New Latin Grammar
Charles E. Bennett
Gramática de referência compacta (1918), em inglês, com macrons: sons, flexões, sintaxe, prosódia. Mais curta e mais fácil de consultar que Allen & Greenough; cabe num leitor de EPUB.
Elementa Linguae Latinae·Parte II · Grammatica·Capítulo 20·75 minReportar problema
Dē genetīvō et datīvō
Os dois casos que respondem "de quem?" e "a quem, para quem?", agora com todos os seus empregos importantes: o genitivo de posse, partitivo, subjetivo e objetivo, de qualidade e de valor, e com adjetivos; o dativo de objeto indireto, de posse, de interesse, de referência e de finalidade (o duplo dativo), com adjetivos, com os verbos intransitivos que o português trata como transitivos e com os verbos compostos.
Antes deste capítulo: Capítulo 11 (o quadro completo das cinco declinações, porque aqui aparecem genitivos e dativos de todas elas). Os exemplos usam também os pronomes dos capítulos 14 a 16, o perfeito do capítulo 13 e os superlativos do capítulo 18; quando aparece algo ainda não estudado, há glosa. · capítulo 3 · capítulo 11 · capítulo 14 · capítulo 18
No capítulo 3 você aprendeu que o genitivo responde a "de quem? de quê?" e o dativo a "a quem? para quem?". Essa primeira aproximação continua válida, mas agora, com as cinco declinações completas (capítulo 11) e os pronomes (capítulos 14 a 16), é hora de ver o que os autores fazem de fato com esses dois casos. Há um princípio que organiza tudo e que vale a pena guardar desde já: o genitivo é, antes de tudo, o caso que liga um nome a outro nome; por isso Allen e Greenough o chamam de "caso adjetivo" (§ 341): domus rēgis é "a casa do rei" assim como domus rēgia é "a casa real". O dativo, ao contrário, gira em torno da pessoa interessada no que acontece: aquela a quem algo é dado, que tem algo, que se beneficia ou se prejudica, que obedece ou confia. Bennett resume: o dativo exprime as relações que dizemos com "a" e "para" (§ 186).
Daí sai uma regra prática de leitura: quando encontrar um genitivo, procure o substantivo (ou o adjetivo) de que ele depende; quando encontrar um dativo, pergunte quem está interessado na ação e de que modo. O quadro abaixo é o mapa do capítulo; cada linha é desenvolvida nas seções seguintes.
| Caso | Emprego | Exemplo | Tradução |
|---|---|---|---|
| Genitivo | posse | domus rēgis | a casa do rei |
| Genitivo | predicativo de posse ("é de", "é próprio de") | Haec domus rēgis est. | Esta casa é do rei. |
| Genitivo | partitivo (do todo) | pars mīlitum; nihil novī | parte dos soldados; nada de novo |
| Genitivo | subjetivo / objetivo | amor patris | o amor do pai / o amor ao pai |
| Genitivo | qualidade (com adjetivo) | vir magnae virtūtis | homem de grande coragem |
| Genitivo | valor | magnī aestimāre | estimar muito |
| Genitivo | com adjetivos | cupidus glōriae | desejoso de glória |
| Dativo | objeto indireto | Librum amīcō dō. | Dou o livro ao amigo. |
| Dativo | posse com esse | Mihi est liber. | Eu tenho um livro. |
| Dativo | interesse (vantagem ou desvantagem) | Sibi nōn labōrat. | Não trabalha para si. |
| Dativo | referência (ponto de vista) | Mihi deus erit. | Para mim, será um deus. |
| Dativo | finalidade (duplo dativo) | Sociīs auxiliō vēnit. | Veio em auxílio dos aliados. |
| Dativo | com adjetivos | patrī cārus | querido ao pai |
| Dativo | com verbos intransitivos e compostos | Ducī pāret. Legiōnī praeest. | Obedece ao comandante. Comanda a legião. |
É o emprego mais frequente: o genitivo indica a quem algo pertence ou de quem procede (domus Cicerōnis, "a casa de Cícero"; Mārcī fīlius, "o filho de Marco"; dicta Platōnis, "as palavras de Platão"). Dois desdobramentos merecem atenção. Primeiro, com causā e grātiā, "por causa de, em atenção a", o genitivo vem antes: amīcōrum causā, "por causa dos amigos" (Bennett § 198.1). Segundo, o genitivo de posse pode ficar no predicado, ligado ao sujeito por esse: Haec domus rēgis est, "esta casa é do rei". Dessa construção nasce uma expressão muito latina, est + genitivo no sentido de "é próprio de, é dever de": Hōc cōnsulis est, "isto é dever do cônsul", "isto cabe ao cônsul" (Ravizza n. 267 dá cōnsulis est, "é dever do cônsul", e iūdicis officium est, "é dever do juiz"; Allen e Greenough § 343.b–c). Nos textos, o sujeito dessa expressão costuma ser um infinitivo ("é próprio do sábio calar"), construção que o capítulo 27 apresenta.
