
recipiō, -ere
3ª pessoa do singular do presente
verbo da segunda principal
eum
is, ea, id, ele, aquele
acusativo singular masculino
objeto de recipit; antecedente do último quī
quī
quī, quae, quod
nominativo singular masculino
concorda com eum em gênero e número; nominativo porque é o sujeito de mīsit
mē
ego
acusativo singular
objeto de mīsit
mīsit
mittō, -ere, mīsī, missum, enviar
3ª pessoa do singular do perfeito (capítulo 13)
verbo da última relativa: "enviou"
O versículo mostra as três coisas mais importantes deste capítulo. Primeiro, o antecedente omitido: os dois primeiros quī não têm antecedente escrito; são "quem", e cada relativa inteira funciona como sujeito do verbo seguinte. Segundo, o par eum quī: o demonstrativo está no acusativo, porque é objeto de recipit, e o relativo no nominativo, porque é sujeito de mīsit; os dois são masculinos e singulares, porque se referem à mesma pessoa. É a regra de ouro em estado puro: gênero e número em comum, casos independentes. Terceiro, os colchetes: [Quī recipit vōs], mē recipit: et [quī mē recipit], recipit eum [quī mē mīsit]. Fora dos colchetes sobram duas frases curtíssimas, "recebe a mim" e "recebe aquele".
A tradução portuguesa pode seguir o latim de perto, porque o português tem o mesmo "quem" sem antecedente. Repare também na ordem: mē recipit, com o objeto antes do verbo, põe em destaque o "a mim", em contraste com o vōs da relativa; a tradução "a mim recebe" conserva o efeito.
Resumo
Quī, quae, quod: genitivo cuius e dativo cui nos três gêneros; plural quī, quae, quae; quōrum, quārum, quōrum; quibus; quōs, quās, quae; quibus. Com cum: quōcum, quācum, quibuscum.
Regra de ouro: gênero e número do antecedente (e a pessoa, para o verbo); caso da função dentro da relativa.
Delimite a relativa do relativo até o seu verbo; o que sobra é a principal.
Antecedente omitido: quī = "quem"; quae (n. pl.) = "o que". Antecedente demonstrativo: is quī, id quod. Relativa anteposta: quae …, haec ….
Relativo no início da frase, sem principal a que se prender: relativo de ligação, quī = et is; traduza por "e ele", "este".
O capítulo 17 apresenta os parentes próximos do relativo: o interrogativo quis? quid? e o adjetivo interrogativo quī? quae? quod?, que tem exatamente as mesmas formas que você acabou de aprender, e os indefinidos.
Erro: Pôr o relativo no caso do antecedente: *Puella quae laudās para "a menina que você elogia".
Por quê, e como evitar: O caso vem da função dentro da relativa. A menina é objeto de laudās: puella quam laudās. Do antecedente o relativo copia só o gênero e o número. Pergunte: o que o relativo faz no seu próprio verbo?
Erro: Ler quae sempre como feminino singular.
Por quê, e como evitar:Quae pode ser nominativo singular feminino, nominativo plural feminino ou nominativo e acusativo plural neutro. Em verba quae dīcis, é neutro plural (concorda com verba) e acusativo (objeto de dīcis). O antecedente decide o gênero e o número; a relativa, o caso.
Erro: Fazer cuius concordar com a coisa possuída, como o "cujo" português: *puella cuiam rosam.
Por quê, e como evitar:Cuius é genitivo do relativo e não varia com a coisa possuída. Varia com o antecedente: puer cuius, puella cuius (singular); puerī quōrum, puellae quārum (plural). "A menina cujas rosas você vê" = puella cuius rosās vidēs.
Erro: Ligar o relativo ao nome mais próximo sem conferir gênero e número.
Por quê, e como evitar: O antecedente costuma vir perto, mas não necessariamente imediatamente antes. Em fīlia agricolae quem vidēs, quem (m.) retoma agricolae (m.); em fīlia agricolae quam vidēs, quam (f.) retoma fīlia. É justamente o que o latim permite distinguir e o português não.
Erro: Traduzir o relativo de ligação por "que" ou "o qual": Quam puerī audiunt → *"a qual os meninos ouvem."
Por quê, e como evitar: No início de frase, sem oração principal a que se prender, o relativo equivale a et is: "e os meninos a ouvem", "os meninos ouvem-na". Traduza por pronome pessoal ou demonstrativo, com ou sem "e".
Erro: Confundir o relativo quod com a conjunção quod, "porque, o fato de que".
