Elementa Linguae Latinae·Parte IV · Auctores·Capítulo 42·75 minReportar problema

Phaedrus

Fedro: uma fábula

Leitura comentada de uma fábula autêntica de Fedro, O lobo e o cordeiro (Fábulas 1.1): quem foi Fedro e o que é a fábula esópica, o texto latino com vocabulário e notas, o verso (o senário iâmbico, só como noção) e a ordem das palavras na poesia, a passiva do perfectum e os particípios em ação, a moral no fim da fábula (epimítio) e a tradução.

Neste capítulo você vai
  • Situar Fedro e a fábula esópica e reconhecer a moral explícita no início (promítio) ou no fim (epimítio) de uma fábula.
  • Ler o texto latino de Lupus et agnus (Fábulas 1.1) com o vocabulário e as notas, entendendo o enredo e o diálogo.
  • Desfazer a ordem poética das palavras (hipérbato, elipse do verbo) e reconstruir a ordem da prosa.
  • Identificar e traduzir no texto as formas da passiva do perfectum e os particípios perfeitos, dizendo com que palavra cada um concorda.
  • Produzir uma tradução própria, fiel à função das palavras, e justificar as escolhas.
Fedrofábula esópicaEsopoLupus et agnuspromítio e epimítiomoral da fábulasenário iâmbico (noção)ordem das palavras no versohipérbatoelipse do verbopassiva do perfectum em textoparticípio perfeito em textopresente históricodiscurso direto com inquit e aitdativo de referênciaablativo de causaleitura comentada

Antes deste capítulo: Capítulo 24: a passiva do perfectum (scrīpta est, "foi escrita"), que é a construção central desta leitura, e, por meio dela, os capítulos de morfologia nominal e verbal das partes I e II. Os particípios (capítulo 29), os depoentes (capítulo 25) e a métrica (capítulo 40) ajudam, mas tudo o que vem deles está explicado ou glosado aqui. · capítulo 24

  1. Fedro e a fábula esópica
  2. O texto: Lupus et agnus (Fábulas 1.1)
  3. Vocabulário e notas
  4. Verso e ordem das palavras
  5. A passiva do perfectum e os particípios na fábula
  6. Análise, tradução e moral
  7. Erros comuns
  8. Prática guiada
  9. Exercícios independentes
  10. Leituras recomendadas
  11. Créditos e fontes

Fedro e a fábula esópica ⚑

Até aqui, quase todo o latim que você leu foi escrito para o livro ou retirado de frases isoladas. A partir deste capítulo começa a parte IV, Auctōrēs: a leitura de textos inteiros, como os romanos os escreveram. O primeiro autor é Fedro (Phaedrus), e a escolha não é casual. Suas fábulas são curtas, contam uma história com começo, meio e fim, têm diálogos vivos e uma moral explícita, e o vocabulário é concreto: animais, água, comida, medo. É o tipo de texto em que o leitor iniciante pode se apoiar no enredo para resolver a gramática.

Fedro viveu no início do Império, aproximadamente entre o reinado de Augusto e o de Cláudio (primeira metade do século I d.C.). Os manuscritos o chamam de Augustī lībertus, "liberto de Augusto": foi escravo na casa do imperador e recebeu a liberdade. Ele mesmo diz ter nascido na Piéria, região do norte da Grécia (prólogo do livro III, v. 17), e quase tudo o que se sabe da sua vida vem dos prólogos e epílogos que ele mesmo escreveu. A obra, em cinco livros, chegou até nós incompleta. Fedro não inventou as histórias: retomou a tradição grega das fábulas atribuídas a Esopo (Aesōpus), figura semilendária do século VI a.C., e lhes deu forma em versos latinos. É o que ele declara nos dois primeiros versos do prólogo do livro I:

Aesōpus auctor quam māteriam repperit,
hanc ego polīvī versibus sēnāriīs.
O assunto que Esopo, o criador, encontrou, eu o poli em versos senários. (Fábulas 1, prólogo, 1–2)

Repare na construção do primeiro verso, que é típica do latim e que você vai rever em César e em Cícero: a oração relativa vem antes, e o substantivo a que ela se refere está dentro dela (quam māteriam … repperit, "o assunto que … encontrou"); a oração principal retoma esse substantivo com um demonstrativo (hanc, "este", isto é, "este assunto"). Ao traduzir, o português prefere pôr o substantivo fora: "o assunto que Esopo encontrou, eu o poli". A gramática de Bennett descreve esse padrão no § 251.4.a.

Toda fábula esópica tem duas camadas: uma narrativa (os animais falam e agem como pessoas) e uma moral, a lição que a narrativa ilustra. Na tradição antiga, a moral podia vir declarada antes da história ou depois dela. A que vem antes chama-se promítio (do grego promȳthion, "o que se diz antes da fábula"); a que vem depois, epimítio ("o que se diz depois"). Fedro usa os dois. Compare o primeiro verso da fábula 1.4 (o cão que atravessa o rio com um pedaço de carne e larga a carne para pegar o reflexo dela) com os dois últimos versos da fábula que você vai ler:

A moral antes e depois da fábula
PosiçãoTextoTradução
Promítio (antes da história): Fábulas 1.4.1Āmittit meritō proprium quī aliēnum adpetit.Perde com justiça o que é seu quem cobiça o alheio.
Epimítio (depois da história): Fábulas 1.1.14–15Haec propter illōs scrīpta est hominēs fābula / quī fictīs causīs innocentēs opprimunt.Esta fábula foi escrita por causa daqueles homens que oprimem os inocentes com pretextos inventados.

No promítio de I, 4, adpetit é a grafia da edição para appetit (de appetō, "procurar alcançar, cobiçar"): o prefixo ad- às vezes aparece sem assimilação. E a oração quī aliēnum adpetit não tem antecedente expresso: "(aquele) que cobiça". O sujeito de āmittit é a própria relativa. Esse uso do relativo sem antecedente, que você conheceu no capítulo 16, é o modo latino de formular uma regra geral.

