Leitura comentada de um episódio inteiro do Evangelho de Marcos na Vulgata Clementina, a tempestade acalmada (Mc 4,35–40): São Jerônimo e a história da Bíblia latina, o texto com tradução própria, vocabulário e notas versículo a versículo, análise palavra a palavra, o período com ita ut, e os traços do latim cristão estudados no capítulo 50 vistos em ação, com uma nota sobre as diferenças da Nova Vulgata.
Neste capítulo você vai
Situar a Vulgata na história da Bíblia latina (versões antigas, São Jerônimo, Vulgata Clementina, Nova Vulgata).
Ler e traduzir Marcos 4,35–40, explicando cada forma verbal e cada construção.
Reconhecer no texto os traços do latim cristão do capítulo 50: parataxe, quia, ad + acusativo, ablativo de mesma raiz.
Identificar o presente histórico e traduzi-lo de modo natural.
Analisar palavra a palavra um versículo e explicar a estrutura de um período com ita ut.
VulgataSão JerônimoVetus LatinaVulgata Clementina e Nova VulgataEvangelho de MarcosMarcos 4,35–40presente históricoparataxequia declarativo e explicativoita ut consecutivocum com subjuntivo (antecipação)subjuntivo exortativodepoente comminor com dativoimperativoquid = por quêablativo de mesma raiz (timuērunt timōre)ad alterutrumleitura comentadaanálise de frase autêntica
Antes deste capítulo: Capítulo 13 (o perfeito e as partes principais: o texto narra no passado, com perfeitos como cessāvit e timuērunt) e capítulo 50 (o que muda no latim cristão: o leitor vai reconhecer aqui quia, ad + acusativo, a parataxe). Algumas construções da Parte III aparecem no texto (o particípio, o subjuntivo depois de cum e de ita ut, o perfeito dos depoentes); as notas as explicam e indicam o capítulo próprio. · capítulo 13 · capítulo 50
Os primeiros cristãos do Ocidente leram a Bíblia em grego, a língua do Novo Testamento e da tradução judaica do Antigo feita em Alexandria. Mas nas províncias latinas, e entre o povo, o grego era pouco conhecido, e já no século II circulavam traduções latinas parciais, feitas por anônimos num latim popular e muito literal. Hoje são chamadas, em conjunto, de Vetus Latina ("a antiga latina"). O Pe. Ravizza conta essa história na sua Gramática e observa que o nome vulgāta ("divulgada, comum") se aplicava primeiro a esses textos antigos e só depois passou à tradução de Jerônimo (n. 512, itens 1–2 e nota 2).
Jerônimo (c. 340–420), que Bennett inclui entre os autores representativos do latim tardio (Introdução, § 3.f), recebeu em 383 do papa Dâmaso o encargo de revisar a Bíblia latina. Nos Evangelhos ele não traduziu do zero: corrigiu as versões antigas à luz do grego, para torná-las mais exatas e menos ásperas aos ouvidos cultos. O Antigo Testamento, ao contrário, ele o traduziu em grande parte do hebraico, que aprendeu na Palestina (Ravizza n. 512, nota 1). Ravizza insiste num ponto: Jerônimo eliminou muitos barbarismos de flexão, mas manteve deliberadamente o tom popular, porque o Evangelho não era "privilégio de raça ou de academia" (n. 512, item 5). O texto que você vai ler é, portanto, latim correto na morfologia e popular na sintaxe e no estilo.
Ao longo da Idade Média a Vulgata foi copiada à mão em milhares de manuscritos, com variantes. A edição oficial da Igreja Católica, promulgada pelo papa Clemente VIII em 1592, é a Vulgata Clementina, usada até 1979, quando foi substituída pela Nova Vulgata, uma revisão feita sobre os textos gregos e hebraicos modernos. Este livro lê a Clementina, que é de domínio público e está transcrita na Wikisource latina; a seção 6 mostra as pequenas diferenças da Nova Vulgata neste trecho.
O Evangelho de Marcos é o mais curto dos quatro e o de narração mais viva: frases curtas ligadas por "e", verbos no presente no meio de um relato no passado, pormenores concretos (a almofada na popa, os outros barcos). O episódio escolhido, a tempestade acalmada (Mc 4,35–40), tem começo, meio e fim em seis versículos e reúne quase todos os traços do latim cristão do capítulo 50.
O texto vem abaixo versículo a versículo, com o latim de um lado e a tradução do outro. Leia primeiro só o latim, em voz alta (na pronúncia eclesiástica do capítulo 1, se preferir), cobrindo a tradução e tentando seguir a ação; use as notas da seção 3 quando travar; só então confira a tradução.
35 Et ait illīs in illā diē, cum sērō esset factum: Trānseāmus contrā.
E naquele dia, quando já anoitecia, disse-lhes: "Passemos para a outra margem."
