Elementa Linguae Latinae·Parte II · Grammatica·Capítulo 20·75 minReportar problema

Dē genetīvō et datīvō

Usos do genitivo e do dativo

Os dois casos que respondem "de quem?" e "a quem, para quem?", agora com todos os seus empregos importantes: o genitivo de posse, partitivo, subjetivo e objetivo, de qualidade e de valor, e com adjetivos; o dativo de objeto indireto, de posse, de interesse, de referência e de finalidade (o duplo dativo), com adjetivos, com os verbos intransitivos que o português trata como transitivos e com os verbos compostos.

Neste capítulo você vai
  • Distinguir os principais empregos do genitivo (posse, partitivo, subjetivo, objetivo, qualidade, valor, com adjetivos) e traduzir cada um com a preposição portuguesa adequada.
  • Resolver a ambiguidade entre genitivo subjetivo e objetivo (amor patris) pelo contexto.
  • Reconhecer e traduzir o dativo de posse (mihi est liber), o de interesse, o de referência e o duplo dativo (sociīs auxiliō venīre).
  • Usar o dativo com os adjetivos e com os verbos intransitivos e compostos que o pedem (crēdō, pāreō, persuādeō, praesum), sem confundi-los com iuvō, laedō, iubeō, que pedem acusativo.
  • Analisar frases autênticas da Vulgata e de César identificando a função de cada genitivo e de cada dativo.
genitivo de possegenitivo predicativo (est + genitivo)genitivo partitivonihil novī, satis pecūniaegenitivo subjetivo e objetivogenitivo de qualidadegenitivo de valor (magnī, parvī)genitivo com adjetivosmeminī e oblīvīscor (vocabulário)dativo de objeto indiretodativo de posse (mihi est)dativo de interessedativo de referênciadativo de finalidade e duplo dativodativo com adjetivosdativo com verbos intransitivosdativo com verbos compostosdativo de agente (menção)análise de frase autêntica

Antes deste capítulo: Capítulo 11 (o quadro completo das cinco declinações, porque aqui aparecem genitivos e dativos de todas elas). Os exemplos usam também os pronomes dos capítulos 14 a 16, o perfeito do capítulo 13 e os superlativos do capítulo 18; quando aparece algo ainda não estudado, há glosa. · capítulo 3 · capítulo 11 · capítulo 14 · capítulo 18

  1. Dois casos, duas perguntas: "de quem?" e "a quem?"
  2. O genitivo com substantivos: posse, parte do todo, sujeito e objeto
  3. Genitivo de qualidade, de valor e com adjetivos
  4. O dativo da pessoa interessada: objeto indireto, posse, interesse e referência
  5. Duplo dativo, dativo com adjetivos e com verbos
  6. Lendo frases autênticas: um salmo e o Evangelho de João
  7. Erros comuns
  8. Prática guiada
  9. Exercícios independentes
  10. Leituras recomendadas
  11. Créditos e fontes

Dois casos, duas perguntas: "de quem?" e "a quem?" ⚑

No capítulo 3 você aprendeu que o genitivo responde a "de quem? de quê?" e o dativo a "a quem? para quem?". Essa primeira aproximação continua válida, mas agora, com as cinco declinações completas (capítulo 11) e os pronomes (capítulos 14 a 16), é hora de ver o que os autores fazem de fato com esses dois casos. Há um princípio que organiza tudo e que vale a pena guardar desde já: o genitivo é, antes de tudo, o caso que liga um nome a outro nome; por isso Allen e Greenough o chamam de "caso adjetivo" (§ 341): domus rēgis é "a casa do rei" assim como domus rēgia é "a casa real". O dativo, ao contrário, gira em torno da pessoa interessada no que acontece: aquela a quem algo é dado, que tem algo, que se beneficia ou se prejudica, que obedece ou confia. Bennett resume: o dativo exprime as relações que dizemos com "a" e "para" (§ 186).

Daí sai uma regra prática de leitura: quando encontrar um genitivo, procure o substantivo (ou o adjetivo) de que ele depende; quando encontrar um dativo, pergunte quem está interessado na ação e de que modo. O quadro abaixo é o mapa do capítulo; cada linha é desenvolvida nas seções seguintes.

Mapa dos empregos do genitivo e do dativo
CasoEmpregoExemploTradução
Genitivopossedomus rēgisa casa do rei
Genitivopredicativo de posse ("é de", "é próprio de")Haec domus rēgis est.Esta casa é do rei.
Genitivopartitivo (do todo)pars mīlitum; nihil novīparte dos soldados; nada de novo
Genitivosubjetivo / objetivoamor patriso amor do pai / o amor ao pai
Genitivoqualidade (com adjetivo)vir magnae virtūtishomem de grande coragem
Genitivovalormagnī aestimāreestimar muito
Genitivocom adjetivoscupidus glōriaedesejoso de glória
Dativoobjeto indiretoLibrum amīcō dō.Dou o livro ao amigo.
Dativoposse com esseMihi est liber.Eu tenho um livro.
Dativointeresse (vantagem ou desvantagem)Sibi nōn labōrat.Não trabalha para si.
Dativoreferência (ponto de vista)Mihi deus erit.Para mim, será um deus.
Dativofinalidade (duplo dativo)Sociīs auxiliō vēnit.Veio em auxílio dos aliados.
Dativocom adjetivospatrī cārusquerido ao pai
Dativocom verbos intransitivos e compostosDucī pāret. Legiōnī praeest.Obedece ao comandante. Comanda a legião.
Desconfie do "de" e do "a" do português. O "de" português corresponde ao genitivo só quando liga um nome a outro nome ("a casa do rei"); "venho de Roma", "feito de ouro" e "falar de alguém" são ablativos, que você verá no capítulo 21. Do mesmo modo, o "a" de "obedecer ao pai" é dativo, mas o de "ir a Roma" é acusativo de direção.

