Colloquia Personarum
Hans H. Ørberg
Diálogos graduados que acompanham a progressão de Familia Romana, para leitura em voz alta e prática de conversa. Livro comercial da Hackett Publishing; aqui, apenas a referência oficial.
Elementa Linguae Latinae·Parte II · Grammatica·Capítulo 14·60 minReportar problema
Dē prōnōminibus persōnālibus
Os pronomes ego, tū, nōs, vōs e suas formas (inclusive nostrum × nostrī e mēcum, tēcum, nōbīscum); por que o latim omite o pronome sujeito e quando o usa; is, ea, id no lugar da terceira pessoa; o reflexivo suī, sibi, sē; os possessivos meus, tuus, noster, vester e a distinção entre suus e eius, a armadilha do "seu" português, com uma frase do Evangelho de João analisada palavra a palavra.
Antes deste capítulo: Capítulo 5 (segunda declinação e adjetivos de primeira classe, porque os possessivos se declinam como bonus e pulcher) e capítulo 6 (as seis pessoas do presente). Os capítulos 9 a 13 ajudam a reconhecer alguns nomes e as formas de perfeito das frases autênticas, que vêm glosadas. · capítulo 5 · capítulo 6
No capítulo 6 você viu que o verbo latino traz a pessoa na terminação: amō é "eu amo", amās é "tu amas", amāmus é "nós amamos". Os pronomes pessoais são as palavras que designam essas mesmas pessoas fora do verbo: a 1ª pessoa, quem fala (ego, "eu"; nōs, "nós"), e a 2ª, a quem se fala (tū, "tu, você"; vōs, "vós, vocês"). Como os nomes, eles têm casos, porque podem ser sujeito, objeto, destinatário ou complemento de preposição. Diferentemente dos nomes, não pertencem a nenhuma das cinco declinações: são formas antigas e irregulares, que se aprendem de cor, como em português se aprendem "eu, me, mim, comigo".
| Caso | 1ª sing. | 1ª pl. | 2ª sing. | 2ª pl. |
|---|---|---|---|---|
| Nominativo | ego | nōs | tū | vōs |
| Genitivo | meī | nostrum · nostrī | tuī | vestrum · vestrī |
| Dativo | mihi | nōbīs | tibi | vōbīs |
| Acusativo | mē | nōs | tē | vōs |
| Vocativo | — | — | tū | vōs |
| Ablativo | mē | nōbīs | tē | vōbīs |
Leia as colunas em voz alta: ego, meī, mihi, mē, mē; tū, tuī, tibi, tē, tū, tē. Três observações tornam o quadro mais fácil do que parece. Primeiro, o acusativo e o ablativo singular são iguais (mē, tē), e no plural o nominativo é igual ao acusativo (nōs, vōs) e o dativo igual ao ablativo (nōbīs, vōbīs), como em todos os plurais latinos. Segundo, ego e nōs não têm vocativo, pela razão óbvia de que ninguém chama a si mesmo; o vocativo de tū e vōs é igual ao nominativo. Terceiro, o i final de mihi e tibi é breve (os poetas às vezes o alongam, e há também um dativo contraído mī, poético); o acento cai na primeira sílaba: mihi, tibi.
O genitivo dos pessoais é pouco usado, e por um bom motivo que você verá na seção 4: para dizer "meu livro" o latim não usa o genitivo meī, usa o adjetivo possessivo meus. O que sobra para o genitivo são dois sentidos especiais, e no plural cada um tem sua forma. Nostrum e vestrum são partitivos: indicam o todo de que se tira uma parte, "de nós" no sentido de "dentre nós" (ūnus nostrum, "um de nós"; multī vestrum, "muitos de vocês"). Nostrī e vestrī, como meī e tuī no singular, são objetivos: a pessoa é o alvo de um sentimento ou de uma ação contida num nome (amor nostrī, "o amor por nós"; memoria vestrī, "a lembrança de vocês", isto é, que se tem de vocês). O português diz "de nós" nos dois casos, e por isso a distinção precisa ser aprendida; os usos do genitivo serão estudados com calma no capítulo 20.