36 Et dīmittentēs turbam, assūmunt eum ita ut erat in nāvī; et aliae nāvēs erant cum illō.
E eles, deixando a multidão, levam-no assim como estava, no barco; e havia outros barcos com ele.
37 Et facta est procella magna ventī, et flūctus mittēbat in nāvim, ita ut implērētur nāvis.
E levantou-se uma grande tempestade de vento, e as ondas se lançavam para dentro do barco, de modo que o barco se enchia.
38 Et erat ipse in puppī super cervīcal dormiēns; et excitant eum, et dīcunt illī: Magister, nōn ad tē pertinet, quia perīmus?
E ele estava na popa, dormindo sobre uma almofada. E acordam-no e lhe dizem: "Mestre, não te importa que estejamos perecendo?"
39 Et exsurgēns comminātus est ventō, et dīxit marī: Tacē, obmūtēsce. Et cessāvit ventus, et facta est tranquillitās magna.
E ele, levantando-se, repreendeu o vento e disse ao mar: "Cala-te, emudece!" E o vento parou, e fez-se uma grande calmaria.
40 Et ait illīs: Quid timidī estis? necdum habētis fidem? Et timuērunt timōre magnō, et dīcēbant ad alterutrum: Quis, putās, est iste, quia et ventus et mare obēdiunt eī?
E disse-lhes: "Por que sois tão medrosos? Ainda não tendes fé?" E eles tiveram um grande medo e diziam uns aos outros: "Quem é este, afinal, que até o vento e o mar lhe obedecem?"
Fonte: Vulgata Clementina, Marcos 4,35–40, no texto da Wikisource latina, com ortografia adaptada (ae por æ, i por j) e macrons acrescentados. A tradução é deste livro.
A tradução procura mostrar a construção latina sem ficar ilegível. Duas escolhas merecem explicação. Os presentes assūmunt, excitant, dīcunt foram mantidos no presente ("levam-no", "acordam-no"), como no latim e no grego de Marcos; em português eles soam tão vivos quanto no original (seção 4). E timuērunt timōre magnō, literalmente "temeram com grande temor", virou "tiveram um grande medo", porque a repetição, natural em hebraico e em grego bíblico, pesa em português. (O grego de Marcos tem aqui o acusativo, ephobḗthēsan phóbon mégan; o tradutor latino preferiu o ablativo.)
Marcos 4,35–40: vocabulário e notas, versículo a versículo
Versículo
Palavra ou expressão
Nota
35
ait
de aiō, verbo defectivo, "dizer"; ait é presente, mas faz as vezes de perfeito ("diz", "disse"; L&S, s.v. aiō). Aqui, "disse".
35
in illā diē
diēs, em geral masculino, aparece às vezes no feminino singular, sobretudo para um tempo marcado (A&G § 97.a): "naquele dia". Illā ainda é demonstrativo pleno.
35
cum sērō esset factum
sērō, advérbio, "tarde"; factum esset, mais-que-perfeito do subjuntivo de fīō, "tinha-se feito". Cum + subjuntivo descreve a circunstância (capítulo 34): "quando já se fazia tarde".
35
Trānseāmus contrā
trānseō, -īre, atravessar (composto de eō, capítulo 26); trānseāmus, presente do subjuntivo, 1ª pl.: exortativo, "passemos" (capítulo 32). Contrā, advérbio: "para o lado oposto".
36
dīmittentēs turbam
dīmittō, -ere, despedir, deixar ir; dīmittentēs, particípio presente, nominativo plural (capítulo 29): "deixando". O sujeito são os discípulos, implícitos.
36
assūmunt eum ita ut erat in nāvī
assūmō, -ere, tomar consigo; presente histórico. Ita ut erat, "assim como estava": aqui ut com indicativo é comparativo, não consecutivo. Nāvis, -is (f.), barco, tema em -i: ablativo nāvī (capítulo 10).
37
facta est procella magna ventī
facta est, perfeito de fīō, "fez-se, surgiu" (capítulos 24 e 26); procella, -ae, tempestade; ventī, genitivo: "tempestade de vento".
37
flūctus mittēbat in nāvim
flūctus, -ūs (m., 4ª decl.), onda; mittēbat, imperfeito, "lançava(-se)". Flūctus pode ser nominativo singular ("a vaga", sentido coletivo) ou plural ("as ondas") com o verbo no singular, decalque do grego de Marcos, que tem ta kýmata epéballen, sujeito neutro plural com verbo no singular, construção normal em grego. A seção 6 volta ao ponto. In nāvim, in + acusativo (movimento), com o acusativo em -im dos temas em -i.
37
ita ut implērētur nāvis
impleō, -ēre, encher; implērētur, imperfeito do subjuntivo passivo: "de modo que o barco se enchia". Oração consecutiva (capítulo 33).
