Leitura comentada de uma fábula autêntica de Fedro, O lobo e o cordeiro (Fábulas 1.1): quem foi Fedro e o que é a fábula esópica, o texto latino com vocabulário e notas, o verso (o senário iâmbico, só como noção) e a ordem das palavras na poesia, a passiva do perfectum e os particípios em ação, a moral no fim da fábula (epimítio) e a tradução.
Neste capítulo você vai
Situar Fedro e a fábula esópica e reconhecer a moral explícita no início (promítio) ou no fim (epimítio) de uma fábula.
Ler o texto latino de Lupus et agnus (Fábulas 1.1) com o vocabulário e as notas, entendendo o enredo e o diálogo.
Desfazer a ordem poética das palavras (hipérbato, elipse do verbo) e reconstruir a ordem da prosa.
Identificar e traduzir no texto as formas da passiva do perfectum e os particípios perfeitos, dizendo com que palavra cada um concorda.
Produzir uma tradução própria, fiel à função das palavras, e justificar as escolhas.
Fedrofábula esópicaEsopoLupus et agnuspromítio e epimítiomoral da fábulasenário iâmbico (noção)ordem das palavras no versohipérbatoelipse do verbopassiva do perfectum em textoparticípio perfeito em textopresente históricodiscurso direto com inquit e aitdativo de referênciaablativo de causaleitura comentada
Antes deste capítulo: Capítulo 24: a passiva do perfectum (scrīpta est, "foi escrita"), que é a construção central desta leitura, e, por meio dela, os capítulos de morfologia nominal e verbal das partes I e II. Os particípios (capítulo 29), os depoentes (capítulo 25) e a métrica (capítulo 40) ajudam, mas tudo o que vem deles está explicado ou glosado aqui. · capítulo 24
Até aqui, quase todo o latim que você leu foi escrito para o livro ou retirado de frases isoladas. A partir deste capítulo começa a parte IV, Auctōrēs: a leitura de textos inteiros, como os romanos os escreveram. O primeiro autor é Fedro (Phaedrus), e a escolha não é casual. Suas fábulas são curtas, contam uma história com começo, meio e fim, têm diálogos vivos e uma moral explícita, e o vocabulário é concreto: animais, água, comida, medo. É o tipo de texto em que o leitor iniciante pode se apoiar no enredo para resolver a gramática.
Fedro viveu no início do Império, aproximadamente entre o reinado de Augusto e o de Cláudio (primeira metade do século I d.C.). Os manuscritos o chamam de Augustī lībertus, "liberto de Augusto": foi escravo na casa do imperador e recebeu a liberdade. Ele mesmo diz ter nascido na Piéria, região do norte da Grécia (prólogo do livro III, v. 17), e quase tudo o que se sabe da sua vida vem dos prólogos e epílogos que ele mesmo escreveu. A obra, em cinco livros, chegou até nós incompleta. Fedro não inventou as histórias: retomou a tradição grega das fábulas atribuídas a Esopo (Aesōpus), figura semilendária do século VI a.C., e lhes deu forma em versos latinos. É o que ele declara nos dois primeiros versos do prólogo do livro I:
Aesōpus auctor quam māteriam repperit, hanc ego polīvī versibus sēnāriīs.
O assunto que Esopo, o criador, encontrou, eu o poli em versos senários. (Fábulas 1, prólogo, 1–2)
Repare na construção do primeiro verso, que é típica do latim e que você vai rever em César e em Cícero: a oração relativa vem antes, e o substantivo a que ela se refere está dentro dela (quam māteriam … repperit, "o assunto que … encontrou"); a oração principal retoma esse substantivo com um demonstrativo (hanc, "este", isto é, "este assunto"). Ao traduzir, o português prefere pôr o substantivo fora: "o assunto que Esopo encontrou, eu o poli". A gramática de Bennett descreve esse padrão no § 251.4.a.
Toda fábula esópica tem duas camadas: uma narrativa (os animais falam e agem como pessoas) e uma moral, a lição que a narrativa ilustra. Na tradição antiga, a moral podia vir declarada antes da história ou depois dela. A que vem antes chama-se promítio (do grego promȳthion, "o que se diz antes da fábula"); a que vem depois, epimítio ("o que se diz depois"). Fedro usa os dois. Compare o primeiro verso da fábula 1.4 (o cão que atravessa o rio com um pedaço de carne e larga a carne para pegar o reflexo dela) com os dois últimos versos da fábula que você vai ler:
A moral antes e depois da fábula
Posição
Texto
Tradução
Promítio (antes da história): Fábulas 1.4.1
Āmittit meritō proprium quī aliēnum adpetit.
Perde com justiça o que é seu quem cobiça o alheio.
Epimítio (depois da história): Fábulas 1.1.14–15
Haec propter illōs scrīpta est hominēs fābula / quī fictīs causīs innocentēs opprimunt.
Esta fábula foi escrita por causa daqueles homens que oprimem os inocentes com pretextos inventados.
No promítio de I, 4, adpetit é a grafia da edição para appetit (de appetō, "procurar alcançar, cobiçar"): o prefixo ad- às vezes aparece sem assimilação. E a oração quī aliēnum adpetit não tem antecedente expresso: "(aquele) que cobiça". O sujeito de āmittit é a própria relativa. Esse uso do relativo sem antecedente, que você conheceu no capítulo 16, é o modo latino de formular uma regra geral.
O texto abaixo é o da edição de Lucian Mueller (Leipzig: Teubner, 1876), conferido no Perseus, que reproduz essa edição, e na The Latin Library, que traz as mesmas palavras. As únicas intervenções deste livro são os macrons (que nenhum manuscrito antigo tem), as aspas que marcam as falas, a numeração dos versos e alguns sinais de pontuação (Mueller põe ponto e vírgula depois de compulsī e ponto final depois de intulit e do v. 12; as palavras são as dele). São quinze versos: leia-os primeiro em voz alta, do começo ao fim, sem tentar traduzir, só para ouvir o ritmo e notar onde estão as falas (inquit, ait, "diz ele", aparecem sempre depois das primeiras palavras da fala).