O texto: Lupus et agnus (Fábulas 1.1) ⚑

O texto abaixo é o da edição de Lucian Mueller (Leipzig: Teubner, 1876), conferido no Perseus, que reproduz essa edição, e na The Latin Library, que traz as mesmas palavras. As únicas intervenções deste livro são os macrons (que nenhum manuscrito antigo tem), as aspas que marcam as falas, a numeração dos versos e alguns sinais de pontuação (Mueller põe ponto e vírgula depois de compulsī e ponto final depois de intulit e do v. 12; as palavras são as dele). São quinze versos: leia-os primeiro em voz alta, do começo ao fim, sem tentar traduzir, só para ouvir o ritmo e notar onde estão as falas (inquit, ait, "diz ele", aparecem sempre depois das primeiras palavras da fala).

Fedro, Fábulas 1.1: Lupus et agnus
VersoTexto latino (ed. Mueller, 1876)
1Ad rīvum eundem lupus et agnus vēnerant,
2sitī compulsī. Superior stābat lupus,
3longēque īnferior agnus. Tunc fauce improbā
4latrō incitātus iūrgiī causam intulit:
5"Cūr" inquit "turbulentam fēcistī mihi
6aquam bibentī?" Lāniger contrā timēns:
7"Quī possum, quaesō, facere quod quereris, lupe?
8Ā tē dēcurrit ad meōs haustūs liquor."
9Repulsus ille vēritātis vīribus:
10"Ante hōs sex mēnsēs male" ait "dīxistī mihi."
11Respondit agnus: "Equidem nātus nōn eram."
12"Pater hercle tuus" ille inquit "male dīxit mihi";
13atque ita correptum lacerat iniūstā nece.
14Haec propter illōs scrīpta est hominēs fābula
15quī fictīs causīs innocentēs opprimunt.

A fábula tem uma estrutura clara, e reconhecê-la antes de traduzir ajuda muito. Os versos 1–4 são a situação: dois animais no mesmo riacho, um acima e outro abaixo, e um deles com más intenções. Os versos 5–12 são o diálogo, em três trocas: a acusação do lobo e a defesa do cordeiro (vv. 5–8); a segunda acusação e a segunda defesa (vv. 9–11); a terceira acusação, que já não espera resposta (v. 12). O verso 13 é o desfecho, numa só frase. Os versos 14–15 são a moral, o epimítio.

A estrutura da fábula
VersosParteQuem falaO que acontece
1–4situaçãonarradorlobo e cordeiro bebem no mesmo riacho; o lobo, mais acima, procura um pretexto
5–61ª acusaçãolobo"você turvou a minha água"
6–81ª defesacordeiroa água corre de cima, do lobo, para baixo, até o cordeiro
9–102ª acusaçãolobo"há seis meses você falou mal de mim"
112ª defesacordeiro"eu nem tinha nascido"
123ª acusaçãolobo"então foi seu pai"
13desfechonarradoro lobo agarra e despedaça o cordeiro
14–15moral (epimítio)narradora fábula serve para quem oprime inocentes com pretextos inventados
As falas. Inquit ("diz", "disse") e ait (do verbo defectivo aiō, "dizer") nunca abrem a fala: vêm intercalados depois de uma ou mais palavras dela (Allen e Greenough § 599.c). Por isso "Cūr" inquit "turbulentam fēcistī …" se lê "Por que, disse, você turvou …". Quando você encontrar inquit no meio de uma frase, saiba que a fala começou um pouco antes.

Vocabulário e notas ⚑

A tabela dá cada palavra na forma em que aparece no texto, a entrada de dicionário e o sentido aqui. As palavras que você já conhece das partes I a III (et, lupus, agnus, aqua, pater, fābula etc.) também estão na tabela, para que ela sirva de glossário completo da fábula.