38
in puppī super cervīcal
puppis, -is (f.), popa, ablativo em -ī; cervīcal, -ālis (n.), travesseiro, almofada (de cervīx, nuca); super + acusativo, "sobre".
38
excitant… dīcunt
presentes históricos: "acordam… dizem".
38
nōn ad tē pertinet, quia perīmus?
pertineō ad, dizer respeito a, importar a. Quia declarativo (capítulo 50): "que". Perīmus, presente de pereō, "perecer": "estamos perecendo".
39
exsurgēns comminātus est ventō
exsurgō, -ere, levantar-se; particípio presente. Comminor, -ārī, comminātus sum, depoente, "ameaçar, repreender" (capítulo 25), com dativo, como os verbos de ameaçar (Bennett § 187.II.a).
39
Tacē, obmūtēsce
imperativos de taceō, -ēre, calar-se, e obmūtēscō, -ere, emudecer (capítulo 22).
39
tranquillitās, -ātis
(f.) calmaria, bonança.
40
Quid timidī estis?
quid, acusativo neutro usado como advérbio: "por quê?" (Bennett § 176.3.a); timidus, medroso.
40
necdum
"e ainda não", "ainda não".
40
timuērunt timōre magnō
verbo e substantivo da mesma raiz, um torneio bíblico; ver seção 6.
40
ad alterutrum
"uns aos outros"; ad + acusativo no lugar do dativo (capítulo 50).
40
Quis, putās, est iste
putās, "pensas tu", intercalado na pergunta, como o nosso "afinal", "será". Iste: "este (homem)".
40
quia… obēdiunt eī
quia: "visto que, já que", explicando a pergunta. Obēdiō, -īre (de ob + audiō), obedecer, com dativo (eī, "a ele").
O versículo 35 abre com Et, como quase todos os outros. Esse "e" inicial é a marca mais visível da parataxe do capítulo 50: Marcos não diz "então", "depois", "como", mas encadeia as ações com et, e o leitor deve dar a cada um o valor que o sentido pede ("e", "então", "mas"). Num texto clássico, as três primeiras frases provavelmente seriam um único período com orações subordinadas; aqui são frases coordenadas, curtas, fáceis de seguir.
Dentro desse estilo simples aparecem construções que você viu (ou verá) na Parte III. Cum sērō esset factum é um cum com subjuntivo, que descreve as circunstâncias em que algo acontece (Bennett § 288.1.B; A&G § 546; capítulo 34). Trānseāmus é o subjuntivo exortativo de 1ª pessoa do plural, "passemos" (Bennett § 274; A&G § 439; capítulo 32). Dīmittentēs é um particípio presente que concorda com o sujeito implícito de assūmunt, "eles" (capítulo 29). Nenhuma dessas construções é exclusiva do latim cristão: são clássicas, usadas com sobriedade.
O presente histórico
Em assūmunt eum o tempo muda de repente: a narração vinha no passado (ait) e passa ao presente. É o presente histórico, usado "na narração viva" para pôr a cena diante dos olhos (Bennett § 259.3; A&G § 469). César também o usa; Marcos, imitando o próprio grego, abusa dele. Em português o recurso existe e funciona do mesmo jeito ("e aí eles levam Jesus no barco"); você pode mantê-lo, como fez a tradução, ou passar tudo ao passado. O que não pode é traduzir assūmunt como uma ação diferente, no presente real.
Um período com ita ut
O versículo 37 é o mais "clássico" do trecho, porque termina numa oração consecutiva: ita ut implērētur nāvis, "de modo que o barco se enchia". Ut + subjuntivo, anunciado por ita, indica a consequência (Bennett § 284; A&G § 537; capítulo 33). O imperfeito implērētur mostra a ação em curso: o barco estava se enchendo, ainda não estava cheio. Compare com ita ut erat no versículo 36: ali ut tem indicativo e significa "como"; quem decide entre "como" e "de modo que" é o modo do verbo.
Marcos 4,37: Et facta est procella magna ventī, et flūctus mittēbat in nāvim, ita ut implērētur nāvis. Duas orações coordenadas (parataxe) e, no fim, uma subordinada consecutiva que depende da segunda.
Análise gramatical: o grito dos discípulos (v. 38) ⚑
O versículo 38 junta descrição (Jesus dorme), ação (acordam-no) e fala direta. É o centro do episódio e um bom exercício de leitura em ordem: cada palavra cria uma expectativa que a seguinte resolve.