Fedro, Fábulas 1.1: Lupus et agnus
Verso
Texto latino (ed. Mueller, 1876)
1
Ad rīvum eundem lupus et agnus vēnerant,
2
sitī compulsī. Superior stābat lupus,
3
longēque īnferior agnus. Tunc fauce improbā
4
latrō incitātus iūrgiī causam intulit:
5
"Cūr" inquit "turbulentam fēcistī mihi
6
aquam bibentī?" Lāniger contrā timēns:
7
"Quī possum, quaesō, facere quod quereris, lupe?
8
Ā tē dēcurrit ad meōs haustūs liquor."
9
Repulsus ille vēritātis vīribus:
10
"Ante hōs sex mēnsēs male" ait "dīxistī mihi."
11
Respondit agnus: "Equidem nātus nōn eram."
12
"Pater hercle tuus" ille inquit "male dīxit mihi";
13
atque ita correptum lacerat iniūstā nece.
14
Haec propter illōs scrīpta est hominēs fābula
15
quī fictīs causīs innocentēs opprimunt.
A fábula tem uma estrutura clara, e reconhecê-la antes de traduzir ajuda muito. Os versos 1–4 são a situação: dois animais no mesmo riacho, um acima e outro abaixo, e um deles com más intenções. Os versos 5–12 são o diálogo, em três trocas: a acusação do lobo e a defesa do cordeiro (vv. 5–8); a segunda acusação e a segunda defesa (vv. 9–11); a terceira acusação, que já não espera resposta (v. 12). O verso 13 é o desfecho, numa só frase. Os versos 14–15 são a moral, o epimítio.
A estrutura da fábula
Versos
Parte
Quem fala
O que acontece
1–4
situação
narrador
lobo e cordeiro bebem no mesmo riacho; o lobo, mais acima, procura um pretexto
5–6
1ª acusação
lobo
"você turvou a minha água"
6–8
1ª defesa
cordeiro
a água corre de cima, do lobo, para baixo, até o cordeiro
9–10
2ª acusação
lobo
"há seis meses você falou mal de mim"
11
2ª defesa
cordeiro
"eu nem tinha nascido"
12
3ª acusação
lobo
"então foi seu pai"
13
desfecho
narrador
o lobo agarra e despedaça o cordeiro
14–15
moral (epimítio)
narrador
a fábula serve para quem oprime inocentes com pretextos inventados
As falas.Inquit ("diz", "disse") e ait (do verbo defectivo aiō, "dizer") nunca abrem a fala: vêm intercalados depois de uma ou mais palavras dela (Allen e Greenough § 599.c). Por isso "Cūr" inquit "turbulentam fēcistī …" se lê "Por que, disse, você turvou …". Quando você encontrar inquit no meio de uma frase, saiba que a fala começou um pouco antes.
A tabela dá cada palavra na forma em que aparece no texto, a entrada de dicionário e o sentido aqui. As palavras que você já conhece das partes I a III (et, lupus, agnus, aqua, pater, fābula etc.) também estão na tabela, para que ela sirva de glossário completo da fábula.
Vocabulário da fábula
No texto
Dicionário
Sentido aqui
Nota
ad rīvum
rīvus, -ī (m.)
riacho, regato
ad + acusativo: direção
eundem
īdem, eadem, idem
o mesmo
acusativo masc. sing., concorda com rīvum (capítulo 15)
vēnerant
veniō, -īre, vēnī, ventum
tinham chegado
mais-que-perfeito: a chegada é anterior à cena
sitī
sitis, -is (f.)
sede
ablativo em -ī (tema em -i, capítulo 10): causa
compulsī
compellō, -ere, compulī, compulsum
impelir, levar à força
particípio perfeito, nom. pl. masc.: "levados"
superior, īnferior
superior, -ius; īnferior, -ius
mais acima; mais abaixo
comparativos (capítulo 18), usados como predicativos
stābat
stō, stāre, stetī, statum
estar (de pé), ficar
imperfeito: descrição da cena
longē
advérbio
muito, bem (reforça o comparativo)
longē īnferior: "bem mais abaixo"
tunc
advérbio
então
marca a passagem da situação à ação
fauce improbā
faux, faucis (f.); improbus, -a, -um
goela; insaciável, perverso
ablativo de causa: "pela goela insaciável", isto é, pela fome
latrō
latrō, -ōnis (m.)
bandido, salteador
o lobo, chamado pelo que é
incitātus
incitō, -āre, -āvī, -ātum
instigar
particípio perfeito, concorda com latrō
iūrgiī
iūrgium, -ī (n.)
briga, disputa
genitivo: "motivo de briga"
causam intulit
causa, -ae; īnferō, īnferre, intulī, illātum
apresentou um motivo
ferō e compostos: capítulo 26
inquit
inquam (defectivo)
diz, disse
sempre intercalado na fala
turbulentam
turbulentus, -a, -um
turvo, lamacento
predicativo do objeto: "tornaste a água turva"
fēcistī
faciō, -ere, fēcī, factum
fizeste, tornaste
perfeito, 2ª sing.
mihi … bibentī
ego; bibō, -ere, bibī
para mim que estou bebendo
dativo de referência; bibentī é particípio presente (capítulo 29)
lāniger
lāniger, -era, -erum
lanígero, que tem lã
adjetivo usado como nome: "o lanudo", o cordeiro
contrā
advérbio
em resposta, por sua vez
aqui não é preposição
timēns
timeō, -ēre, timuī
temendo, com medo
particípio presente, concorda com lāniger; subentenda "disse"
quī
advérbio interrogativo
como?