O genitivo indica o todo de que se toma uma parte. Aparece depois de nomes que significam parte ou quantidade (pars, multitūdō, nēmō), de pronomes (quis nostrum?, "qual de nós?"; lembre nostrum, vestrum partitivos, do capítulo 14), de superlativos e ordinais (fortissimus omnium, "o mais forte de todos"; prīmus rēgum), e, de modo muito característico, depois de um neutro singular usado como substantivo e dos advérbios satis, parum, nimis: nihil novī, "nada de novo"; quid cōnsiliī?, "que plano?"; multum vīnī, "muito vinho"; plūs labōris, "mais trabalho"; satis pecūniae, "dinheiro suficiente" (Bennett § 201.2). O português às vezes acompanha ("nada de novo"), às vezes não ("dinheiro suficiente").
| Tipo de palavra | Latim | Tradução | Observação |
|---|---|---|---|
| nome de parte | magna pars hominum | grande parte dos homens | |
| pronome | quis vestrum? | qual de vocês? | vestrum, não vestrī |
| superlativo | altissimus montium | o mais alto dos montes | capítulo 18 |
| neutro substantivado | nihil bonī; aliquid novī | nada de bom; algo de novo | só adjetivos de 1ª classe |
| advérbio de quantidade | satis cibī; parum temporis | comida suficiente; pouco tempo | |
| numeral cardinal | ūnus ex mīlitibus | um dos soldados | em geral ex/dē + ablativo, não genitivo |
Muitos substantivos contêm uma ação ou um sentimento: amor (amar), timor, metus (temer), odium (odiar), cūra (cuidar), cupiditās (desejar), spēs (esperar). O genitivo que os acompanha pode indicar quem sente ou faz (genitivo subjetivo) ou o alvo do sentimento ou da ação (genitivo objetivo). O teste mais simples é transformar o substantivo em verbo, como faz o Pe. Ravizza (n. 264): se o genitivo vira sujeito, é subjetivo; se vira objeto, é objetivo.
| Latim | Subjetivo (quem sente) | Objetivo (o que é sentido) | Em contexto |
|---|---|---|---|
| amor patris | o pai ama → "o amor do pai" (pelo filho) | alguém ama o pai → "o amor ao pai" | decide o contexto |
| timor hostium | os inimigos temem → "o medo dos inimigos" (que eles sentem) | alguém teme os inimigos → "o medo dos inimigos" (que temos deles) | o português tem a mesma ambiguidade |
| amor patriae | (a pátria não ama) | "o amor à pátria" | só objetivo |
| adventus Caesaris | "a chegada de César" (ele chega) | (não se "chega" alguém) | só subjetivo |
Muitas vezes o sentido do substantivo decide sozinho, como nas duas últimas linhas. Quando não decide, o contexto decide; e, quando o próprio autor quer evitar a ambiguidade, usa uma preposição no lugar do genitivo objetivo: amor ergā parentēs, "o amor para com os pais"; odium in cīvēs, "o ódio contra os cidadãos" (Bennett § 200.1). Na tradução, o genitivo objetivo pede com frequência outra preposição portuguesa: "amor à pátria", "medo da morte", "esperança de vitória", "cuidado com os filhos" (cūra līberōrum).
Para descrever uma pessoa ou coisa por uma qualidade, o latim põe o nome da qualidade no genitivo, sempre acompanhado de um adjetivo: vir magnae virtūtis, "um homem de grande coragem"; rēs eius modī, "uma coisa desse tipo". Sem o adjetivo a construção não existe: "um homem de coragem" não é vir virtūtis, mas vir fortis (A&G § 345). Com numerais, o mesmo genitivo dá medidas e idades: fossa quīndecim pedum, "um fosso de quinze pés" (Bennett § 203.2); puer decem annōrum, "um menino de dez anos". O capítulo 21 mostrará que a qualidade também se diz no ablativo (vir magnā virtūte); para medidas e idades, o genitivo é a forma usual.
Com verbos de estimar e avaliar (aestimō, faciō, putō, dūcō, pendō) e com esse no sentido de "valer", um pequeno grupo de genitivos indica o valor indeterminado: magnī, plūris, plūrimī (muito, mais, muitíssimo), parvī, minōris, minimī (pouco, menos, pouquíssimo), tantī, quantī (tanto, quanto) e nihilī (nada). Bennett (§ 203.3) os aproxima do genitivo de qualidade; o Pe. Ravizza (n. 212) chama a construção de "complemento de apreciação".
