O que você precisa saber para passar do latim clássico aos textos cristãos e medievais: palavras novas e palavras antigas com sentido novo, o "que" com quod, quia e quoniam no lugar da oração infinitiva, mais preposições e menos casos, os embriões dos artigos, a ortografia medieval (e por ae, ci por ti, michi por mihi) e a pronúncia eclesiástica, com exemplos autênticos da Vulgata, da Regra de São Bento e dos Gesta Romanorum.
Neste capítulo você vai
Explicar por que o latim dos textos cristãos e medievais difere do clássico, situando-o na história da língua (capítulo 1).
Reconhecer empréstimos gregos e hebraicos e as palavras clássicas que ganharam sentido cristão (fidēs, grātia, salūs, saeculum).
Identificar as construções típicas do latim cristão e medieval (quod/quia/quoniam + indicativo, dē e ad no lugar de casos, interrogativa indireta no indicativo, quod consecutivo) e dizer como o latim clássico diria o mesmo.
Ler sem tropeçar na ortografia medieval (pena, celis, graciosa, michi, conple) e nas convenções das edições (j, æ, quum).
Analisar palavra a palavra uma frase autêntica da Regra de São Bento.
latim tardio e cristãolatim medievalempréstimos gregos e hebraicosmudanças de sentido (fidēs, grātia, salūs, saeculum)quod, quia, quoniam + indicativo no lugar da oração infinitivapreposições no lugar de casosdē e ex partitivosad + acusativo pelo dativoūnus, quīdam, ille e iste a caminho do artigointerrogativa indireta no indicativoquod consecutivosequência dos tempos afrouxadaparataxeortografia medievali/j e u/v nas ediçõespronúncia eclesiásticaVulgataRegra de São BentoGesta Romanorumanálise de frase autêntica
Antes deste capítulo: Capítulo 1 (a história da língua e as duas pronúncias, que este capítulo retoma) e capítulo 22 (imperativo, vocativo e a oração simples: a frase analisada na seção 6 é feita só disso). O capítulo pode ser lido logo depois da Parte II, como início de um caminho paralelo; quando aparecerem construções estudadas na Parte III (oração infinitiva, subjuntivo, sequência dos tempos), elas são explicadas no ponto em que surgem, com a remissão ao capítulo próprio. · capítulo 1 · capítulo 22
No capítulo 1 você viu que o latim foi escrito sem interrupção por mais de dois mil anos e que os grandes períodos (clássico, tardio, medieval, neolatino) são etapas de uma mesma língua. Este capítulo abre o caminho dos textos cristãos e medievais, que no sumário do livro corre paralelo ao clássico: ele pede só a gramática da Parte II e uma ideia clara do que muda. Não muda tudo. A morfologia é praticamente a mesma: as cinco declinações, as quatro conjugações e os pronomes que você já estudou funcionam igual na Vulgata, na Regra de São Bento ou em Tomás de Aquino. O que muda é o vocabulário, a preferência por certas construções e a grafia.
Por que muda? Bennett divide a história do latim literário em períodos e chama o que vai de 180 d.C. ao século VI de período da "decadência": as feições da língua falada invadem a literatura, e entre os autores representativos estão Jerônimo, Ambrósio, Agostinho e Boécio (Introdução, § 3.f). Depois do século VI, diz ele, o latim corre em dois leitos: a língua literária das cortes, da Igreja e dos estudiosos, que deixa de ser a língua do povo, e o falar popular, que se transforma nas línguas românicas, entre elas o português (§ 4). O Pe. Ravizza descreve o mesmo percurso e lembra que o latim "teve a honra de se tornar a língua oficial da Igreja", como na Idade Média o foi do Estado e das ciências (Ravizza nn. 508–509).
Três forças agem ao mesmo tempo. A primeira é a religião nova, que precisa de palavras para coisas que o latim de Cícero não nomeava: batismo, Igreja, anjo, evangelho. A segunda é a tradução: as primeiras Bíblias latinas foram feitas sobre o grego, que por sua vez traduzia, no Antigo Testamento, o hebraico; o latim bíblico herda palavras e torneios dessas línguas (Ravizza n. 512, itens 1–4 e 9). A terceira é a língua falada: os tradutores e pregadores queriam ser entendidos pelo povo, e Agostinho chega a dizer que muitas vezes o modo comum de falar é mais útil para significar as coisas do que a correção literária (Ravizza cita a passagem no n. 512, item 3). Muitas das mudanças que você vai ver apontam diretamente para o português.
Não é "latim errado". Os autores cristãos e medievais conheciam a gramática clássica; Jerônimo, homem de vasta erudição, quis dar à Bíblia um latim "mais polido e menos tosco" que o das versões antigas (Ravizza n. 512, item 2). Quando escrevem dīcō vōbīs quia…, seguem a norma do seu tempo e do seu gênero, como um jornal de hoje não escreve como Camões. O que você precisa é reconhecer essas construções ao ler e, quando escrever latim clássico (capítulo 41), não as imitar.