forma antiga de ablativo; não é o relativo
possum
possum, posse, potuī
posso
capítulo 26
quaesō
quaesō (defectivo)
por favor, peço
fórmula de cortesia intercalada
quod
quī, quae, quod
aquilo que, o que
relativo sem antecedente: objeto de facere
quereris
queror, querī, questus sum
queixas-te, reclamas
depoente (capítulo 25), presente, 2ª sing.
lupe
lupus, -ī
ó lobo
vocativo
dēcurrit
dēcurrō, -ere, dēcurrī, dēcursum
corre para baixo, desce
presente
haustūs
haustus, -ūs (m.)
o beber; o lugar onde se bebe
4ª declinação, acusativo plural (capítulo 11)
liquor
liquor, -ōris (m.)
líquido, água
sujeito de dēcurrit, no fim do verso
repulsus
repellō, -ere, reppulī, repulsum
repelir, rebater
particípio perfeito, concorda com ille (o lobo)
vēritātis vīribus
vēritās, -ātis (f.); vīs, vīs (f.), pl. vīrēs, vīrium
pela força da verdade
vīribus: ablativo de meio (de vīrēs)
ante hōs sex mēnsēs
ante + ac.; hīc, haec, hōc; mēnsis, -is (m.)
há seis meses
literalmente "antes destes seis meses"
male … dīxistī mihi
male dīcō + dativo
falaste mal de mim
daí maldizer; o dativo indica de quem se fala mal
ait
aiō (defectivo)
diz, disse
intercalado como inquit
equidem
advérbio
mas eu, de minha parte
reforça a 1ª pessoa
nātus nōn eram
nāscor, nāscī, nātus sum
eu não tinha nascido
depoente: mais-que-perfeito com forma passiva e sentido ativo
aqui separada do seu nome: propter illōs … hominēs
scrīpta est
scrībō, -ere, scrīpsī, scrīptum
foi escrita
passiva do perfectum (capítulo 24), concorda com fābula
fictīs causīs
fingō, -ere, fīnxī, fictum
com pretextos inventados
particípio perfeito como adjetivo; ablativo de meio
innocentēs
innocēns, -entis
inocentes
adjetivo usado como nome; acusativo plural
opprimunt
opprimō, -ere, oppressī, oppressum
oprimem, esmagam
presente de verdade geral
Notas aos versos
vv. 1–2. O mais-que-perfeito vēnerant põe a chegada antes do momento em que a cena começa: quando a história se abre, os dois já estão no riacho. Sitī compulsī, "levados pela sede", explica por que vieram: sitī é ablativo de causa (Bennett § 219), e compulsī, nominativo plural masculino, concorda com os dois sujeitos juntos, lupus et agnus. vv. 2–3.Superior stābat lupus, longēque īnferior agnus: o verbo está só na primeira oração, e a segunda o subentende ("e o cordeiro [estava] bem mais abaixo"). Esse detalhe topográfico é o eixo da fábula: a água desce do lobo para o cordeiro, e por isso a primeira acusação é absurda. vv. 3–4.Fauce improbā é a "goela insaciável": o lobo é movido pela fome, e a palavra latrō, "bandido", já o julga antes da fala. Iūrgiī causam intulit: "apresentou um motivo de briga", isto é, inventou um pretexto.
vv. 5–6.Turbulentam fēcistī … aquam: facere com objeto e adjetivo predicativo significa "tornar": "tornaste a água turva". Mihi bibentī: dativo de referência ("para mim, que estou bebendo"), a pessoa afetada pela ação (Bennett § 188.1). vv. 6–8.Contrā é advérbio ("em resposta"), e o verbo de dizer fica subentendido. Quī possum … facere: quī é aqui o advérbio interrogativo "como?". Quod quereris: "aquilo de que você se queixa"; quod não tem antecedente, e a relativa inteira é o objeto de facere. O verso 8 é o argumento do cordeiro, construído para fazer ver o caminho da água: Ā tē (de você) dēcurrit (desce) ad meōs haustūs (até onde eu bebo) liquor (a água).
vv. 9–10.Repulsus ille vēritātis vīribus: "ele, rebatido pela força da verdade". Ille é o lobo; o particípio repulsus concorda com ele, e a frase não tem verbo próprio: o verbo de dizer é o ait do verso seguinte. Ante hōs sex mēnsēs, "há seis meses", é expressão de tempo com ante e acusativo (capítulo 19). v. 11.Equidem nātus nōn eram: nāscor é depoente, e o mais-que-perfeito nātus eram tem forma passiva e sentido ativo, "eu tinha nascido" (capítulo 25). vv. 12–13. O lobo desiste de argumentar. Correptum é um particípio no acusativo masculino sem nome expresso: o leitor subentende o cordeiro, objeto de lacerat ("e assim, agarrado, o despedaça", isto é, "agarra-o e despedaça-o"). O presente lacerat, no meio de uma narração no passado, é o presente histórico, que torna o desfecho mais vivo (Bennett § 259.3; Allen e Greenough § 469).
A fábula é um poema, e duas consequências disso afetam a leitura: o ritmo e a ordem das palavras. Comecemos pelo ritmo, mas só como noção, porque a métrica é assunto do capítulo 40.
A segunda consequência é mais importante para quem traduz. Na prosa, como você viu no capítulo 22, o latim tende a pôr o sujeito no início e o verbo no fim, e a manter juntas as palavras que formam um grupo (o nome e o seu adjetivo, a preposição e o seu caso). No verso, o poeta distribui as palavras pelas posições que o ritmo pede e pelas que dão ênfase, e com frequência separa palavras que gramaticalmente andam juntas. Essa separação chama-se hipérbato (Bennett § 350.11.a). O hipérbato nunca é desordem: a concordância (gênero, número e caso) diz o tempo todo o que se liga a quê. A tarefa do leitor é refazer os pares.