A preposição cum, "com", pede ablativo, e com os pessoais e o reflexivo ela se cola depois do pronome, formando uma só palavra: mēcum, "comigo"; tēcum, "contigo, com você"; nōbīscum, "conosco"; vōbīscum, "convosco, com vocês"; e sēcum, "consigo" (seção 3). Nunca se diz cum mē. O português guarda a marca dessa construção: em "comigo", "contigo" e "consigo", o final -go é o antigo -cum, que deixou de ser sentido como preposição e recebeu um "com" novo na frente (explicação histórica corrente; o detalhe fonético não importa aqui).
Em latim, a regra é não usar o pronome sujeito. A terminação do verbo já diz quem faz a ação, e dizer ego amō seria dizer duas vezes "eu". Por isso videō basta para "eu vejo" e venītis para "vocês vêm". O português do Brasil, que tende a expressar o sujeito ("eu acho", "você sabe"), leva o aluno a pôr ego e tū em toda frase; resista. Um texto latino cheio de ego soa insistente, quase como um "eu, eu mesmo, eu" repetido.
Quando então o pronome aparece? Quando ele carrega uma informação que a terminação não carrega: ênfase ("eu, e não outro") ou contraste entre duas pessoas. Repare como, nos exemplos abaixo, o pronome sempre se opõe a alguém:
Daí uma regra prática de tradução nos dois sentidos. Do latim para o português, quando você encontrar um ego ou um tū expressos, procure o contraste que o justifica e, se o português permitir, marque-o ("eu é que trabalho"). Do português para o latim, deixe o pronome de fora, a não ser que a frase contraponha pessoas. Nas frases autênticas da seção 6 e do exercício 5 você verá esse uso funcionando: o Ego que abre Jo 10,11 não está lá por acaso.
Para reforçar ainda mais um pronome, o latim tem uma partícula -met (egomet, "eu mesmo") e o pronome ipse, "mesmo, próprio". A partícula é rara; ipse, que é muito frequente, será estudado com os demonstrativos no capítulo 15.
O quadro da seção 1 não tem 3ª pessoa, e não por esquecimento: o latim não tem um pronome pessoal de 3ª pessoa propriamente dito. Para dizer "ele, ela, o, a, lhe", usa um demonstrativo, em geral o mais fraco deles, is, ea, id, "esse, aquele" (no próximo capítulo você o estudará ao lado de hīc, ille e iste). Aqui interessa só o seu uso como "ele, ela", com o paradigma para consulta:
| Caso | m. sing. | f. sing. | n. sing. | m. pl. | f. pl. | n. pl. |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Nominativo | is | ea | id | eī (iī) | eae | ea |
| Genitivo | eius | eius | eius | eōrum | eārum | eōrum |
| Dativo | eī | eī | eī | eīs (iīs) | eīs (iīs) | eīs (iīs) |
| Acusativo | eum | eam | id | eōs | eās | ea |
| Ablativo | eō | eā | eō | eīs (iīs) | eīs (iīs) | eīs (iīs) |
Fora o genitivo eius e o dativo eī no singular, as terminações são as de bonus: eum, eam; eō, eā; eōs, eās, ea; eōrum, eārum. O pronome concorda em gênero e número com o nome que substitui, e o gênero é o gramatical: um livro (liber, m.) é "ele", eum; uma rosa é eam; um presente (dōnum, n.) é id. No nominativo, como os outros pronomes sujeito, is e ea só aparecem quando há ênfase; nos outros casos, são o modo normal de retomar alguém já mencionado:
Compare "Marco o elogia" e "Marco se elogia". No primeiro caso, o objeto é outra pessoa; no segundo, é o próprio Marco. O latim distingue as duas coisas com rigor ainda maior do que o português: para a pessoa que é o próprio sujeito usa o pronome reflexivo sē; para qualquer outra pessoa, is, ea, id.
