Como soa a poesia latina: a sílaba longa e a breve (por natureza e por posição), a elisão e a sinizese, o hexâmetro datílico escandido verso a verso na Eneida, o dístico elegíaco de Ovídio, uma amostra da estrofe sáfica e do asclepiadeu de Horácio e o verso rítmico dos hinos medievais. Depois, as figuras de linguagem que você vai encontrar nos autores, cada uma com um exemplo autêntico.
Neste capítulo você vai
Dizer se uma sílaba é longa por natureza, longa por posição, breve ou comum (muda + líquida), explicando a regra aplicada.
Reconhecer a elisão, o hiato e a sinizese e aplicá-los ao contar as sílabas de um verso.
Escandir um hexâmetro datílico, dividindo-o em seis pés e localizando a cesura principal.
Reconhecer o dístico elegíaco e escandir um pentâmetro; identificar de ouvido uma estrofe sáfica, um asclepiadeu e um verso rítmico medieval.
Identificar, num texto autêntico, as figuras mais comuns (aliteração, anáfora, tricolon, assíndeto, polissíndeto, zeugma, quiasmo, hipérbato, lítotes, metonímia, sinédoque, hendíadis) e dizer que efeito cada uma produz.
métrica quantitativaquantidade por natureza e por posiçãomuda + líquida (sílaba comum)elisãohiatosinizesepés: dáctilo, espondeu, troqueu, iambohexâmetro datílicocesuraescansão de Eneida 1.1pentâmetro e dístico elegíacoestrofe sáficaasclepiadeu menorverso rítmico medievalfiguras de linguagemaliteraçãoanáforatricolonassíndeto e polissíndetozeugmaquiasmohipérbatolítotesmetonímia e sinédoquehendíadisanálise de frase autêntica
Antes deste capítulo: Capítulo 1 (divisão silábica, vogais longas e breves, regra do acento) e capítulo 8 (técnica de leitura de um texto corrido). Nenhuma gramática nova é exigida: as formas verbais e as construções que você ainda não estudou vêm explicadas ao lado de cada exemplo. · capítulo 1 · capítulo 8
Um verso português é medido pelo número de sílabas e pela posição dos acentos tônicos: o decassílabo heroico de Camões tem dez sílabas poéticas, com acento na sexta e na décima. O verso latino clássico segue outro princípio. Ele não conta sílabas nem acentos, mas durações: o poeta organiza sílabas longas e breves numa sequência regular, como um músico organiza notas longas e curtas num compasso. Bennett resume a diferença assim: a poesia latina se baseava na quantidade, não no acento (§ 361), e o Pe. Ravizza diz o mesmo em português, chamando a poesia grega e latina de "quantitativa" e a dos povos modernos de acentual (n. 532).
A unidade dessa música é a mora, o tempo de uma sílaba breve. Uma sílaba longa vale duas moras (Bennett § 366.1). As sílabas se agrupam em pés, pequenos compassos que se repetem ao longo do verso. Quatro pés bastam para começar:
Os pés mais frequentes (– longa, ˘ breve)
Pé
Esquema
Tempos
Exemplo (uma palavra)
dáctilo
– ˘ ˘
4
lītora
espondeu
– –
4
fātō
troqueu
– ˘
3
arma
iambo
˘ –
3
virō
Repare que o dáctilo e o espondeu têm a mesma duração, quatro tempos: é por isso que um pode substituir o outro no hexâmetro, como você verá na seção 3. A sílaba longa de cada pé recebe uma proeminência natural, que os gramáticos chamam ictus (Bennett § 366.5). Como exatamente os romanos liam um verso em voz alta, respeitando ao mesmo tempo as durações e o acento das palavras, é questão discutida entre os especialistas. Para aprender, o caminho mais seguro é este: leia cada palavra com o acento que ela tem na prosa (capítulo 1) e mantenha as longas com o dobro da duração das breves. O ritmo aparece sozinho.