Do verso à ordem da prosa
Verso (ordem de Fedro)
O que está separado
Ordem da prosa
turbulentam fēcistī mihi / aquam bibentī
turbulentam … aquam; mihi … bibentī; o par atravessa o fim do verso
mihi bibentī aquam turbulentam fēcistī
Tunc fauce improbā / latrō incitātus iūrgiī causam intulit
o ablativo de causa vem antes do sujeito que ele explica
Tunc latrō, fauce improbā incitātus, causam iūrgiī intulit
Ā tē dēcurrit ad meōs haustūs liquor
o sujeito liquor fica para o fim, como uma conclusão
Liquor ā tē ad meōs haustūs dēcurrit
Pater hercle tuus … male dīxit mihi
pater … tuus, com a interjeição no meio
Pater tuus mihi male dīxit
Haec propter illōs scrīpta est hominēs fābula
dois pares entrelaçados: haec … fābula e propter illōs … hominēs
Haec fābula scrīpta est propter illōs hominēs
O último exemplo merece atenção, porque é o mais difícil e o mais bonito. Haec abre o verso e só encontra o seu nome, fābula, na última palavra; dentro desse par, propter illōs só encontra hominēs depois de scrīpta est. As palavras se entrelaçam (A B verbo B A), e o resultado é que a frase inteira fica "presa" entre haec e fābula, e o verso seguinte, que começa com quī, se liga a hominēs, a palavra que ficou mais perto. Para desfazer, pergunte: haec é nominativo feminino singular ou neutro plural; que nome feminino singular há no verso? Fābula. Illōs é acusativo masculino plural; que nome no mesmo caso, gênero e número? Hominēs. E quī, nominativo masculino plural, refere-se ao único nome masculino plural disponível: hominēs.
Procedimento para o verso. (1) Ache os verbos e conte as orações. (2) Para cada adjetivo, pronome ou particípio, procure o nome com o mesmo gênero, número e caso, mesmo que esteja na linha seguinte. (3) Para cada preposição, ache o seu caso. (4) Só então escreva a frase na ordem da prosa e traduza. A elipse também é comum: em Superior stābat lupus, longēque īnferior agnus, o segundo membro subentende stābat; em Lāniger contrā timēns, falta o verbo de dizer, que o leitor supre pela fala que vem a seguir.
A passiva do perfectum e os particípios na fábula ⚑
O pré-requisito deste capítulo é o capítulo 24, e a razão está à vista: a fábula está cheia de particípios perfeitos, tanto dentro da passiva do perfectum quanto sozinhos, concordando com um nome. Reconhecê-los é o principal trabalho gramatical desta leitura. Lembre a regra do capítulo 24: o perfeito passivo é formado pelo particípio perfeito (o quarto elemento das partes principais) mais uma forma de sum, e o particípio concorda com o sujeito em gênero e número (fābula scrīpta est, "a fábula foi escrita"; lupī incitātī sunt, "os lobos foram instigados").
Os particípios perfeitos de Lupus et agnus
No texto
Verbo (partes principais)
Forma
Concorda com
Tradução
scrīpta est (v. 14)
scrībō, scrīpsī, scrīptum
perfeito do indicativo passivo, 3ª sing., feminino
fābula (sujeito)
"foi escrita"
nātus nōn eram (v. 11)
nāscor, nāscī, nātus sum (depoente)
mais-que-perfeito do indicativo, 1ª sing., masculino
o cordeiro, sujeito de eram
"eu não tinha nascido" (sentido ativo)
compulsī (v. 2)
compellō, compulī, compulsum
particípio perfeito, nom. pl. masc.
lupus et agnus
"levados (pela sede)"
incitātus (v. 4)
incitō, incitāvī, incitātum
particípio perfeito, nom. sing. masc.
latrō
"instigado"
repulsus (v. 9)
repellō, reppulī, repulsum
particípio perfeito, nom. sing. masc.
ille (o lobo)
"rebatido"
correptum (v. 13)
corripiō, corripuī, correptum
particípio perfeito, ac. sing. masc.
o cordeiro, subentendido (objeto de lacerat)
"agarrado"
fictīs (v. 15)
fingō, fīnxī, fictum
particípio perfeito, abl. pl. fem.
causīs
"inventados"
Duas observações. Primeira: em scrīpta est e em nātus eram, o particípio é parte de uma forma verbal composta; nos outros cinco casos, ele está sozinho e funciona como um adjetivo ligado a um nome, com o sentido passivo e anterior que você conhece do capítulo 24: "levados", "instigado", "rebatido", "agarrado", "inventados". O capítulo 29 chama esse uso de particípio conjunto e mostra como traduzi-lo de várias maneiras; aqui, basta o particípio passado português ("rebatido pela força da verdade, ele disse"). Segunda: nātus eram é a exceção que confirma a regra. Nāscor é depoente, e por isso o seu "passivo" tem sentido ativo: nātus eram não é "eu tinha sido nascido", e sim "eu tinha nascido".
A fábula também usa os tempos do indicativo com muita precisão, e vale reparar como cada um tem a sua função na narrativa:
Os tempos verbais da fábula
Tempo
Exemplo
Função na fábula
mais-que-perfeito
vēnerant, nātus nōn eram
o que já tinha acontecido antes do momento da cena
imperfeito
stābat
o cenário, a situação que dura
perfeito
intulit, fēcistī, dīxistī, respondit, dīxit
as ações que fazem a história avançar
presente histórico
lacerat
o golpe final, contado como se acontecesse diante do leitor
presente de verdade geral
opprimunt (v. 15), dēcurrit (v. 8)
o que vale sempre: a moral; o curso natural da água
Os dois versos finais, o epimítio, reúnem o que este capítulo trabalhou: a passiva do perfectum, um particípio perfeito com valor de adjetivo, o hipérbato e uma oração relativa. Analise-os palavra a palavra.