Vocabulário da fábula
No textoDicionárioSentido aquiNota
ad rīvumrīvus, -ī (m.)riacho, regatoad + acusativo: direção
eundemīdem, eadem, idemo mesmoacusativo masc. sing., concorda com rīvum (capítulo 15)
vēnerantveniō, -īre, vēnī, ventumtinham chegadomais-que-perfeito: a chegada é anterior à cena
sitīsitis, -is (f.)sedeablativo em -ī (tema em -i, capítulo 10): causa
compulsīcompellō, -ere, compulī, compulsumimpelir, levar à forçaparticípio perfeito, nom. pl. masc.: "levados"
superior, īnferiorsuperior, -ius; īnferior, -iusmais acima; mais abaixocomparativos (capítulo 18), usados como predicativos
stābatstō, stāre, stetī, statumestar (de pé), ficarimperfeito: descrição da cena
longēadvérbiomuito, bem (reforça o comparativo)longē īnferior: "bem mais abaixo"
tuncadvérbioentãomarca a passagem da situação à ação
fauce improbāfaux, faucis (f.); improbus, -a, -umgoela; insaciável, perversoablativo de causa: "pela goela insaciável", isto é, pela fome
latrōlatrō, -ōnis (m.)bandido, salteadoro lobo, chamado pelo que é
incitātusincitō, -āre, -āvī, -ātuminstigarparticípio perfeito, concorda com latrō
iūrgiīiūrgium, -ī (n.)briga, disputagenitivo: "motivo de briga"
causam intulitcausa, -ae; īnferō, īnferre, intulī, illātumapresentou um motivoferō e compostos: capítulo 26
inquitinquam (defectivo)diz, dissesempre intercalado na fala
turbulentamturbulentus, -a, -umturvo, lamacentopredicativo do objeto: "tornaste a água turva"
fēcistīfaciō, -ere, fēcī, factumfizeste, tornasteperfeito, 2ª sing.
mihi … bibentīego; bibō, -ere, bibīpara mim que estou bebendodativo de referência; bibentī é particípio presente (capítulo 29)
lānigerlāniger, -era, -erumlanígero, que tem lãadjetivo usado como nome: "o lanudo", o cordeiro
contrāadvérbioem resposta, por sua vezaqui não é preposição
timēnstimeō, -ēre, timuītemendo, com medoparticípio presente, concorda com lāniger; subentenda "disse"
quīadvérbio interrogativocomo?forma antiga de ablativo; não é o relativo
possumpossum, posse, potuīpossocapítulo 26
quaesōquaesō (defectivo)por favor, peçofórmula de cortesia intercalada
quodquī, quae, quodaquilo que, o querelativo sem antecedente: objeto de facere
quererisqueror, querī, questus sumqueixas-te, reclamasdepoente (capítulo 25), presente, 2ª sing.
lupelupus, -īó lobovocativo
dēcurritdēcurrō, -ere, dēcurrī, dēcursumcorre para baixo, descepresente
haustūshaustus, -ūs (m.)o beber; o lugar onde se bebe4ª declinação, acusativo plural (capítulo 11)
liquorliquor, -ōris (m.)líquido, águasujeito de dēcurrit, no fim do verso
repulsusrepellō, -ere, reppulī, repulsumrepelir, rebaterparticípio perfeito, concorda com ille (o lobo)
vēritātis vīribusvēritās, -ātis (f.); vīs, vīs (f.), pl. vīrēs, vīriumpela força da verdadevīribus: ablativo de meio (de vīrēs)
ante hōs sex mēnsēsante + ac.; hīc, haec, hōc; mēnsis, -is (m.)há seis mesesliteralmente "antes destes seis meses"
male … dīxistī mihimale dīcō + dativofalaste mal de mimdaí maldizer; o dativo indica de quem se fala mal
aitaiō (defectivo)diz, disseintercalado como inquit
equidemadvérbiomas eu, de minha partereforça a 1ª pessoa
nātus nōn eramnāscor, nāscī, nātus sumeu não tinha nascidodepoente: mais-que-perfeito com forma passiva e sentido ativo
hercleinterjeiçãopor Hércules!juramento coloquial
correptumcorripiō, -ere, corripuī, correptumagarrar, arrebatarparticípio perfeito, acusativo masc.: subentende-se agnum
laceratlacerō, -āredespedaça, dilacerapresente histórico
iniūstā neceiniūstus, -a, -um; nex, necis (f.)com morte injustaablativo de modo
propterpreposição + acusativopor causa deaqui separada do seu nome: propter illōs … hominēs
scrīpta estscrībō, -ere, scrīpsī, scrīptumfoi escritapassiva do perfectum (capítulo 24), concorda com fābula
fictīs causīsfingō, -ere, fīnxī, fictumcom pretextos inventadosparticípio perfeito como adjetivo; ablativo de meio
innocentēsinnocēns, -entisinocentesadjetivo usado como nome; acusativo plural
opprimuntopprimō, -ere, oppressī, oppressumoprimem, esmagampresente de verdade geral

Notas aos versos

vv. 1–2. O mais-que-perfeito vēnerant põe a chegada antes do momento em que a cena começa: quando a história se abre, os dois já estão no riacho. Sitī compulsī, "levados pela sede", explica por que vieram: sitī é ablativo de causa (Bennett § 219), e compulsī, nominativo plural masculino, concorda com os dois sujeitos juntos, lupus et agnus. vv. 2–3. Superior stābat lupus, longēque īnferior agnus: o verbo está só na primeira oração, e a segunda o subentende ("e o cordeiro [estava] bem mais abaixo"). Esse detalhe topográfico é o eixo da fábula: a água desce do lobo para o cordeiro, e por isso a primeira acusação é absurda. vv. 3–4. Fauce improbā é a "goela insaciável": o lobo é movido pela fome, e a palavra latrō, "bandido", já o julga antes da fala. Iūrgiī causam intulit: "apresentou um motivo de briga", isto é, inventou um pretexto.

vv. 5–6. Turbulentam fēcistī … aquam: facere com objeto e adjetivo predicativo significa "tornar": "tornaste a água turva". Mihi bibentī: dativo de referência ("para mim, que estou bebendo"), a pessoa afetada pela ação (Bennett § 188.1). vv. 6–8. Contrā é advérbio ("em resposta"), e o verbo de dizer fica subentendido. Quī possum … facere: quī é aqui o advérbio interrogativo "como?". Quod quereris: "aquilo de que você se queixa"; quod não tem antecedente, e a relativa inteira é o objeto de facere. O verso 8 é o argumento do cordeiro, construído para fazer ver o caminho da água: Ā tē (de você) dēcurrit (desce) ad meōs haustūs (até onde eu bebo) liquor (a água).

vv. 9–10. Repulsus ille vēritātis vīribus: "ele, rebatido pela força da verdade". Ille é o lobo; o particípio repulsus concorda com ele, e a frase não tem verbo próprio: o verbo de dizer é o ait do verso seguinte. Ante hōs sex mēnsēs, "há seis meses", é expressão de tempo com ante e acusativo (capítulo 19). v. 11. Equidem nātus nōn eram: nāscor é depoente, e o mais-que-perfeito nātus eram tem forma passiva e sentido ativo, "eu tinha nascido" (capítulo 25). vv. 12–13. O lobo desiste de argumentar. Correptum é um particípio no acusativo masculino sem nome expresso: o leitor subentende o cordeiro, objeto de lacerat ("e assim, agarrado, o despedaça", isto é, "agarra-o e despedaça-o"). O presente lacerat, no meio de uma narração no passado, é o presente histórico, que torna o desfecho mais vivo (Bennett § 259.3; Allen e Greenough § 469).