O genitivo com substantivos: posse, parte do todo, sujeito e objeto ⚑

Genitivo de posse

É o emprego mais frequente: o genitivo indica a quem algo pertence ou de quem procede (domus Cicerōnis, "a casa de Cícero"; Mārcī fīlius, "o filho de Marco"; dicta Platōnis, "as palavras de Platão"). Dois desdobramentos merecem atenção. Primeiro, com causā e grātiā, "por causa de, em atenção a", o genitivo vem antes: amīcōrum causā, "por causa dos amigos" (Bennett § 198.1). Segundo, o genitivo de posse pode ficar no predicado, ligado ao sujeito por esse: Haec domus rēgis est, "esta casa é do rei". Dessa construção nasce uma expressão muito latina, est + genitivo no sentido de "é próprio de, é dever de": Hōc cōnsulis est, "isto é dever do cônsul", "isto cabe ao cônsul" (Ravizza n. 267 dá cōnsulis est, "é dever do cônsul", e iūdicis officium est, "é dever do juiz"; Allen e Greenough § 343.b–c). Nos textos, o sujeito dessa expressão costuma ser um infinitivo ("é próprio do sábio calar"), construção que o capítulo 27 apresenta.

Fīlia rēgis in hortō ambulat.
A filha do rei passeia no jardim. (posse, parentesco)
Hīc ager nōn meus est, sed frātris.
Este campo não é meu, mas do meu irmão. (posse predicativa; com ego usa-se o possessivo meus, capítulo 14)
Patriae causā labōrāmus.
Trabalhamos pela pátria (por causa da pátria).
Hōc bonī cīvis est.
Isto é próprio do bom cidadão. (hōc, "isto", resume uma atitude já mencionada)

Genitivo partitivo, ou do todo

O genitivo indica o todo de que se toma uma parte. Aparece depois de nomes que significam parte ou quantidade (pars, multitūdō, nēmō), de pronomes (quis nostrum?, "qual de nós?"; lembre nostrum, vestrum partitivos, do capítulo 14), de superlativos e ordinais (fortissimus omnium, "o mais forte de todos"; prīmus rēgum), e, de modo muito característico, depois de um neutro singular usado como substantivo e dos advérbios satis, parum, nimis: nihil novī, "nada de novo"; quid cōnsiliī?, "que plano?"; multum vīnī, "muito vinho"; plūs labōris, "mais trabalho"; satis pecūniae, "dinheiro suficiente" (Bennett § 201.2). O português às vezes acompanha ("nada de novo"), às vezes não ("dinheiro suficiente").

O genitivo partitivo e as palavras que o pedem
Tipo de palavraLatimTraduçãoObservação
nome de partemagna pars hominumgrande parte dos homens
pronomequis vestrum?qual de vocês?vestrum, não vestrī
superlativoaltissimus montiumo mais alto dos montescapítulo 18
neutro substantivadonihil bonī; aliquid novīnada de bom; algo de novosó adjetivos de 1ª classe
advérbio de quantidadesatis cibī; parum temporiscomida suficiente; pouco tempo
numeral cardinalūnus ex mīlitibusum dos soldadosem geral ex/dē + ablativo, não genitivo

Genitivo subjetivo e genitivo objetivo

Muitos substantivos contêm uma ação ou um sentimento: amor (amar), timor, metus (temer), odium (odiar), cūra (cuidar), cupiditās (desejar), spēs (esperar). O genitivo que os acompanha pode indicar quem sente ou faz (genitivo subjetivo) ou o alvo do sentimento ou da ação (genitivo objetivo). O teste mais simples é transformar o substantivo em verbo, como faz o Pe. Ravizza (n. 264): se o genitivo vira sujeito, é subjetivo; se vira objeto, é objetivo.

O mesmo genitivo, duas leituras
LatimSubjetivo (quem sente)Objetivo (o que é sentido)Em contexto
amor patriso pai ama → "o amor do pai" (pelo filho)alguém ama o pai → "o amor ao pai"decide o contexto
timor hostiumos inimigos temem → "o medo dos inimigos" (que eles sentem)alguém teme os inimigos → "o medo dos inimigos" (que temos deles)o português tem a mesma ambiguidade
amor patriae(a pátria não ama)"o amor à pátria"só objetivo
adventus Caesaris"a chegada de César" (ele chega)(não se "chega" alguém)só subjetivo

Muitas vezes o sentido do substantivo decide sozinho, como nas duas últimas linhas. Quando não decide, o contexto decide; e, quando o próprio autor quer evitar a ambiguidade, usa uma preposição no lugar do genitivo objetivo: amor ergā parentēs, "o amor para com os pais"; odium in cīvēs, "o ódio contra os cidadãos" (Bennett § 200.1). Na tradução, o genitivo objetivo pede com frequência outra preposição portuguesa: "amor à pátria", "medo da morte", "esperança de vitória", "cuidado com os filhos" (cūra līberōrum).

Genitivo de qualidade, de valor e com adjetivos ⚑

Genitivo de qualidade (descritivo)

Para descrever uma pessoa ou coisa por uma qualidade, o latim põe o nome da qualidade no genitivo, sempre acompanhado de um adjetivo: vir magnae virtūtis, "um homem de grande coragem"; rēs eius modī, "uma coisa desse tipo". Sem o adjetivo a construção não existe: "um homem de coragem" não é vir virtūtis, mas vir fortis (A&G § 345). Com numerais, o mesmo genitivo dá medidas e idades: fossa quīndecim pedum, "um fosso de quinze pés" (Bennett § 203.2); puer decem annōrum, "um menino de dez anos". O capítulo 21 mostrará que a qualidade também se diz no ablativo (vir magnā virtūte); para medidas e idades, o genitivo é a forma usual.

Genitivo de valor

Com verbos de estimar e avaliar (aestimō, faciō, putō, dūcō, pendō) e com esse no sentido de "valer", um pequeno grupo de genitivos indica o valor indeterminado: magnī, plūris, plūrimī (muito, mais, muitíssimo), parvī, minōris, minimī (pouco, menos, pouquíssimo), tantī, quantī (tanto, quanto) e nihilī (nada). Bennett (§ 203.3) os aproxima do genitivo de qualidade; o Pe. Ravizza (n. 212) chama a construção de "complemento de apreciação".