Fedro, Fábulas 1.1.14–15
Palavra
Dicionário
Análise
Função
Haec
hīc, haec, hōc, este
nominativo singular feminino
determina fābula (separado dele pelo hipérbato)
propter
propter (preposição + acusativo)
invariável
introduz a causa: "por causa de"
illōs
ille, illa, illud, aquele
acusativo plural masculino
determina hominēs
scrīpta est
scrībō, -ere, scrīpsī, scrīptum
perfeito do indicativo passivo, 3ª sing.; particípio no feminino
verbo da oração principal: "foi escrita"
hominēs
homō, hominis (m.), ser humano
acusativo plural
regido por propter; antecedente de quī
fābula
fābula, -ae (f.), fábula
nominativo singular
sujeito de scrīpta est
quī
quī, quae, quod (relativo)
nominativo plural masculino
sujeito de opprimunt; refere-se a hominēs
fictīs
fingō, -ere, fīnxī, fictum, inventar
particípio perfeito, ablativo plural feminino
concorda com causīs: "inventados"
causīs
causa, -ae (f.), causa, pretexto
ablativo plural
meio: "com pretextos"
innocentēs
innocēns, -entis, inocente
acusativo plural, usado como nome
objeto de opprimunt
opprimunt
opprimō, -ere, oppressī, oppressum, oprimir
presente do indicativo ativo, 3ª pl.
verbo da relativa; presente de verdade geral
O relativo quī segue a regra que você aprendeu no capítulo 16: concorda com o antecedente em gênero e número (masculino plural, como hominēs), mas o seu caso vem da função na própria oração (nominativo, porque é sujeito de opprimunt), e não do caso do antecedente, que é acusativo (Bennett § 250.1; Allen e Greenough § 305). Desfeito o hipérbato, a estrutura do período é simples:
Ordem da prosa: Haec fābula scrīpta est propter illōs hominēs quī fictīs causīs innocentēs opprimunt.
A moral é uma chave de leitura política. O lobo não precisa de razões: ele procura pretextos (iūrgiī causam, v. 4; fictīs causīs, v. 15), e cada vez que a verdade os desfaz, inventa outro, até desistir de fingir. A palavra causa volta no começo e no fim, e o eco não é acaso: a fábula é sobre o poder que finge ter motivos. Leia agora a tradução deste livro e compare-a com a sua.
Tradução de Fábulas 1.1
Versos
Tradução (Bibliotheca Latina)
1–4
Ao mesmo riacho tinham chegado um lobo e um cordeiro, levados pela sede. Mais acima estava o lobo, e bem mais abaixo o cordeiro. Então o bandido, instigado pela goela insaciável, inventou um motivo de briga.
5–8
"Por que", disse ele, "você turvou a água em que eu estou bebendo?" O lanudo, com medo, respondeu: "Como posso, por favor, fazer isso de que você se queixa, lobo? É de você que a água desce até onde eu bebo."
9–11
Rebatido pela força da verdade, o lobo disse: "Há seis meses você falou mal de mim." O cordeiro respondeu: "Mas eu nem tinha nascido."
12–13
"Então, por Hércules, foi o seu pai que falou mal de mim", disse ele; e assim o agarra e o despedaça, numa morte injusta.
14–15
Esta fábula foi escrita por causa daqueles homens que oprimem os inocentes com pretextos inventados.
Algumas escolhas da tradução, para você comparar. Fēcistī turbulentam virou "turvou" (um só verbo português para "tornar turvo"). Contrā virou "respondeu", porque o português precisa do verbo que o latim subentende. Equidem virou "mas eu", que dá a ênfase na primeira pessoa. E correptum lacerat virou "o agarra e o despedaça": o particípio perfeito latino, anterior ao verbo principal, costuma virar em português um verbo coordenado. Uma tradução mais literal ("agarrado, despedaça-o") também estaria certa, mas soa menos natural.
Resumo
Fedro, liberto de Augusto, pôs em senários iâmbicos latinos as fábulas da tradição de Esopo; a moral vem antes (promítio) ou depois (epimítio) da história.
Lupus et agnus tem situação (vv. 1–4), diálogo em três trocas (vv. 5–12), desfecho (v. 13) e epimítio (vv. 14–15).
No verso, palavras que andam juntas podem ficar separadas (hipérbato); a concordância de gênero, número e caso refaz os pares.
A passiva do perfectum (scrīpta est) e os particípios perfeitos (compulsī, incitātus, repulsus, correptum, fictīs) concordam com o nome a que se referem; nātus eram, de um depoente, tem sentido ativo.
Os tempos organizam a narrativa: mais-que-perfeito (o antes), imperfeito (o cenário), perfeito (a ação), presente histórico (o clímax), presente de verdade geral (a moral).
No próximo capítulo, a prosa histórica de Eutrópio conta a fundação de Roma em frases curtas, cheias de nomes, datas e verbos na passiva do perfectum.
Erro: Ligar haec a hominēs ou a propter, porque estão perto: "por causa destes homens…".
Por quê, e como evitar:Haec é feminino singular (ou neutro plural); hominēs é masculino plural. O par certo é haec … fābula, no começo e no fim do verso. No verso, a proximidade não prova nada: quem decide é a concordância. Antes de traduzir, ligue cada pronome e adjetivo ao nome com o mesmo gênero, número e caso.
Erro: Traduzir quī possum como "que posso" ou "o qual posso".
Por quê, e como evitar: Aqui quī é o advérbio interrogativo "como?", uma forma antiga de ablativo. O relativo não faz sentido, porque não há antecedente nem oração principal. A pergunta do cordeiro é "Como posso fazer…?". O contexto (uma fala que começa com uma pergunta) é a pista.
Erro: Entender nātus nōn eram como passivo ("eu não tinha sido nascido") ou como presente.