Notação deste capítulo.– marca a sílaba longa, ˘ a breve e × a última sílaba do verso, que pode ser longa ou breve (Bennett § 366.10 a chama syllaba anceps). O traço duplo ‖ marca a cesura.
No capítulo 1 você aprendeu a quantidade da sílaba para acentuar palavras. A métrica usa as mesmas regras, com duas diferenças: agora todas as sílabas contam, não só a penúltima, e as palavras de um verso se emendam umas nas outras como se fossem uma só.
Longa por natureza, longa por posição
Uma sílaba é longa por natureza quando tem vogal longa ou ditongo: Rō-mā-nus, cae-lum. É longa por posição quando a sua vogal, mesmo breve, é seguida de duas consoantes ou de x ou z, que valem por duas: ter-ra, sax-um (A&G § 11.a–b). Atenção a um ponto que confunde muitos alunos: na sílaba longa por posição, a vogal continua breve e se pronuncia breve; o que fica longo é a sílaba, porque a primeira consoante "pesa" sobre ela. Em est, o e é breve, mas a sílaba é longa.
No verso, as duas consoantes podem estar em palavras diferentes. Em et terrīs, a sílaba et é longa porque o t final é seguido do t de terrīs (Bennett § 362.3). Pelo mesmo motivo, uma consoante final seguida de vogal passa para a palavra seguinte, e a sílaba fica aberta: em prīmus ab ōrīs, pronuncia-se prī-mu-sa-bō-rīs, e as sílabas mu e sa são breves (A&G § 11, nota 2). Para essas contas, o h não vale como consoante, e o qu conta como uma só (A&G § 11, nota 3).
Breve e comum
Uma vogal seguida imediatamente de outra vogal é, em regra, breve: de-us, vi-a (Bennett § 362.1; A&G § 10.a). Resta o caso que o capítulo 1 já anunciou: uma vogal breve seguida de consoante muda (p, b, t, d, c, g) + l ou r forma sílaba breve na prosa, mas o poeta pode tratá-la como longa. Os gramáticos chamam essa sílaba de comum (A&G § 11.c; Kennedy § 471.3, "doubtful"; Ravizza n. 523). A primeira sílaba de patrem se lê pa-trem (breve) ou pat-rem (longa), conforme o verso pedir.
Classificando sílabas
Palavra
Sílaba
Quantidade
Por quê
Rōma
Rō
longa por natureza
vogal longa (macron)
caelum
cae
longa por natureza
ditongo
puella
el
longa por posição
e breve + ll
saxum
sax
longa por posição
x vale por duas consoantes
deus
de
breve
vogal antes de vogal
tenebrae
ne
comum
e breve + br (muda + líquida)
E as vogais finais? Algumas regras ajudam (o -ā do ablativo da primeira declinação é longo; o -ō final é quase sempre longo; o -īs do dativo e ablativo plural é longo: Bennett §§ 363–364), mas o melhor recurso continua sendo o que você já usa: textos e dicionários com macrons. Escandir não é adivinhar quantidades, é aplicar as regras de posição às quantidades que o dicionário dá.
Elisão, hiato e sinizese
Quando uma palavra termina em vogal, ditongo ou -m e a seguinte começa por vogal ou h, a sílaba final da primeira se elide: some na leitura métrica (Bennett § 366.7; Ravizza n. 535 a–b; Kennedy chama de ecthlipsis a elisão com -m). O português faz algo parecido quando canta "de amor" como "d'amor". Em multum ille et (Eneida 1.3), as cinco sílabas escritas (mul-tum-il-le-et) reduzem-se a três na leitura métrica, mul-til-let, porque -um e -e desaparecem. A falta de elisão onde ela seria esperada chama-se hiato; é rara e costuma ocorrer junto a interjeições como ō (Bennett § 366.7a).