Amīcitiam tuam magnī aestimō.
Estimo muito a tua amizade.
Virtūtem plūris facimus quam dīvitiās.
Damos mais valor à virtude que às riquezas. (dīvitiae, -ārum, riquezas)
Hōc cōnsilium parvī est.
Este plano vale pouco.
Quantī est hīc liber?
Quanto vale este livro? (o preço exato, em dinheiro, vai no ablativo: capítulo 21)

Genitivo com adjetivos

Adjetivos que precisam de um complemento para ter sentido completo, sobretudo os de desejo, conhecimento, lembrança, participação e plenitude (e seus contrários), levam o genitivo (Bennett § 204.1; A&G § 349). É o mesmo genitivo objetivo dos substantivos, aplicado a um adjetivo: quem é cupidus glōriae deseja a glória. O português usa quase sempre "de", mas nem sempre: perītus bellī é "perito na guerra".

Adjetivos que pedem genitivo
SentidoAdjetivosExemploTradução
desejocupidus, avidus, studiōsuscupidus pācisdesejoso de paz
conhecimentoperītus, imperītus, ignārusperītus bellīexperiente na guerra
lembrançamemor, immemormemor beneficiīlembrado do favor
participaçãoparticeps, expersparticeps cōnsiliīparticipante do plano
plenitudeplēnusplēnus aquaecheio de água
semelhança (pessoas)similis, dissimilispatris similisparecido com o pai

Dois avisos. Plēnus admite também o ablativo, mais raro com ele (Bennett § 218.8.a), e os verbos de encher (compleō) preferem o ablativo: capítulo 21. E similis oscila: em Cícero, leva de preferência o genitivo quando se trata de pessoas e genitivo ou dativo quando se trata de coisas (Bennett § 204.3; A&G § 385.c): fīlius patris similis, mas mors somnō (ou somnī) similis.

O dativo da pessoa interessada: objeto indireto, posse, interesse e referência ⚑

Objeto indireto

É o dativo que você conhece desde o capítulo 3: a pessoa a quem algo é dado, dito, mostrado, enviado ou prometido, ao lado de um objeto direto no acusativo (Pecūniam mihi dat, "dá-me o dinheiro"). O verbo é transitivo e o dativo completa a ação; por isso, em português, ele corresponde ao objeto indireto com "a" ou "para", ou aos pronomes "me, te, lhe, nos, vos, lhes" (Bennett § 187.I).

Dativo de posse

Com o verbo esse, o dativo indica o possuidor: Mihi est liber, literalmente "para mim há um livro", isto é, "eu tenho um livro" (Bennett § 190). Repare que o sujeito gramatical é a coisa possuída (liber), e o verbo concorda com ela: Mihi sunt duo frātrēs, "tenho dois irmãos". Na tradução, quem possui vira sujeito do verbo "ter". O latim também tem habeō, e as duas construções convivem; a diferença, segundo Bennett (§ 359.1) e A&G (§ 373, nota), é de ênfase: o dativo sublinha o fato de haver posse (mihi hortus est, "eu tenho um jardim"), enquanto o genitivo predicativo sublinha quem é o dono (hortus patris est, "o jardim é do meu pai"). Com nōmen est, o nome próprio fica no nominativo ou, por atração, no próprio dativo: Mihi nōmen est Mārcus ou Mihi Mārcō nōmen est, "chamo-me Marco" (Bennett § 190.1).

Três maneiras de falar de posse
LatimConstruçãoÊnfaseTradução
Mihi est equus.dativo + esseo fato de terEu tenho um cavalo.
Equum habeō.habeō + acusativoneutraTenho um cavalo.
Hīc equus meus est. / Hīc equus Mārcī est.possessivo ou genitivo predicativoquem é o donoEste cavalo é meu. / Este cavalo é de Marco.

Dativo de interesse (vantagem ou desvantagem)

Às vezes o dativo não completa o verbo, mas indica em favor de quem (ou em prejuízo de quem) a ação acontece. A frase estaria completa sem ele; o dativo acrescenta o interessado (A&G § 376; Kennedy § 221). Traduz-se por "para", "em favor de", "por".

Agricola nōn sibi sed fīliīs arborēs serit.
O agricultor planta árvores não para si, mas para os filhos. (serō, -ere, plantar)
Tibi sōlī cēnam parō.
Preparo o jantar só para você.
Hostēs nostrīs viam claudunt.
Os inimigos fecham o caminho aos nossos (em prejuízo dos nossos). (nostrī, "os nossos", substantivado)

Quando "para" ou "por" significa "em defesa de" ou "em lugar de", o latim não usa o dativo, e sim prō + ablativo: prō patriā pugnāre, "lutar pela pátria" (A&G § 379, nota; Ravizza n. 291).

Dativo de referência e dativo ético

Uma variedade do dativo de interesse indica do ponto de vista de quem uma afirmação é verdadeira, o "dativo da pessoa que julga" (Bennett § 188.2.c; A&G § 378). O exemplo de Bennett é um verso de Virgílio (Éclogas 1,7, segundo o índice de fontes da gramática): erit ille mihi semper deus, "ele será sempre um deus para mim", isto é, na minha opinião. Outro uso muito comum substitui o genitivo de posse quando se fala de partes do corpo e de coisas pessoais: Caput mihi dolet, "a cabeça me dói", "dói-me a cabeça" (o português faz o mesmo com "me"). Por fim, o dativo ético, só com pronomes pessoais, quase não tem função: exprime o envolvimento afetivo de quem fala (quid mihi Celsus agit?, "e o meu Celso, como vai?", verso de Horácio citado por Bennett § 188.2.b). Traduza-o livremente ou omita-o.

Duplo dativo, dativo com adjetivos e com verbos ⚑

Dativo de finalidade e o duplo dativo

Um substantivo abstrato no dativo pode indicar a finalidade ou o efeito: "para quê" algo serve ou "como o quê" algo funciona. Esse dativo vem quase sempre acompanhado de um segundo dativo, o da pessoa interessada; daí o nome escolar de duplo dativo. O verbo mais comum é esse, mas aparecem também venīre, mittere, relinquere, dare, habēre. O dativo de finalidade é, em regra, singular, abstrato e sem adjetivo, salvo adjetivos de grau como magnō, maximō (A&G § 382, nota 1). Kennedy (§ 226) dá um exemplo de César: equitātum auxiliō Caesarī mīsērunt, "enviaram a cavalaria em auxílio de César".