| Caso | Formas |
|---|---|
| Nominativo | — |
| Genitivo | suī |
| Dativo | sibi |
| Acusativo | sē (sēsē) |
| Ablativo | sē (sēsē) |
O reflexivo não tem nominativo, e a razão é lógica: ele significa "o próprio sujeito" e, por isso, nunca pode ser o sujeito. Também não distingue gênero nem número: sē é "se, a si mesmo, a si mesma, a si mesmos", conforme o sujeito. Repare que o paradigma copia o de tū (tuī, tibi, tē → suī, sibi, sē), e que cum se cola a ele como aos pessoais: sēcum, "consigo, com ele mesmo".
| Latim | Português | A quem se refere |
|---|---|---|
| Mārcus sē laudat. | Marco se elogia (elogia a si mesmo). | ao sujeito, Marco |
| Mārcus eum laudat. | Marco o elogia (elogia outro homem). | a outra pessoa, já mencionada |
| Puellae sibi rosās capiunt. | As meninas pegam rosas para si. | ao sujeito, as meninas |
| Puellae eīs rosās dant. | As meninas dão rosas a eles (ou a elas). | a outras pessoas |
| Magister librōs sēcum portat. | O professor leva os livros consigo. | ao sujeito, o professor |
Na 1ª e na 2ª pessoa não há confusão possível, e o latim não precisa de uma forma especial: os casos oblíquos de ego e tū servem de reflexivos. Mē laudō é "elogio a mim mesmo"; tē vidēs, "tu te vês"; nōs dēfendimus, "nós nos defendemos" (dēfendō, defender). Nunca se diz ego sē laudō: sē é exclusivamente de 3ª pessoa.
Os pronomes possessivos latinos são, na forma, simples adjetivos de primeira classe, como os que você aprendeu no capítulo 5. Há um para cada pessoa: meus, "meu"; tuus, "teu, seu (de você)"; noster, "nosso"; vester, "vosso, de vocês"; e, para a 3ª pessoa, suus, "seu (dele, dela, deles, delas)", que é reflexivo, como sē, e terá a seção seguinte só para ele. Meus, tuus, suus se declinam como bonus; noster e vester como pulcher, perdendo o e fora do nominativo masculino (noster, nostra, nostrum; nostrī, nostrae...).
| Caso | m. sing. | f. sing. | n. sing. | m. pl. | f. pl. | n. pl. |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Nominativo | meus | mea | meum | meī | meae | mea |
| Genitivo | meī | meae | meī | meōrum | meārum | meōrum |
| Dativo | meō | meae | meō | meīs | meīs | meīs |
| Acusativo | meum | meam | meum | meōs | meās | mea |
| Vocativo | mī | mea | meum | meī | meae | mea |
| Ablativo | meō | meā | meō | meīs | meīs | meīs |
A única forma inesperada é o vocativo masculino singular mī, e não "mee": mī fīlī, "meu filho!"; mī amīce, "meu amigo!". Os outros possessivos praticamente não têm vocativo, porque raramente se chama alguém de "teu" ou "seu"; a exceção é noster, cujo vocativo é igual ao nominativo. Cuidado ainda com meī, que pode ser o genitivo de ego ("de mim") ou uma forma de meus (genitivo singular, nominativo ou vocativo plural); decide o nome com que meus concordaria: amīcī meī, "meus amigos" ou "do meu amigo".
Como todo adjetivo, o possessivo toma o gênero, o número e o caso do nome a que se refere, isto é, da coisa possuída. A pessoa do possuidor só escolhe qual possessivo usar (meus ou tuus). O português faz o mesmo ("minha rosa", diga-o um homem ou uma mulher), mas o latim exige atenção porque o possessivo também precisa do caso certo:
Daí também a regra de que o latim não usa o genitivo dos pessoais para indicar posse: "o nosso pai" é pater noster, nunca pater nostrī ou pater nostrum. E, como o latim não tem artigo, o possessivo costuma ser omitido quando o sentido já é claro: Mārcus patrem amat é, normalmente, "Marco ama o seu pai". O possessivo aparece quando há risco de confusão, e então costuma vir depois do nome (pater meus); vem antes quando há ênfase ou contraste (meus pater, "o meu pai", não o seu).