Por quê, e como evitar: O relativo quod é neutro singular e tem antecedente (expresso, como id ou templum, ou subentendido, "o que") e uma função na sua oração. A conjunção não tem antecedente nem função: a oração que ela introduz já está completa. A conjunção é tratada no capítulo 37; por ora, se não achar antecedente neutro nem função para quod, desconfie de que seja ela.
Resolvida passo a passo: leia a pergunta, tente responder e só então abra cada passo.
Prática guiada 1 · Cuius e os colchetes
Analise e traduza: Mīles cuius gladium vidēs frāter meus est. Vocabulário: gladius, -ī (m.), espada; frāter, frātris (m.), irmão.
Onde começa e onde termina a relativa?Ver o passo
Começa em cuius e termina no seu verbo, vidēs: Mīles [cuius gladium vidēs] frāter meus est.
Leia a principal, fora dos colchetes.Ver o passo
Mīles … frāter meus est: "o soldado é meu irmão".
Qual o antecedente de cuius, e como você sabe?Ver o passo
Cuius é genitivo singular, de qualquer gênero; o antecedente é um nome singular antes dele: mīles. É o único possível.
Que função cuius exerce na relativa?Ver o passo
Possuidor de gladium: "a espada do qual", "cuja espada". Gladium é o objeto de vidēs.
Monte a tradução.Ver o passo
"O soldado cuja espada você vê é meu irmão."
Prática guiada 2 · Um relativo no começo da frase
Traduza o par de frases: Pater fīliō librum dat. Quem fīlius statim legit. Vocabulário: statim, imediatamente.
A segunda frase tem uma oração principal a que quem se prenda?Ver o passo
Não: quem fīlius statim legit é tudo o que há. O relativo está no início da frase, depois de ponto: é um relativo de ligação.
A que se refere quem?Ver o passo
A um nome masculino singular da frase anterior: librum (também fīliō é masculino singular, mas fīlius é o sujeito de legit, e ninguém lê a si mesmo). E é acusativo porque é o objeto de legit.
Como traduzir quem?Ver o passo
Como et eum: "e o filho o lê imediatamente", ou "o filho lê-o logo".
Monte a tradução das duas frases.Ver o passo
"O pai dá um livro ao filho. E o filho o lê imediatamente."
Conclusão: relativo no começo da frase, sem principal ao lado, retoma algo da frase anterior; traduza-o por pronome pessoal ou demonstrativo.
Escreva a forma certa de quī, quae, quod e explique o gênero, o número e o caso. Vocabulário: habitō, -āre, morar; dīcit, diz.
Puer ___ vidēs fīlius meus est.Ver resposta
quem: masculino singular (de puer); acusativo, objeto de vidēs.
Puella ___ librum dō laeta est.Ver resposta
cui: feminino singular (de puella); dativo, a quem dou o livro.
Mīlitēs ___ dux laudat fortēs sunt.Ver resposta
quōs: masculino plural; acusativo, objeto de laudat (o sujeito da relativa é dux).
Templum ___ vidēmus antīquum est.Ver resposta
quod: neutro singular; acusativo, objeto de vidēmus.
Fēminae ___ fīliī labōrant in oppidō habitant.Ver resposta
quārum: feminino plural (de fēminae); genitivo, possuidoras de fīliī: "as mulheres cujos filhos trabalham".
Verba ___ magister dīcit vēra sunt.Ver resposta
quae: neutro plural; acusativo, objeto de dīcit.
Oppidum in ___ habitāmus parvum est.Ver resposta
quō: neutro singular; ablativo com in, lugar onde: "a cidade em que moramos".
Amīcus ___ ambulō Mārcus est. ("com quem passeio")Ver resposta
quōcum: masculino singular; ablativo de companhia, com cum posposto.
Exercício 3 · Junte as duas frases
Transforme a segunda frase numa oração relativa ligada à primeira, como no modelo do início do capítulo, e traduza.
Puella rosās amat. Puella in hortō est. (relativa a partir da primeira)Ver resposta
Puella quae rosās amat in hortō est. "A menina que ama as rosas está no jardim." Quae: f. sing., nominativo (sujeito de amat).
Magistrum laudāmus. Magister puerōs docet.Ver resposta
Magistrum quī puerōs docet laudāmus. "Elogiamos o mestre que ensina os meninos." O antecedente está no acusativo, mas quī fica no nominativo: é sujeito de docet.
Agricola equum habet. Fīlius agricolae equum amat.Ver resposta
Agricola equum habet quem fīlius eius amat. "O agricultor tem um cavalo que o filho dele ama." Quem: m. sing., acusativo.
Mīles fortis est. Rēx mīlitī dōnum dat.Ver resposta
Mīles cui rēx dōnum dat fortis est. "O soldado a quem o rei dá um presente é corajoso." Cui: dativo.
