Pange lingua gloriosi corporis mysterium
Thomas de Aquino
O hino eucarístico de São Tomás de Aquino, cujas duas últimas estrofes formam o Tantum ergo. Seis estrofes rimadas; sintaxe condensada que vale a pena destrinchar. Sem notas.
Elementa Linguae Latinae·Parte IV · Auctores·Capítulo 52·80 minReportar problema
Hymnī
Leitura comentada de dois hinos medievais: o Pange lingua de Tomás de Aquino, inteiro, e as dez primeiras estrofes do Dies irae atribuído a Tomás de Celano. Como a poesia latina passou da quantidade ao acento e à rima, o ritmo trocaico dos dois hinos, contagem de sílabas sem elisão, o contexto litúrgico, vocabulário e notas, e os subjuntivos de que os hinos vivem (exortativo, jussivo, optativo, proibição), com traduções próprias.
Antes deste capítulo: Capítulo 32 (o subjuntivo e os seus usos independentes: os hinos são feitos de exortações, ordens e desejos) e capítulo 50 (o latim cristão e medieval, a ortografia e a pronúncia eclesiástica, que é a usada no canto destes hinos). A noção de pé e de verso quantitativo vem do capítulo 40; se você ainda não o estudou, a seção 1 dá o necessário. · capítulo 32 · capítulo 50
A poesia latina clássica é quantitativa: o verso é uma sequência regular de sílabas longas e breves, agrupadas em pés. A unidade é a sílaba breve, a mora; uma longa vale duas. O troqueu é o pé de uma longa e uma breve (– ∪), o jambo é o inverso, e o verso se nomeia pelo pé que domina e pelo número de pares de pés: um verso trocaico de quatro pares é um tetrâmetro, de dois, um dímetro; se o último pé está incompleto, o verso é catalético (Bennett § 366.1–11; Kennedy § 475). Na leitura, uma vogal final se elide diante de outra vogal: tantum ergō soa tant(um) ergō (Bennett § 366.7). O capítulo 40 trata disso com vagar. O Pe. Ravizza resume a diferença que importa aqui: a poesia dos gregos e dos romanos "chama-se quantitativa, a dos povos modernos baseia-se na acentuação"; o verso latino clássico "não tem rima, nem se compõe de um número determinado de sílabas" (início do capítulo de métrica).
Entre os séculos IV e IX, à medida que a distinção entre vogais longas e breves desaparecia da língua falada, os poetas cristãos passaram a compor para ouvidos que já não a sentiam. Muitos hinos antigos ainda são quantitativos (Ravizza lista os metros clássicos que a Igreja conservou nos seus hinos, n. 541), mas pouco a pouco o verso passou a se apoiar em três outras coisas, as mesmas da poesia portuguesa: o número de sílabas, a posição dos acentos das palavras e a rima. Ravizza fecha o seu quadro dos metros litúrgicos com esta observação: da poesia de tipo clássico "paulatinamente passou-se à poesia com assonâncias e rimas", e daí à acentuação, "que deu origem à poesia moderna baseada no número das sílabas e na sucessão dos acentos" (n. 541).
| Traço | Verso clássico (quantitativo) | Verso medieval (rítmico) |
|---|---|---|
| Base do ritmo | alternância de sílabas longas e breves | alternância de sílabas acentuadas e átonas |
| Medida | pés (moras); o número de sílabas varia | número fixo de sílabas por verso |
| Acento da palavra | pode coincidir ou não com o tempo forte | coincide com o tempo forte (com exceções) |
| Elisão | regular: vogal final diante de vogal desaparece | em geral ausente: todas as sílabas contam |
| Rima | ausente (ou ocasional, como ornamento) | essencial, muitas vezes dupla ou tripla |
Os dois hinos deste capítulo são rítmicos e trocaicos: os acentos caem nas sílabas ímpares (1ª, 3ª, 5ª, 7ª), como num troqueu acentual (forte-fraco). Leia em voz alta o primeiro verso do Dies irae batendo o acento: Dí-ēs ī-rae, dí-ēs íl-la. Quatro tempos fortes, oito sílabas. Agora repare na quantidade: o i de diēs é breve, e a sílaba seguinte, ēs, é longa. Num verso clássico, diēs (∪ –) seria um jambo, o contrário de um troqueu; aqui ele abre o verso com acento na primeira sílaba, porque o ouvido medieval segue o acento da palavra, não a duração da vogal.