Palavras novas e palavras antigas com sentido novo ⚑
O vocabulário é a mudança mais visível. Uma parte dele são empréstimos: o grego dá quase todo o léxico da organização da Igreja, e o hebraico, por meio do grego, um punhado de palavras litúrgicas que ninguém traduziu. Ravizza lista entre os hebraísmos da Vulgata āmēn, allēlūia, hōsanna e observa que os outros hebraísmos são de sintaxe (n. 512, item 9). Em Marcos aparecem até frases aramaicas, traduzidas no próprio texto: Talitha cumi, quod est interpretātum: Puella, tibi dīcō, surge (Mc 5,41).
Empréstimos frequentes nos textos cristãos
Palavra
Origem
Sentido no latim cristão
Em português
ecclēsia, -ae (f.)
grego: assembleia dos cidadãos
a comunidade dos fiéis; o templo
igreja (e "eclesiástico")
baptizō, -āre; baptismus, -ī
grego: mergulhar
batizar; batismo
batizar, batismo
angelus, -ī (m.)
grego: mensageiro
anjo (e ainda "mensageiro" em citações do Antigo Testamento)
anjo
apostolus, episcopus, presbyter
grego: enviado, supervisor, ancião
apóstolo, bispo, presbítero
apóstolo, bispo, presbítero (e o antigo "preste")
ēvangelium, prophēta, diabolus
grego
evangelho, profeta, diabo
evangelho, profeta, diabo
āmēn, allēlūia, hōsanna, sabbatum, pascha
hebraico (via grego)
aclamações e festas litúrgicas
amém, aleluia, hosana, sábado, Páscoa
A outra parte, mais traiçoeira, são palavras clássicas com sentido novo. Você as reconhece, e por isso mesmo pode traduzi-las com o sentido errado. Em Cícero, fidēs é a lealdade, a palavra dada, o crédito; no Evangelho, fidēs tua tē salvam fēcit (Mc 5,34) é "a tua fé te salvou". Salvus e salūs são, no clássico, "são e salvo" e "saúde, segurança"; no latim cristão, salūs é a salvação, e dela sai o verbo novo salvāre, "salvar", ausente da prosa clássica. Saeculum, "geração, século", passa a ser "este mundo" em oposição ao eterno (daí "secular"), e a fórmula in saecula saeculōrum quer dizer "para sempre".
o mundo presente, a vida terrena; in saecula, para sempre
gentēs, -ium (f. pl.)
os povos, as nações
os pagãos (os não judeus, os não cristãos)
sacrāmentum, -ī (n.)
juramento do soldado; depósito em juízo
sacramento; mistério
pāgānus, -ī (m.)
aldeão; civil (não soldado)
pagão
verbum, -ī (n.)
palavra
também o Verbo, o Filho de Deus (João 1,1)
Por fim, o latim cristão gosta de palavras derivadas e de compostos longos. Ravizza observa a abundância de substantivos em -mentum, -tiō, -tor, de adjetivos em -bilis e de verbos com duas preposições, como pertrānseō ou superinduō (n. 512, item 7). Alguns verbos da fala comum tomam o lugar dos literários: o Evangelho diz mandūcāre (de onde vêm o italiano mangiare e o francês manger) onde Cícero diria edere: ūnus ex vōbīs trādet mē, quī mandūcat mēcum, "um de vós, que come comigo, me entregará" (Mc 14,18).
A mudança de sintaxe que mais aparece é esta. Depois de verbos de dizer, pensar, saber e perceber, o latim clássico não usa conjunção: transforma a oração dependente em acusativo com infinitivo (Bennett § 331; A&G §§ 577–579; capítulo 28). "Digo-te que tu és Pedro" seria, em Cícero, dīcō tibi tē esse Petrum, sem nenhuma palavra para o "que". O latim clássico já tinha, porém, uma oração com quod e indicativo para dizer "o fato de que", depois de expressões como bene fit quod…, "é bom que…" (Bennett § 299; A&G § 572). O latim tardio estende essa construção, e as conjunções quod, quia e quoniam passam a introduzir o que se diz ou se pensa, com o verbo no indicativo, exatamente como o "que" português. Ravizza registra o fenômeno como um dos dois traços sintáticos mais frequentes da Vulgata e lembra que o grego do Novo Testamento, que usa a mesma construção, o favoreceu (n. 512, item 10).
Et ego dīcō tibi, quia tū es Petrus, et super hanc petram aedificābō Ecclēsiam meam.
E eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja. (Mt 16,18) · clássico: dīcō tibi tē esse Petrum
Āmēn dīcō vōbīs, quia ūnus ex vōbīs trādet mē, quī mandūcat mēcum.
Em verdade vos digo que um de vós, que come comigo, me entregará. (Mc 14,18) · clássico: ūnum ex vōbīs mē trāditūrum esse
Magister, scīmus quia vērāx es.
Mestre, sabemos que és verdadeiro. (Mc 12,14) · clássico: scīmus tē vērācem esse
Ideo michi videtur, quod judex pro me sententiam dabit.