Os duplos dativos mais frequentes
Dativo de finalidadeExpressãoTradução natural
auxiliōsociīs auxiliō venīrevir em auxílio dos aliados
praesidiōurbī praesidiō esseservir de proteção à cidade
ūsuīnōbīs magnō ūsuī esseser de grande utilidade para nós
cūraemihi cūrae esseser motivo de preocupação para mim; preocupar-me
odiōomnibus odiō esseser odiado por todos
exemplōcēterīs exemplō esseservir de exemplo aos outros
dōnōamīcō dōnō daredar de presente a um amigo
salūtīpatriae salūtī esseser a salvação da pátria

Traduzir palavra por palavra ("é para preocupação para mim") produz um português impossível. Monte a ideia: a pessoa no dativo é o interessado, o abstrato no dativo é o papel que a coisa desempenha. Haec rēs mihi cūrae est: "isto me preocupa". A velha pergunta proverbial cui bonō?, "a quem isso aproveita?", é um duplo dativo sem verbo (Bennett § 191.2.a).

Dativo com adjetivos

Adjetivos que indicam amizade e hostilidade, semelhança e igualdade, proximidade, utilidade e adequação levam dativo (Bennett § 192; A&G § 384): amīcus, inimīcus, fidēlis, cārus, grātus, molestus; similis, pār, aequālis; proximus, fīnitimus, vīcīnus; ūtilis, inūtilis, idōneus, aptus, facilis, difficilis, necessārius. A lógica é a mesma do dativo de interesse: alguém é "amigo para", "útil para", "próximo a".

Hīc locus castrīs idōneus est.
Este lugar é apropriado para um acampamento. (castra, -ōrum, acampamento)
Germānī Rhēnō proximī sunt.
Os germanos são vizinhos do Reno (estão junto ao Reno).
Liber discipulīs ūtilis est.
O livro é útil aos alunos.
Tribūnus nōbīs amīcus est.
O tribuno é amigável conosco.

Dativo com verbos intransitivos

Este é o ponto em que o falante de português mais erra. Vários verbos que em português são transitivos diretos ("obedecer o pai" se diz, mas a norma pede "ao pai"; "ajudar", "persuadir", "perdoar alguém") são intransitivos em latim e levam o complemento no dativo. Bennett insiste em que eles não pedem dativo por causa do sentido português, mas porque em latim são intransitivos, construídos com um objeto indireto (§ 187.II, nota). Pense em cada um como "ser obediente a", "ser favorável a", "fazer mal a", "tornar algo convincente para".

Verbos intransitivos com dativo (os mais frequentes)
VerboSentido literalExemploTradução
crēdō, -ere, crēdidīdar crédito aNēmō mendācī crēdit.Ninguém acredita no mentiroso.
pāreō, -ēre, pāruīser obediente aMīlitēs ducī pārent.Os soldados obedecem ao comandante.
noceō, -ēre, nocuīfazer mal aFūmus oculīs nocet.A fumaça faz mal aos olhos.
placeō, -ēre, placuīser agradável aHaec fābula puerīs placet.Esta história agrada aos meninos.
faveō, -ēre, fāvīser favorável aFortūna fortibus favet.A sorte favorece os corajosos.
persuādeō, -ēre, persuāsītornar convincente paraPatrī persuāsī.Persuadi meu pai.
ignōscō, -ere, ignōvīconceder perdão aRēx captīvīs ignōscit.O rei perdoa os prisioneiros.
imperō, -āredar ordens aCaesar mīlitibus imperat.César dá ordens aos soldados.
serviō, -īreser escravo de, servir aPatriae servīmus.Servimos à pátria.
parcō, -ere, pepercīter consideração por, pouparVictor victīs pepercit.O vencedor poupou os vencidos.
resistō, -ere, restitīopor-se aHostibus resistimus.Resistimos aos inimigos.

E o contrário também acontece: verbos de sentido parecido são transitivos e levam acusativo: iuvō e adiuvō ("ajudar"), laedō ("ferir, prejudicar"), iubeō ("mandar"), dēlectō ("agradar, encantar"): Deus fortēs iuvat; Fābula puerōs dēlectat (A&G § 367.a; Kennedy § 217). Por isso não há atalho: o caso que o verbo pede se aprende com o verbo, e um bom dicionário o indica (alicui = com dativo; aliquem = com acusativo).

Dativo com verbos compostos

Muitos verbos compostos com ad, ante, con-, in, inter, ob, post, prae, prō, sub, super passam a levar dativo, porque o prefixo acrescenta uma relação "a, diante de, sobre" (Bennett § 187.III; A&G § 370). Os compostos de sum são os primeiros a aprender: adsum (estar presente, assistir a), praesum (estar à frente de, comandar), dēsum (faltar a), obsum (prejudicar), prōsum (ser útil a; presente prōsum, prōdes, prōdest), intersum (tomar parte em). Verbos transitivos compostos podem ter acusativo e dativo: Caesar Labiēnum legiōnī praefēcit, "César pôs Labieno no comando da legião" (praeficiō, -ere, praefēcī).

Cicerō amīcīs semper aderat.
Cícero sempre assistia os amigos (estava ao lado deles). (dativo com adsum)
Labiēnus legiōnī praeest.
Labieno comanda a legião.
Cōnsilium tibi nōn dēest.
Não te falta juízo. (cōnsilium é o sujeito; tibi, o dativo com dēsum)
Haec lēx cīvibus prōdest.
Esta lei é útil aos cidadãos.
Para mais tarde. Esses verbos, por não terem objeto direto, só têm passiva impessoal (mihi persuādētur, "estou sendo persuadido"; Bennett § 187.II.b): você verá isso no capítulo 24. E há um dativo que indica quem deve fazer algo, o dativo de agente com o gerundivo (haec nōbīs agenda sunt, "isto deve ser feito por nós"; Bennett § 189), assunto do capítulo 31.