Por quê, e como evitar:Nāscor é depoente: forma passiva, sentido ativo (capítulo 25). Nātus eram é mais-que-perfeito: "eu tinha nascido". O tempo importa para o argumento: seis meses antes, o cordeiro ainda não existia.
Erro: Procurar um sujeito diferente para lacerat, ou traduzi-lo como presente ("despedaça") num texto todo no passado sem perceber a mudança.
Por quê, e como evitar: O sujeito continua sendo o lobo (ille, v. 12). Lacerat é presente histórico: um presente usado na narração de um fato passado para torná-lo vivo. Em português, você pode manter o presente ("e assim o agarra e o despedaça") ou passar ao pretérito ("agarrou-o e despedaçou-o"); as duas soluções são corretas, desde que coerentes.
Erro: Tomar sitī por dativo e vīribus por dativo: "chegaram à sede", "rebatido para as forças".
Por quê, e como evitar:Sitis é tema em -i (capítulo 10) e tem ablativo sitī; aqui o ablativo indica a causa ("levados pela sede"). Vīribus, de vīrēs (plural de vīs), é ablativo de meio ("pela força"). Com particípios passivos como compulsī e repulsus, um ablativo sem preposição costuma dizer por quê ou com quê a ação se deu.
Erro: Ler contrā como preposição e procurar o acusativo: "contra o medo".
Por quê, e como evitar:Contrā pode ser preposição ou advérbio. Aqui não há acusativo que ele possa reger (timēns é nominativo e concorda com lāniger): é advérbio, "em resposta, por sua vez".
Resolvida passo a passo: leia a pergunta, tente responder e só então abra cada passo.
Prática guiada 1 · A situação (vv. 1–4)
Leia os versos 1–4 e traduza seguindo os passos: Ad rīvum eundem lupus et agnus vēnerant, / sitī compulsī. Superior stābat lupus, / longēque īnferior agnus. Tunc fauce improbā / latrō incitātus iūrgiī causam intulit.
Quantos verbos conjugados há, e quais são?Ver o passo
Três: vēnerant (mais-que-perfeito, 3ª pl.), stābat (imperfeito, 3ª sing.) e intulit (perfeito, 3ª sing., de īnferō). Compulsī e incitātus são particípios, não verbos conjugados. Logo, há três orações, mais uma quarta com o verbo subentendido (longē īnferior agnus [stābat]).
Qual é o sujeito de vēnerant, e por que o verbo está no plural?Ver o passo
Lupus et agnus, dois sujeitos singulares unidos por et, levam o verbo ao plural (capítulo 22). Ad rīvum eundem é a direção: "ao mesmo riacho".
Com que concorda compulsī, e que caso é sitī?Ver o passo
Compulsī é nominativo plural masculino: concorda com lupus et agnus, o sujeito composto. Sitī é ablativo de sitis (tema em -i), de causa: "levados pela sede".
Como se lê Superior stābat lupus, longēque īnferior agnus?Ver o passo
Duas orações em paralelo, a segunda sem verbo: "O lobo estava mais acima, e o cordeiro (estava) bem mais abaixo". Superior e īnferior são comparativos usados como predicativos; longē intensifica o comparativo.
Desfaça a ordem de Tunc fauce improbā latrō incitātus iūrgiī causam intulit.Ver o passo
Sujeito: latrō. Particípio que concorda com ele: incitātus. Ablativo que acompanha o particípio: fauce improbā (causa). Objeto: causam, com o genitivo iūrgiī. Prosa: Tunc latrō, fauce improbā incitātus, causam iūrgiī intulit.
Monte a tradução.Ver o passo
"Ao mesmo riacho tinham chegado um lobo e um cordeiro, levados pela sede. O lobo estava mais acima, e o cordeiro bem mais abaixo. Então o bandido, instigado pela goela insaciável, apresentou um motivo de briga."
Prática guiada 2 · A primeira defesa (vv. 6–8)
Traduza a fala do cordeiro: Lāniger contrā timēns: "Quī possum, quaesō, facere quod quereris, lupe? Ā tē dēcurrit ad meōs haustūs liquor."
Há um verbo na frase introdutória Lāniger contrā timēns?Ver o passo
Não há verbo conjugado. Lāniger (o lanígero, o cordeiro) é o sujeito; timēns é particípio presente que concorda com ele ("com medo"); contrā é advérbio. O verbo de dizer fica subentendido: "O cordeiro, com medo, (respondeu):".
Que palavra é quī, e qual é o objeto de facere?Ver o passo
Quī é o advérbio interrogativo "como?". O objeto de facere é a oração relativa quod quereris, "aquilo de que você se queixa": quod não tem antecedente expresso. Quaesō ("por favor") e lupe (vocativo) estão intercalados.
Que forma é quereris?Ver o passo
Presente do indicativo, 2ª pessoa do singular, do depoente queror, querī, questus sum: forma passiva (-ris), sentido ativo, "você se queixa".
Qual é o sujeito de dēcurrit?Ver o passo
Liquor, a última palavra do verso. Ā tē é a origem ("de você"), ad meōs haustūs o destino ("até o lugar onde eu bebo"). O sujeito no fim dá ao argumento a forma de uma demonstração.
Monte a tradução.Ver o passo
"O lanudo, com medo, respondeu: Como posso, por favor, fazer isso de que você se queixa, lobo? É de você que a água desce até onde eu bebo."
Conclusão: numa fala, comece pelas palavras intercaladas (inquit, quaesō, vocativos) e retire-as; o que sobra é uma frase comum.
Faça por escrito ou em voz alta; abra "Ver resposta" só depois de tentar. A explicação da resposta faz parte da lição.
Exercício 1 · Compreensão
Responda em português, citando a palavra ou o verso latino que justifica a resposta.
Por que o lobo e o cordeiro foram ao riacho?Ver resposta
Por causa da sede: sitī compulsī (v. 2), "levados pela sede".