Por isso me parece que o juiz dará a sentença a meu favor. (Gesta Romanorum, cap. 4, grafia da edição) · clássico: iūdex mihi vidētur prō mē sententiam datūrus esse
Duas consequências práticas. Primeira: quia e quoniam continuam a significar também "porque", como no clássico; o leitor decide pelo verbo que vem antes. Se é um verbo de dizer, saber, ver ou crer (dīcō, sciō, videō, crēdō) e o que segue é o conteúdo dele, traduza "que"; se a oração explica a causa, "porque". Segunda: o verbo da oração com quia pode vir no indicativo (o mais comum na Vulgata) ou no subjuntivo, sem diferença de sentido que você precise traduzir; em cognōvērunt enim quoniam ad eōs parabolam hanc dīxerit, "pois perceberam que ele tinha dito aquela parábola contra eles" (Mc 12,12), o subjuntivo é de uso, não de dúvida. A oração infinitiva não desaparece: ela convive com a nova construção na Vulgata e volta a dominar nos autores medievais que imitam os clássicos.
A segunda grande tendência é a análise: onde o latim clássico concentra a informação numa terminação, o latim tardio prefere uma preposição ou uma palavra a mais, como o português. Nada disso é desconhecido do latim clássico; o que muda é a frequência e a extensão.
Preposições no lugar de casos
Com numerais e com quīdam, o clássico já preferia ex ou dē + ablativo ao genitivo partitivo: ūnus ex mīlitibus, "um dos soldados" (Bennett § 201.a; A&G § 346.c). O latim cristão estende esse dē a novos contextos, e ele passa a marcar "uma parte de" mesmo como objeto de verbo: iam nōn bibam dē hōc genimine vītis, "já não beberei deste fruto da videira" (Mc 14,25), um antepassado do francês du vin. O dativo dos verbos de dizer cede lugar a ad + acusativo, o nosso "dizer a": dīcēbant ad alterutrum, "diziam uns aos outros" (Mc 4,40). E regências clássicas com genitivo dão lugar a preposições: misereor pede genitivo em Cícero (misereor turbae), mas o Evangelho diz misereor super turbam, "tenho compaixão desta multidão" (Mc 8,2).
A caminho do artigo
O latim clássico não tem artigos (capítulo 2). O latim tardio e medieval usa com frequência crescente, e com sentido enfraquecido, as palavras que darão os artigos românicos. Ūnus e quīdam funcionam como "um, uma" indefinido: vidua ūna pauper, "uma viúva pobre" (Mc 12,42). Os demonstrativos iste e ille, que no clássico apontam ("esse aí", "aquele famoso") e, no caso de iste, muitas vezes desprezam (Bennett § 246.4; A&G § 297), passam a só retomar o que já foi dito, como um artigo definido. Os Gesta Romanorum, coletânea de histórias morais do fim do século XIII ou do início do XIV, mostram o par completo: venit quidam dux… Dux iste multa ei promisit, "chegou um duque… O duque prometeu-lhe muitas coisas" (cap. 1). As frases dos Gesta são citadas neste capítulo na grafia da edição de Oesterley (1872), sem macrons: são amostras de grafia medieval (seção 5). O quīdam apresenta, o iste retoma, sem desprezo nenhum. Do acusativo illum, illam vêm o italiano il, la e o português o, a.
Indicativo onde o clássico pede subjuntivo
Na interrogativa indireta ("diz-me quem é"), a prosa clássica põe o verbo no subjuntivo (Bennett § 300; capítulo 35). Os textos medievais, e já a Regra de São Bento (século VI), usam muitas vezes o indicativo: Sed dic michi, qualis est ista puella, quam tecum duxisti?, "Mas diz-me: que moça é essa que trouxeste contigo?" (Gesta, cap. 5); audiāmus… quid nōs admonet vōx, "ouçamos o que nos adverte a voz" (Regra, prólogo). Do mesmo modo, a oração de consequência ("tão… que"), que no clássico é ut + subjuntivo (Bennett § 284; capítulo 33), aparece com quod + indicativo: in tantum desolatus erat, quod nullam consolacionem recipere poterat, "estava tão desolado que não conseguia receber consolo algum" (Gesta, cap. 5). E a sequência dos tempos (capítulo 34), que no clássico amarra o tempo do subjuntivo ao do verbo principal (Bennett § 267), fica mais solta: em cognōvērunt… quoniam… dīxerit (Mc 12,12), um perfeito do subjuntivo depende de um verbo no passado, onde Cícero poria o mais-que-perfeito dīxisset.
Frases em fila
O hebraico liga as orações quase só com "e", e o latim bíblico conserva esse estilo, que os gramáticos chamam parataxe: Et ait illīs… Et dīmittentēs turbam… et aliae nāvēs… Et facta est procella… (Mc 4,35–37). Ravizza observa que essa justaposição às vezes dificulta a leitura, porque a relação lógica entre as frases não vem dita por uma conjunção subordinativa (n. 512, item 10). O leitor precisa supri-la: o et pode valer "então", "mas", "e assim". Você verá o efeito no capítulo 51.
Abra um manuscrito ou uma edição de texto medieval e a grafia vai parecer cheia de erros. Não são erros: são a escrita de uma língua cuja pronúncia mudou. Allen & Greenough explicam, no parágrafo sobre ortografia, que a grafia latina "nunca foi absolutamente fixada" e registram três mudanças tardias que não se admitem nos textos clássicos: ti e ci átonos antes de vogal passaram a soar igual; o h deixou de ser pronunciado e por isso era omitido ou acrescentado por engano; e os ditongos ae e oe passaram a soar como e e foram confundidos com ele, como em coena ou caena por cēna (A&G § 6 e nota). Essas três notas explicam quase toda a ortografia medieval.