Adjetivos que precisam de um complemento para ter sentido completo, sobretudo os de desejo, conhecimento, lembrança, participação e plenitude (e seus contrários), levam o genitivo (Bennett § 204.1; A&G § 349). É o mesmo genitivo objetivo dos substantivos, aplicado a um adjetivo: quem é cupidus glōriae deseja a glória. O português usa quase sempre "de", mas nem sempre: perītus bellī é "perito na guerra".
| Sentido | Adjetivos | Exemplo | Tradução |
|---|---|---|---|
| desejo | cupidus, avidus, studiōsus | cupidus pācis | desejoso de paz |
| conhecimento | perītus, imperītus, ignārus | perītus bellī | experiente na guerra |
| lembrança | memor, immemor | memor beneficiī | lembrado do favor |
| participação | particeps, expers | particeps cōnsiliī | participante do plano |
| plenitude | plēnus | plēnus aquae | cheio de água |
| semelhança (pessoas) | similis, dissimilis | patris similis | parecido com o pai |
Dois avisos. Plēnus admite também o ablativo, mais raro com ele (Bennett § 218.8.a), e os verbos de encher (compleō) preferem o ablativo: capítulo 21. E similis oscila: em Cícero, leva de preferência o genitivo quando se trata de pessoas e genitivo ou dativo quando se trata de coisas (Bennett § 204.3; A&G § 385.c): fīlius patris similis, mas mors somnō (ou somnī) similis.
É o dativo que você conhece desde o capítulo 3: a pessoa a quem algo é dado, dito, mostrado, enviado ou prometido, ao lado de um objeto direto no acusativo (Pecūniam mihi dat, "dá-me o dinheiro"). O verbo é transitivo e o dativo completa a ação; por isso, em português, ele corresponde ao objeto indireto com "a" ou "para", ou aos pronomes "me, te, lhe, nos, vos, lhes" (Bennett § 187.I).
Com o verbo esse, o dativo indica o possuidor: Mihi est liber, literalmente "para mim há um livro", isto é, "eu tenho um livro" (Bennett § 190). Repare que o sujeito gramatical é a coisa possuída (liber), e o verbo concorda com ela: Mihi sunt duo frātrēs, "tenho dois irmãos". Na tradução, quem possui vira sujeito do verbo "ter". O latim também tem habeō, e as duas construções convivem; a diferença, segundo Bennett (§ 359.1) e A&G (§ 373, nota), é de ênfase: o dativo sublinha o fato de haver posse (mihi hortus est, "eu tenho um jardim"), enquanto o genitivo predicativo sublinha quem é o dono (hortus patris est, "o jardim é do meu pai"). Com nōmen est, o nome próprio fica no nominativo ou, por atração, no próprio dativo: Mihi nōmen est Mārcus ou Mihi Mārcō nōmen est, "chamo-me Marco" (Bennett § 190.1).
| Latim | Construção | Ênfase | Tradução |
|---|---|---|---|
| Mihi est equus. | dativo + esse | o fato de ter | Eu tenho um cavalo. |
| Equum habeō. | habeō + acusativo | neutra | Tenho um cavalo. |
| Hīc equus meus est. / Hīc equus Mārcī est. | possessivo ou genitivo predicativo | quem é o dono | Este cavalo é meu. / Este cavalo é de Marco. |
Às vezes o dativo não completa o verbo, mas indica em favor de quem (ou em prejuízo de quem) a ação acontece. A frase estaria completa sem ele; o dativo acrescenta o interessado (A&G § 376; Kennedy § 221). Traduz-se por "para", "em favor de", "por".
Quando "para" ou "por" significa "em defesa de" ou "em lugar de", o latim não usa o dativo, e sim prō + ablativo: prō patriā pugnāre, "lutar pela pátria" (A&G § 379, nota; Ravizza n. 291).
Uma variedade do dativo de interesse indica do ponto de vista de quem uma afirmação é verdadeira, o "dativo da pessoa que julga" (Bennett § 188.2.c; A&G § 378). O exemplo de Bennett é um verso de Virgílio (Éclogas 1,7, segundo o índice de fontes da gramática): erit ille mihi semper deus, "ele será sempre um deus para mim", isto é, na minha opinião. Outro uso muito comum substitui o genitivo de posse quando se fala de partes do corpo e de coisas pessoais: Caput mihi dolet, "a cabeça me dói", "dói-me a cabeça" (o português faz o mesmo com "me"). Por fim, o dativo ético, só com pronomes pessoais, quase não tem função: exprime o envolvimento afetivo de quem fala (quid mihi Celsus agit?, "e o meu Celso, como vai?", verso de Horácio citado por Bennett § 188.2.b). Traduza-o livremente ou omita-o.