Verso e ordem das palavras ⚑

A fábula é um poema, e duas consequências disso afetam a leitura: o ritmo e a ordem das palavras. Comecemos pelo ritmo, mas só como noção, porque a métrica é assunto do capítulo 40.

A segunda consequência é mais importante para quem traduz. Na prosa, como você viu no capítulo 22, o latim tende a pôr o sujeito no início e o verbo no fim, e a manter juntas as palavras que formam um grupo (o nome e o seu adjetivo, a preposição e o seu caso). No verso, o poeta distribui as palavras pelas posições que o ritmo pede e pelas que dão ênfase, e com frequência separa palavras que gramaticalmente andam juntas. Essa separação chama-se hipérbato (Bennett § 350.11.a). O hipérbato nunca é desordem: a concordância (gênero, número e caso) diz o tempo todo o que se liga a quê. A tarefa do leitor é refazer os pares.

Do verso à ordem da prosa
Verso (ordem de Fedro)O que está separadoOrdem da prosa
turbulentam fēcistī mihi / aquam bibentīturbulentam … aquam; mihi … bibentī; o par atravessa o fim do versomihi bibentī aquam turbulentam fēcistī
Tunc fauce improbā / latrō incitātus iūrgiī causam intulito ablativo de causa vem antes do sujeito que ele explicaTunc latrō, fauce improbā incitātus, causam iūrgiī intulit
Ā tē dēcurrit ad meōs haustūs liquoro sujeito liquor fica para o fim, como uma conclusãoLiquor ā tē ad meōs haustūs dēcurrit
Pater hercle tuus … male dīxit mihipater … tuus, com a interjeição no meioPater tuus mihi male dīxit
Haec propter illōs scrīpta est hominēs fābuladois pares entrelaçados: haec … fābula e propter illōs … hominēsHaec fābula scrīpta est propter illōs hominēs

O último exemplo merece atenção, porque é o mais difícil e o mais bonito. Haec abre o verso e só encontra o seu nome, fābula, na última palavra; dentro desse par, propter illōs só encontra hominēs depois de scrīpta est. As palavras se entrelaçam (A B verbo B A), e o resultado é que a frase inteira fica "presa" entre haec e fābula, e o verso seguinte, que começa com quī, se liga a hominēs, a palavra que ficou mais perto. Para desfazer, pergunte: haec é nominativo feminino singular ou neutro plural; que nome feminino singular há no verso? Fābula. Illōs é acusativo masculino plural; que nome no mesmo caso, gênero e número? Hominēs. E quī, nominativo masculino plural, refere-se ao único nome masculino plural disponível: hominēs.

Procedimento para o verso. (1) Ache os verbos e conte as orações. (2) Para cada adjetivo, pronome ou particípio, procure o nome com o mesmo gênero, número e caso, mesmo que esteja na linha seguinte. (3) Para cada preposição, ache o seu caso. (4) Só então escreva a frase na ordem da prosa e traduza. A elipse também é comum: em Superior stābat lupus, longēque īnferior agnus, o segundo membro subentende stābat; em Lāniger contrā timēns, falta o verbo de dizer, que o leitor supre pela fala que vem a seguir.

A passiva do perfectum e os particípios na fábula ⚑

O pré-requisito deste capítulo é o capítulo 24, e a razão está à vista: a fábula está cheia de particípios perfeitos, tanto dentro da passiva do perfectum quanto sozinhos, concordando com um nome. Reconhecê-los é o principal trabalho gramatical desta leitura. Lembre a regra do capítulo 24: o perfeito passivo é formado pelo particípio perfeito (o quarto elemento das partes principais) mais uma forma de sum, e o particípio concorda com o sujeito em gênero e número (fābula scrīpta est, "a fábula foi escrita"; lupī incitātī sunt, "os lobos foram instigados").

Os particípios perfeitos de Lupus et agnus
No textoVerbo (partes principais)FormaConcorda comTradução
scrīpta est (v. 14)scrībō, scrīpsī, scrīptumperfeito do indicativo passivo, 3ª sing., femininofābula (sujeito)"foi escrita"
nātus nōn eram (v. 11)nāscor, nāscī, nātus sum (depoente)mais-que-perfeito do indicativo, 1ª sing., masculinoo cordeiro, sujeito de eram"eu não tinha nascido" (sentido ativo)
compulsī (v. 2)compellō, compulī, compulsumparticípio perfeito, nom. pl. masc.lupus et agnus"levados (pela sede)"
incitātus (v. 4)incitō, incitāvī, incitātumparticípio perfeito, nom. sing. masc.latrō"instigado"
repulsus (v. 9)repellō, reppulī, repulsumparticípio perfeito, nom. sing. masc.ille (o lobo)"rebatido"
correptum (v. 13)corripiō, corripuī, correptumparticípio perfeito, ac. sing. masc.o cordeiro, subentendido (objeto de lacerat)"agarrado"
fictīs (v. 15)fingō, fīnxī, fictumparticípio perfeito, abl. pl. fem.causīs"inventados"

Duas observações. Primeira: em scrīpta est e em nātus eram, o particípio é parte de uma forma verbal composta; nos outros cinco casos, ele está sozinho e funciona como um adjetivo ligado a um nome, com o sentido passivo e anterior que você conhece do capítulo 24: "levados", "instigado", "rebatido", "agarrado", "inventados". O capítulo 29 chama esse uso de particípio conjunto e mostra como traduzi-lo de várias maneiras; aqui, basta o particípio passado português ("rebatido pela força da verdade, ele disse"). Segunda: nātus eram é a exceção que confirma a regra. Nāscor é depoente, e por isso o seu "passivo" tem sentido ativo: nātus eram não é "eu tinha sido nascido", e sim "eu tinha nascido".