Por que a primeira acusação do lobo é absurda?Ver resposta
Porque o lobo está mais acima (superior, v. 2) e o cordeiro bem mais abaixo (longē īnferior, v. 3), e a água desce do lobo para o cordeiro (Ā tē dēcurrit ad meōs haustūs liquor, v. 8). A água passa primeiro pelo lobo e só depois chega ao cordeiro: o cordeiro não pode turvar a água que o lobo bebe.
Como o cordeiro desfaz a segunda acusação?Ver resposta
Dizendo que ainda não tinha nascido seis meses antes: Equidem nātus nōn eram (v. 11).
O que o lobo faz quando a terceira acusação não pode ser refutada?Ver resposta
Ele nem espera resposta: agarra e despedaça o cordeiro (correptum lacerat iniūstā nece, v. 13).
A moral desta fábula é um promítio ou um epimítio? Por quê?Ver resposta
Um epimítio, porque vem depois da história (vv. 14–15). Um promítio viria antes, como em 1.4: Āmittit meritō proprium quī aliēnum adpetit.
Exercício 2 · Morfologia
Analise cada forma (classe, tempo ou caso, pessoa ou número) e dê a entrada de dicionário.
vēnerantVer resposta
Mais-que-perfeito do indicativo ativo, 3ª pl., de veniō, -īre, vēnī, ventum: "tinham chegado".
intulitVer resposta
Perfeito do indicativo ativo, 3ª sing., de īnferō, īnferre, intulī, illātum: "apresentou". O perfeito vem de outra raiz (como em ferō, tulī).
fēcistīVer resposta
Perfeito do indicativo ativo, 2ª sing., de faciō, -ere, fēcī, factum: "fizeste, tornaste".
quererisVer resposta
Presente do indicativo, 2ª sing., do depoente queror, querī, questus sum: "queixas-te".
scrīpta estVer resposta
Perfeito do indicativo passivo, 3ª sing., de scrībō, -ere, scrīpsī, scrīptum; o particípio está no feminino porque o sujeito é fābula: "foi escrita".
correptumVer resposta
Particípio perfeito, acusativo singular masculino, de corripiō, -ere, corripuī, correptum: "agarrado". Refere-se ao cordeiro, subentendido.
haustūsVer resposta
Acusativo plural de haustus, -ūs (m., 4ª declinação), regido por ad. Não é nominativo singular da 2ª: o ū longo e a preposição ad decidem.
lupeVer resposta
Vocativo singular de lupus, -ī: o cordeiro se dirige ao lobo.
Exercício 3 · Sintaxe
Diga a função de cada expressão e justifique.
mihi … bibentī (vv. 5–6)Ver resposta
Dativo de referência: a pessoa afetada pela ação de turvar a água, "para mim, que estou bebendo". Bibentī é particípio presente no dativo, concordando com mihi.
turbulentam (v. 5)Ver resposta
Predicativo do objeto aquam: com facere, "tornar a água turva". Não é atributo ("a água turva"), porque a água só fica turva por efeito da ação.
vēritātis vīribus (v. 9)Ver resposta
Vīribus: ablativo de meio com o particípio passivo repulsus ("rebatido pela força"); vēritātis: genitivo que o determina ("da verdade").
quod quereris (v. 7)Ver resposta
Oração relativa sem antecedente expresso, que funciona como objeto direto de facere: "(aquilo) de que você se queixa".
propter illōs … hominēs (v. 14)Ver resposta
Adjunto adverbial de causa: preposição propter com acusativo, separada do seu nome pelo hipérbato.
quī (v. 15)Ver resposta
Pronome relativo, nominativo plural masculino, sujeito de opprimunt; concorda em gênero e número com o antecedente hominēs, mas está no nominativo pela função na sua oração.
Exercício 4 · Do verso à prosa
Reescreva na ordem da prosa (sujeito, complementos, verbo; nome junto do adjetivo) e traduza.
Ā tē dēcurrit ad meōs haustūs liquor.Ver resposta
Liquor ā tē ad meōs haustūs dēcurrit. "A água desce de você até onde eu bebo."
Pater hercle tuus male dīxit mihi.Ver resposta
Pater tuus mihi male dīxit (sem a interjeição). "Seu pai falou mal de mim."
Haec propter illōs scrīpta est hominēs fābula.Ver resposta
Haec fābula propter illōs hominēs scrīpta est. "Esta fábula foi escrita por causa daqueles homens."
Tunc fauce improbā latrō incitātus iūrgiī causam intulit.Ver resposta
Tunc latrō, fauce improbā incitātus, causam iūrgiī intulit. "Então o bandido, instigado pela goela insaciável, apresentou um motivo de briga."
Exercício 5 · A passiva do perfectum
Passe para a passiva do perfectum, mantendo o tempo, e traduza. O agente vai para ā/ab + ablativo.
Phaedrus fābulam scrīpsit.Ver resposta
Fābula ā Phaedrō scrīpta est. "A fábula foi escrita por Fedro." O particípio vai para o feminino, como fābula.
Lupus agnum corripuit.Ver resposta
Agnus ā lupō correptus est. "O cordeiro foi agarrado pelo lobo."
Sitis lupum et agnum compulerat. (compulerat: mais-que-perfeito)Ver resposta
Lupus et agnus sitī compulsī erant. "O lobo e o cordeiro tinham sido levados pela sede." A sede é coisa, não pessoa: por isso o ablativo vai sem ā (meio ou causa), como no verso 2; o particípio vai para o plural porque o sujeito é composto.
Vēritās lupum reppulit.Ver resposta
Lupus vēritāte repulsus est. "O lobo foi rebatido pela verdade." De novo, coisa: ablativo sem preposição.
Exercício 6 · Traduza para o latim
Use o vocabulário da fábula.