Poēta carmina scrībit. Nōmen poētae clārum est.Ver resposta
Poēta cuius nōmen clārum est carmina scrībit. "O poeta cujo nome é famoso escreve poemas." Cuius: genitivo, masculino porque o poeta é homem.
Exercício 4 · Traduza
Delimite as relativas com colchetes antes de traduzir. Vocabulário: bene, bem; vērus, -a, -um, verdadeiro; dīcis, dizes; rīdent, riem; semper, sempre.
Quī bene labōrat, bene vīvit.Ver resposta
[Quī bene labōrat], bene vīvit: "Quem trabalha bem vive bem." Antecedente omitido.
Id quod dīcis vērum est.Ver resposta
Id [quod dīcis] vērum est: "O que você diz é verdade." Id é sujeito de est; quod, objeto de dīcis.
Nōn amō eōs quī semper rīdent.Ver resposta
Nōn amō eōs [quī semper rīdent]: "Não gosto daqueles que estão sempre rindo." Eōs é acusativo; quī, nominativo plural.
Ego, quī tē amō, tibi librum dō.Ver resposta
Ego, [quī tē amō], tibi librum dō: "Eu, que te amo, te dou um livro." O verbo da relativa está na 1ª pessoa (amō) porque o antecedente é ego.
Vōs, quī in agrīs labōrātis, fortēs estis.Ver resposta
Vōs, [quī in agrīs labōrātis], fortēs estis: "Vós, que trabalhais nos campos, sois fortes." Quī é plural, e o verbo vai para a 2ª pessoa do plural.
Quem librum legis, eum ego quoque legō. (quoque, também)Ver resposta
[Quem librum legis], eum ego quoque legō: "O livro que você lê eu também leio." A relativa vem antes, com o nome dentro dela; eum o retoma na principal.
Exercício 5 · Relativo de ligação
Traduza cada par de frases com um pronome pessoal ou demonstrativo no lugar do relativo inicial. Vocabulário: salūtō, -āre, cumprimentar; in viā, na rua; gaudet, alegra-se (com ablativo).
Puerī in viā magistrum vident. Quem statim salūtant.Ver resposta
"Os meninos veem o mestre na rua. E logo o cumprimentam." Quem = et eum: m. sing. (de magistrum), acusativo (objeto de salūtant).
Pater fīliō librum dat. Quō librō fīlius gaudet.Ver resposta
"O pai dá um livro ao filho. O filho se alegra com esse livro." Quō librō: o nome é repetido junto do relativo (Bennett § 251.3); ablativo, pedido por gaudet.
Rēgīna epistulam scrībit. Quam mīles ad ducem portat. (rēgīna, -ae, rainha; portat, leva)Ver resposta
"A rainha escreve uma carta. O soldado a leva ao general." Quam: f. sing. (de epistulam), acusativo.
Exercício 6 · Leitura de dois versículos
Jo 18,37 e 8,26, Vulgata Clementina (macrons acrescentados): (a) Omnis quī est ex vēritāte, audit vōcem meam. (b) … quae audīvī ab eō, haec loquor in mundō. Vocabulário: omnis, todo (capítulo 10); vēritās, -ātis (f.), verdade; ex + abl., de; audīvī, ouvi (perfeito); ab eō, dele, da parte dele; loquor, falo; mundus, -ī, mundo.
Em (a), qual o antecedente de quī, e qual a sua função?Ver resposta
O antecedente é omnis, usado como substantivo ("todo aquele"), masculino singular. Quī é nominativo porque é o sujeito de est, dentro da relativa.
Em (a), qual é o verbo da principal, e qual o seu sujeito?Ver resposta
Audit; o sujeito é omnis (com a relativa que o acompanha). Vōcem meam é o objeto.
Em (b), por que quae é neutro plural, se não há antecedente antes dele?Ver resposta
Porque a relativa vem antes da principal e o antecedente aparece depois, em haec (neutro plural, "estas coisas"). O neutro plural sem nome designa coisas: "as coisas que ouvi". Quae é acusativo, objeto de audīvī.
Traduza as duas frases.Ver resposta
(a) "Todo aquele que é da verdade ouve a minha voz." (b) "O que ouvi dele, isto falo ao mundo." Ou, na ordem portuguesa: "Falo ao mundo o que ouvi dele."
Leituras recomendadas
O Epitome Historiae Sacrae, de Lhomond, e A First Latin Reader, de Nutting, contam histórias em frases curtas, com muitos relativos de ligação no começo das frases: leia algumas páginas pondo cada relativa entre colchetes. Na Vulgata, leia Mt 10,37–42, em que quase todo versículo começa por quī, e o capítulo 18 de João. Familia Romana e Latin for Beginners, de D'Ooge, praticam a regra de concordância de forma graduada. Bennett (§§ 250–251) é a referência para consultar os casos particulares.