A fábula também usa os tempos do indicativo com muita precisão, e vale reparar como cada um tem a sua função na narrativa:

Os tempos verbais da fábula
TempoExemploFunção na fábula
mais-que-perfeitovēnerant, nātus nōn eramo que já tinha acontecido antes do momento da cena
imperfeitostābato cenário, a situação que dura
perfeitointulit, fēcistī, dīxistī, respondit, dīxitas ações que fazem a história avançar
presente históricolacerato golpe final, contado como se acontecesse diante do leitor
presente de verdade geralopprimunt (v. 15), dēcurrit (v. 8)o que vale sempre: a moral; o curso natural da água

Análise, tradução e moral ⚑

Os dois versos finais, o epimítio, reúnem o que este capítulo trabalhou: a passiva do perfectum, um particípio perfeito com valor de adjetivo, o hipérbato e uma oração relativa. Analise-os palavra a palavra.

Fedro, Fábulas 1.1.14–15
PalavraDicionárioAnáliseFunção
Haechīc, haec, hōc, estenominativo singular femininodetermina fābula (separado dele pelo hipérbato)
propterpropter (preposição + acusativo)invariávelintroduz a causa: "por causa de"
illōsille, illa, illud, aqueleacusativo plural masculinodetermina hominēs
scrīpta estscrībō, -ere, scrīpsī, scrīptumperfeito do indicativo passivo, 3ª sing.; particípio no femininoverbo da oração principal: "foi escrita"
hominēshomō, hominis (m.), ser humanoacusativo pluralregido por propter; antecedente de quī
fābulafābula, -ae (f.), fábulanominativo singularsujeito de scrīpta est
quīquī, quae, quod (relativo)nominativo plural masculinosujeito de opprimunt; refere-se a hominēs
fictīsfingō, -ere, fīnxī, fictum, inventarparticípio perfeito, ablativo plural femininoconcorda com causīs: "inventados"
causīscausa, -ae (f.), causa, pretextoablativo pluralmeio: "com pretextos"
innocentēsinnocēns, -entis, inocenteacusativo plural, usado como nomeobjeto de opprimunt
opprimuntopprimō, -ere, oppressī, oppressum, oprimirpresente do indicativo ativo, 3ª pl.verbo da relativa; presente de verdade geral

O relativo quī segue a regra que você aprendeu no capítulo 16: concorda com o antecedente em gênero e número (masculino plural, como hominēs), mas o seu caso vem da função na própria oração (nominativo, porque é sujeito de opprimunt), e não do caso do antecedente, que é acusativo (Bennett § 250.1; Allen e Greenough § 305). Desfeito o hipérbato, a estrutura do período é simples:

Haec fābulasujeitonom. sing. f.scrīpta estpassiva do perfectum"foi escrita"propter illōs hominēscausapropter + acusativoquī … opprimuntoração relativasujeito quī = hominēs
Ordem da prosa: Haec fābula scrīpta est propter illōs hominēs quī fictīs causīs innocentēs opprimunt.

A moral é uma chave de leitura política. O lobo não precisa de razões: ele procura pretextos (iūrgiī causam, v. 4; fictīs causīs, v. 15), e cada vez que a verdade os desfaz, inventa outro, até desistir de fingir. A palavra causa volta no começo e no fim, e o eco não é acaso: a fábula é sobre o poder que finge ter motivos. Leia agora a tradução deste livro e compare-a com a sua.

Tradução de Fábulas 1.1
VersosTradução (Bibliotheca Latina)
1–4Ao mesmo riacho tinham chegado um lobo e um cordeiro, levados pela sede. Mais acima estava o lobo, e bem mais abaixo o cordeiro. Então o bandido, instigado pela goela insaciável, inventou um motivo de briga.
5–8"Por que", disse ele, "você turvou a água em que eu estou bebendo?" O lanudo, com medo, respondeu: "Como posso, por favor, fazer isso de que você se queixa, lobo? É de você que a água desce até onde eu bebo."
9–11Rebatido pela força da verdade, o lobo disse: "Há seis meses você falou mal de mim." O cordeiro respondeu: "Mas eu nem tinha nascido."
12–13"Então, por Hércules, foi o seu pai que falou mal de mim", disse ele; e assim o agarra e o despedaça, numa morte injusta.
14–15Esta fábula foi escrita por causa daqueles homens que oprimem os inocentes com pretextos inventados.

Algumas escolhas da tradução, para você comparar. Fēcistī turbulentam virou "turvou" (um só verbo português para "tornar turvo"). Contrā virou "respondeu", porque o português precisa do verbo que o latim subentende. Equidem virou "mas eu", que dá a ênfase na primeira pessoa. E correptum lacerat virou "o agarra e o despedaça": o particípio perfeito latino, anterior ao verbo principal, costuma virar em português um verbo coordenado. Uma tradução mais literal ("agarrado, despedaça-o") também estaria certa, mas soa menos natural.

Resumo

No próximo capítulo, a prosa histórica de Eutrópio conta a fundação de Roma em frases curtas, cheias de nomes, datas e verbos na passiva do perfectum.

Erros comuns ⚑

Prática guiada ⚑

Resolvida passo a passo: leia a pergunta, tente responder e só então abra cada passo.

Prática guiada 1 · A situação (vv. 1–4)

Leia os versos 1–4 e traduza seguindo os passos: Ad rīvum eundem lupus et agnus vēnerant, / sitī compulsī. Superior stābat lupus, / longēque īnferior agnus. Tunc fauce improbā / latrō incitātus iūrgiī causam intulit.