O Pange lingua glōriōsī corporis mystērium é atribuído a Tomás de Aquino (c. 1225–1274), o teólogo dominicano que você lê no capítulo 54. Segundo a tradição, foi escrito para o ofício da festa de Corpus Christi, instituída para toda a Igreja pelo papa Urbano IV em 1264 (bula Transiturus), e canta a Eucaristia. As duas últimas estrofes, a partir de Tantum ergō, ganharam vida própria: são cantadas na bênção do Santíssimo Sacramento, e o hino inteiro acompanha a procissão de Quinta-feira Santa. O primeiro verso é uma homenagem: repete o início de outro hino, sobre a cruz, composto no século VI por Venâncio Fortunato, Pange, lingua, glōriōsī proelium certāminis, "Canta, ó língua, o combate da gloriosa luta". Tomás troca a cruz pelo corpo, e a batalha pelo mistério. (Proelium é a leitura dos manuscritos, seguida pela Wikisource; o Breviário Romano trazia lauream certāminis, "o laurel da luta", e é essa a forma que Ravizza cita no n. 541. A Catholic Encyclopedia de 1911, s.v. Pange Lingua Gloriosi, registra as duas.)
Fonte: Wikisource latina (Pange lingua), com macrons acrescentados e a grafia coenae conservada (é cēnae, "da ceia": um caso do oe por e do capítulo 50). A tradução é deste livro e segue o latim de perto; ela não procura conservar a métrica nem as rimas.
Cada estrofe tem seis versos que alternam oito e sete sílabas. O verso de oito termina em palavra paroxítona (glō-ri-ō-sī); o de sete, em proparoxítona (cor-po-ris mys-tē-ri-um). Juntando dois versos, temos uma linha de quinze sílabas, que é a versão acentual do tetrâmetro trocaico catalético: quatro pares de troqueus, o último incompleto. É o mesmo molde do hino de Venâncio, que Ravizza classifica entre os "trocaicos octonários catalécticos" e que se pode dividir em duas metades, "o primeiro perfeito, o segundo cataléctico" (n. 541). As rimas alternam: os versos ímpares rimam entre si (glōriōsī, pretiōsī, generōsī) e os pares também (mystērium, pretium, gentium). Nenhuma sílaba se elide: quem in mundī pretium tem sete sílabas contando quem e in separadamente, e Tantum ergō sacrāmentum, oito, com -tum e er- inteiros. Num verso clássico, quem in e tantum ergō perderiam uma sílaba na elisão.