Um substantivo abstrato no dativo pode indicar a finalidade ou o efeito: "para quê" algo serve ou "como o quê" algo funciona. Esse dativo vem quase sempre acompanhado de um segundo dativo, o da pessoa interessada; daí o nome escolar de duplo dativo. O verbo mais comum é esse, mas aparecem também venīre, mittere, relinquere, dare, habēre. O dativo de finalidade é, em regra, singular, abstrato e sem adjetivo, salvo adjetivos de grau como magnō, maximō (A&G § 382, nota 1). Kennedy (§ 226) dá um exemplo de César: equitātum auxiliō Caesarī mīsērunt, "enviaram a cavalaria em auxílio de César".
| Dativo de finalidade | Expressão | Tradução natural |
|---|---|---|
| auxiliō | sociīs auxiliō venīre | vir em auxílio dos aliados |
| praesidiō | urbī praesidiō esse | servir de proteção à cidade |
| ūsuī | nōbīs magnō ūsuī esse | ser de grande utilidade para nós |
| cūrae | mihi cūrae esse | ser motivo de preocupação para mim; preocupar-me |
| odiō | omnibus odiō esse | ser odiado por todos |
| exemplō | cēterīs exemplō esse | servir de exemplo aos outros |
| dōnō | amīcō dōnō dare | dar de presente a um amigo |
| salūtī | patriae salūtī esse | ser a salvação da pátria |
Traduzir palavra por palavra ("é para preocupação para mim") produz um português impossível. Monte a ideia: a pessoa no dativo é o interessado, o abstrato no dativo é o papel que a coisa desempenha. Haec rēs mihi cūrae est: "isto me preocupa". A velha pergunta proverbial cui bonō?, "a quem isso aproveita?", é um duplo dativo sem verbo (Bennett § 191.2.a).
Adjetivos que indicam amizade e hostilidade, semelhança e igualdade, proximidade, utilidade e adequação levam dativo (Bennett § 192; A&G § 384): amīcus, inimīcus, fidēlis, cārus, grātus, molestus; similis, pār, aequālis; proximus, fīnitimus, vīcīnus; ūtilis, inūtilis, idōneus, aptus, facilis, difficilis, necessārius. A lógica é a mesma do dativo de interesse: alguém é "amigo para", "útil para", "próximo a".
Este é o ponto em que o falante de português mais erra. Vários verbos que em português são transitivos diretos ("obedecer o pai" se diz, mas a norma pede "ao pai"; "ajudar", "persuadir", "perdoar alguém") são intransitivos em latim e levam o complemento no dativo. Bennett insiste em que eles não pedem dativo por causa do sentido português, mas porque em latim são intransitivos, construídos com um objeto indireto (§ 187.II, nota). Pense em cada um como "ser obediente a", "ser favorável a", "fazer mal a", "tornar algo convincente para".
| Verbo | Sentido literal | Exemplo | Tradução |
|---|---|---|---|
| crēdō, -ere, crēdidī | dar crédito a | Nēmō mendācī crēdit. | Ninguém acredita no mentiroso. |
| pāreō, -ēre, pāruī | ser obediente a | Mīlitēs ducī pārent. | Os soldados obedecem ao comandante. |
| noceō, -ēre, nocuī | fazer mal a | Fūmus oculīs nocet. | A fumaça faz mal aos olhos. |
| placeō, -ēre, placuī | ser agradável a | Haec fābula puerīs placet. | Esta história agrada aos meninos. |
| faveō, -ēre, fāvī | ser favorável a | Fortūna fortibus favet. | A sorte favorece os corajosos. |
| persuādeō, -ēre, persuāsī | tornar convincente para | Patrī persuāsī. | Persuadi meu pai. |
| ignōscō, -ere, ignōvī | conceder perdão a | Rēx captīvīs ignōscit. | O rei perdoa os prisioneiros. |
| imperō, -āre | dar ordens a | Caesar mīlitibus imperat. | César dá ordens aos soldados. |
| serviō, -īre | ser escravo de, servir a | Patriae servīmus. | Servimos à pátria. |
| parcō, -ere, pepercī | ter consideração por, poupar | Victor victīs pepercit. | O vencedor poupou os vencidos. |
| resistō, -ere, restitī | opor-se a | Hostibus resistimus. | Resistimos aos inimigos. |
E o contrário também acontece: verbos de sentido parecido são transitivos e levam acusativo: iuvō e adiuvō ("ajudar"), laedō ("ferir, prejudicar"), iubeō ("mandar"), dēlectō ("agradar, encantar"): Deus fortēs iuvat; Fābula puerōs dēlectat (A&G § 367.a; Kennedy § 217). Por isso não há atalho: o caso que o verbo pede se aprende com o verbo, e um bom dicionário o indica (alicui = com dativo; aliquem = com acusativo).