Lendo frases autênticas: um salmo e o Evangelho de João ⚑

Duas frases curtas da Vulgata mostram, uma, o genitivo objetivo, a outra, o dativo de posse. A primeira é o último versículo do Salmo 110 (na numeração da Vulgata), uma das sentenças mais citadas da literatura sapiencial:

Initium sapientiae timor Dominī.
O princípio da sabedoria é o temor do Senhor. (Sl 110,10 [111,10], Vulgata)
Sl 110,10, palavra a palavra
PalavraDicionárioAnáliseFunção
Initiuminitium, -ī (n.), início, princípionominativo singular, 2ª declinaçãopredicativo (a frase não tem verbo expresso; subentende-se est)
sapientiaesapientia, -ae (f.), sabedoriagenitivo singular, 1ª declinaçãoadjunto de initium: "o princípio da sabedoria"
timortimor, -ōris (m.), temor, medonominativo singular, 3ª declinaçãosujeito
Dominīdominus, -ī (m.), senhor; o Senhorgenitivo singular, 2ª declinaçãogenitivo objetivo de timor: o Senhor é temido

A frase é nominal: em máximas desse tipo o latim dispensa com frequência o est, e você o acrescenta na tradução. Qual dos nominativos é o sujeito? A tradição lê "o temor do Senhor é o princípio da sabedoria": timor Dominī é aquilo de que se fala, e initium sapientiae é o que se diz dele. O ponto principal, porém, é Dominī. Pelo teste do Pe. Ravizza, "o temor do Senhor" vira "alguém teme o Senhor", e não "o Senhor teme": o genitivo é objetivo. O português conserva a mesma ambiguidade aparente ("temor do Senhor"), e é o sentido que a resolve.

A segunda frase é o versículo que apresenta João Batista no prólogo do quarto Evangelho:

Fuit homo missus ā Deō, cui nōmen erat Ioannes.
Houve um homem enviado por Deus, cujo nome era João (literalmente: ao qual o nome era João). (Jo 1,6, Vulgata)
Jo 1,6, palavra a palavra
PalavraDicionárioAnáliseFunção
Fuitsum, esse, fuī, ser, haverperfeito, 3ª pessoa do singular (capítulo 13)verbo da oração principal: "houve, existiu"
homohomō, -inis (m.), ser humano, homemnominativo singular, 3ª declinaçãosujeito de fuit
missusmittō, -ere, mīsī, missum, enviarparticípio perfeito passivo, nominativo masculino singular (capítulo 29)concorda com homo: "enviado"
ā Deōā/ab (prep. + abl.); deus, -īablativo singular com āagente: "por Deus" (capítulo 23)
cuiquī, quae, quod, que, o qualdativo singular masculino (capítulo 16)dativo de posse com erat; antecedente homo
nōmennōmen, -inis (n.), nomenominativo singular, 3ª declinaçãosujeito de erat
eratsum, esseimperfeito, 3ª pessoa do singular (capítulo 12)verbo da oração relativa
IoannesIoannes, -is (m.), Joãonominativo singularaposto de nōmen: o nome próprio fica no nominativo

A construção cui nōmen erat é a mesma de mihi nōmen est: o possuidor no dativo, o nome como sujeito de esse. A tradução portuguesa usual, "cujo nome era", troca o dativo por um pronome possessivo, que é a forma natural de dizer posse numa oração relativa em português. Note ainda que o nome próprio, Ioannes, ficou no nominativo, e não atraído para o dativo (cui Ioanni): as duas possibilidades existem, e Bennett (§ 190.1) observa que a atração ao dativo é a mais comum (cf. A&G § 373.a); a Vulgata usa aqui o nominativo.

SociīnominativosujeitoRōmānīsdativointeressado (a quem)nāvēsacusativoobjeto diretoauxiliōdativofinalidade (para quê)mīsēruntverbo"enviaram"
Um duplo dativo: Sociī Rōmānīs nāvēs auxiliō mīsērunt = Os aliados enviaram navios em auxílio dos romanos. Os dois dativos respondem a perguntas diferentes: a quem? e para quê?

Resumo

Erros comuns ⚑

Prática guiada ⚑

Resolvida passo a passo: leia a pergunta, tente responder e só então abra cada passo.

Prática guiada 1 · Três genitivos e um dativo

Analise e traduza, na ordem latina: Pars mīlitum, cupida glōriae, ducī nōn pāruit. Vocabulário: pars, partis (f.), parte; mīles, -itis (m.), soldado; cupidus, -a, -um, desejoso; glōria, -ae, glória; dux, ducis (m.), comandante; pāreō, -ēre, pāruī, obedecer.

  1. Qual é o verbo, e que caso ele pede?
    Ver o passo

    Pāruit, perfeito de pāreō, 3ª pessoa do singular: "obedeceu". Pāreō é intransitivo e leva dativo; espere, então, um dativo, não um acusativo.

  2. Qual é o sujeito? Por que o verbo está no singular se quem desobedece são soldados?
    Ver o passo

    O sujeito é pars, nominativo singular: "uma parte". O verbo concorda gramaticalmente com pars, e não com mīlitum.

  3. Que tipo de genitivo é mīlitum?
    Ver o passo

    Genitivo plural de mīles, dependente de pars: partitivo, o todo de que se toma a parte. "Parte dos soldados".

  4. E cupida glōriae?
    Ver o passo

    Cupida é nominativo feminino singular: concorda com pars (feminino), não com mīlitum. Glōriae é genitivo pedido pelo adjetivo de desejo cupidus. "Desejosa de glória".

  5. E ducī?
    Ver o passo

    Dativo singular de dux, complemento de pāruit: "ao comandante".

  6. Monte a tradução.
    Ver o passo

    "Uma parte dos soldados, desejosa de glória, não obedeceu ao comandante." Em português pode-se pôr o adjetivo no plural pelo sentido ("parte dos soldados, desejosos de glória"), mas em latim cupida concorda com pars.

Prática guiada 2 · Posse, interesse e finalidade

Analise e traduza: Rōmānīs nūlla classis erat; itaque sociī eīs nāvēs auxiliō mīsērunt. Vocabulário: nūllus, -a, -um, nenhum; classis, -is (f.), frota; itaque, por isso; socius, -ī (m.), aliado; nāvis, -is (f.), navio; auxilium, -ī (n.), auxílio; mittō, -ere, mīsī, enviar.