  1. Quantos verbos conjugados há, e quais são?
    Ver o passo

    Três: vēnerant (mais-que-perfeito, 3ª pl.), stābat (imperfeito, 3ª sing.) e intulit (perfeito, 3ª sing., de īnferō). Compulsī e incitātus são particípios, não verbos conjugados. Logo, há três orações, mais uma quarta com o verbo subentendido (longē īnferior agnus [stābat]).

  2. Qual é o sujeito de vēnerant, e por que o verbo está no plural?
    Ver o passo

    Lupus et agnus, dois sujeitos singulares unidos por et, levam o verbo ao plural (capítulo 22). Ad rīvum eundem é a direção: "ao mesmo riacho".

  3. Com que concorda compulsī, e que caso é sitī?
    Ver o passo

    Compulsī é nominativo plural masculino: concorda com lupus et agnus, o sujeito composto. Sitī é ablativo de sitis (tema em -i), de causa: "levados pela sede".

  4. Como se lê Superior stābat lupus, longēque īnferior agnus?
    Ver o passo

    Duas orações em paralelo, a segunda sem verbo: "O lobo estava mais acima, e o cordeiro (estava) bem mais abaixo". Superior e īnferior são comparativos usados como predicativos; longē intensifica o comparativo.

  5. Desfaça a ordem de Tunc fauce improbā latrō incitātus iūrgiī causam intulit.
    Ver o passo

    Sujeito: latrō. Particípio que concorda com ele: incitātus. Ablativo que acompanha o particípio: fauce improbā (causa). Objeto: causam, com o genitivo iūrgiī. Prosa: Tunc latrō, fauce improbā incitātus, causam iūrgiī intulit.

  6. Monte a tradução.
    Ver o passo

    "Ao mesmo riacho tinham chegado um lobo e um cordeiro, levados pela sede. O lobo estava mais acima, e o cordeiro bem mais abaixo. Então o bandido, instigado pela goela insaciável, apresentou um motivo de briga."

Prática guiada 2 · A primeira defesa (vv. 6–8)

Traduza a fala do cordeiro: Lāniger contrā timēns: "Quī possum, quaesō, facere quod quereris, lupe? Ā tē dēcurrit ad meōs haustūs liquor."

  1. Há um verbo na frase introdutória Lāniger contrā timēns?
    Ver o passo

    Não há verbo conjugado. Lāniger (o lanígero, o cordeiro) é o sujeito; timēns é particípio presente que concorda com ele ("com medo"); contrā é advérbio. O verbo de dizer fica subentendido: "O cordeiro, com medo, (respondeu):".

  2. Que palavra é quī, e qual é o objeto de facere?
    Ver o passo

    Quī é o advérbio interrogativo "como?". O objeto de facere é a oração relativa quod quereris, "aquilo de que você se queixa": quod não tem antecedente expresso. Quaesō ("por favor") e lupe (vocativo) estão intercalados.

  3. Que forma é quereris?
    Ver o passo

    Presente do indicativo, 2ª pessoa do singular, do depoente queror, querī, questus sum: forma passiva (-ris), sentido ativo, "você se queixa".

  4. Qual é o sujeito de dēcurrit?
    Ver o passo

    Liquor, a última palavra do verso. Ā tē é a origem ("de você"), ad meōs haustūs o destino ("até o lugar onde eu bebo"). O sujeito no fim dá ao argumento a forma de uma demonstração.

  5. Monte a tradução.
    Ver o passo

    "O lanudo, com medo, respondeu: Como posso, por favor, fazer isso de que você se queixa, lobo? É de você que a água desce até onde eu bebo."

Conclusão: numa fala, comece pelas palavras intercaladas (inquit, quaesō, vocativos) e retire-as; o que sobra é uma frase comum.

Exercícios independentes ⚑

Faça por escrito ou em voz alta; abra "Ver resposta" só depois de tentar. A explicação da resposta faz parte da lição.

Exercício 1 · Compreensão

Responda em português, citando a palavra ou o verso latino que justifica a resposta.

  1. Por que o lobo e o cordeiro foram ao riacho?
    Ver resposta

    Por causa da sede: sitī compulsī (v. 2), "levados pela sede".

  2. Por que a primeira acusação do lobo é absurda?
    Ver resposta

    Porque o lobo está mais acima (superior, v. 2) e o cordeiro bem mais abaixo (longē īnferior, v. 3), e a água desce do lobo para o cordeiro (Ā tē dēcurrit ad meōs haustūs liquor, v. 8). A água passa primeiro pelo lobo e só depois chega ao cordeiro: o cordeiro não pode turvar a água que o lobo bebe.

  3. Como o cordeiro desfaz a segunda acusação?
    Ver resposta

    Dizendo que ainda não tinha nascido seis meses antes: Equidem nātus nōn eram (v. 11).

  4. O que o lobo faz quando a terceira acusação não pode ser refutada?
    Ver resposta

    Ele nem espera resposta: agarra e despedaça o cordeiro (correptum lacerat iniūstā nece, v. 13).

  5. A moral desta fábula é um promítio ou um epimítio? Por quê?
    Ver resposta

    Um epimítio, porque vem depois da história (vv. 14–15). Um promítio viria antes, como em 1.4: Āmittit meritō proprium quī aliēnum adpetit.

Exercício 2 · Morfologia

Analise cada forma (classe, tempo ou caso, pessoa ou número) e dê a entrada de dicionário.

  1. vēnerant
    Ver resposta

    Mais-que-perfeito do indicativo ativo, 3ª pl., de veniō, -īre, vēnī, ventum: "tinham chegado".

  2. intulit
    Ver resposta

    Perfeito do indicativo ativo, 3ª sing., de īnferō, īnferre, intulī, illātum: "apresentou". O perfeito vem de outra raiz (como em ferō, tulī).

  3. fēcistī
    Ver resposta

    Perfeito do indicativo ativo, 2ª sing., de faciō, -ere, fēcī, factum: "fizeste, tornaste".