Muitos verbos compostos com ad, ante, con-, in, inter, ob, post, prae, prō, sub, super passam a levar dativo, porque o prefixo acrescenta uma relação "a, diante de, sobre" (Bennett § 187.III; A&G § 370). Os compostos de sum são os primeiros a aprender: adsum (estar presente, assistir a), praesum (estar à frente de, comandar), dēsum (faltar a), obsum (prejudicar), prōsum (ser útil a; presente prōsum, prōdes, prōdest), intersum (tomar parte em). Verbos transitivos compostos podem ter acusativo e dativo: Caesar Labiēnum legiōnī praefēcit, "César pôs Labieno no comando da legião" (praeficiō, -ere, praefēcī).
Duas frases curtas da Vulgata mostram, uma, o genitivo objetivo, a outra, o dativo de posse. A primeira é o último versículo do Salmo 110 (na numeração da Vulgata), uma das sentenças mais citadas da literatura sapiencial:
| Palavra | Dicionário | Análise | Função |
|---|---|---|---|
| Initium | initium, -ī (n.), início, princípio | nominativo singular, 2ª declinação | predicativo (a frase não tem verbo expresso; subentende-se est) |
| sapientiae | sapientia, -ae (f.), sabedoria | genitivo singular, 1ª declinação | adjunto de initium: "o princípio da sabedoria" |
| timor | timor, -ōris (m.), temor, medo | nominativo singular, 3ª declinação | sujeito |
| Dominī | dominus, -ī (m.), senhor; o Senhor | genitivo singular, 2ª declinação | genitivo objetivo de timor: o Senhor é temido |
A frase é nominal: em máximas desse tipo o latim dispensa com frequência o est, e você o acrescenta na tradução. Qual dos nominativos é o sujeito? A tradição lê "o temor do Senhor é o princípio da sabedoria": timor Dominī é aquilo de que se fala, e initium sapientiae é o que se diz dele. O ponto principal, porém, é Dominī. Pelo teste do Pe. Ravizza, "o temor do Senhor" vira "alguém teme o Senhor", e não "o Senhor teme": o genitivo é objetivo. O português conserva a mesma ambiguidade aparente ("temor do Senhor"), e é o sentido que a resolve.
A segunda frase é o versículo que apresenta João Batista no prólogo do quarto Evangelho:
| Palavra | Dicionário | Análise | Função |
|---|---|---|---|
| Fuit | sum, esse, fuī, ser, haver | perfeito, 3ª pessoa do singular (capítulo 13) | verbo da oração principal: "houve, existiu" |
| homo | homō, -inis (m.), ser humano, homem | nominativo singular, 3ª declinação | sujeito de fuit |
| missus | mittō, -ere, mīsī, missum, enviar | particípio perfeito passivo, nominativo masculino singular (capítulo 29) | concorda com homo: "enviado" |
| ā Deō | ā/ab (prep. + abl.); deus, -ī | ablativo singular com ā | agente: "por Deus" (capítulo 23) |
| cui | quī, quae, quod, que, o qual | dativo singular masculino (capítulo 16) | dativo de posse com erat; antecedente homo |
| nōmen | nōmen, -inis (n.), nome | nominativo singular, 3ª declinação | sujeito de erat |
| erat | sum, esse | imperfeito, 3ª pessoa do singular (capítulo 12) | verbo da oração relativa |
| Ioannes | Ioannes, -is (m.), João | nominativo singular | aposto de nōmen: o nome próprio fica no nominativo |
A construção cui nōmen erat é a mesma de mihi nōmen est: o possuidor no dativo, o nome como sujeito de esse. A tradução portuguesa usual, "cujo nome era", troca o dativo por um pronome possessivo, que é a forma natural de dizer posse numa oração relativa em português. Note ainda que o nome próprio, Ioannes, ficou no nominativo, e não atraído para o dativo (cui Ioanni): as duas possibilidades existem, e Bennett (§ 190.1) observa que a atração ao dativo é a mais comum (cf. A&G § 373.a); a Vulgata usa aqui o nominativo.
Erro: Traduzir para o genitivo todo "de" do português: "venho de Roma" → Rōmae veniō; "estátua de ouro" → statua aurī.
Por quê, e como evitar: O genitivo liga um nome a outro nome (posse, parte, objeto de um sentimento). Origem e afastamento são ablativo (Rōmā veniō; ex Ītaliā), e a matéria se diz com ex + ablativo ou com um adjetivo (statua ex aurō, statua aurea): capítulo 21. Pergunte qual é a relação, não qual preposição o português usaria.