A sinizese (ou sinérese) faz o contrário dentro de uma palavra: duas vogais vizinhas se fundem numa sílaba longa. Deinde se lê em duas sílabas, dein-de; deesse também, dēs-se (Bennett § 367.1; Ravizza n. 535 c). Essas licenças não são arbitrárias: em geral refletem pronúncias correntes que a escrita não mostrava.
O hexâmetro datílico é o verso da epopeia: Ênio, Lucrécio, Vergílio e as Metamorfoses de Ovídio são escritos nele. Tem seis pés. Os quatro primeiros podem ser dáctilos ou espondeus; o quinto é quase sempre dáctilo; o sexto tem duas sílabas, a última indiferente (Bennett § 368.1; Kennedy § 477; Ravizza n. 536 a):
Esquema do hexâmetro
Pé
Forma
Observação
1º a 4º
– ˘ ˘ ou – –
dáctilo ou espondeu, à escolha do poeta
5º
– ˘ ˘
quase sempre dáctilo
6º
– ×
duas sílabas; a última, indiferente
A regra do quinto pé dá ao hexâmetro uma cadência final inconfundível, – ˘ ˘ | – ×, que você ouve em condere gentem ou prīmus ab ōrīs. Quando o quinto pé é espondeu, o verso se chama espondaico, e é raro (Bennett § 368.2).
No capítulo 7 você procurou no dicionário as palavras do primeiro verso da Eneida. Agora é possível ouvi-lo. O método tem quatro passos: (1) marque as longas por natureza que o texto e o dicionário dão; (2) aplique as regras de posição, inclusive entre palavras; (3) faça as elisões; (4) comece pelo fim, onde a cadência é fixa, e distribua o resto em dáctilos e espondeus.
Arma virumque canō, Trōiae quī prīmus ab ōrīs
Canto as armas e o herói que, primeiro, das costas de Troia… (Vergílio, Eneida 1.1)
Eneida 1.1 escandida (cesura depois de canō)
Pé
Texto
Sílabas
Esquema
Tipo
1
Arma vi-
ar · ma · vi
– ˘ ˘
dáctilo
2
-rumque ca-
rum · que · ca
– ˘ ˘
dáctilo
3
-nō ‖ Trō-
nō · Trō
– –
espondeu
4
-iae quī
iae · quī
– –
espondeu
5
prīmus ab
prī · mus · ab
– ˘ ˘
dáctilo
6
ōrīs
ō · rīs
– ×
espondeu/troqueu
Três detalhes merecem atenção. Ar é longa por posição (r + m), embora o a seja breve. Trōiae se pronuncia Trōi-iae: o i entre vogais é consoante e "dobra", de modo que a sílaba seguinte, iae, começa por consoante e tem ditongo, longa. E prīmus ab dá um dáctilo porque -s e -b passam para as vogais seguintes (prī-mu-sa-bō-rīs), deixando mu e sa abertas e breves.
Os seis pés de Eneida 1.1. A cesura cai depois de canō, no meio do terceiro pé.
A cesura
Quando uma palavra termina no meio de um pé, há uma cesura (Bennett § 366.8). Todo hexâmetro tem uma cesura principal, que funciona como respiração e quase sempre coincide com uma pausa de sentido. A mais comum fica depois da primeira sílaba do terceiro pé, e Bennett ilustra justamente com este verso: arma virumque canō ‖ Trōiae quī prīmus ab ōrīs (§ 368.3a). A primeira metade anuncia o tema; a segunda começa a narrativa. Quando a cesura cai depois da primeira sílaba do quarto pé, geralmente vem acompanhada de outra no segundo (§ 368.3b; Kennedy § 477). Um segundo verso, sem elisões, mostra o mesmo desenho:
Tantae mōlis erat Rōmānam condere gentem!