O cordeiro tinha chegado ao riacho.Ver resposta
Agnus ad rīvum vēnerat. Mais-que-perfeito, como em vēnerant, no singular.
O lobo, levado pela fome, procura um pretexto.Ver resposta
Lupus, famē compulsus, causam quaerit. (famēs, -is, fome, com ablativo irregular famē, Bennett § 59.2.b; quaerō, procurar.) Compulsus concorda com lupus; famē é ablativo de causa, como sitī.
Esta fábula foi escrita para os homens inocentes.Ver resposta
Haec fābula propter hominēs innocentēs scrīpta est, ou, com outra nuance, Haec fābula hominibus innocentibus scrīpta est (dativo: "para os inocentes"). Nas duas, scrīpta est concorda com fābula.
Leituras recomendadas
Continue em Fedro (no catálogo, edição de Mueller no Perseus, com análise de cada palavra a um clique): leia em seguida 1.4 (o cão e o reflexo), que é curtíssima e tem promítio, e depois as outras fábulas do livro I, sempre identificando a moral e os particípios. As Fabulae virginibus puerisque, de Appleton, trazem historietas e fábulas em latim mais fácil e macronizado, boas para ganhar velocidade. A The Latin Library tem o texto dos cinco livros de Fedro em páginas simples. Use o Logeion para as palavras que não estão no glossário deste capítulo. Na gramática do Pe. Ravizza, o n. 536 mostra o senário de Fedro escandido; em Bennett, o § 370 descreve o verso, e os §§ 348–350 a ordem das palavras.
Etapa IV · Ad FontesDificuldade 3 · IntermediárioOriginalCom notasTexto na biblioteca
Fabulae Aesopiae
Phaedrus
As fábulas de Fedro (o lobo e o cordeiro, a raposa e as uvas, a rã e o boi), poemas curtíssimos em senários iâmbicos. Sem notas, com análise de palavras ao clique. Verso simples e histórias conhecidas: a primeira poesia autêntica para muitos estudantes.
Fábula · Pós-clássico · algumas semanas · Perseus Digital Library
Ler aqui: texto latino da edição de Lucian Mueller (1876)
Etapa II · Primae FabulaeDificuldade 2 · BásicoDidático
Fabulae, virginibus puerisque aut narrandae aut recitandae
R. B. Appleton
Historietas e fábulas curtas para contar ou recitar (1914), em latim macronizado pelo método direto, com índice de palavras em latim. Boa leitura paralela ao Puer Romanus.
Enorme coleção de textos latinos em HTML simples, dos clássicos ao neolatim e ao latim cristão, sem notas. Sem licença explícita: use para consulta e leitura; os textos não são redistribuíveis a partir dali.
Ferramenta · Moderno (material didático) · consulta · The Latin Library
Busca simultânea em vários dicionários latinos, incluindo o Lewis & Short, o Elementary Latin Dictionary e o Du Cange (latim medieval). Gratuito, rápido e com aplicativo para celular.
Gramática latina completa em português, usada por gerações nas escolas brasileiras, com um compêndio de história da literatura latina. Nona edição (1940), em domínio público (autor falecido em 1941). Fac-símile em PDF no Internet Archive.
Gramática · Moderno (material didático) · consulta · Internet Archive
Gramática de referência compacta (1918), em inglês, com macrons: sons, flexões, sintaxe, prosódia. Mais curta e mais fácil de consultar que Allen & Greenough; cabe num leitor de EPUB.
Bibliotheca Latina. Conteúdo original com trechos de obras em domínio público; licença CC BY 4.0.
Fontes consultadas
Phaedrus, Fabulae Aesopiae, ed. L. Mueller (Leipzig: Teubner, 1876), Fedro (no catálogo) · domínio público · texto de 1.1 (Lupus et agnus), 1.4.1 (promítio), prólogo do livro I e prólogo do livro III, v. 17 (Pierio … iugo) conferidos no Perseus, que reproduz a edição de Mueller; 1.1 conferido também na The Latin Library (texto idêntico nas palavras); ortografia mantida, macrons e aspas acrescentados
Phaedrus, Fabulae, liber I (The Latin Library), Fedro · domínio público · prólogo do livro I, vv. 1–2 (Aesopus auctor quam materiam repperit, / hanc ego polivi versibus senariis), conferido nesta página e no TEI da Perseus (PerseusDL canonical-latinLit, phi0975.phi001, ed. Mueller): mesmas palavras
New Latin Grammar, Charles E. Bennett (no catálogo) · domínio público · § 102 (passiva de amō: amātus sum, amātus eram), § 113 (paradigmas de depoentes), § 188.1 (dativo de referência), § 219 (ablativo de causa), § 250.1 (concordância do relativo), § 251.4.a (antecedente incorporado na relativa que vem primeiro: quam … māteriam … hanc), § 259.3 (presente histórico), § 263 (mais-que-perfeito), §§ 348–349 (ordem normal e ênfase), § 350.11.a (hipérbato), §§ 366.2 e 366.8 (pés, cesura), § 370.1–2 (trímetro iâmbico ou senário)
Allen and Greenough's New Latin Grammar, J. H. Allen e J. B. Greenough (no catálogo) · domínio público · § 305 (o relativo concorda em gênero e número; o caso vem da sua oração), § 307.b (antecedente só dentro da relativa), §§ 376–377 (dativo de referência), § 404 (ablativo de causa), § 469 (presente histórico), § 477 (mais-que-perfeito), §§ 597–598 (ordem das palavras; 598.h, ordem entrelaçada nos poetas), § 599.c (inquit sempre intercalado)
Gramática Latina, Pe. João Ravizza (no catálogo) · domínio público · n. 175 (concordância do pronome relativo), n. 408 (presente, inclusive o presente histórico), n. 536 (o verso jâmbico; o senário "tais são os versos das fábulas de Fedro", com o prólogo do livro I como exemplo)