Erro: Pôr no acusativo o complemento de crēdō, pāreō, persuādeō, noceō, ignōscō: Mīlitēs ducem pārent; Patrem persuāsī.
Por quê, e como evitar: Esses verbos são intransitivos em latim e levam dativo: Mīlitēs ducī pārent; Patrī persuāsī. Ajuda traduzir mentalmente pelo sentido literal: "ser obediente ao comandante", "tornar a ideia convincente para o pai".
Erro: Generalizar a regra e pôr no dativo o objeto de iuvō, laedō, iubeō, dēlectō: Deus fortibus iuvat.
Por quê, e como evitar: Esses são transitivos e levam acusativo: Deus fortēs iuvat; Fābula puerōs dēlectat. Não há regra de sentido que separe os dois grupos: aprenda o caso com o verbo (o dicionário indica alicui ou aliquem).
Erro: Procurar em Mihi est liber um sujeito "eu", ou traduzir "a mim é um livro".
Por quê, e como evitar: O sujeito é liber, e o verbo concorda com ele (mihi sunt librī). O dativo indica o possuidor, que em português vira sujeito de "ter": "eu tenho um livro". Num relativo, o mesmo dativo vira "cujo": cui nōmen erat, "cujo nome era".
Erro: No duplo dativo, pluralizar ou adjetivar o dativo de finalidade (sociīs magnīs auxiliīs vēnit) ou traduzir literalmente "veio para auxílio para os aliados".
Por quê, e como evitar: O dativo de finalidade fica no singular e só admite adjetivos de grau (magnō ūsuī). Na tradução, junte os dois dativos numa expressão portuguesa: "veio em auxílio dos aliados", "isto me preocupa" (mihi cūrae est), "é de grande utilidade para nós" (nōbīs magnō ūsuī est).
Erro: Usar o partitivo onde o latim faz concordar: omnēs mīlitum, nihil bonus, nihil dulcis.
Por quê, e como evitar: "Todos os soldados" é omnēs mīlitēs, porque omnēs abrange o todo. Com nihil, o adjetivo de 1ª classe vai para o genitivo partitivo (nihil bonī), mas o de 2ª classe concorda com o neutro (nihil dulce, nihil dulcius). Com cardinais, prefira ex + ablativo: ūnus ex mīlitibus.
Resolvida passo a passo: leia a pergunta, tente responder e só então abra cada passo.
Analise e traduza, na ordem latina: Pars mīlitum, cupida glōriae, ducī nōn pāruit. Vocabulário: pars, partis (f.), parte; mīles, -itis (m.), soldado; cupidus, -a, -um, desejoso; glōria, -ae, glória; dux, ducis (m.), comandante; pāreō, -ēre, pāruī, obedecer.
Pāruit, perfeito de pāreō, 3ª pessoa do singular: "obedeceu". Pāreō é intransitivo e leva dativo; espere, então, um dativo, não um acusativo.
O sujeito é pars, nominativo singular: "uma parte". O verbo concorda gramaticalmente com pars, e não com mīlitum.
Genitivo plural de mīles, dependente de pars: partitivo, o todo de que se toma a parte. "Parte dos soldados".
Cupida é nominativo feminino singular: concorda com pars (feminino), não com mīlitum. Glōriae é genitivo pedido pelo adjetivo de desejo cupidus. "Desejosa de glória".
Dativo singular de dux, complemento de pāruit: "ao comandante".
"Uma parte dos soldados, desejosa de glória, não obedeceu ao comandante." Em português pode-se pôr o adjetivo no plural pelo sentido ("parte dos soldados, desejosos de glória"), mas em latim cupida concorda com pars.
Analise e traduza: Rōmānīs nūlla classis erat; itaque sociī eīs nāvēs auxiliō mīsērunt. Vocabulário: nūllus, -a, -um, nenhum; classis, -is (f.), frota; itaque, por isso; socius, -ī (m.), aliado; nāvis, -is (f.), navio; auxilium, -ī (n.), auxílio; mittō, -ere, mīsī, enviar.
Nūlla classis, nominativo singular: "nenhuma frota". Rōmānīs não pode ser sujeito: é dativo (ou ablativo) plural.
Com esse e uma coisa como sujeito, é dativo de posse: "para os romanos não havia frota" = "os romanos não tinham frota".
Dois: eīs (dativo plural de is, capítulo 14), a quem se envia, isto é, a pessoa interessada (os romanos); e auxiliō, para quê se envia: dativo de finalidade. Juntos formam um duplo dativo.
Acusativo plural de nāvis (tema em -i, capítulo 10): o objeto direto de mīsērunt. A forma nāvēs também poderia ser nominativo, mas o sujeito já é sociī.