Marcos 4,38, palavra a palavra
Palavra
Dicionário
Análise
Função
Et
et (conjunção)
invariável
liga ao versículo anterior (parataxe)
erat
sum, esse, fuī
imperfeito do indicativo, 3ª sing.
verbo da 1ª oração: "estava" (descrição de fundo)
ipse
ipse, ipsa, ipsum
nominativo masculino singular
sujeito: "ele" (Jesus), com ênfase: enquanto os outros lutam, ele dorme
in puppī
in + puppis, -is (f.), popa
ablativo singular em -ī (tema em -i)
lugar onde
super cervīcal
super + cervīcal, -ālis (n.), almofada
acusativo singular neutro (= nominativo)
lugar: "sobre a almofada"
dormiēns
dormiō, -īre, dormir
particípio presente, nominativo masc. sing.
concorda com ipse: "dormindo"
et excitant
excitō, -āre, acordar
presente do indicativo, 3ª pl.
presente histórico; sujeito implícito: os discípulos
eum
is, ea, id
acusativo masculino singular
objeto direto: "o" (Jesus)
et dīcunt
dīcō, -ere, dīxī
presente do indicativo, 3ª pl.
presente histórico: "dizem"
illī
ille, illa, illud
dativo singular
objeto indireto: "a ele", "lhe"
Magister
magister, -trī (m.), mestre
vocativo singular (igual ao nominativo)
vocativo, fora da oração
nōn… pertinet
pertineō, -ēre, dizer respeito
presente do indicativo, 3ª sing.
verbo da pergunta; o sujeito é a oração com quia
ad tē
ad + tū
acusativo
pertinēre ad: "importar a ti"
quia
quia (conjunção)
invariável
introduz o conteúdo, "que" (capítulo 50)
perīmus
pereō, -īre, periī, perecer
presente do indicativo, 1ª pl.
"estamos perecendo"; no indicativo, como em português
O ponto que exige atenção é quia. Num texto clássico, depois de "não te importa", você esperaria "porque" ou uma oração infinitiva (nōn ad tē pertinet nōs perīre?, com a oração infinitiva como sujeito). Aqui quia é declarativo, o "que" do capítulo 50, e a pergunta inteira é "não te importa que estejamos perecendo?". Traduzir "porque perecemos" daria um sentido torto: não é a causa da indiferença, é o seu objeto. Observe também como o latim pinta a cena com dois tempos: o imperfeito erat… dormiēns dá o fundo (o que durava) e os presentes históricos excitant, dīcunt trazem a ação para o primeiro plano.
Os versículos 39 e 40
Jesus responde com quatro verbos: exsurgēns (particípio), comminātus est (perfeito de um depoente: forma passiva, sentido ativo, capítulo 25), dīxit e as duas ordens Tacē, obmūtēsce. O vento e o mar estão no dativo, ventō e marī: o primeiro porque comminor, como os verbos de ameaçar, pede dativo (Bennett § 187.II.a); o segundo porque é a quem se diz algo. A resposta da natureza vem em duas orações curtas e simétricas, cessāvit ventus e facta est tranquillitās magna, que fazem eco ao facta est procella magna do versículo 37: a "grande tempestade" e a "grande calmaria" se respondem.
No versículo 40, Quid timidī estis? começa com o quid adverbial, "por quê?" (Bennett § 176.3.a), e não "o quê?". A reação dos discípulos, timuērunt timōre magnō, repete a raiz do verbo no substantivo. O latim clássico conhece algo parecido no acusativo, vītam dūram vīxī, "vivi uma vida dura" (o acusativo de mesma raiz, Bennett § 176.4); o ablativo com adjetivo, aqui, reflete o estilo bíblico, que gosta dessas repetições enfáticas. A última frase tem o intercalado putās ("pensas tu") e um segundo quia, agora explicativo: "quem é este, já que até o vento e o mar lhe obedecem?" (obēdiō, também com dativo, Bennett § 187.II.a).
Faça agora o balanço. Em seis versículos você encontrou quase todos os traços do latim cristão descritos no capítulo 50, e nenhum deles impediu a leitura:
Parataxe: dezessete et ligam frases curtas, sem conjunções subordinativas de tempo ou de causa entre elas.
Quia em dois usos: declarativo depois de nōn ad tē pertinet (v. 38, "que") e explicativo na pergunta final (v. 40, "já que").
Preposição no lugar de caso: dīcēbant ad alterutrum (v. 40), onde o clássico diria inter sē.
Torneio bíblico: timuērunt timōre magnō, verbo e substantivo da mesma raiz.
Presente histórico e imperfeito descritivo alternando com o perfeito narrativo: um traço do estilo de Marcos, mais do que do latim cristão.
Morfologia clássica: subjuntivos (esset, trānseāmus, implērētur), particípios, um depoente, imperativos, temas em -i (nāvim, nāvī, puppī). Nada que um leitor de Cícero estranhe.