  4. quereris
    Ver resposta

    Presente do indicativo, 2ª sing., do depoente queror, querī, questus sum: "queixas-te".

  5. scrīpta est
    Ver resposta

    Perfeito do indicativo passivo, 3ª sing., de scrībō, -ere, scrīpsī, scrīptum; o particípio está no feminino porque o sujeito é fābula: "foi escrita".

  6. correptum
    Ver resposta

    Particípio perfeito, acusativo singular masculino, de corripiō, -ere, corripuī, correptum: "agarrado". Refere-se ao cordeiro, subentendido.

  7. haustūs
    Ver resposta

    Acusativo plural de haustus, -ūs (m., 4ª declinação), regido por ad. Não é nominativo singular da 2ª: o ū longo e a preposição ad decidem.

  8. lupe
    Ver resposta

    Vocativo singular de lupus, -ī: o cordeiro se dirige ao lobo.

Exercício 3 · Sintaxe

Diga a função de cada expressão e justifique.

  1. mihi … bibentī (vv. 5–6)
    Ver resposta

    Dativo de referência: a pessoa afetada pela ação de turvar a água, "para mim, que estou bebendo". Bibentī é particípio presente no dativo, concordando com mihi.

  2. turbulentam (v. 5)
    Ver resposta

    Predicativo do objeto aquam: com facere, "tornar a água turva". Não é atributo ("a água turva"), porque a água só fica turva por efeito da ação.

  3. vēritātis vīribus (v. 9)
    Ver resposta

    Vīribus: ablativo de meio com o particípio passivo repulsus ("rebatido pela força"); vēritātis: genitivo que o determina ("da verdade").

  4. quod quereris (v. 7)
    Ver resposta

    Oração relativa sem antecedente expresso, que funciona como objeto direto de facere: "(aquilo) de que você se queixa".

  5. propter illōs … hominēs (v. 14)
    Ver resposta

    Adjunto adverbial de causa: preposição propter com acusativo, separada do seu nome pelo hipérbato.

  6. quī (v. 15)
    Ver resposta

    Pronome relativo, nominativo plural masculino, sujeito de opprimunt; concorda em gênero e número com o antecedente hominēs, mas está no nominativo pela função na sua oração.

Exercício 4 · Do verso à prosa

Reescreva na ordem da prosa (sujeito, complementos, verbo; nome junto do adjetivo) e traduza.

  1. Ā tē dēcurrit ad meōs haustūs liquor.
    Ver resposta

    Liquor ā tē ad meōs haustūs dēcurrit. "A água desce de você até onde eu bebo."

  2. Pater hercle tuus male dīxit mihi.
    Ver resposta

    Pater tuus mihi male dīxit (sem a interjeição). "Seu pai falou mal de mim."

  3. Haec propter illōs scrīpta est hominēs fābula.
    Ver resposta

    Haec fābula propter illōs hominēs scrīpta est. "Esta fábula foi escrita por causa daqueles homens."

  4. Tunc fauce improbā latrō incitātus iūrgiī causam intulit.
    Ver resposta

    Tunc latrō, fauce improbā incitātus, causam iūrgiī intulit. "Então o bandido, instigado pela goela insaciável, apresentou um motivo de briga."

Exercício 5 · A passiva do perfectum

Passe para a passiva do perfectum, mantendo o tempo, e traduza. O agente vai para ā/ab + ablativo.

  1. Phaedrus fābulam scrīpsit.
    Ver resposta

    Fābula ā Phaedrō scrīpta est. "A fábula foi escrita por Fedro." O particípio vai para o feminino, como fābula.

  2. Lupus agnum corripuit.
    Ver resposta

    Agnus ā lupō correptus est. "O cordeiro foi agarrado pelo lobo."

  3. Sitis lupum et agnum compulerat. (compulerat: mais-que-perfeito)
    Ver resposta

    Lupus et agnus sitī compulsī erant. "O lobo e o cordeiro tinham sido levados pela sede." A sede é coisa, não pessoa: por isso o ablativo vai sem ā (meio ou causa), como no verso 2; o particípio vai para o plural porque o sujeito é composto.

  4. Vēritās lupum reppulit.
    Ver resposta

    Lupus vēritāte repulsus est. "O lobo foi rebatido pela verdade." De novo, coisa: ablativo sem preposição.

Exercício 6 · Traduza para o latim

Use o vocabulário da fábula.

  1. O cordeiro tinha chegado ao riacho.
    Ver resposta

    Agnus ad rīvum vēnerat. Mais-que-perfeito, como em vēnerant, no singular.

  2. O lobo, levado pela fome, procura um pretexto.
    Ver resposta

    Lupus, famē compulsus, causam quaerit. (famēs, -is, fome, com ablativo irregular famē, Bennett § 59.2.b; quaerō, procurar.) Compulsus concorda com lupus; famē é ablativo de causa, como sitī.

  3. Esta fábula foi escrita para os homens inocentes.
    Ver resposta

    Haec fābula propter hominēs innocentēs scrīpta est, ou, com outra nuance, Haec fābula hominibus innocentibus scrīpta est (dativo: "para os inocentes"). Nas duas, scrīpta est concorda com fābula.

Leituras recomendadas

Continue em Fedro (no catálogo, edição de Mueller no Perseus, com análise de cada palavra a um clique): leia em seguida 1.4 (o cão e o reflexo), que é curtíssima e tem promítio, e depois as outras fábulas do livro I, sempre identificando a moral e os particípios. As Fabulae virginibus puerisque, de Appleton, trazem historietas e fábulas em latim mais fácil e macronizado, boas para ganhar velocidade. A The Latin Library tem o texto dos cinco livros de Fedro em páginas simples. Use o Logeion para as palavras que não estão no glossário deste capítulo. Na gramática do Pe. Ravizza, o n. 536 mostra o senário de Fedro escandido; em Bennett, o § 370 descreve o verso, e os §§ 348–350 a ordem das palavras.