Grafias medievais frequentes (exemplos dos Gesta Romanorum, ed. Oesterley, e da Regra de São Bento)
Grafia medieval
Grafia clássica
O que aconteceu
pena, que, celis, sepius
poena, quae, caelīs, saepius
ae e oe soavam e e passaram a ser escritos e
graciosa, palacio, justicia, consolacio
grātiōsa, palātiō, iūstitia, cōnsōlātiō
ti + vogal soava "tsi", como ci + vogal
michi, nichil
mihi, nihil
o h interno, mudo nas outras palavras, era pronunciado como consoante nestas duas, e a grafia ch registra isso (a regra eclesiástica diz "míki", "níkil")
conple, contempnas
complē, contemnās
grafias que seguem a pronúncia ou a etimologia (con- não assimilado; p entre m e n)
obsculta
auscultā
variante tardia do verbo "escutar" (Regra, primeira palavra)
Há ainda as convenções das edições impressas, que nada têm a ver com a Idade Média. Os romanos escreviam I e V tanto para a vogal quanto para a consoante (Bennett § 1.2; A&G § 1); j, v e u distintos são invenção moderna. A Vulgata Clementina, como está na Wikisource, escreve Jesus, ejus, Joannes e usa as ligaduras æ e œ (cælos, pœnitentiæ); a Nova Vulgata, de 1979, escreve Iesus, eius e ae. Edições do século XIX trazem às vezes quum por cum, grafia que Allen & Greenough classificam como "muito tardia e sem autoridade" (§ 6, nota 1). E os livros litúrgicos costumam pôr acento agudo nas palavras de mais de duas sílabas (Dóminus) para guiar o canto. Este livro escreve i e v, ae e oe sem ligadura e acrescenta macrons, como nos capítulos anteriores; quando a grafia original é o assunto, ela é reproduzida tal como está na edição. Por isso as frases dos Gesta Romanorum aparecem sem macrons e com j, como documentos da grafia medieval, enquanto as da Vulgata e da Regra recebem macrons e conservam só as grafias que este capítulo estuda (obsculta, conplē).
Quanto à pronúncia, os textos cristãos e medievais costumam ser lidos na pronúncia eclesiástica, cujas regras estão na tabela do capítulo 1: c e g amolecidos antes de e, i; ae e oe como e; ti + vogal como "tsi"; gn como "nh"; h mudo. Repare que três dessas regras são exatamente as mudanças que a ortografia medieval registra: a pronúncia eclesiástica é a herdeira direta da pronúncia medieval italiana. As regras de pronúncia do Liber Usualis, o livro de canto litúrgico do século XX, acrescentam uma exceção: o h soa como k em nihil e mihi ("níkil", "míki") e nos seus compostos, e o próprio livro lembra que "nos livros antigos essas palavras se escrevem muitas vezes nichil e michi" (Liber Usualis, ed. Desclée, 1949, introdução, cap. IX). É a norma da tradição romana, não uma regra universal: muitos cantores e escolas pronunciam simplesmente "mi-i", "ní-il".
Para ler um texto medieval, faça de cabeça três substituições quando uma palavra não for encontrada no dicionário: e → ae ou oe (pena → poena); ci → ti (racio → ratio); ch → h (nichil → nihil). Cuidado só com os falsos pares: pena medieval é poena, "castigo", e não penna, "pena de ave".
Análise gramatical: o começo da Regra de São Bento ⚑
A Regra que Bento de Núrsia escreveu no século VI para os seus monges começa com uma frase que você pode analisar só com a gramática da Parte II: imperativos, um vocativo, objetos diretos e genitivos (capítulo 22). Ela está na grafia da edição, com macrons acrescentados.
Obsculta, ō fīlī, praecepta magistrī, et inclīnā aurem cordis tuī et admonitiōnem piī patris libenter excipe et efficāciter conplē.
Escuta, ó filho, os preceitos do mestre e inclina o ouvido do teu coração; acolhe de boa vontade a advertência do pai bondoso e cumpre-a com empenho. (Regra de São Bento, prólogo)
Regra de São Bento, prólogo, palavra a palavra
Palavra
Dicionário
Análise
Função
Obsculta
obscultō (= auscultō), -āre, escutar
imperativo presente, 2ª sing. (1ª conj.)
verbo da 1ª ordem; sujeito "tu"
ō fīlī
ō (interjeição); fīlius, -ī (m.), filho
vocativo singular em -ī (nomes em -ius)
vocativo: a pessoa a quem se dirige a ordem, fora da oração
praecepta
praeceptum, -ī (n.), preceito, ensinamento
acusativo plural neutro
objeto direto de obsculta
magistrī
magister, -trī (m.), mestre
genitivo singular
adjunto de praecepta: "do mestre"
inclīnā
inclīnō, -āre, inclinar
imperativo presente, 2ª sing.