Clementina e Nova Vulgata
A Nova Vulgata (1979) revisou o texto à luz do grego e retocou alguns pontos de gramática. Neste trecho as diferenças são pequenas e instrutivas:
Marcos 4,35–41: Vulgata Clementina e Nova Vulgata
Vulgata Clementina
Nova Vulgata
Comentário
in illā diē
illā diē
ablativo de tempo sem preposição, mais clássico
Et facta est procella magna ventī
Et exoritur procella magna ventī
presente histórico (exorior, levantar-se), como o grego
flūctus mittēbat in nāvim
flūctus sē mittēbant in nāvem
plural explícito e reflexivo: "as ondas se lançavam"; acusativo nāvem
assūmunt eum ita ut erat
assūmunt eum, ut erat
só ut comparativo, sem ita
ita ut implērētur
ita ut iam implērētur
iam: "já se enchia"
super cervīcal; dīcunt illī
suprā cervīcal; dīcunt eī
pequenas trocas de preposição e de pronome
timuērunt timōre magnō
timuērunt magnō timōre
só a ordem das palavras
obēdiunt
oboediunt
grafia mais próxima da clássica (oboediō)
versículo 40 (único)
versículos 40 e 41
numeração moderna
A comparação mostra também como resolver a dúvida do versículo 37: a Nova Vulgata entende flūctus como plural e põe o verbo no plural (mittēbant), com o reflexivo sē; a Clementina, com mittēbat no singular, admite duas leituras: flūctus singular coletivo ("a vaga") ou plural com verbo no singular, que reproduz o grego ta kýmata epéballen (neutro plural com verbo no singular). O sentido não muda: a água entrava no barco.
Para continuar lendo Marcos: o capítulo 4 começa com a parábola do semeador (4,1–20), cheia de presentes, imperativos e orações relativas; o capítulo 5 traz a cura da filha de Jairo (5,21–43), com a frase aramaica Talitha cumi. Leia um episódio por vez, com o dicionário e sem pressa; depois de três ou quatro, o vocabulário começa a se repetir.
Erro: Traduzir quia perīmus por "porque perecemos".
Por quê, e como evitar: Depois de nōn ad tē pertinet, "não te importa", quia introduz aquilo que importa ou não: é o "que" declarativo do latim cristão. "Não te importa que estejamos perecendo?" A pergunta-teste do capítulo 50 resolve: a oração responde a "o quê?", não a "por quê?".
Erro: Corrigir os presentes históricos para o perfeito sem perceber que são presentes, ou traduzi-los como ações atuais.
Por quê, e como evitar:Assūmunt, excitant, dīcunt são presentes do indicativo usados para narrar o passado (Bennett § 259.3). Mantenha o presente ("acordam-no") ou passe ao passado ("acordaram-no"), mas trate-os como parte da narração.
Erro: Ler Quid timidī estis? como "o que sois, medrosos?".
Por quê, e como evitar:Quid no início de uma pergunta com esse e adjetivo é o acusativo adverbial "por quê?" (Bennett § 176.3.a). "Por que sois medrosos?"
Erro: Tomar ventō e marī por ablativos ("com o vento", "no mar").
Por quê, e como evitar:Comminor (ameaçar, repreender) e dīcō pedem dativo: o vento é repreendido, ao mar é dito. As formas em -ō (2ª decl.) e em -ī (3ª decl., tema em -i) são ambíguas entre dativo e ablativo; decida pelo verbo.
Erro: Ler comminātus est como passiva ("foi ameaçado").
Por quê, e como evitar:Comminor é depoente: forma passiva, sentido ativo (capítulo 25). Comminātus est ventō = "repreendeu o vento". O dicionário avisa: comminor, -ārī, comminātus sum, sem forma ativa.
Erro: Confundir os dois ut de ita ut erat (v. 36) e ita ut implērētur (v. 37).
Por quê, e como evitar: Com indicativo, ut é comparativo, "como": "assim como estava". Com subjuntivo depois de ita, é consecutivo, "de modo que": "de modo que o barco se enchia". O modo do verbo decide.
Resolvida passo a passo: leia a pergunta, tente responder e só então abra cada passo.
Prática guiada 1 · A pergunta final (v. 40)
Analise e traduza: Quis, putās, est iste, quia et ventus et mare obēdiunt eī? Vocabulário: putō, -āre, pensar, julgar; obēdiō, -īre, obedecer.
Onde está o verbo principal da pergunta, e qual é o sujeito?Ver o passo
Est; sujeito iste, "este (homem)", e predicativo o interrogativo quis: "quem é este?".
O que faz putās no meio da frase?Ver o passo
É um verbo intercalado, 2ª sing. do presente de putō: "pensas tu?", "achas?". Não tem função sintática na pergunta; dá o tom de espanto, como o português "quem será este, afinal?".
Como entender et… et?Ver o passo
A dupla et… et vale "tanto… quanto", "até… e…": "tanto o vento quanto o mar".
Que caso é eī, e por quê?Ver o passo
Dativo singular de is, "a ele". Obēdiō (de ob + audiō, literalmente "dar ouvidos a") pede dativo, como os verbos de obedecer em geral (Bennett § 187.II.a).