Etapa IV · Ad FontesDificuldade 3 · IntermediárioOriginalCom notasTexto na biblioteca

Fabulae Aesopiae

Phaedrus

As fábulas de Fedro (o lobo e o cordeiro, a raposa e as uvas, a rã e o boi), poemas curtíssimos em senários iâmbicos. Sem notas, com análise de palavras ao clique. Verso simples e histórias conhecidas: a primeira poesia autêntica para muitos estudantes.

Fábula · Pós-clássico · algumas semanas · Perseus Digital Library

Ler aqui: texto latino da edição de Lucian Mueller (1876)

Etapa II · Primae FabulaeDificuldade 2 · BásicoDidático

Fabulae, virginibus puerisque aut narrandae aut recitandae

R. B. Appleton

Historietas e fábulas curtas para contar ou recitar (1914), em latim macronizado pelo método direto, com índice de palavras em latim. Boa leitura paralela ao Puer Romanus.

Leitor graduado · Moderno (material didático) · algumas semanas · Project Gutenberg

Ler na fonte ↗EPUB na fonte ↗
Etapa IV · Ad FontesOriginal

The Latin Library

William L. Carey (mantenedor)

Enorme coleção de textos latinos em HTML simples, dos clássicos ao neolatim e ao latim cristão, sem notas. Sem licença explícita: use para consulta e leitura; os textos não são redistribuíveis a partir dali.

Ferramenta · Moderno (material didático) · consulta · The Latin Library

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Etapa II · Primae FabulaeDidático

Logeion

Universidade de Chicago

Busca simultânea em vários dicionários latinos, incluindo o Lewis & Short, o Elementary Latin Dictionary e o Du Cange (latim medieval). Gratuito, rápido e com aplicativo para celular.

Dicionário · Moderno (material didático) · consulta · Logeion

Abrir na fonte ↗
Etapa I · Prima VerbaDidáticoCom notas

Gramática Latina

Pe. João Ravizza

Gramática latina completa em português, usada por gerações nas escolas brasileiras, com um compêndio de história da literatura latina. Nona edição (1940), em domínio público (autor falecido em 1941). Fac-símile em PDF no Internet Archive.

Gramática · Moderno (material didático) · consulta · Internet Archive

Ler na fonte ↗PDF na fonte ↗
Etapa II · Primae FabulaeDidático

New Latin Grammar

Charles E. Bennett

Gramática de referência compacta (1918), em inglês, com macrons: sons, flexões, sintaxe, prosódia. Mais curta e mais fácil de consultar que Allen & Greenough; cabe num leitor de EPUB.

Gramática · Moderno (material didático) · consulta · Project Gutenberg

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Créditos e fontes

Autoria
Bibliotheca Latina. Conteúdo original com trechos de obras em domínio público; licença CC BY 4.0.
Fontes consultadas
  • Phaedrus, Fabulae Aesopiae, ed. L. Mueller (Leipzig: Teubner, 1876), Fedro (no catálogo) · domínio público · texto de 1.1 (Lupus et agnus), 1.4.1 (promítio), prólogo do livro I e prólogo do livro III, v. 17 (Pierio … iugo) conferidos no Perseus, que reproduz a edição de Mueller; 1.1 conferido também na The Latin Library (texto idêntico nas palavras); ortografia mantida, macrons e aspas acrescentados
  • Phaedrus, Fabulae, liber I (The Latin Library), Fedro · domínio público · prólogo do livro I, vv. 1–2 (Aesopus auctor quam materiam repperit, / hanc ego polivi versibus senariis), conferido nesta página e no TEI da Perseus (PerseusDL canonical-latinLit, phi0975.phi001, ed. Mueller): mesmas palavras
  • New Latin Grammar, Charles E. Bennett (no catálogo) · domínio público · § 102 (passiva de amō: amātus sum, amātus eram), § 113 (paradigmas de depoentes), § 188.1 (dativo de referência), § 219 (ablativo de causa), § 250.1 (concordância do relativo), § 251.4.a (antecedente incorporado na relativa que vem primeiro: quam … māteriam … hanc), § 259.3 (presente histórico), § 263 (mais-que-perfeito), §§ 348–349 (ordem normal e ênfase), § 350.11.a (hipérbato), §§ 366.2 e 366.8 (pés, cesura), § 370.1–2 (trímetro iâmbico ou senário)
  • Allen and Greenough's New Latin Grammar, J. H. Allen e J. B. Greenough (no catálogo) · domínio público · § 305 (o relativo concorda em gênero e número; o caso vem da sua oração), § 307.b (antecedente só dentro da relativa), §§ 376–377 (dativo de referência), § 404 (ablativo de causa), § 469 (presente histórico), § 477 (mais-que-perfeito), §§ 597–598 (ordem das palavras; 598.h, ordem entrelaçada nos poetas), § 599.c (inquit sempre intercalado)
  • Kennedy's Revised Latin Primer, Benjamin Hall Kennedy (no catálogo) · domínio público · § 195 (concordância do relativo), § 479 (trímetro iâmbico ou senário: seis pés, espondeu nos ímpares, tribráquio)
  • Gramática Latina, Pe. João Ravizza (no catálogo) · domínio público · n. 175 (concordância do pronome relativo), n. 408 (presente, inclusive o presente histórico), n. 536 (o verso jâmbico; o senário "tais são os versos das fábulas de Fedro", com o prólogo do livro I como exemplo)
Para ir além
Fabulae Aesopiae, Fabulae, virginibus puerisque aut narrandae aut recitandae, The Latin Library, Logeion, Gramática Latina, New Latin Grammar (ver Leituras recomendadas acima).