  1. Na primeira oração, qual é o sujeito de erat?
    Ver o passo

    Nūlla classis, nominativo singular: "nenhuma frota". Rōmānīs não pode ser sujeito: é dativo (ou ablativo) plural.

  2. Que dativo é Rōmānīs?
    Ver o passo

    Com esse e uma coisa como sujeito, é dativo de posse: "para os romanos não havia frota" = "os romanos não tinham frota".

  3. Na segunda oração, quantos dativos há, e o que cada um responde?
    Ver o passo

    Dois: eīs (dativo plural de is, capítulo 14), a quem se envia, isto é, a pessoa interessada (os romanos); e auxiliō, para quê se envia: dativo de finalidade. Juntos formam um duplo dativo.

  4. E nāvēs?
    Ver o passo

    Acusativo plural de nāvis (tema em -i, capítulo 10): o objeto direto de mīsērunt. A forma nāvēs também poderia ser nominativo, mas o sujeito já é sociī.

  5. Monte a tradução.
    Ver o passo

    "Os romanos não tinham frota; por isso os aliados lhes enviaram navios em auxílio" (ou "enviaram navios para ajudá-los").

Repare que as duas orações usam o dativo com funções diferentes, posse na primeira, interesse e finalidade na segunda, e que nenhuma delas se traduz com "a" ou "para" palavra por palavra.

Exercícios independentes ⚑

Faça por escrito ou em voz alta; abra "Ver resposta" só depois de tentar. A explicação da resposta faz parte da lição.

Exercício 1 · Que genitivo é este?

Classifique o genitivo destacado (posse, predicativo, partitivo, subjetivo, objetivo, qualidade, valor, com adjetivo) e traduza a expressão. Vocabulário: cōnsul, -is, cônsul; prūdentia, -ae, sabedoria prática; cibus, -ī, comida; aestimō, -āre, avaliar.

  1. pars cīvium
    Ver resposta

    Partitivo: o todo de que se toma uma parte. "Parte dos cidadãos".

  2. amor patriae
    Ver resposta

    Objetivo: a pátria é amada, não ama. "O amor à pátria".

  3. domus cōnsulis
    Ver resposta

    Posse: "a casa do cônsul".

  4. vir summae prūdentiae
    Ver resposta

    Qualidade, com o adjetivo summae obrigatório: "um homem de enorme sabedoria".

  5. Satis cibī habēmus.
    Ver resposta

    Partitivo depois do advérbio de quantidade satis: "Temos comida suficiente."

  6. Mīles cupidus glōriae est.
    Ver resposta

    Genitivo com adjetivo de desejo (cupidus): "O soldado é ávido de glória."

  7. Hanc domum magnī aestimō.
    Ver resposta

    Valor (genitivo de apreciação): "Tenho esta casa em grande estima" ou "Dou muito valor a esta casa."

  8. Haec vīlla rēgīnae est.
    Ver resposta

    Posse predicativa, com esse: "Esta casa de campo é da rainha." Atenção: rēgīnae também poderia ser dativo de posse ("a rainha tem esta casa"), porque as formas coincidem na 1ª declinação. Com o demonstrativo haec apontando uma casa já conhecida, a pergunta é "de quem é?", e a leitura natural é o genitivo.

  9. puer decem annōrum
    Ver resposta

    Qualidade com numeral, indicando a idade: "um menino de dez anos".

  10. adventus hostium
    Ver resposta

    Subjetivo: os inimigos chegam. "A chegada dos inimigos".

Exercício 2 · Que dativo é este?

Classifique o dativo destacado (objeto indireto, posse, interesse, finalidade, com adjetivo, com verbo intransitivo, com composto) e traduza a frase. Vocabulário: discipulus, -ī, aluno; fīlia, -ae, filha; serō, -ere, plantar; legiō, -ōnis, legião; castra, -ōrum (n. pl.), acampamento.

  1. Magister discipulīs librōs dat.
    Ver resposta

    Objeto indireto: "O professor dá livros aos alunos."

  2. Rēgī trēs fīliae erant.
    Ver resposta

    Posse com esse (o sujeito é trēs fīliae, e por isso o verbo está no plural): "O rei tinha três filhas."

  3. Mīlitēs ducī pārent.
    Ver resposta

    Com verbo intransitivo (pāreō): "Os soldados obedecem ao comandante."

  4. Haec rēs nōbīs magnō ūsuī est.
    Ver resposta

    Duplo dativo: nōbīs é o interessado e ūsuī a finalidade, com o adjetivo de grau magnō. "Isto nos é de grande utilidade."

  5. Labiēnus legiōnī praeest.
    Ver resposta

    Com composto de sum (praesum): "Labieno comanda a legião."

  6. Agricola nōn sibi sed fīliīs arborēs serit.
    Ver resposta

    Interesse (vantagem): a frase estaria completa sem os dativos. "O agricultor planta árvores não para si, mas para os filhos."

  7. Iste locus castrīs idōneus est.
    Ver resposta

    Com adjetivo de adequação (idōneus): "Esse lugar é apropriado para um acampamento."

  8. Nēmō tibi crēdit.
    Ver resposta

    Com verbo intransitivo (crēdō): "Ninguém acredita em você."

Exercício 3 · Genitivo ou dativo?

Complete com a forma correta da palavra entre parênteses e diga por quê. Vocabulário: fugiō, -ere, fūgī, fugir; soror, -ōris, irmã; salūs, -ūtis (f.), saúde, salvação; pāx, pācis, paz; cūra, -ae, preocupação; sapientia, -ae, sabedoria.

  1. Fīlius ___ pāret. (pater)
    Ver resposta

    patrī: dativo exigido por pāreō. "O filho obedece ao pai."

  2. Pars ___ fūgit. (mīles)
    Ver resposta

    mīlitum: genitivo plural partitivo depois de pars. "Parte dos soldados fugiu."

  3. ___ est soror. (ego)
    Ver resposta

    Mihi: dativo de posse com esse. "Eu tenho uma irmã."