E quia: "que" ou "porque"?Ver o passo
Aqui quia explica o espanto, não completa um verbo de dizer ou saber: "já que", "visto que". A tradução natural em português usa "que" relativo-explicativo: "Quem é este, que até o vento e o mar lhe obedecem?"
Conclusão: a pergunta final repete o motivo do episódio. O mesmo vento e o mesmo mar dos versículos 37 e 39 são agora sujeito de obēdiunt: o que era ameaça virou obediência.
Prática guiada 2 · O começo do episódio (vv. 35–36)
Analise em ordem: Et ait illīs in illā diē, cum sērō esset factum: Trānseāmus contrā. Et dīmittentēs turbam, assūmunt eum ita ut erat in nāvī.
Quem fala e a quem?Ver o passo
Ait, "disse", 3ª sing.: Jesus, sujeito implícito retomado do contexto. Illīs, dativo plural de ille: "a eles", os discípulos.
Que informação dá cum sērō esset factum?Ver o passo
A circunstância de tempo: "quando se fizera tarde", "quando já anoitecia". Cum + mais-que-perfeito do subjuntivo (capítulo 34): a ação concluída que serve de fundo.
Que forma é Trānseāmus, e por que não é indicativo?Ver o passo
Presente do subjuntivo de trānseō (o indicativo seria trānsīmus), 1ª pl.: exortativo, "passemos" (capítulo 32). É um convite, não uma constatação.
Quem é o sujeito de dīmittentēs e assūmunt?Ver o passo
Os discípulos, não expressos. Dīmittentēs (particípio presente, nominativo plural) concorda com o sujeito de assūmunt (3ª pl.): "eles, deixando a multidão, levam-no".
Monte a tradução.Ver o passo
"E naquele dia, quando já anoitecia, disse-lhes: Passemos para a outra margem. E eles, deixando a multidão, levam-no assim como estava, no barco."
Faça por escrito ou em voz alta; abra "Ver resposta" só depois de tentar. A explicação da resposta faz parte da lição.
Exercício 1 · Compreensão
Responda em português, apoiando cada resposta numa palavra ou expressão latina do texto.
A que horas do dia começa o episódio?Ver resposta
Ao entardecer: cum sērō esset factum, "quando já se fazia tarde" (v. 35).
Jesus estava sozinho no lago?Ver resposta
Não: aliae nāvēs erant cum illō, "havia outros barcos com ele" (v. 36).
O que fazia Jesus durante a tempestade, e onde?Ver resposta
Dormia na popa, sobre uma almofada: erat ipse in puppī super cervīcal dormiēns (v. 38).
De que os discípulos acusam Jesus?Ver resposta
De indiferença: nōn ad tē pertinet, quia perīmus?, "não te importa que estejamos perecendo?" (v. 38).
Do que Jesus censura os discípulos?Ver resposta
Do medo e da falta de fé: Quid timidī estis? necdum habētis fidem? (v. 40).
Qual é a reação dos discípulos depois do milagre?Ver resposta
Medo maior e espanto: timuērunt timōre magnō, e perguntam Quis… est iste, "quem é este" (v. 40).
Exercício 2 · Morfologia
Identifique as formas (verbo de dicionário, tempo, modo, voz, pessoa e número; ou caso e número) e traduza.
assūmuntVer resposta
assūmō, -ere: presente do indicativo ativo, 3ª pl. (presente histórico). "Levam (consigo)".
implērēturVer resposta
impleō, -ēre: imperfeito do subjuntivo passivo, 3ª sing. (infinitivo implēre + -tur). "Se enchia, era enchido".
perīmusVer resposta
pereō, -īre: presente do indicativo, 1ª pl. (como īmus, de eō). "Perecemos, estamos perecendo".
comminātus estVer resposta
comminor, -ārī, depoente: perfeito do indicativo, 3ª sing., forma passiva com sentido ativo. "Repreendeu, ameaçou".
Tacē e obmūtēsceVer resposta
Imperativos presentes, 2ª sing., de taceō (2ª conj., ē longo) e obmūtēscō (3ª conj., e breve). "Cala-te", "emudece".
timuēruntVer resposta
timeō, -ēre, timuī: perfeito do indicativo, 3ª pl. "Temeram".
nāvim e nāvīVer resposta
nāvis, -is (f.), tema em -i: nāvim, acusativo singular (com in, movimento: "para dentro do barco"); nāvī, ablativo singular (com in, lugar: "no barco").
eīVer resposta
is, ea, id: dativo singular. "A ele", "lhe".