Em português, "seu" é uma das palavras mais ambíguas da língua. "Pedro visitou Paulo e sua irmã": a irmã é de Pedro ou de Paulo? E no Brasil "seu" quer dizer, quase sempre, "de você" ("o seu livro está aqui"). O latim não admite essa ambiguidade, e ao traduzir "seu" você precisa decidir entre três palavras:
| Latim | Quando se usa | Exemplo |
|---|---|---|
| tuus, -a, -um (vester) | "seu" = de você (de vocês) | Liber tuus hīc est. O seu livro (de você) está aqui. (hīc, aqui) |
| suus, -a, -um | "seu" = do próprio sujeito da oração (reflexivo) | Mārcus librum suum legit. Marco lê o seu (próprio) livro. |
| eius (sing.) · eōrum, eārum (pl.) | "seu" = dele, dela, deles, delas: de outra pessoa que não o sujeito | Mārcus librum eius legit. Marco lê o livro dele (de outro). |
A regra decisiva é a do reflexivo: suus se refere ao sujeito da oração, exatamente como sē. É um adjetivo, e por isso concorda com a coisa possuída (librum suum, rosam suam, dōna sua). Eius, ao contrário, não é adjetivo: é o genitivo de is, "dele, dela", e por isso não varia com a coisa possuída, só com o possuidor: eius para um possuidor (homem ou mulher), eōrum para vários possuidores masculinos (ou neutros), eārum para várias possuidoras.
Note três consequências. Primeiro, suus concorda com a coisa, não com o possuidor: "Júlia lê o seu livro" é Iūlia librum suum legit, masculino, embora Júlia seja mulher, porque liber é masculino. Segundo, o número do possuidor não muda suus: "os meninos amam o seu cavalo" é puerī equum suum amant, com suum no singular, porque o cavalo é um só. Terceiro, quando o possuidor foi mencionado em outra oração e não é o sujeito daquela em que está a coisa possuída, use eius: Mārcus in hortō est; amīcus eius librum legit, "Marco está no jardim; o amigo dele lê um livro" (suus aqui apontaria para amīcus, sujeito de legit).
| Latim | Tradução | Por quê |
|---|---|---|
| Pater fīliōs suōs amat. | O pai ama os seus (próprios) filhos. | suōs: possuidor = sujeito (pater); acusativo plural, como fīliōs |
| Pater fīliōs eius amat. | O pai ama os filhos dele (de outro homem). | eius: possuidor ≠ sujeito; invariável |
| Mātrēs fīliās suās vocant. | As mães chamam as suas (próprias) filhas. | possuidor = sujeito; suās concorda com fīliās |
| Mātrēs fīliās eārum vocant. | As mães chamam as filhas delas (de outras mulheres). | eārum: várias possuidoras, que não são o sujeito |
| Iūlia et frāter eius veniunt. | Júlia e o irmão dela vêm. | frāter eius é parte do sujeito, e não complemento dele: não pode ser suus |
No capítulo 10 do Evangelho de João, Jesus se compara a um pastor. A frase reúne quase tudo deste capítulo: um pronome sujeito expresso, que você agora sabe que tem um motivo, e duas formas do possessivo reflexivo.
Vocabulário: pāstor, -ōris (m.), pastor, da 3ª declinação, como victor (capítulo 9); anima, -ae (f.), alma, vida; prō, preposição com ablativo, "em favor de, por"; ovis, ovis (f.), ovelha, da 3ª declinação, tema em -i (capítulo 10). Dat é a 3ª pessoa do singular do presente de dō, dare, "dar".