| Estrofe | Expressão | Nota |
|---|---|---|
| 1 | pange | imperativo de pangō, -ere, compor, cantar (um poema). Lingua é vocativo. |
| 1 | sanguinisque pretiōsī, quem… | genitivo coordenado a corporis. O relativo quem (masculino) retoma sanguinis: "o sangue que…". |
| 1 | in mundī pretium | in + acusativo de finalidade: "como preço (resgate) do mundo". |
| 1 | frūctus ventris generōsī rēx… gentium | sujeito de effūdit: rēx gentium, "o Rei das nações", com o aposto frūctus ventris generōsī, "fruto de um ventre nobre". |
| 2 | Nōbīs datus, nōbīs nātus | particípios perfeitos passivos (capítulo 29) com dativos de interesse: "dado a nós, nascido para nós". O sujeito, Cristo, só aparece no verbo clausit. |
| 2 | sparsō verbī sēmine | ablativo absoluto (capítulo 30): "espalhada a semente da palavra". |
| 2 | suī morās incolātūs | mora, -ae, demora, tempo de permanência; incolātus, -ūs (4ª decl.), residência, estada; suī, genitivo de suus concordando com incolātūs: "o tempo da sua estada". |
| 3 | observātā lēge plēnē cibīs in lēgālibus | ablativo absoluto: "observada plenamente a lei"; cibīs in lēgālibus = in cibīs lēgālibus, "nos alimentos prescritos pela lei" (a ceia pascal judaica). A preposição entre o nome e o adjetivo é uma licença poética. |
| 3 | cibum turbae duodēnae sē dat | sē é o objeto e cibum o predicativo dele: "dá-se a si mesmo como alimento"; turbae duodēnae, dativo, "ao grupo dos doze" (duodēnī, distributivo, capítulo 19). |
| 4 | Verbum carō… efficit | Verbum carō, "o Verbo (feito) carne", é o sujeito; efficit com dois acusativos, pānem e carnem: "faz do pão carne". Verbō, ablativo de meio: "por uma palavra". O jogo Verbum… verbō é proposital. |
| 4 | fitque sanguis Chrīstī merum | merum, -ī (n.), vinho puro, é o sujeito de fit; sanguis, o predicativo: "e o vinho torna-se o sangue de Cristo". |
| 4 | ad firmandum cor sincērum | ad + gerundivo concordando com cor: finalidade, "para firmar um coração sincero" (capítulo 31). |
| 5 | cernuī | cernuus, -a, -um, inclinado para a frente, prostrado; nominativo plural, predicativo do sujeito "nós". |
| 5 | antīquum documentum | documentum, -ī (n.), ensinamento, lição: a Lei antiga. É nominativo, sujeito de cēdat, embora tenha a mesma forma do acusativo. |
| 5 | sēnsuum dēfectuī | genitivo plural e dativo singular da 4ª declinação (sēnsus, -ūs; dēfectus, -ūs): "à falha dos sentidos". |
| 6 | Genitōrī Genitōque | dativos: "ao que gerou e ao que foi gerado", o Pai e o Filho. |
| 6 | laus et iūbilātiō… sit | vários sujeitos com o verbo no singular, concordando com o mais próximo; subjuntivo de desejo: "seja (dado) louvor e júbilo". |
| 6 | prōcēdentī ab utrōque | particípio presente no dativo: "ao que procede de ambos", o Espírito Santo. Compar, "igual". |
A quinta estrofe é a mais cantada do hino e um pequeno catálogo dos subjuntivos de vontade do capítulo 32:
| Palavra | Dicionário | Análise | Função |
|---|---|---|---|
| Tantum | tantus, -a, -um, tão grande | acusativo singular neutro | adjunto de sacrāmentum |
| ergō | ergō (conjunção) | invariável | "pois, portanto": tira a consequência das estrofes anteriores |
| sacrāmentum | sacrāmentum, -ī (n.) | acusativo singular | objeto direto de venerēmur |
| venerēmur | veneror, -ārī, venerātus sum (depoente, 1ª conj.) | presente do subjuntivo, 1ª pl. (ā → ē) | exortativo: "veneremos" (Bennett § 274) |
| cernuī | cernuus, -a, -um, prostrado | nominativo plural masculino | predicativo do sujeito "nós" |
| et antīquum documentum | antīquus, -a, -um; documentum, -ī (n.) | nominativo singular neutro | sujeito de cēdat |
| novō… rītuī | novus, -a, -um; rītus, -ūs (m.), rito | dativo singular (4ª decl. em -uī) | complemento de cēdat: "ao novo rito" |
| cēdat | cēdō, -ere, cessī, ceder | presente do subjuntivo, 3ª sing. (3ª conj.: + a) | jussivo: "ceda" (Bennett § 275) |
| praestet | praestō, -āre, fornecer | presente do subjuntivo, 3ª sing. (1ª conj.: ā → e) | jussivo: "que forneça, supra" |
| fidēs | fidēs, -eī (f.), fé | nominativo singular | sujeito de praestet; sentido cristão (capítulo 50) |
| supplēmentum | supplēmentum, -ī (n.), complemento | acusativo singular | objeto direto de praestet |
| sēnsuum | sēnsus, -ūs (m.), sentido | genitivo plural | adjunto de dēfectuī |
| dēfectuī | dēfectus, -ūs (m.), falha, falta | dativo singular | objeto indireto: "à falha" |
O ponto delicado é antīquum documentum. Quem lê em ordem vê um acusativo possível (a forma neutra é ambígua) logo depois do objeto sacrāmentum e tende a juntá-lo a venerēmur. Mas o et abre uma nova oração, e cēdat, no singular, precisa de um sujeito: é documentum. O raciocínio por exclusão do capítulo 3 resolve: novō rītuī está no dativo, cēdō é intransitivo, e só sobra o neutro para sujeito.