2ª ordem
aurem
auris, -is (f.), orelha, ouvido
acusativo singular (3ª declinação)
objeto direto de inclīnā
cordis tuī
cor, cordis (n.), coração; tuus, -a, -um
genitivo singular neutro; tuī concorda com cordis
adjunto de aurem: "do teu coração" (metáfora: a escuta interior)
admonitiōnem
admonitiō, -ōnis (f.), advertência, conselho
acusativo singular
objeto direto de excipe (e, subentendido, de conplē)
imperativo presente, 2ª sing. (2ª conj.: ē longo); grafia conple com n
4ª ordem; o objeto admonitiōnem fica subentendido
Repare em três coisas. A frase é uma série de imperativos ligados por et, sem nenhuma subordinada: é o estilo direto e paratático da prosa cristã, que Bento imita dos Salmos e dos Evangelhos. O vocativoō fīlī faz a forma em -ī dos nomes em -ius que você viu no capítulo 22. E a única "estranheza" para quem aprendeu o latim clássico é ortográfica: obsculta e conple. Gramaticalmente, a frase poderia estar em Cícero; o tom, o de um pai que fala ao filho, é que é novo.
A segunda frase, do Evangelho, mostra em poucas palavras três traços deste capítulo: o quia declarativo, o ex partitivo com numeral (já clássico) e o verbo popular mandūcāre.
Mc 14,18: Āmēn dīcō vōbīs, quia ūnus ex vōbīs trādet mē, quī mandūcat mēcum. O conteúdo do que é dito vem numa oração com quia e verbo no indicativo; o latim clássico diria dīcō vōbīs ūnum ex vōbīs mē trāditūrum esse.
Resumo
Morfologia: praticamente igual à clássica. O que muda é vocabulário, sintaxe preferida e grafia.
Vocabulário: empréstimos gregos (ecclēsia, baptizāre, angelus) e hebraicos (āmēn, allēlūia); palavras clássicas com sentido cristão (fidēs, grātia, salūs, saeculum).
"Que": quod, quia, quoniam + indicativo (às vezes subjuntivo) ao lado da oração infinitiva.
Análise: mais preposições (dē partitivo, ad pelo dativo, super), ūnus/quīdam e iste/ille a caminho do artigo, indicativo na interrogativa indireta, quod consecutivo, sequência dos tempos afrouxada, parataxe.
Grafia: e por ae/oe, ci por ti, michi/nichil; nas edições, j, æ, quum. Pronúncia: a eclesiástica do capítulo 1.
No capítulo 51 você lê um episódio inteiro do Evangelho de Marcos e reencontra quase todos estes traços em seis versículos; no 52, dois hinos medievais mostram o que acontece com a poesia quando o acento toma o lugar da quantidade.
Por quê, e como evitar: Depois de verbos de dizer, saber, ver ou crer, quia (e quod, quoniam) introduz o conteúdo: scīmus quia vērāx es é "sabemos que és verdadeiro", não "sabemos porque és verdadeiro". Pergunte: a oração responde a "o quê?" (então "que") ou a "por quê?" (então "porque")?
Erro: Dar às palavras cristãs o sentido clássico, ou o inverso.
Por quê, e como evitar:Salūs num Evangelho é "salvação", não "saúde"; gentēs são "os pagãos", não só "os povos"; saeculum é "o mundo". Mas em César fidēs é "lealdade" e sacrāmentum é o juramento militar. Decida pelo autor e pela época, não pela palavra portuguesa parecida.
Erro: "Corrigir" a grafia medieval ao citar, ou achar que ela é outra palavra.
Por quê, e como evitar:Pena, celis, graciosa, michi são poena, caelīs, grātiōsa, mihi escritos como se pronunciavam. Para entender, normalize de cabeça e procure no dicionário; ao citar, reproduza a grafia da edição e, se quiser, indique a forma clássica entre parênteses. E não confunda pena (= poena, castigo) com penna (pena de ave).
Erro: Levar as construções cristãs para a composição em latim clássico.
Por quê, e como evitar: Ao escrever "digo que Marco vem" em latim clássico, use dīcō Mārcum venīre, não dīcō quod Mārcus venit; "pergunto quem é", rogō quis sit, não quis est. As construções cristãs devem ser reconhecidas na leitura; a norma da composição clássica é outra (capítulos 28, 35 e 41).
Erro: Traduzir ūnus sempre como numeral ou iste sempre com desprezo.
Por quê, e como evitar: No latim tardio e medieval, vidua ūna pauper é "uma viúva pobre", não "uma única viúva"; e dux iste, que retoma o duque já mencionado, é simplesmente "o duque" ou "esse duque". O contexto diz se a palavra ainda tem o peso clássico.
Erro: Ler dē + ablativo sempre como "acerca de" ou "a partir de".
Por quê, e como evitar: Nos textos cristãos, dē marca muitas vezes a parte de um todo: ūnus dē turbā, "um da multidão"; bibam dē hōc genimine, "beberei deste fruto". Se "acerca de" não faz sentido, teste "um pouco de", "um de".
Resolvida passo a passo: leia a pergunta, tente responder e só então abra cada passo.
Prática guiada 1 · Uma frase dos Gesta Romanorum
Leia e analise, na grafia da edição de Oesterley: Sed dic michi, qualis est ista puella, quam tecum duxisti? (cap. 5). Vocabulário: quālis, -e, qual, de que tipo; dūcō, -ere, dūxī, conduzir, levar consigo (o perfeito dūxistī é estudado no capítulo 13).