| Palavra | Dicionário | Análise | Função |
|---|---|---|---|
| Ego | ego, meī, pronome pessoal da 1ª pessoa | nominativo singular | sujeito de sum, expresso por ênfase: "eu (e não outro)" |
| sum | sum, esse, ser | presente, 1ª pessoa do singular | cópula; a terminação já diria "eu" |
| pāstor | pāstor, -ōris (m.), pastor | nominativo singular, 3ª declinação | predicativo do sujeito, no nominativo como ego |
| bonus | bonus, -a, -um, bom | nominativo singular masculino | atributo de pāstor |
| Bonus pāstor | bonus · pāstor | nominativo singular masculino | sujeito de dat |
| animam | anima, -ae (f.), vida, alma | acusativo singular, 1ª declinação | objeto direto de dat |
| suam | suus, -a, -um, possessivo reflexivo | acusativo singular feminino, concordando com animam | "a sua (própria)": a vida do sujeito, o pastor |
| dat | dō, dare, dar | presente, 3ª pessoa do singular | verbo da segunda oração |
| prō | prō (preposição + ablativo), em favor de, por | invariável | introduz o beneficiário |
| ovibus | ovis, ovis (f.), ovelha | ablativo plural, 3ª declinação | com prō: "pelas ovelhas" |
| suīs | suus, -a, -um | ablativo plural feminino, concordando com ovibus | "suas": as ovelhas do sujeito, o pastor |
Três observações. Primeiro, Ego: sum sozinho já diria "eu sou"; o pronome está lá para destacar a pessoa, e o versículo seguinte (Jo 10,12) confirma o contraste, falando do mercenário, "que não é pastor". Segundo, suam e suīs: os dois apontam para o sujeito da oração, bonus pāstor, e por isso são reflexivos; se a vida ou as ovelhas fossem de outra pessoa, o texto diria eius. Terceiro, a concordância: suam é feminino singular porque anima é feminino singular, e suīs é ablativo plural feminino porque ovibus o é; nada disso depende do pastor, que é masculino e singular. A tradução portuguesa "a sua vida pelas suas ovelhas" é, por acaso, inequívoca; em muitas outras frases o "seu" português será ambíguo e o latim não.
No próximo capítulo, is, ea, id volta ao lado dos outros demonstrativos (hīc, ille, iste) e de ipse e īdem.
Erro: Pôr ego e tū em todas as frases: Ego librum legō, Tū in hortō ambulās.
Por quê, e como evitar: A terminação já diz a pessoa; o pronome expresso indica ênfase ou contraste. Sem contraste, escreva Librum legō, In hortō ambulās. Use o pronome quando o português o destacaria: "eu leio, tu não".
Erro: Traduzir todo "seu" por suus: "Pedro visita Paulo e a sua irmã" → Petrus Paulum et sorōrem suam vīsitat (vīsitat, visita), querendo dizer a irmã de Paulo.
Por quê, e como evitar: Suus só aponta para o sujeito (aqui, Pedro). Para a irmã de Paulo, use eius: Petrus Paulum et sorōrem eius vīsitat. E se "seu" quer dizer "de você", a palavra é tuus. Antes de traduzir, pergunte: de quem é a coisa?
Erro: Fazer o possessivo concordar com o possuidor: Júlia diz liber mea; "os meninos amam seu cavalo" → equum suōs.
Por quê, e como evitar: O possessivo é um adjetivo e concorda com a coisa possuída: liber meus (porque liber é masculino), equum suum (porque o cavalo é um só). O possuidor escolhe só a pessoa do possessivo.
Erro: Usar o genitivo do pessoal para a posse: pater nostrī, liber meī.
Por quê, e como evitar: A posse se exprime pelo possessivo: pater noster, liber meus. Meī, tuī, nostrī, vestrī são genitivos objetivos ("o amor por nós", amor nostrī), e nostrum, vestrum são partitivos ("um de nós", ūnus nostrum).
Erro: Escrever cum mē, cum tē, cum nōbīs.
Por quê, e como evitar: Com os pessoais e o reflexivo, cum vem depois e se cola ao pronome: mēcum, tēcum, sēcum, nōbīscum, vōbīscum. O português conserva a ideia em "comigo", "contigo", "consigo".