O Dies irae é uma sequência, isto é, um poema cantado na missa antes do Evangelho. Ele é tradicionalmente atribuído a Tomás de Celano, frade franciscano do século XIII e biógrafo de São Francisco, mas a autoria não é segura. Durante séculos foi a sequência da missa de defuntos (o Requiem) no rito romano; a reforma litúrgica de 1969–1970 tirou-o da missa, e ele sobrevive na liturgia das horas, nas celebrações segundo os livros anteriores à reforma e nas obras de Mozart, Verdi e tantos outros. O primeiro verso vem da Vulgata, do profeta Sofonias: Diēs īrae diēs illa, diēs tribulātiōnis et angustiae…, "Dia de ira aquele dia, dia de tribulação e de angústia…" (Sf 1,15). O poema descreve o Juízo Final e passa, na estrofe VII, da descrição à súplica pessoal.
Fonte: texto de Charles C. Nott (1902), na Wikisource latina, estrofes I–X de dezoito; adaptações: ae por æ, i por j, cum por quum (capítulo 50), Sibyllā por Sybillâ, macrons acrescentados. As estrofes XI–XVIII são lidas no exercício 4. O texto litúrgico acrescenta, depois da última estrofe, uma prece final (Pie Iēsū Domine, dōnā eīs requiem) que não está na edição de Nott. A tradução é deste livro.
O Dies irae é mais simples e mais insistente que o Pange lingua. Cada verso tem oito sílabas, todas paroxítonas no fim, com acentos nas ímpares: é um dímetro trocaico acentual, dois pares de troqueus completos. Os versos se agrupam em tercetos com uma só rima: illa, favillā, Sibyllā; futūrus, ventūrus, discussūrus; sonum, regiōnum, thronum. Essa rima tripla, que soa como um sino, é o recurso mais característico do poema. Para caber nas oito sílabas, o poeta usa às vezes formas mais curtas: saeclum por saeculum, nīl por nihil. Com saeculum, o segundo verso teria nove sílabas; num verso clássico, a elisão de saeclum in resolveria a conta de outro modo, mas aqui todas as sílabas soam: sol-vet-sae-clum-in-fa-vil-lā.