Etapa III · FundamentaDificuldade 2 · BásicoDidáticoCom notas
Epitome historiae sacrae
Charles François Lhomond
A história sagrada (da Criação ao retorno do Exílio) reescrita por Lhomond (1784) em latim simplíssimo, em centenas de parágrafos curtos de dificuldade crescente. Durante dois séculos foi o primeiro livro contínuo de todo estudante de latim; continua sendo a melhor ponte entre o método e os textos reais. Edição de 1856.
Etapa VI · Latinitas ChristianaDificuldade 2 · BásicoOriginal Áudio
Biblia Sacra Vulgata (editio Clementina)
Hieronymus Stridonensis (Vulgata)
A Vulgata Clementina completa, do Gênesis ao Apocalipse, livro a livro. Comece por Marcos, Gênesis ou os Salmos: frases curtas, vocabulário repetitivo e um texto que você já conhece em português. A leitura cristã fundamental e, para muitos, a primeira obra longa lida em latim. No LibriVox há, por ora, só o Salmo 22 gravado.
Escritura (Vulgata) · Tardio e patrístico · anos, um capítulo por dia · Vicifons (Latin Wikisource)
Etapa I · Prima VerbaDificuldade 1 · ElementarDidáticoComercial
Lingua Latina per se Illustrata, Pars I: Familia Romana
Hans H. Ørberg
O método de latim mais recomendado hoje: 35 capítulos inteiramente em latim, com ilustrações e notas marginais que explicam cada palavra nova pelo contexto, sem tradução. Narra a vida de uma família romana. Livro comercial da Hackett Publishing; aqui, apenas a referência oficial.
Método · Moderno (material didático) · alguns meses · Hackett Publishing
Etapa I · Prima VerbaDificuldade 1 · ElementarDidático ÁudioCom notas
Latin for Beginners
Benjamin L. D'Ooge
Curso completo de primeiro ano (1911), em inglês: 79 lições curtas com explicação, frases para traduzir, pequenas narrativas e vocabulário, com macrons. Gratuito e de domínio público, é a melhor alternativa aberta ao método Ørberg para quem lê inglês. As três primeiras lições têm gravação no LibriVox (coleção de aprendizado de línguas, vol. 4).
Método · Moderno (material didático) · alguns meses · Project Gutenberg
Gramática de referência compacta (1918), em inglês, com macrons: sons, flexões, sintaxe, prosódia. Mais curta e mais fácil de consultar que Allen & Greenough; cabe num leitor de EPUB.
Bibliotheca Latina. Conteúdo original com trechos de obras em domínio público; licença CC BY 4.0.
Fontes consultadas
New Latin Grammar, Charles E. Bennett (no catálogo) · domínio público · § 89 e nota 27 (declinação de quī, quae, quod; quīcum), § 247.1 (is como antecedente do relativo; id quod), § 250 (concordância: gênero, número e pessoa do antecedente, caso da própria oração; 250.3 concordância com o predicativo; 250.5 atração), § 251 (251.1 antecedente omitido: quī nātūram sequitur sapiēns est; 251.3 antecedente repetido; 251.4 antecedente incorporado na relativa que vem antes; 251.5 o relativo nunca se omite; 251.6 relativo no início da frase, onde o português usa demonstrativo)
Allen and Greenough's New Latin Grammar, J. H. Allen e J. B. Greenough (no catálogo) · domínio público · § 147 (declinação), § 150 d (cum enclítico: quōcum, quibuscum), §§ 303–304 (o relativo como pronome e como conectivo; quae cum ita sint = et cum ea ita sint), § 305 (concordância em gênero e número, caso pela própria oração), § 306 (concordância com o predicativo; atração), § 307 (antecedente repetido, só na relativa, omitido; id quod), § 308 a, d, f (o relativo nunca se omite; a relativa antes da principal; o relativo de ligação)
Kennedy's Revised Latin Primer, Benjamin Hall Kennedy (no catálogo) · domínio público · § 97 (declinação, pelo índice do OCR), § 195 (concordância em gênero, número e pessoa; caso pela própria oração: Amō tē, māter, quae mē amās), §§ 330–331 (o relativo "entre dois casos do mesmo nome": vir quem virum vidēs rēx est e as quatro variantes)
Gramática Latina, Pe. João Ravizza (no catálogo) · domínio público · n. 71 (o relativo une duas proposições e representa na segunda um nome da primeira; declinação com tradução portuguesa: cujus "do qual, cujo"; quōcum, quācum, quibuscum)