"Os romanos não tinham frota; por isso os aliados lhes enviaram navios em auxílio" (ou "enviaram navios para ajudá-los").
Repare que as duas orações usam o dativo com funções diferentes, posse na primeira, interesse e finalidade na segunda, e que nenhuma delas se traduz com "a" ou "para" palavra por palavra.
Faça por escrito ou em voz alta; abra "Ver resposta" só depois de tentar. A explicação da resposta faz parte da lição.
Classifique o genitivo destacado (posse, predicativo, partitivo, subjetivo, objetivo, qualidade, valor, com adjetivo) e traduza a expressão. Vocabulário: cōnsul, -is, cônsul; prūdentia, -ae, sabedoria prática; cibus, -ī, comida; aestimō, -āre, avaliar.
Partitivo: o todo de que se toma uma parte. "Parte dos cidadãos".
Objetivo: a pátria é amada, não ama. "O amor à pátria".
Posse: "a casa do cônsul".
Qualidade, com o adjetivo summae obrigatório: "um homem de enorme sabedoria".
Partitivo depois do advérbio de quantidade satis: "Temos comida suficiente."
Genitivo com adjetivo de desejo (cupidus): "O soldado é ávido de glória."
Valor (genitivo de apreciação): "Tenho esta casa em grande estima" ou "Dou muito valor a esta casa."
Posse predicativa, com esse: "Esta casa de campo é da rainha." Atenção: rēgīnae também poderia ser dativo de posse ("a rainha tem esta casa"), porque as formas coincidem na 1ª declinação. Com o demonstrativo haec apontando uma casa já conhecida, a pergunta é "de quem é?", e a leitura natural é o genitivo.
Qualidade com numeral, indicando a idade: "um menino de dez anos".
Subjetivo: os inimigos chegam. "A chegada dos inimigos".
Classifique o dativo destacado (objeto indireto, posse, interesse, finalidade, com adjetivo, com verbo intransitivo, com composto) e traduza a frase. Vocabulário: discipulus, -ī, aluno; fīlia, -ae, filha; serō, -ere, plantar; legiō, -ōnis, legião; castra, -ōrum (n. pl.), acampamento.
Objeto indireto: "O professor dá livros aos alunos."
Posse com esse (o sujeito é trēs fīliae, e por isso o verbo está no plural): "O rei tinha três filhas."
Com verbo intransitivo (pāreō): "Os soldados obedecem ao comandante."
Duplo dativo: nōbīs é o interessado e ūsuī a finalidade, com o adjetivo de grau magnō. "Isto nos é de grande utilidade."
Com composto de sum (praesum): "Labieno comanda a legião."
Interesse (vantagem): a frase estaria completa sem os dativos. "O agricultor planta árvores não para si, mas para os filhos."
Com adjetivo de adequação (idōneus): "Esse lugar é apropriado para um acampamento."
Com verbo intransitivo (crēdō): "Ninguém acredita em você."
Complete com a forma correta da palavra entre parênteses e diga por quê. Vocabulário: fugiō, -ere, fūgī, fugir; soror, -ōris, irmã; salūs, -ūtis (f.), saúde, salvação; pāx, pācis, paz; cūra, -ae, preocupação; sapientia, -ae, sabedoria.
patrī: dativo exigido por pāreō. "O filho obedece ao pai."
mīlitum: genitivo plural partitivo depois de pars. "Parte dos soldados fugiu."
Mihi: dativo de posse com esse. "Eu tenho uma irmã."
pācis: genitivo pedido pelo adjetivo de desejo cupidus. "O comandante não deseja a paz."
cūrae: dativo de finalidade, formando duplo dativo com mihi. "A tua saúde me preocupa."
sapientiae: genitivo de qualidade, com o adjetivo magnae, em posição de predicativo. "Aquele homem é de grande sabedoria."
novī: genitivo partitivo de um adjetivo de 1ª classe depois de nihil. "Não ouço nada de novo."
victīs: dativo exigido por parcō. "O vencedor poupou os vencidos."
puerō: dativo com o adjetivo ūtilis. "Este livro é útil ao menino."
patris: com similis referido a pessoa, o genitivo é o uso preferido de Cícero (Bennett § 204.3); patrī também se encontra. "O filho é parecido com o pai."
Antes de traduzir, identifique cada genitivo e cada dativo. Vocabulário: exercitus, -ūs, exército; parum, pouco, pouco demais; frūmentum, -ī, trigo; quod, porque; saepe, muitas vezes; ager, agrī, campo; lēx, lēgis, lei.
Caesarī: dativo de posse; frūmentī: genitivo partitivo depois de parum. "César tinha um grande exército, mas pouco trigo."