Erro: Usar sē para a 1ª ou a 2ª pessoa (Nōs sē laudāmus), ou eum quando o objeto é o próprio sujeito (Mārcus eum laudat para "Marco se elogia").
Por quê, e como evitar: Sē é só de 3ª pessoa e só para o próprio sujeito: Mārcus sē laudat. Na 1ª e na 2ª pessoa os reflexivos são os próprios pessoais: Nōs laudāmus (com nōs objeto: nós nos elogiamos), Mē laudō. Mārcus eum laudat quer dizer que Marco elogia outra pessoa.
Resolvida passo a passo: leia a pergunta, tente responder e só então abra cada passo.
Leia, analise e traduza: Mārcus et Iūlia in hortō sunt. Mārcus librum suum legit; Iūlia librum eius spectat et sēcum portat. Vocabulário: portat, leva; os demais termos estão no capítulo e nos capítulos 5 e 6.
O sujeito é Mārcus (nominativo singular; legit é 3ª do singular). Suum é reflexivo e aponta para o sujeito da sua oração: o livro é de Marco. "Marco lê o seu (próprio) livro."
O sujeito de spectat é Iūlia. Se o texto dissesse librum suum, o livro seria de Júlia. Eius, "dele/dela", indica um possuidor que não é o sujeito; pelo contexto, Marco. "Júlia olha o livro dele."
Ablativo do reflexivo com cum colado: "consigo". Como é reflexivo, aponta para o sujeito de portat, que continua sendo Júlia. "...e o leva consigo." Repare que o latim não repete o objeto (librum) com o segundo verbo: o português acrescenta "o".
"Marco e Júlia estão no jardim. Marco lê o seu livro; Júlia olha o livro dele e o leva consigo." Em português, "o seu livro" e "o livro dele" só ficam claros pela escolha das palavras; em latim, suum e eius não deixam dúvida.
Passe para o latim: "Nós vamos com você ao templo e damos os nossos presentes ao seu amigo." ("Seu" = de você.) Vocabulário: veniō, -īre, vir, ir; ad + acusativo, a, para; dō, dare, dar (damus, damos).
Não: a terminação -mus de venīmus e damus já diz "nós", e não há contraste com outra pessoa. O latim natural é sem pronome.
Ablativo de tū com cum colado: tēcum. Nunca cum tē.
Dōna nostra: acusativo plural neutro, concordando com dōna (de dōnum, neutro). O possessivo acompanha a coisa, não "nós".
Tuō. O amigo é da pessoa com quem se fala (2ª pessoa), não do sujeito ("nós"). Suō estaria errado duas vezes: é de 3ª pessoa e aponta para o sujeito. Dativo singular masculino: amīcō tuō.
Tēcum ad templum venīmus et dōna nostra amīcō tuō damus. (Também se pode começar por Ad templum tēcum venīmus; a ordem é livre.)
Conclusão: antes de escrever um pronome ou um possessivo, faça duas perguntas. Que pessoa é (1ª, 2ª, 3ª)? E, se for 3ª, é o próprio sujeito (sē, suus) ou outra pessoa (is, eius)?
Faça por escrito ou em voz alta; abra "Ver resposta" só depois de tentar. A explicação da resposta faz parte da lição.
Diga a pessoa, o caso e o número da palavra destacada e sua função na frase.
1ª pessoa do plural, dativo: destinatário de dat. "O professor nos dá livros." Nōbīs também poderia ser ablativo, mas não há preposição e "dar" pede "a quem".
1ª pessoa do plural, acusativo: objeto direto. "O professor nos elogia." Não é nominativo: o sujeito é magister, e o verbo está na 3ª do singular, não em -mus.
1ª pessoa do singular, ablativo com cum: companhia. "Júlia vem comigo."
Reflexivo de 3ª pessoa, dativo: "para si". Aponta para o sujeito, Marco. "Marco pega um livro para si."
Is, ea, id usado como pronome de 3ª pessoa, acusativo singular feminino: objeto direto. "O menino a vê." É outra pessoa (feminina), não o sujeito.