  4. Dux cupidus ___ nōn est. (pāx)
    Ver resposta

    pācis: genitivo pedido pelo adjetivo de desejo cupidus. "O comandante não deseja a paz."

  5. Tua salūs mihi ___ est. (cūra)
    Ver resposta

    cūrae: dativo de finalidade, formando duplo dativo com mihi. "A tua saúde me preocupa."

  6. Ille vir magnae ___ est. (sapientia)
    Ver resposta

    sapientiae: genitivo de qualidade, com o adjetivo magnae, em posição de predicativo. "Aquele homem é de grande sabedoria."

  7. Nihil ___ audiō. (novus)
    Ver resposta

    novī: genitivo partitivo de um adjetivo de 1ª classe depois de nihil. "Não ouço nada de novo."

  8. Victor ___ pepercit. (victī, os vencidos)
    Ver resposta

    victīs: dativo exigido por parcō. "O vencedor poupou os vencidos."

  9. Hīc liber ___ ūtilis est. (puer)
    Ver resposta

    puerō: dativo com o adjetivo ūtilis. "Este livro é útil ao menino."

  10. Fīlius ___ similis est. (pater)
    Ver resposta

    patris: com similis referido a pessoa, o genitivo é o uso preferido de Cícero (Bennett § 204.3); patrī também se encontra. "O filho é parecido com o pai."

Exercício 4 · Traduza

Antes de traduzir, identifique cada genitivo e cada dativo. Vocabulário: exercitus, -ūs, exército; parum, pouco, pouco demais; frūmentum, -ī, trigo; quod, porque; saepe, muitas vezes; ager, agrī, campo; lēx, lēgis, lei.

  1. Caesarī magnus exercitus erat, sed parum frūmentī.
    Ver resposta

    Caesarī: dativo de posse; frūmentī: genitivo partitivo depois de parum. "César tinha um grande exército, mas pouco trigo."

  2. Mīlitēs ducī nōn crēdunt, quod dux eīs saepe nocuit.
    Ver resposta

    Ducī: dativo com crēdō; eīs: dativo com noceō. "Os soldados não confiam no comandante, porque o comandante muitas vezes os prejudicou."

  3. Hīc ager nōbīs magnae cūrae est.
    Ver resposta

    Duplo dativo (nōbīs, interessado; cūrae, finalidade, com o adjetivo de grau magnae). "Este campo nos dá grande preocupação" ou "Nós nos preocupamos muito com este campo."

  4. Amor patriae Rōmānīs maximus erat.
    Ver resposta

    Patriae: genitivo objetivo; Rōmānīs: dativo de posse (ou de referência). "Os romanos tinham um enorme amor à pátria."

  5. Bonī cīvēs lēgibus pārent et patriae serviunt.
    Ver resposta

    Lēgibus e patriae: dativos exigidos por pāreō e serviō. "Os bons cidadãos obedecem às leis e servem à pátria." (Patriae não é genitivo: não há substantivo de que dependa, e serviunt pede dativo.)

Exercício 5 · Retroversão

Passe para o latim, usando o vocabulário deste capítulo.

  1. Eu tenho dois irmãos.
    Ver resposta

    Mihi sunt duo frātrēs. (dativo de posse; o verbo concorda com frātrēs) Também correto: Duōs frātrēs habeō.

  2. A rainha veio em auxílio da cidade.
    Ver resposta

    Rēgīna urbī auxiliō vēnit. Duplo dativo: urbī (interessado) e auxiliō (finalidade, no singular).

  3. Ninguém persuade o meu pai.
    Ver resposta

    Nēmō patrī meō persuādet. Persuādeō leva dativo; o português "persuadir alguém" engana.

  4. Um dos soldados era experiente na guerra.
    Ver resposta

    Ūnus ex mīlitibus perītus bellī erat. Com o cardinal, ex + ablativo; perītus pede genitivo.

  5. Dou muito valor aos teus conselhos.
    Ver resposta

    Tua cōnsilia magnī aestimō (ou faciō). Genitivo de valor.

  6. Este lugar fica perto do mar.
    Ver resposta

    Hīc locus marī proximus est. Proximus leva dativo (Bennett § 192.1).

Exercício 6 · Leitura autêntica

Identifique os genitivos e dativos e traduza. As frases foram conferidas na Vulgata Clementina e na Latin Library; as glosas dão o que ainda não foi estudado.

  1. Beātī pauperēs spīritū: quoniam ipsōrum est rēgnum caelōrum. (Mt 5,3) Vocabulário: beātus, feliz, bem-aventurado; pauper, -eris, pobre; spīritū, "em espírito" (ablativo, capítulo 21); quoniam, porque; ipse, ele mesmo (capítulo 15); caelum, -ī, céu (aqui no plural).
    Ver resposta

    Ipsōrum: genitivo de posse predicativo, com est: "deles é". Caelōrum: genitivo dependente de rēgnum, "o reino dos céus". Frase nominal no início (subentenda sunt): "Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o reino dos céus."

  2. Dominus regit mē, et nihil mihi dēerit. (Sl 22,1 [23,1], Vulgata) Vocabulário: regō, -ere, guiar, governar; dēerit, futuro de dēsum, faltar.
    Ver resposta

    Mihi: dativo com o composto dēsum, "faltar a alguém"; nihil é o sujeito de dēerit. "O Senhor me guia, e nada me faltará."

  3. Fuit homo missus ā Deō, cui nōmen erat Ioannes. (Jo 1,6)
    Ver resposta

    Cui: dativo de posse com erat; o nome fica no nominativo. "Houve um homem enviado por Deus, cujo nome era João." (Veja a análise na seção 6.)

  4. Hōrum omnium fortissimī sunt Belgae. (César, BG 1.1.3) Vocabulário: hīc, haec, hōc, este (capítulo 15); omnis, -e, todo; fortissimus, superlativo de fortis (capítulo 18); Belgae, -ārum, os belgas.
    Ver resposta

    Hōrum omnium: genitivo plural partitivo, dependente do superlativo fortissimī: "de todos estes" (César acabou de nomear os três povos da Gália). "De todos estes, os mais valentes são os belgas."