| Estrofe | Expressão | Nota |
|---|---|---|
| I | solvet saeclum in favillā | solvō, -ere, dissolver; futuro. Saeclum, forma sincopada de saeculum, "o mundo" (sentido cristão, capítulo 50); favilla, -ae, cinza. |
| I | teste David cum Sibyllā | ablativo absoluto sem particípio (capítulo 30): "sendo testemunha Davi com a Sibila", isto é, os Salmos e os oráculos da Sibila, que a tradição cristã lia como profecias. |
| II | est futūrus… est ventūrus… discussūrus | particípios futuros com sum: a perifrástica ativa, "está para ser, há de vir" (Bennett § 115). Discussūrus (de discutiō, examinar) indica a finalidade: "para examinar". |
| III | cōget | futuro de cōgō, -ere, reunir (de co- + agō). |
| IV | iūdicantī respōnsūra | iūdicantī, particípio presente no dativo, "a quem julga"; respōnsūra, particípio futuro concordando com creātūra: "para responder". |
| V | unde mundus iūdicētur | relativa final: unde = ut inde, "para que a partir dele" (Bennett § 282.2). Ver o diagrama abaixo. |
| VI | nīl inultum remanēbit | inultus, -a, -um, impune, não vingado: "nada ficará impune". |
| VII | Quid sum miser tunc dictūrus? Quem patrōnum rogātūrus | perifrástica ativa (o sum se subentende no segundo verso): "que hei de dizer, a que protetor hei de rogar?". Miser é predicativo do sujeito "eu". |
| VII | cum vix iūstus sit sēcūrus | cum + subjuntivo causal ou concessivo (Bennett §§ 286.2 e 309.3; A&G § 549): "quando, já que, nem o justo está seguro". |
| VIII | quī salvandōs salvās grātīs | salvandōs, gerundivo (capítulo 31) usado como substantivo: "os que devem ser salvos"; grātīs, advérbio, "de graça". Salvāre é o verbo cristão do capítulo 50. |
| IX | Recordāre… quod sum causa tuae viae | recordāre, imperativo do depoente recordor (capítulo 25); quod + indicativo no lugar da oração infinitiva, como no latim cristão (capítulo 50): "lembra-te de que sou a causa". |
| IX | nē mē perdās | proibição com nē + presente do subjuntivo: ver a seção 6. |
| X | Quaerēns mē sēdistī lassus | alusão a Jo 4,6, onde Jesus, cansado do caminho, se senta junto ao poço: Iēsūs ergō fatīgātus ex itinere, sedēbat sīc suprā fontem. Sēdistī, perfeito de sedeō. |
| X | crucem passus | particípio perfeito de patior, depoente: "tendo sofrido (sofrendo) a cruz". |
Um hino é uma oração cantada: convida, ordena, deseja, suplica. Por isso vive do subjuntivo de vontade estudado no capítulo 32, e lê-lo é uma boa revisão daquele capítulo. A tabela reúne os subjuntivos dos dois textos e compara cada um com a norma clássica.
| Forma | Onde | Uso | Comentário |
|---|---|---|---|
| venerēmur | Pange lingua 5 | exortativo (1ª pl.) | clássico (Bennett § 274): "veneremos" |
| cēdat, praestet | Pange lingua 5 | jussivo (3ª sing.) | clássico (Bennett § 275): "ceda", "supra" |
| sit… sit | Pange lingua 6 | optativo / jussivo | desejo sem utinam, como nas fórmulas de louvor (Bennett § 279; A&G § 441): "seja" |
| iūdicētur | Dies irae V | relativa final | clássico (Bennett § 282.2): unde = ut inde |
| sit sēcūrus | Dies irae VII | cum causal ou concessivo | clássico (Bennett §§ 286.2, 309.3) |
| nē… perdās | Dies irae IX | proibição: nē + presente | Bennett § 276 admite o presente e o perfeito, mas nota que as duas construções são pouco frequentes na prosa clássica, que prefere nōlī + infinitivo; nas orações e na Vulgata o presente é comum (nē nōs indūcās, capítulo 32) |
| nōn sit cassus | Dies irae X | jussivo/optativo negado com nōn | a norma é nē; A&G § 439, nota 3, registra nōn "ocasionalmente nos poetas e nos autores tardios" |
Repare que quase todos os usos são clássicos: o latim dos hinos não inventa subjuntivos novos, usa os de sempre com a frequência que o gênero pede. As duas marcas tardias são pequenas e coerentes com o capítulo 50: a preferência pelo presente na proibição, que vem da linguagem da oração e da Vulgata, e a negação nōn num desejo, que soa ao ouvido medieval como o nosso "que não seja em vão".