2ª pessoa do plural, genitivo partitivo: "um de vocês". "Um de vocês está no templo."
2ª pessoa do singular, nominativo: sujeito de labōrās, expresso por contraste com ego. "Tu, Marco, trabalhas; eu durmo." (Mārce é vocativo; tū é sujeito, como mostra o verbo na 2ª pessoa.)
Reflexivo de 3ª pessoa, acusativo (aqui plural, como o sujeito): "As meninas se olham" (a si mesmas). Para "olham umas às outras" o latim prefere inter sē.
Escreva a forma latina pedida entre parênteses e explique o caso.
mihi: dativo de ego, destinatário de nārrat.
tē: acusativo de tū, objeto de exspectant (esperam).
nōbīscum: ablativo de nōs com cum colado.
meum: acusativo singular masculino, concordando com librum.
suīs: ablativo plural masculino, concordando com fīliīs; reflexivo porque os filhos são do sujeito.
mī: vocativo singular masculino de meus, concordando com o vocativo fīlī.
eīs (ou iīs): dativo plural de is, destinatário. Não sibi, porque eles não são o sujeito.
nostrum: nominativo singular neutro de noster, concordando com templum. Aqui nostrum é o possessivo, não o genitivo partitivo de nōs: a forma é a mesma, a função decide.
Complete com a forma certa de suus ou com eius/eōrum/eārum, e explique de quem é a coisa.
suam: a irmã é do sujeito; acusativo singular feminino, como sorōrem.
eius: a irmã é de Paulo, que não é o sujeito; eius é invariável.
suōs: os livros são do sujeito; acusativo plural masculino, como librōs.
eārum: o possuidor (as meninas) está em outra oração e não é o sujeito de est, que é māter; várias possuidoras femininas.
eius: mīlitēs é parte do sujeito, não complemento de um verbo cujo sujeito seja o rei; a posse se exprime por eius.
suae: a filha é do sujeito (māter); dativo singular feminino, como fīliae.
Reescreva cada frase com o sujeito indicado, ajustando o verbo, o reflexivo e o possessivo.
Mē laudō. Na 1ª pessoa o reflexivo é mē; o pronome sujeito fica implícito em laudō.
Nōs laudāmus. Aqui nōs é o objeto (acusativo, "nos"); o sujeito está em -mus. "Nós nos elogiamos."
Librum tuum legis. O reflexivo da 2ª pessoa é o próprio possessivo tuus.
Librum vestrum legitis. Um só livro (de vocês): vestrum, acusativo singular masculino.
Fīliōs meōs mēcum dūcō. "Levo meus filhos comigo."
Agricolae fīliōs suōs sēcum dūcunt. Suōs e sēcum não mudam: o reflexivo não distingue número, e o possessivo concorda com fīliōs.
Traduza e explique os pronomes. Textos da Vulgata Clementina (macrons acrescentados). Vocabulário dado em cada item.
"Eu sou o bom pastor: conheço as minhas, e as minhas me conhecem." Meās (acusativo) e meae (nominativo, sujeito de cognōscunt) são femininos plurais substantivados: subentende-se ovēs, as ovelhas. Mē é acusativo, objeto de cognōscunt. Ego é enfático, como no v. 11.
"A paz (esteja) convosco. Assim como o Pai me enviou, também eu vos envio." Vōbīs: dativo ("a vocês"), com o verbo subentendido. Mē e vōs: acusativos, objetos. Ego é expresso para contrastar com Pater; et vale "também".
"Eis que eu estou convosco todos os dias." Vōbīscum: ablativo com cum colado. Ego expresso por ênfase: é a promessa de uma presença pessoal.
"Salve, cheia de graça: o Senhor (está) contigo." Tēcum: ablativo de tū com cum; o verbo est fica subentendido.
"Conduziu-me pelas veredas da justiça por causa do seu nome." O sujeito, implícito em dēdūxit, é o Senhor do v. 1 (Dominus regit mē, que você leu no capítulo 6). Suum é reflexivo: o nome é do sujeito, do Senhor, não de quem fala (que seria meum).