Que forma é dic?Ver o passo
Imperativo presente, 2ª pessoa do singular, de dīcō: uma das quatro formas curtas (dīc, dūc, fac, fer) do capítulo 22. É uma ordem: "diz".
E michi?Ver o passo
É mihi, dativo de ego, na grafia medieval com ch: "a mim, me". A grafia registra a pronúncia "míki".
Que tipo de oração começa em qualis, e o que há de medieval nela?Ver o passo
É uma interrogativa indireta: o pai não pergunta diretamente, manda que lhe digam "de que tipo é". No latim clássico o verbo iria para o subjuntivo (quālis sit); aqui fica no indicativo (est), como no português.
Como entender ista puella?Ver o passo
O demonstrativo iste aponta para a moça que está ali, diante do pai e do filho. Não há desprezo nem ênfase especial: é "essa moça". No latim clássico iste costuma ter tom hostil (Bennett § 246.4); nos Gesta ele é um demonstrativo comum, quase um artigo.
E quam tecum duxisti?Ver o passo
Oração relativa (capítulo 16): quam, acusativo feminino singular, retoma puella e é objeto de dūxistī; tēcum = cum tē. "Que trouxeste contigo".
Monte a tradução e diga como seria em latim clássico.Ver o passo
"Mas diz-me: que moça é essa que trouxeste contigo?" Em latim clássico: Sed dīc mihi quālis sit ista puella quam tēcum dūxeris, com o subjuntivo na interrogativa indireta e, num texto cuidadoso, também na relativa que depende dela.
Conclusão: a gramática é a que você conhece; mudam a grafia (michi), o modo da interrogativa indireta (est) e o peso do demonstrativo (ista).
Prática guiada 2 · Do latim cristão ao clássico
Reescreva no padrão clássico a frase de Mateus 16,18: Ego dīcō tibi, quia tū es Petrus.
Qual é o verbo principal, e que construção ele pede no latim clássico?Ver o passo
Dīcō, verbo de dizer. No clássico, o que se diz vai em oração infinitiva: sujeito no acusativo e verbo no infinitivo (Bennett § 331).
O que acontece com quia?Ver o passo
Desaparece. A oração infinitiva não tem conjunção; o "que" português não tem correspondente.
Ponha o sujeito tū e o predicativo Petrus no caso certo.Ver o passo
O sujeito do infinitivo vai para o acusativo: tē. O predicativo concorda com ele: Petrum. O verbo es passa ao infinitivo esse.
Monte a frase.Ver o passo
Ego tibi dīcō tē esse Petrum (ou tē Petrum esse). O sentido não muda: "Eu te digo que tu és Pedro". A versão cristã soa mais próxima do português; a clássica, mais compacta.
Do grego, "mensageiro". Cristão: anjo; em citações do Antigo Testamento ainda pode ser "mensageiro", como em ecce ego mittō angelum meum ante faciem tuam (Mc 1,2), "eis que envio o meu mensageiro diante de ti". Português: anjo, angelical.
ecclēsiaVer resposta
Do grego, "assembleia dos cidadãos". Cristão: a comunidade dos fiéis, a Igreja; depois também o edifício. Português: igreja, eclesiástico.
Exercício 2 · Que traço é este?
Identifique o traço do latim cristão ou medieval em cada frase autêntica e diga como o latim clássico costuma exprimir o mesmo. Vocabulário: misereor, -ērī, ter compaixão; turba, -ae, multidão; alteruter, um e outro; vidua, -ae, viúva; pauper, pobre; genimen, -inis (n.), fruto; vītis, -is, videira; dēsōlātus, desolado; admoneō, -ēre, advertir.
Misereor super turbam. (Mc 8,2)Ver resposta
Super + acusativo no lugar do genitivo pedido por misereor. Clássico: misereor turbae. "Tenho compaixão da multidão."
Et dīcēbant ad alterutrum. (Mc 4,40)Ver resposta
Ad + acusativo no lugar do dativo depois de verbo de dizer. Clássico: inter sē dīcēbant ("diziam entre si"). "E diziam uns aos outros."
Cum vēnisset autem vidua ūna pauper… (Mc 12,42)Ver resposta
Ūna com valor de artigo indefinido. Clássico: vidua pauper, sem nada. "E quando veio uma viúva pobre…" (o cum com subjuntivo é clássico; capítulo 34).
Iam nōn bibam dē hōc genimine vītis… (Mc 14,25)Ver resposta
Dē + ablativo partitivo como objeto ("um pouco de"). Clássico: o acusativo do que se bebe. "Já não beberei deste fruto da videira…"
In tantum desolatus erat, quod nullam consolacionem recipere poterat. (Gesta, cap. 5)Ver resposta
Quod + indicativo numa oração de consequência ("tão… que"); também a grafia consolacionem (ci por ti). Clássico: tam dēsōlātus erat ut nūllam cōnsōlātiōnem recipere posset. "Estava tão desolado que não conseguia receber consolo algum."
Audiāmus… quid nōs admonet vōx. (Regra, prólogo)Ver resposta
Interrogativa indireta com o verbo no indicativo (admonet). Clássico: quid nōs admoneat vōx. "Ouçamos o que a voz nos adverte."