O capítulo 53 volta à prosa: as Confissões de Agostinho, um latim cristão de alta retórica.
Erro: Escandir o hino por longas e breves, como um verso de Virgílio.
Por quê, e como evitar: Os hinos rítmicos ignoram a quantidade: diēs, com i breve, abre o Dies irae num tempo forte. Conte sílabas e marque os acentos das palavras; a escansão quantitativa (capítulo 40) serve para a poesia clássica e para os hinos antigos de metro clássico, não para estes.
Erro: Elidir vogais ao contar as sílabas (tant(um) ergō, sae(clum) in).
Por quê, e como evitar: No verso rítmico todas as sílabas soam. Tantum ergō sacrāmentum tem oito sílabas, e é com oito que ele casa com a melodia e com os outros versos ímpares do hino.
Erro: Ler antīquum documentum como objeto de venerēmur.
Por quê, e como evitar: O et abre outra oração, cujo verbo é cēdat, no singular: o sujeito só pode ser o neutro documentum. "Ceda a antiga lição ao novo rito", não "veneremos a antiga lição".
Erro: Traduzir est futūrus, est ventūrus como presentes ("é futuro", "é vindouro").
Por quê, e como evitar: É a perifrástica ativa (Bennett § 115): particípio futuro + sum = "há de ser, está para vir". Em português, "quanto tremor haverá, quando o juiz vier".
Erro: Corrigir nōn sit cassus para nē sit cassus, ou nē perdās para nē perdiderīs.
Por quê, e como evitar: O texto está certo para o seu tempo. A norma clássica prefere nē nos desejos e o perfeito ou nōlī nas proibições, mas o presente proibitivo é comum nas orações e na Vulgata, e nōn no jussivo aparece nos poetas e nos autores tardios (A&G § 439, nota 3). Reconheça, não corrija.
Erro: Ler cibum… sē dat como "dá o alimento a si mesmo".
Por quê, e como evitar: Sē é o objeto direto e cibum o seu predicativo: "dá-se a si mesmo como alimento". O destinatário está no dativo, turbae duodēnae.
Resolvida passo a passo: leia a pergunta, tente responder e só então abra cada passo.
Faça a análise rítmica dos dois primeiros versos do Tantum ergo: Tantum ergō sacrāmentum / venerēmur cernuī.
tan-tum-er-gō-sa-crā-men-tum: oito sílabas. O -um de tantum não se elide diante de ergō.
tantum (dissílaba, acento na primeira), ergō (idem), sa-crā-men-tum (penúltima longa por posição, -men- seguido de nt, recebe o acento). Acentos nas sílabas 1, 3 e 7; a 5ª (sa-) recebe um acento secundário no canto. Movimento trocaico: forte-fraco.
ve-ne-rē-mur-cer-nu-ī: sete sílabas. Acentos: ve-ne-rē-mur (penúltima rē longa) e cer-nu-ī (penúltima nu breve, acento na antepenúltima). O verso termina em proparoxítona, como todos os versos pares do hino.
Sacrāmentum rima com documentum e supplēmentum (versos ímpares, -entum); cernuī com rītuī e dēfectuī (versos pares, -uī).
Conclusão: 8 + 7 sílabas, acentos nas ímpares, rimas alternadas: é a arquitetura de todas as estrofes do Pange lingua.
Analise e traduza: Recordāre, Iēsū pie, / quod sum causa tuae viae: / nē mē perdās illā diē. Vocabulário: recordor, -ārī, lembrar-se; pius, -a, -um, piedoso, bom; via, -ae, caminho; perdō, -ere, perder.
É o imperativo presente, 2ª sing., do depoente recordor: "lembra-te". Nos depoentes o imperativo singular tem a forma de um infinitivo ativo (capítulo 25); o vocativo ao lado (Iēsū pie) confirma que é uma ordem a alguém.