"Não temerei males, porque tu estás comigo." Tū é expresso: o salmista passa de falar do Senhor (3ª pessoa nos vv. 1–3) a falar com ele, e o pronome marca essa virada. Mēcum: "comigo".
Passe para o latim. Use o pronome sujeito só quando houver contraste. Vocabulário: o do capítulo e dos capítulos 5, 6 e 9; exspectō, -āre, esperar.
Ego tē videō, sed tū mē nōn vidēs. Os pronomes sujeito são necessários: a frase contrapõe as duas pessoas.
Magister discipulōs suōs exspectat. Suōs: do sujeito; acusativo plural, como discipulōs.
Magister in templō est; discipulī eius in hortō exspectant. Eius, porque o sujeito de exspectant são os alunos, não o professor.
Iūlia, māter tua nōbīscum est. "Seu" = de você → tuus; Iūlia é vocativo, igual ao nominativo na 1ª declinação.
Puerī librōs sēcum portant. Sēcum: reflexivo, com cum colado; o possessivo pode ficar subentendido.
Mī amīce, patriam nostram amāmus. Vocativo mī amīce (de meus e amīcus); nostram, acusativo singular feminino, concorda com patriam, não com "nós"; sem nōs, porque não há contraste.
Os pronomes de 1ª e 2ª pessoa vivem no diálogo: os Colloquia Personarum de Ørberg, diálogos que acompanham os capítulos de Familia Romana, são o melhor lugar para vê-los, com mēcum e tēcum, e para notar como o pronome sujeito só aparece quando alguém se contrapõe a alguém. Nos capítulos de Familia Romana que você já leu, procure agora cada suus e cada eius e pergunte de quem é a coisa. No Epitome Historiae Sacrae de Lhomond, narrativa contínua em 3ª pessoa, a alternância entre sē/suus e eum/eius aparece com frequência. Na Vulgata, leia Jo 10,1–18 inteiro, de onde vêm a frase analisada e o exercício 5, e o Sl 22 (23 na numeração hebraica). Para consulta, Ravizza nn. 68–69 e 320 e Bennett §§ 84–86 e 242–245 têm os paradigmas e as regras.
Hans H. Ørberg
Diálogos graduados que acompanham a progressão de Familia Romana, para leitura em voz alta e prática de conversa. Livro comercial da Hackett Publishing; aqui, apenas a referência oficial.
Hans H. Ørberg
O método de latim mais recomendado hoje: 35 capítulos inteiramente em latim, com ilustrações e notas marginais que explicam cada palavra nova pelo contexto, sem tradução. Narra a vida de uma família romana. Livro comercial da Hackett Publishing; aqui, apenas a referência oficial.
Hieronymus Stridonensis (Vulgata)
A Vulgata Clementina completa, do Gênesis ao Apocalipse, livro a livro. Comece por Marcos, Gênesis ou os Salmos: frases curtas, vocabulário repetitivo e um texto que você já conhece em português. A leitura cristã fundamental e, para muitos, a primeira obra longa lida em latim. No LibriVox há, por ora, só o Salmo 22 gravado.
Charles François Lhomond
A história sagrada (da Criação ao retorno do Exílio) reescrita por Lhomond (1784) em latim simplíssimo, em centenas de parágrafos curtos de dificuldade crescente. Durante dois séculos foi o primeiro livro contínuo de todo estudante de latim; continua sendo a melhor ponte entre o método e os textos reais. Edição de 1856.
Pe. João Ravizza
Gramática latina completa em português, usada por gerações nas escolas brasileiras, com um compêndio de história da literatura latina. Nona edição (1940), em domínio público (autor falecido em 1941). Fac-símile em PDF no Internet Archive.
Charles E. Bennett
Gramática de referência compacta (1918), em inglês, com macrons: sons, flexões, sintaxe, prosódia. Mais curta e mais fácil de consultar que Allen & Greenough; cabe num leitor de EPUB.