Exercício 3 · Normalize a grafia
Dê a grafia clássica e explique a mudança. Todas as formas estão nas fontes deste capítulo.
sub pena gravi (Gesta, cap. 1)Ver resposta
sub poenā gravī, "sob pena grave": oe escrito e.
de celis (Gesta, cap. 5)Ver resposta
dē caelīs, "dos céus": ae escrito e.
palacio, justicia (Gesta, cap. 1)Ver resposta
palātiō, iūstitia: ti + vogal escrito ci, porque soavam igual; e j de edição moderna por i.
nichil, michi (Gesta, cap. 5)Ver resposta
nihil, mihi: o h pronunciado "k" nestas duas palavras e escrito ch.
ne contempnas (Gesta, cap. 1)Ver resposta
nē contemnās, "não desprezes": p intrometido entre m e n.
Cum resurget creātūra: quum é grafia "muito tardia e sem autoridade" (A&G § 6, nota 1). O hino é lido no capítulo 52.
Exercício 4 · Reescreva no padrão clássico
Transforme a construção cristã ou medieval na construção clássica e traduza. Vocabulário: vērāx, -ācis, verdadeiro; trādō, -ere, entregar (infinitivo futuro trāditūrus esse, capítulo 27).
Scīmus quia vērāx es. (Mc 12,14)Ver resposta
Scīmus tē vērācem esse. O sujeito tū vai para o acusativo tē, o predicativo concorda (vērācem), es vira esse. "Sabemos que és verdadeiro."
Dīcō vōbīs quia ūnus ex vōbīs mē trādet.Ver resposta
Dīcō vōbīs ūnum ex vōbīs mē trāditūrum esse. O futuro trādet passa ao infinitivo futuro, que concorda com o sujeito acusativo ūnum. "Digo-vos que um de vós me entregará."
Misereor super turbam.Ver resposta
Misereor turbae. Genitivo, regência clássica de misereor.
Dīc mihi quālis est ista puella.Ver resposta
Dīc mihi quālis sit ista puella. Interrogativa indireta no subjuntivo (capítulo 35).
Tam dēsōlātus erat quod nihil poterat.Ver resposta
Tam dēsōlātus erat ut nihil posset. Consecutiva com ut + subjuntivo (capítulo 33). "Estava tão desolado que nada podia (fazer)."
Exercício 5 · Traduza frases autênticas
Traduza e aponte um traço do latim cristão ou medieval em cada frase. Vocabulário: vādō, -ere, ir; salvus, -a, -um, salvo; baptizō, -āre, batizar; vērō, porém; timor, -ōris, temor; doceō, -ēre, ensinar (com dois acusativos); iūdex, -icis, juiz; sententia, -ae, sentença.
Fīlia, fidēs tua tē salvam fēcit: vāde in pāce. (Mc 5,34)Ver resposta
"Filha, a tua fé te salvou: vai em paz." Fidēs com sentido cristão; salvam fēcit, literalmente "te fez salva", com salvam predicativo do objeto tē; vāde, imperativo.
"Eu vos batizei com água; ele, porém, vos batizará com o Espírito Santo." Empréstimo grego baptizāre; aquā e Spīritū Sānctō são ablativos de meio, construção clássica.
Venīte, fīliī, audīte mē; timōrem Deī docēbō vōs. (Regra, prólogo, citando Sl 33,12 (34,12), onde a Vulgata diz timōrem Dominī)Ver resposta
"Vinde, filhos, ouvi-me; eu vos ensinarei o temor de Deus." Imperativos e vocativo (capítulo 22); docēbō com dois acusativos, a pessoa (vōs) e a coisa (timōrem), construção clássica. O traço cristão está no vocabulário e na citação bíblica.
Ideo michi videtur, quod judex pro me sententiam dabit. (Gesta, cap. 4)Ver resposta
"Por isso me parece que o juiz dará a sentença a meu favor." Traços: michi (grafia) e quod + futuro do indicativo no lugar da oração infinitiva ou da construção pessoal de vidētur.
Leituras recomendadas
Leia o prólogo da Regra de São Bento inteiro: é prosa clara, cheia de imperativos e citações bíblicas, e mostra a ortografia tardia sem dificultar a leitura. Nos Gesta Romanorum, as primeiras histórias (caps. 1–5) são curtas e reúnem quase todos os traços deste capítulo; leia-as com a dica das três substituições ortográficas. O Evangelho de Marcos na Vulgata é o texto do capítulo 51. O Epitome Historiae Sacrae de Lhomond conta a história bíblica em latim escolar, de vocabulário cristão mas sintaxe clássica: compare-o com a Vulgata. A Navigatio Sancti Brendani é uma boa primeira narrativa medieval longa. Na Gramática do Pe. Ravizza, o apêndice sobre a Vulgata (n. 512) é o melhor resumo em português das características do latim bíblico.
Etapa VI · Latinitas ChristianaDificuldade 2 · BásicoOriginal Áudio
Regula sancti Benedicti
Benedictus Nursinus
A Regra de São Bento completa: prólogo e 73 capítulos curtos, em latim tardio simples e prático, sobre a vida do mosteiro ("ora et labora"). Uma das leituras cristãs mais fáceis. Sem notas; gravação completa no LibriVox.