Tão grande esforço era fundar a nação romana! (Eneida 1.33; tantae mōlis, "de tão grande esforço", é um genitivo; condere, "fundar", é infinitivo)
Eneida 1.33 escandida (cesura depois de erat)
Pé
Texto
Sílabas
Esquema
Tipo
1
Tantae
tan · tae
– –
espondeu
2
mōlis e-
mō · lis · e
– ˘ ˘
dáctilo
3
-rat ‖ Rō-
rat · Rō
– –
espondeu
4
-mānam
mā · nam
– –
espondeu
5
condere
con · de · re
– ˘ ˘
dáctilo
6
gentem
gen · tem
– ×
espondeu
Este verso fecha o proêmio da Eneida, e o ritmo trabalha a favor do sentido: três espondeus em quatro pés tornam o verso lento e pesado, como o esforço que ele descreve. Não exagere esse tipo de leitura, mas também não a despreze: os poetas latinos escolhiam dáctilos e espondeus com intenção (Ravizza n. 536 a observa que muitos dáctilos exprimem rapidez).
O dístico elegíaco: um pentâmetro depois de cada hexâmetro ⚑
O pentâmetro nunca aparece sozinho: vem sempre depois de um hexâmetro, e o par forma o dístico elegíaco, o metro de Ovídio, Tibulo e Propércio, e também do epigrama (Bennett § 369.2; Kennedy § 478; Ravizza n. 536 b). O nome engana: o verso não tem cinco pés iguais. São duas metades de dois pés e meio, separadas por uma cesura fixa. Na primeira metade os pés podem ser dáctilos ou espondeus; na segunda, só dáctilos (Bennett § 369.1):
Esquema do pentâmetro
Metade
Esquema
1ª
– ˘ ˘ | – ˘ ˘ | – (os dois pés podem ser – –)
2ª
– ˘ ˘ | – ˘ ˘ | × (sempre dáctilos)
O efeito é de pergunta e resposta: o hexâmetro corre, e o pentâmetro, com duas paradas bruscas, fecha o pensamento. Ovídio, exilado no mar Negro, escreve a um amigo fiel:
Enquanto estiveres a salvo, contarás muitos amigos; se os tempos se fizerem nublados, estarás sozinho. (Ovídio, Tristia 1.9.5–6; texto da The Latin Library, que traz sospes; Kennedy § 478 cita o verso com fēlīx, a forma que se tornou proverbial)
Tristia 1.9.5: o hexâmetro do dístico
Pé
Texto
Sílabas
Esquema
Tipo
1
Dōnec e-
dō · nec · e
– ˘ ˘
dáctilo
2
-ris sos-
ris · sos
– –
espondeu
3
-pes ‖ mul-
pes · mul
– –
espondeu
4
-tōs nume-
tōs · nu · me
– ˘ ˘
dáctilo
5
-rābis a-
rā · bis · a
– ˘ ˘
dáctilo
6
-mīcōs
mī · cōs
– ×
espondeu
Tristia 1.9.6: o pentâmetro do dístico
Parte
Texto
Sílabas
Esquema
1ª metade, pé 1
tempora
tem · po · ra
– ˘ ˘
1ª metade, pé 2
sī fue-
sī · fu · e
– ˘ ˘
1ª metade, sílaba final
-rint ‖
rint
–
2ª metade, pé 1
nūbila
nū · bi · la
– ˘ ˘
2ª metade, pé 2
sōlus e-
sō · lus · e
– ˘ ˘
2ª metade, sílaba final
-ris
ris
×
No hexâmetro, ris e pes são longas por posição (-s + consoante), embora tenham vogal breve; a cesura cai depois de sospes. No pentâmetro, rint é longa por posição e fecha a primeira metade; a segunda metade corre em dois dáctilos até o eris final, que repete o eris do primeiro verso. A forma métrica sublinha o sentido: o dístico começa com "muitos amigos" e termina, depois da parada, com "sozinho".
Análise palavra a palavra
Duas formas verbais deste dístico pertencem a capítulos posteriores ao capítulo 8, o pré-requisito deste: eris é o futuro de sum (capítulo 12) e fuerint, o futuro perfeito (capítulo 13). Basta reconhecê-las pela tradução.