Exercício 3 · Sintaxe
Explique a construção destacada.
cum sērō esset factum (v. 35)Ver resposta
Cum + mais-que-perfeito do subjuntivo: oração temporal-circunstancial (Bennett § 288.1.B; capítulo 34). "Quando já se fizera tarde".
ita ut erat (v. 36) e ita ut implērētur (v. 37)Ver resposta
No primeiro, ut + indicativo é comparativo ("como"); no segundo, ita ut + subjuntivo é consecutivo ("de modo que", Bennett § 284).
comminātus est ventō (v. 39)Ver resposta
Dativo exigido por comminor, verbo de ameaçar (Bennett § 187.II.a).
nōn ad tē pertinet, quia perīmus? (v. 38)Ver resposta
Quia declarativo: introduz o conteúdo do que "importa", com indicativo. No latim clássico: oração infinitiva (nōs perīre).
dīcēbant ad alterutrum (v. 40)Ver resposta
Ad + acusativo no lugar do dativo (ou de inter sē): traço do latim cristão (capítulo 50).
timuērunt timōre magnō (v. 40)Ver resposta
Ablativo de um substantivo da mesma raiz do verbo, com adjetivo: torneio enfático do estilo bíblico, parente do acusativo de mesma raiz do latim clássico (Bennett § 176.4).
Exercício 4 · Traduza outro episódio: o batismo de Jesus (Mc 1,9–11)
Et factum est: in diēbus illīs vēnit Iēsūs ā Nazareth Galilaeae, et baptizātus est ā Ioanne in Iordāne.Ver resposta
"E aconteceu que, naqueles dias, Jesus veio de Nazaré da Galileia e foi batizado por João no Jordão." Et factum est, "e aconteceu", é uma fórmula de abertura bíblica, de origem hebraica; baptizātus est ā Ioanne é perfeito passivo com agente (ā + ablativo, capítulos 23–24).
Et statim ascendēns dē aquā, vīdit caelōs apertōs, et Spīritum tamquam columbam dēscendentem, et manentem in ipsō.Ver resposta
"E logo, ao subir da água, viu os céus abertos e o Espírito, como uma pomba, descendo e permanecendo sobre ele." Ascendēns, dēscendentem, manentem são particípios presentes; os dois últimos concordam com Spīritum, objeto de vīdit ("viu o Espírito descendo"). Apertōs é predicativo do objeto caelōs.
Et vōx facta est dē caelīs: Tū es Fīlius meus dīlēctus, in tē complacuī.Ver resposta
"E fez-se ouvir uma voz dos céus: Tu és o meu Filho amado; em ti me comprazi." Vōx facta est, "uma voz se fez", como facta est procella em 4,37; in tē complacuī, "em ti pus o meu agrado", é um decalque do grego.
Exercício 5 · Traduza: Jesus e as crianças (Mc 10,14–15)
Traduza e responda às perguntas. Vocabulário: indignē ferō, indignar-se (tulit, perfeito de ferō); sinō, -ere, deixar, permitir; parvulus, -ī, criancinha; prohibeō, -ēre, prohibuī, impedir; tālis, -e, tal; quisquis, quem quer que; recipiō, -ere, recēpī, receber; velut, como.
Quōs cum vidēret Iēsūs, indignē tulit, et ait illīs: Sinite parvulōs venīre ad mē, et nē prohibuerītis eōs: tālium enim est rēgnum Deī.Ver resposta
"Jesus, ao vê-los (fazer isso), indignou-se e disse-lhes: Deixai as criancinhas virem a mim e não as impeçais, pois delas (dos que são como elas) é o Reino de Deus." Quōs é relativo de ligação, objeto de vidēret: retoma os discípulos, que no versículo 13 repreendiam os que traziam as crianças; cum vidēret, cum + imperfeito do subjuntivo (capítulo 34).
Que construção é nē prohibuerītis?Ver resposta
Proibição com nē + perfeito do subjuntivo, 2ª pl. (Bennett § 276; capítulo 32): "não (as) impeçais". O perfeito não tem valor de passado aqui.
Que caso é tālium e qual a sua função?Ver resposta
Genitivo plural de tālis: genitivo de posse com est, "o Reino de Deus é dos tais", isto é, pertence aos que são como as crianças.
Āmēn dīcō vōbīs: Quisquis nōn recēperit rēgnum Deī velut parvulus, nōn intrābit in illud.Ver resposta
"Em verdade vos digo: quem não receber o Reino de Deus como uma criancinha, não entrará nele." Recēperit é futuro perfeito (capítulo 13): a ação de receber deve estar concluída antes da de entrar; o português usa o futuro do subjuntivo. Āmēn é o hebraísmo do capítulo 50.