Regra monástica · Tardio e patrístico · uma ou duas semanas · Vicifons (Latin Wikisource)
Etapa VII · Sapientia MediaevalisDificuldade 2 · BásicoOriginal
Gesta Romanorum (edição Oesterley)
Anônimo (séc. XIII–XIV)
Coletânea medieval de historietas com moral alegórica, fonte de Chaucer e Shakespeare, em latim muito simples. Cada história é uma página; a transcrição da edição Oesterley (1872) ainda está em andamento. Sem notas.
Etapa VI · Latinitas ChristianaDificuldade 2 · BásicoOriginal Áudio
Biblia Sacra Vulgata (editio Clementina)
Hieronymus Stridonensis (Vulgata)
A Vulgata Clementina completa, do Gênesis ao Apocalipse, livro a livro. Comece por Marcos, Gênesis ou os Salmos: frases curtas, vocabulário repetitivo e um texto que você já conhece em português. A leitura cristã fundamental e, para muitos, a primeira obra longa lida em latim. No LibriVox há, por ora, só o Salmo 22 gravado.
Escritura (Vulgata) · Tardio e patrístico · anos, um capítulo por dia · Vicifons (Latin Wikisource)
Etapa III · FundamentaDificuldade 2 · BásicoDidáticoCom notas
Epitome historiae sacrae
Charles François Lhomond
A história sagrada (da Criação ao retorno do Exílio) reescrita por Lhomond (1784) em latim simplíssimo, em centenas de parágrafos curtos de dificuldade crescente. Durante dois séculos foi o primeiro livro contínuo de todo estudante de latim; continua sendo a melhor ponte entre o método e os textos reais. Edição de 1856.
Etapa VII · Sapientia MediaevalisDificuldade 2 · BásicoOriginalCom notas
Navigatio Sancti Brendani Abbatis
Anônimo (séc. IX–X)
A viagem marítima de São Brandão: 28 capítulos de aventuras com ilhas, monstros e maravilhas, em latim medieval simples e repetitivo. Com macrons, vocabulário e notas sobre as diferenças em relação ao latim clássico. Uma das leituras medievais mais fáceis e divertidas.
Narrativa · Medieval · uma ou duas semanas · Dickinson College Commentaries
Gramática latina completa em português, usada por gerações nas escolas brasileiras, com um compêndio de história da literatura latina. Nona edição (1940), em domínio público (autor falecido em 1941). Fac-símile em PDF no Internet Archive.
Gramática · Moderno (material didático) · consulta · Internet Archive
Bibliotheca Latina. Conteúdo original com trechos de obras em domínio público; licença CC BY 4.0.
Fontes consultadas
New Latin Grammar, Charles E. Bennett (no catálogo) · domínio público · Introdução, § 3.f (o "período da decadência", 180 d.C. ao séc. VI: Jerônimo, Agostinho, Ambrósio, Boécio) e § 4 (depois do séc. VI, a língua literária da Igreja e das escolas e, ao lado dela, o falar popular que deu as línguas românicas); § 1.2 (I e V valiam como vogal e consoante; j e v são convenção moderna); § 201.a (ex ou dē + ablativo no lugar do genitivo partitivo, regular com numerais cardinais e quīdam); § 246.4 (iste com desprezo); § 267 (sequência dos tempos); § 299 (quod + indicativo, "o fato de que"); § 300 (interrogativa indireta no subjuntivo); § 331 (acusativo com infinitivo depois de verbos de dizer, pensar, saber)
Allen and Greenough's New Latin Grammar, J. H. Allen e J. B. Greenough (no catálogo) · domínio público · § 1 (o alfabeto latino não tinha J, U, W); § 6 e nota (variação ortográfica: ti e ci átonos antes de vogal passaram a soar igual; o h deixou de ser pronunciado; ae e oe confundidos com e, como em coena por cēna) e nota 1 (a grafia quum "é muito tardia e sem autoridade"); § 297 (usos de hīc, ille, iste, is); § 346.c (ē/ex ou dē + ablativo em vez do genitivo partitivo); § 572 (quod + indicativo como oração substantiva de fato); §§ 577–579 (o discurso indireto com acusativo e infinitivo depois de verbos de saber, pensar, dizer, perceber)
Gramática Latina, Pe. João Ravizza (no catálogo) · domínio público · n. 508 (os períodos da língua; o quinto, da decadência, com os Padres da Igreja); n. 509 (o latim como língua dos sábios e língua oficial da Igreja); n. 512 (a Vulgata: as versões pré-jeronimianas, a obra de São Jerônimo, o sermo vulgaris; item 7, vocabulário e sufixos; item 9, helenismos e hebraísmos como amen, alleluia, hosanna; item 10, parataxe e quod, quia, quoniam no discurso indireto em lugar do infinitivo)
Regula sancti Benedicti, prólogo, Bento de Núrsia (no catálogo) · domínio público · início do prólogo (Obsculta, o fili...) e as frases "Venite, filii, audite me..." e "audiamus... quid nos admonet vox", conferidos na Wikisource latina; a página não indica a edição usada