Leituras recomendadas

Para consulta, os usos do genitivo estão em Bennett §§ 194–212 e os do dativo em §§ 186–193; em Allen e Greenough, §§ 341–385, com muitos exemplos de autores. O Pe. Ravizza trata os dois casos, em português, nos nn. 263–294. Para praticar a leitura, o Epitome historiae sacrae de Lhomond traz dativos de posse e de interesse em frases curtas, e o primeiro capítulo da Guerra da Gália, nas seleções comentadas, mostra o genitivo partitivo e os verbos com dativo na prosa de César. Na Vulgata, procure o dativo de posse com nōmen nos Evangelhos.

Etapa II · Primae FabulaeDidático

New Latin Grammar

Charles E. Bennett

Gramática de referência compacta (1918), em inglês, com macrons: sons, flexões, sintaxe, prosódia. Mais curta e mais fácil de consultar que Allen & Greenough; cabe num leitor de EPUB.

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J. H. Allen e J. B. Greenough

A gramática de referência clássica em inglês (1903), em hipertexto com os parágrafos numerados tradicionais: pronúncia, morfologia, sintaxe, prosódia. Os comentários do DCC remetem a ela em cada nota. Para consultar, não para decorar.

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Commentarii de Bello Gallico (seleções)

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Historiografia · Clássico · algumas semanas · Dickinson College Commentaries

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Créditos e fontes

Autoria
Bibliotheca Latina. Conteúdo original com trechos de obras em domínio público; licença CC BY 4.0.
Fontes consultadas
  • New Latin Grammar, Charles E. Bennett (no catálogo) · domínio público · § 186 (o dativo: "a, para"), § 187 (objeto indireto: I com transitivos; II com intransitivos de favorecer, confiar, persuadir, prejudicar, poupar etc., e a nota sobre iuvō, laedō, dēlectō com acusativo; III com compostos: praefuit, succurrit), § 188 (dativo de referência; 188.2.b ético; 188.2.c da pessoa que julga), § 189 (dativo de agente, só a menção), § 190 (dativo de posse; 190.1 mihi Mārcō nōmen est), § 191 (dativo de finalidade; 191.2 com outro dativo: cui bonō?, Atticīs vēnit auxiliō), § 192 (dativo com adjetivos), §§ 194–204 (genitivo: 198 posse, 198.1 causā e grātiā, 198.2 genitivo predicativo; 199 subjetivo; 200 objetivo, 200.1 ergā; 201 do todo, 201.1.a ex/dē com cardinais, 201.2 nihil bonī, satis pecūniae, 201.2.b nihil dulcius; 203 qualidade, 203.2 medida, 203.3 valor; 204 com adjetivos, 204.3 similis), §§ 205–206 (meminī, oblīvīscor), § 359.1 (genitivo × dativo de posse)
  • Allen and Greenough's New Latin Grammar, J. H. Allen e J. B. Greenough (no catálogo) · domínio público · §§ 341–348 (genitivo com nomes: 341 "caso adjetivo"; 343 posse, 343.b predicativo, 343 nota 1 o possuidor como agente; 345 qualidade, só com adjetivo; 346 partitivo, 346.c ex/dē com cardinais, 346.e "todo" concorda; 348 objetivo), § 349 (adjetivos com genitivo: perītus, memor, plēnus), § 350 (meminī, oblīvīscor), §§ 360–373 (dativo: 361–362 objeto indireto; 367 verbos especiais, 367.a iuvō, laedō, iubeō, dēlectō com acusativo; 370 compostos; 373 posse, 373 nota ênfase, 373.a nōmen est), § 374 (agente, só a menção), §§ 376–378 (referência, pessoa que julga), § 382 (finalidade; nota 1: abstrato, singular, sem adjetivo salvo de grau), §§ 383–385 (dativo com adjetivos; 385.c amīcus Cicerōnī × Cicerōnis amīcus; similis)
  • Kennedy's Revised Latin Primer, Benjamin Hall Kennedy (no catálogo) · domínio público · §§ 214–227 (dativo: 215 transitivos de dar e dizer; 216–217 intransitivos e a nota sobre dēlectō, iuvō, laedō, iubeō; 218 adjetivos; 220 compostos; 221 vantagem e desvantagem; 223 ético; 224 possuidor; 225–226 finalidade e duplo dativo), §§ 247–262 (genitivo: 254 possessivo; 255 qualidade; 257 valor; 258–260 partitivo; 261–262 subjetivo e objetivo), § 265 (verbos de lembrar e esquecer)
  • Gramática Latina, Pe. João Ravizza (no catálogo) · domínio público · n. 212 (complemento de apreciação: magnī, parvī com aestimāre, facere, esse), n. 228 (qualidade: vir magnae prūdentiae), n. 264 (genitivo determinativo; subjetivo × objetivo, metus hostium; ergā, in), n. 266 (possessivo), n. 267 (esse + genitivo, "é próprio de"), n. 269 (partitivo), n. 272 (adjetivos com genitivo), n. 273 (meminisse, oblīvīscī), nn. 280–294 (dativo: 283 verbos transitivos em português e intransitivos em latim; 284 compostos de esse; 289 adjetivos; 291 interesse; 292 posse; 293 est mihi nōmen; 294 duplo dativo). A numeração foi lida no OCR, que às vezes troca dígitos; os números citados foram conferidos pela sequência dos parágrafos.
  • Biblia Sacra Vulgata (editio Clementina): Salmo 110,10; João 1,6; Salmo 22,1; Mateus 5,3 (no catálogo) · domínio público · frases das seções 6 e do exercício 6, conferidas na Wikisource latina (numeração dos Salmos da Vulgata); ortografia adaptada (ae por æ, I por J) e macrons acrescentados
  • Commentarii de Bello Gallico I, 1, Caio Júlio César (no catálogo) · domínio público · "Horum omnium fortissimi sunt Belgae" (exercício 6), conferido no texto da Latin Library; macrons acrescentados
Para ir além
New Latin Grammar, Allen and Greenough's New Latin Grammar (edição DCC), Gramática Latina, Biblia Sacra Vulgata (editio Clementina), Epitome historiae sacrae, Commentarii de Bello Gallico (seleções) (ver Leituras recomendadas acima).