Ovídio, Tristia 1.9.5–6
Palavra
Dicionário
Análise
Função
Dōnec
dōnec (conjunção), enquanto
invariável
abre a oração de tempo
eris
sum, esse, ser, estar
futuro, 2ª pessoa do singular
verbo da oração de tempo: "estiveres"
sospes
sospes, -itis, são e salvo, próspero
nominativo singular (3ª declinação)
predicativo do sujeito "tu"
multōs
multus, -a, -um, muito
acusativo plural masculino
concorda com amīcōs
numerābis
numerō, -āre, contar
futuro, 2ª pessoa do singular
verbo principal: "contarás"
amīcōs
amīcus, -ī (m.), amigo
acusativo plural
objeto direto de numerābis
tempora
tempus, -oris (n.), tempo
nominativo plural neutro (capítulo 9)
sujeito de fuerint
sī
sī (conjunção), se
invariável
abre a oração condicional (capítulo 36)
fuerint
sum, esse
futuro perfeito, 3ª pessoa do plural
"tiverem sido", em português melhor "se fizerem"
nūbila
nūbilus, -a, -um, nublado, sombrio
nominativo plural neutro
predicativo de tempora
sōlus
sōlus, -a, -um, só, sozinho
nominativo singular masculino
predicativo do sujeito "tu"
eris
sum, esse
futuro, 2ª pessoa do singular
verbo principal: "estarás"
Repare que nenhuma das duas orações tem o sujeito "tu" expresso: ele está nas terminações -s de eris e numerābis, como você aprendeu no capítulo 8. E tempora, neutro plural, poderia ser acusativo; decide por exclusão a concordância com fuerint, plural, que precisa de um sujeito.
Lírica e hinos: o sáfico, o asclepiadeu e o verso rítmico ⚑
Catulo e Horácio usaram dezenas de metros líricos, quase todos imitados dos poetas gregos. Você vai lê-los no capítulo 45; aqui basta aprender a reconhecer dois deles, que ao contrário do hexâmetro não admitem substituições livres: cada posição do verso tem quantidade fixa.
A estrofe sáfica
Leva o nome de Safo, a poeta grega de Lesbos. Tem quatro versos: três sáficos de onze sílabas e um verso curto final, o adônio (– ˘ ˘ – ×) (Kennedy § 482; Ravizza n. 540 a). Diferentemente de Safo, os poetas latinos fazem sempre longa a quarta sílaba do sáfico, como observa Kennedy, e Horácio segue a regra:
Integer vītae scelerisque pūrus
Íntegro de vida e puro de crime… (Horácio, Odes 1.22.1)
O verso sáfico (11 sílabas)
Segmento
Sílabas
Esquema
Integer
in · te · ger
– ˘ –
vītae
vī · tae
– –
scelerisque
sce · le · ris · que
˘ ˘ – ˘
pūrus
pū · rus
– ×
O esquema completo é – ˘ – – – ˘ ˘ – ˘ – ×. Note que ger é longa por posição (r + v da palavra seguinte) e ris também (s + qu).
O asclepiadeu menor
Tem doze sílabas, com uma cesura fixa no meio (Ravizza n. 538 e, que cita este mesmo verso). Horácio abre o primeiro livro das Odes com ele:
Maecēnās atavīs ēdite rēgibus
Mecenas, descendente de reis ancestrais… (Horácio, Odes 1.1.1)
O asclepiadeu menor (12 sílabas)
Segmento
Sílabas
Esquema
Maecēnās
mae · cē · nās
– – –
atavīs ‖
a · ta · vīs
˘ ˘ –
ēdite
ē · di · te
– ˘ ˘
rēgibus
rē · gi · bus
– ˘ ×
O esquema é – – – ˘ ˘ – ‖ – ˘ ˘ – ˘ ×: duas metades quase simétricas, cada uma com um "dáctilo" no centro.