Leituras recomendadas
Continue o Evangelho de Marcos na Vulgata, um episódio por vez: 4,1–20 (o semeador), 5,21–43 (a filha de Jairo), 6,30–44 (a multiplicação dos pães). O livro de Jonas é uma narrativa bíblica curta e completa, ótima para ler logo depois deste capítulo, com outra tempestade no mar. O Epitome Historiae Sacrae de Lhomond reconta a história bíblica em latim escolar mais clássico: compare a sua sintaxe com a da Vulgata. A Vida de São Paulo, o primeiro eremita mostra Jerônimo escrevendo com a própria voz, em prosa literária, não como tradutor. Para a história da Bíblia latina, leia o n. 512 da Gramática do Pe. Ravizza.
Etapa VI · Latinitas ChristianaDificuldade 2 · BásicoOriginal Áudio
Biblia Sacra Vulgata (editio Clementina)
Hieronymus Stridonensis (Vulgata)
A Vulgata Clementina completa, do Gênesis ao Apocalipse, livro a livro. Comece por Marcos, Gênesis ou os Salmos: frases curtas, vocabulário repetitivo e um texto que você já conhece em português. A leitura cristã fundamental e, para muitos, a primeira obra longa lida em latim. No LibriVox há, por ora, só o Salmo 22 gravado.
Escritura (Vulgata) · Tardio e patrístico · anos, um capítulo por dia · Vicifons (Latin Wikisource)
Etapa VI · Latinitas ChristianaDificuldade 2 · BásicoOriginal
Prophetia Ionae (Vulgata)
Hieronymus Stridonensis (Vulgata)
O livro de Jonas na Vulgata: quatro capítulos curtos, frases simples e uma história que todos conhecem. A menor porta de entrada possível na Bíblia latina; em EPUB e HTML.
Escritura (Vulgata) · Tardio e patrístico · uma hora · Project Gutenberg
Etapa III · FundamentaDificuldade 2 · BásicoDidáticoCom notas
Epitome historiae sacrae
Charles François Lhomond
A história sagrada (da Criação ao retorno do Exílio) reescrita por Lhomond (1784) em latim simplíssimo, em centenas de parágrafos curtos de dificuldade crescente. Durante dois séculos foi o primeiro livro contínuo de todo estudante de latim; continua sendo a melhor ponte entre o método e os textos reais. Edição de 1856.
Etapa VI · Latinitas ChristianaDificuldade 3 · IntermediárioOriginal
Vita Sancti Pauli primi eremitae
Hieronymus Stridonensis
A curta Vida de Paulo, o primeiro eremita, de São Jerônimo: o encontro de Santo Antão com Paulo no deserto. Texto da Patrologia Latina, sem notas. Boa leitura após a Vita Malchi.
Hagiografia · Tardio e patrístico · alguns dias · Corpus Corporum
Gramática latina completa em português, usada por gerações nas escolas brasileiras, com um compêndio de história da literatura latina. Nona edição (1940), em domínio público (autor falecido em 1941). Fac-símile em PDF no Internet Archive.
Gramática · Moderno (material didático) · consulta · Internet Archive
Bibliotheca Latina. Conteúdo original com trechos de obras em domínio público; licença CC BY 4.0.
Fontes consultadas
Biblia Sacra Vulgata (editio Clementina): Marcos 4,35–40; 1,9–11; 10,13–16 (no catálogo) · domínio público · texto lido no capítulo, conferido na Wikisource latina (Evangelium Secundum Mārcum, caps. 1, 4 e 10). Ortografia adaptada (ae por æ, oe por œ, i por j) e macrons acrescentados; pontuação da edição, com dois-pontos e ponto e vírgula ajustados ao uso português
Gramática Latina, Pe. João Ravizza (no catálogo) · domínio público · n. 512 (a Bíblia latina: versões pré-jeronimianas; a obra de São Jerônimo e, na nota 1, a revisão dos Evangelhos em 383 por encargo do papa Dâmaso; o nome "vulgata", nota 2; o latim popular das versões, a parataxe e quod/quia/quoniam no discurso indireto, item 10)
New Latin Grammar, Charles E. Bennett (no catálogo) · domínio público · Introdução, § 3.f (Jerônimo entre os autores do latim tardio); § 176.3.a (quid adverbial, "por quê?"); § 176.4 (acusativo de mesma raiz, "cognato"); § 187.II.a (dativo com verbos de ameaçar e obedecer); § 259.3 (presente histórico); § 274 (subjuntivo exortativo); § 276 (proibição com nē + subjuntivo); § 284 (orações consecutivas com ut, ita…ut); § 288.1.B (cum com subjuntivo: a situação ou as circunstâncias)
Allen and Greenough's New Latin Grammar, J. H. Allen e J. B. Greenough (no catálogo) · domínio público · § 97.a (diēs às vezes feminino no singular, para um tempo marcado); § 439 (subjuntivo exortativo); § 469 (presente histórico na narração viva); § 537 (consecutivas com ut, ut nōn); § 546 (cum com imperfeito ou mais-que-perfeito do subjuntivo: as circunstâncias)