Ducī: dativo com crēdō; eīs: dativo com noceō. "Os soldados não confiam no comandante, porque o comandante muitas vezes os prejudicou."
Duplo dativo (nōbīs, interessado; cūrae, finalidade, com o adjetivo de grau magnae). "Este campo nos dá grande preocupação" ou "Nós nos preocupamos muito com este campo."
Patriae: genitivo objetivo; Rōmānīs: dativo de posse (ou de referência). "Os romanos tinham um enorme amor à pátria."
Lēgibus e patriae: dativos exigidos por pāreō e serviō. "Os bons cidadãos obedecem às leis e servem à pátria." (Patriae não é genitivo: não há substantivo de que dependa, e serviunt pede dativo.)
Passe para o latim, usando o vocabulário deste capítulo.
Mihi sunt duo frātrēs. (dativo de posse; o verbo concorda com frātrēs) Também correto: Duōs frātrēs habeō.
Rēgīna urbī auxiliō vēnit. Duplo dativo: urbī (interessado) e auxiliō (finalidade, no singular).
Nēmō patrī meō persuādet. Persuādeō leva dativo; o português "persuadir alguém" engana.
Ūnus ex mīlitibus perītus bellī erat. Com o cardinal, ex + ablativo; perītus pede genitivo.
Tua cōnsilia magnī aestimō (ou faciō). Genitivo de valor.
Hīc locus marī proximus est. Proximus leva dativo (Bennett § 192.1).
Identifique os genitivos e dativos e traduza. As frases foram conferidas na Vulgata Clementina e na Latin Library; as glosas dão o que ainda não foi estudado.
Ipsōrum: genitivo de posse predicativo, com est: "deles é". Caelōrum: genitivo dependente de rēgnum, "o reino dos céus". Frase nominal no início (subentenda sunt): "Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o reino dos céus."
Mihi: dativo com o composto dēsum, "faltar a alguém"; nihil é o sujeito de dēerit. "O Senhor me guia, e nada me faltará."
Cui: dativo de posse com erat; o nome fica no nominativo. "Houve um homem enviado por Deus, cujo nome era João." (Veja a análise na seção 6.)
Hōrum omnium: genitivo plural partitivo, dependente do superlativo fortissimī: "de todos estes" (César acabou de nomear os três povos da Gália). "De todos estes, os mais valentes são os belgas."
Para consulta, os usos do genitivo estão em Bennett §§ 194–212 e os do dativo em §§ 186–193; em Allen e Greenough, §§ 341–385, com muitos exemplos de autores. O Pe. Ravizza trata os dois casos, em português, nos nn. 263–294. Para praticar a leitura, o Epitome historiae sacrae de Lhomond traz dativos de posse e de interesse em frases curtas, e o primeiro capítulo da Guerra da Gália, nas seleções comentadas, mostra o genitivo partitivo e os verbos com dativo na prosa de César. Na Vulgata, procure o dativo de posse com nōmen nos Evangelhos.
Charles E. Bennett
Gramática de referência compacta (1918), em inglês, com macrons: sons, flexões, sintaxe, prosódia. Mais curta e mais fácil de consultar que Allen & Greenough; cabe num leitor de EPUB.
J. H. Allen e J. B. Greenough
A gramática de referência clássica em inglês (1903), em hipertexto com os parágrafos numerados tradicionais: pronúncia, morfologia, sintaxe, prosódia. Os comentários do DCC remetem a ela em cada nota. Para consultar, não para decorar.
Pe. João Ravizza
Gramática latina completa em português, usada por gerações nas escolas brasileiras, com um compêndio de história da literatura latina. Nona edição (1940), em domínio público (autor falecido em 1941). Fac-símile em PDF no Internet Archive.
Hieronymus Stridonensis (Vulgata)
A Vulgata Clementina completa, do Gênesis ao Apocalipse, livro a livro. Comece por Marcos, Gênesis ou os Salmos: frases curtas, vocabulário repetitivo e um texto que você já conhece em português. A leitura cristã fundamental e, para muitos, a primeira obra longa lida em latim. No LibriVox há, por ora, só o Salmo 22 gravado.
Charles François Lhomond
A história sagrada (da Criação ao retorno do Exílio) reescrita por Lhomond (1784) em latim simplíssimo, em centenas de parágrafos curtos de dificuldade crescente. Durante dois séculos foi o primeiro livro contínuo de todo estudante de latim; continua sendo a melhor ponte entre o método e os textos reais. Edição de 1856.
Gaius Iulius Caesar
Seleções dos livros I, IV, V e VI da Guerra da Gália (a campanha contra os helvécios, a travessia para a Britânia, o cerco ao acampamento de Cícero, os druidas), com macrons, vocabulário corrente e notas em inglês. A porta de entrada clássica para a prosa autêntica.