Vocativos: Iēsū, vocativo de Iēsūs, -ū; pie, de pius, com o -e dos adjetivos em -us.
Quod + indicativo diz o conteúdo da lembrança: "(lembra-te) de que sou a causa do teu caminho". É o quod declarativo do capítulo 50; em latim clássico, mē esse causam. "O teu caminho" é a vinda de Cristo ao mundo.
Proibição (ou súplica negativa) com nē + presente do subjuntivo de perdō (3ª conj., + a), 2ª sing.: "não me percas" (Bennett § 276). Illā diē, ablativo de tempo: "naquele dia".
"Lembra-te, ó bom Jesus, de que eu sou a razão do teu caminho: não me percas naquele dia."
Faça por escrito ou em voz alta; abra "Ver resposta" só depois de tentar. A explicação da resposta faz parte da lição.
Conte as sílabas sem elisão, marque os acentos e diga se o verso é de 8 ou de 7 sílabas e se termina em paroxítona ou proparoxítona.
nō-bīs-da-tus-nō-bīs-nā-tus: 8 sílabas, acentos nas ímpares, final paroxítono.
ex-in-tāc-tā-vir-gi-ne: 7 sílabas (sem elisão de ex in-), final proparoxítono (Vir-gi-ne).
quid-sum-mi-ser-tunc-dic-tū-rus: 8 sílabas. Miser tem i breve, mas recebe o acento: o ritmo é acentual.
sol-vet-sae-clum-in-fa-vil-lā: 8 sílabas sem elisão; com saeculum seriam 9. A 5ª sílaba (in) é fraca: nem todo verso tem os quatro acentos.
prō-cē-den-tī-ab-u-trō-que: 8 sílabas, sem elisão de -tī ab.
Responda.
Alternado, ABABAB: coenae, plēnē, duodēnae (A, -ēn-) e frātribus, lēgālibus, manibus (B, -ibus).
AAA: uma rima por terceto (tremor… futūrus / ventūrus / discussūrus). Na estrofe XVIII, de quatro versos, a rima muda no meio (illa / favillā e reus / Deus).
Saeclum, forma sincopada de saeculum: com a forma longa o verso teria nove sílabas, e no verso rítmico não há elisão que absorva a sílaba a mais.
Do hino de Venâncio Fortunato (século VI) sobre a cruz, Pange, lingua, glōriōsī proelium certāminis. Tomás repete as três primeiras palavras e o molde rítmico.
Dê o tempo, a pessoa e o uso do subjuntivo e traduza a expressão.
Presente, 1ª pl., do depoente veneror; exortativo: "veneremos".
Presente de sum, 3ª sing.; optativo/jussivo de louvor: "seja igual o louvor".
Presente passivo, 3ª sing., de iūdicō; relativa final com unde = ut inde: "pelo qual o mundo seja julgado".
Presente de sum, 3ª sing.; cum causal/concessivo: "quando nem o justo está seguro".
Presente, 2ª sing., de perdō; proibição com nē: "não me percas".
Presente passivo, 1ª sing., de cremō (1ª conj.: crem-e-r); oração final com nē depois de fac benignē: "(faze, em tua bondade,) que eu não seja queimado no fogo eterno" (Bennett § 282.1).
Traduza. Texto de Nott (1902), adaptado como as estrofes I–X. Vocabulário: ultiō, -ōnis, castigo, vingança; remissiō, -ōnis, perdão; ratiō, -ōnis, prestação de contas; ingemīscō, -ere, gemer; tamquam, como; reus, -ī, réu; rubeō, -ēre, ficar vermelho; vultus, -ūs, rosto; supplicō, -āre, suplicar; parcō, -ere, poupar (com dativo); supplex, -icis, suplicante; acclīnis, -e, inclinado; contrītus, triturado, contrito; cinis, -eris, cinza; lacrimōsus, lacrimoso.
"Justo juiz do castigo, concede o dom do perdão antes do dia das contas." Iūste iūdex, vocativo; fac, imperativo curto de faciō (capítulo 22); dōnum fac, "faze (dá) o dom".
"Gemo como um réu, de culpa enrubesce o meu rosto: poupa, ó Deus, quem te suplica." Culpā, ablativo de causa; supplicantī, particípio presente no dativo, exigido por parce.
"Rogo suplicante e inclinado, com o coração contrito como cinza: cuida do meu fim." Cor contrītum é um nominativo solto (ou acusativo de relação), "(tendo) o coração contrito"; gere cūram + genitivo, "tem cuidado de"; meī concorda com fīnis.
"Dia de lágrimas aquele, em que ressurgirá da cinza o homem culpado para ser julgado: poupa-o, pois, ó Deus." Quā, ablativo de tempo do relativo (retoma diēs, aqui feminino); iūdicandus, gerundivo, "que deve ser julgado"; huic, dativo de hīc com parce.
Explique a construção destacada e traduza.
Ablativo absoluto (capítulo 30): particípio sparsō + nome sēmine no ablativo, com o genitivo verbī. "Espalhada a semente da palavra", "depois de espalhar a semente da palavra".
Outro ablativo absoluto: "observada plenamente a lei".
Efficiō com dois acusativos, objeto (pānem) e predicativo do objeto (carnem): "faz do pão carne", como Populus Cicerōnem cōnsulem creat, "o povo elege Cícero cônsul" (capítulo 22).
Ad + gerundivo concordando com cor: finalidade (capítulo 31). "Para firmar um coração sincero".
Dativos de interesse ("ao Pai e ao Filho") com o subjuntivo de desejo sit: "ao Pai e ao Filho seja louvor".
Leia os dois hinos inteiros nas páginas do catálogo (o Dies irae com as oito estrofes que ficaram para o exercício 4) e, se puder, ouça-os cantados em gregoriano: a melodia torna o ritmo evidente. O Stabat Mater, atribuído a Jacopone da Todi, usa um verso trocaico muito parecido com o do Dies irae (8 + 8 + 7 sílabas) e é o melhor texto para treinar o que você aprendeu aqui. O Te Deum, mais antigo, é prosa rítmica, sem métrica regular: compare. Os Carmina Burana mostram o verso rítmico rimado fora da igreja, em canções de taberna e de amor; são mais difíceis (nível 4 no catálogo). No Pe. Ravizza, o n. 541 lista os metros clássicos que a Igreja conservou nos seus hinos, com exemplos que você já pode ler.
Thomas de Aquino
O hino eucarístico de São Tomás de Aquino, cujas duas últimas estrofes formam o Tantum ergo. Seis estrofes rimadas; sintaxe condensada que vale a pena destrinchar. Sem notas.
Atribuído a Thomas de Celano
A sequência do Juízo Final (séc. XIII), em tercetos rimados de oito sílabas: "Dies irae, dies illa". Vocabulário concentrado e memorável. Texto transcrito de uma antologia de 1902. Sem notas.
Atribuído a Nicetas de Remesiana ou a Ambrósio
O hino de ação de graças da Igreja latina, com acentos tônicos marcados para recitação. Texto curto, frases paralelas e vocabulário bíblico. Sem notas.
Atribuído a Jacopone da Todi
A sequência mariana da Sexta-feira Santa, vinte tercetos com acentos tônicos marcados, na versão do Missal Romano. Frases curtas e rimas regulares. Sem notas; gravação no LibriVox.
Anônimo (séc. XII–XIII)
Dezenove poemas goliárdicos do manuscrito de Beuern: canções de primavera, de taberna e de amor, em latim medieval rimado e acentual. Vocabulário vivo e às vezes raro. Sem notas.
Pe. João Ravizza
Gramática latina completa em português, usada por gerações nas escolas brasileiras, com um compêndio de história da literatura latina. Nona edição (1940), em domínio público (autor falecido em 1941). Fac-símile em PDF no Internet Archive.