Do metro ao ritmo: os hinos medievais
A Igreja antiga e medieval ainda compôs hinos em metros clássicos; Ravizza lista hexâmetros, dísticos, sáficos e asclepiadeus na hinologia (n. 541). Mas a pronúncia mudou: com o tempo, a diferença entre vogais longas e breves deixou de ser ouvida, e só o acento tônico continuou claro. Surgiu então um verso novo, o verso rítmico, que conta sílabas, alterna acentos e usa rima, como faria depois a poesia das línguas modernas, baseada no número de sílabas e na sucessão dos acentos (Ravizza, n. 541, último parágrafo). O exemplo mais famoso é o Diēs īrae:
Dies irae, dies illa solvet saeclum in favilla, teste David cum Sibylla.
Dia de ira, aquele dia dissolverá o mundo em cinzas, como atestam Davi e a Sibila. (Dies irae, estrofe 1; o texto vai sem macrons de propósito, porque aqui eles não contam)
Dois princípios de verso
Verso
Mede
Rima
Exemplo
Quantitativo (clássico)
durações: longas e breves em pés
não usa
Arma virumque canō…
Rítmico (medieval)
número de sílabas e posição dos acentos
usa
Dies irae, dies illa…
Cada verso do Diēs īrae tem oito sílabas, com acento nas ímpares: DÍ-es Í-rae, DÍ-es ÍL-la. Não há elisão (saeclum in conta três sílabas, sae-clum-in), e as três linhas rimam em -illa. Quem tentar escandi-lo em longas e breves vai se frustrar; quem ler pelo acento, como leria um poema em português, vai ouvi-lo na hora. O capítulo 52 lê este hino e o Pange lingua por inteiro.
Figuras de linguagem: as que você vai encontrar nos autores ⚑
Os romanos aprendiam retórica na escola, e quase todo autor latino escreve com consciência do efeito de cada frase. As figuras não são enfeites a serem catalogados: são escolhas de som, de ordem e de sentido que fazem o texto convencer ou comover. Para o leitor, reconhecê-las tem uma utilidade bem prática: muitas "dificuldades" de uma frase latina são figuras, e entendê-las resolve a dificuldade. A lista abaixo traz as mais frequentes, cada uma com um exemplo autêntico conferido na fonte (os macrons foram acrescentados).
Som e repetição
Aliteração: repetição do mesmo som, em geral no início de palavras vizinhas (Bennett § 375.3).
Ita sēnsim sine sēnsū aetās senēscit.
Assim, pouco a pouco, sem que se perceba, a idade envelhece. (Cícero, Sobre a velhice 38; o sibilar dos s imita o passar silencioso do tempo)
Anáfora: repetição da mesma palavra no início de membros sucessivos (A&G § 598.f; Ravizza n. 496.6).
Nihilne tē nocturnum praesidium Palātī, nihil urbis vigiliae, nihil timor populī, nihil concursus bonōrum omnium… mōvērunt?
Nada te abalaram a guarda noturna do Palatino, nada as sentinelas da cidade, nada o medo do povo, nada a reunião de todos os homens de bem…? (Cícero, Contra Catilina 1.1)
Tricolon: três membros paralelos, muitas vezes de tamanho crescente. É talvez a forma de frase mais típica da prosa de Cícero, e costuma vir junto com a anáfora (Bennett cita este exemplo, como anáfora, em § 350.11b).
plēnī omnēs sunt librī, plēnae sapientium vōcēs, plēna exemplōrum vetustās
cheios estão todos os livros, cheias as vozes dos sábios, cheia de exemplos a antiguidade (Cícero, Em defesa de Árquias 14)
Ligação: com conjunções demais ou de menos
Assíndeto: omissão das conjunções entre membros coordenados, para dar rapidez ou emoção (Bennett § 346; Ravizza n. 496.2–3). Polissíndeto: o contrário, a repetição da conjunção, que alonga e acumula (Ravizza n. 496.5).
Abiit, excessit, ēvāsit, ērūpit.
Foi-se, retirou-se, escapou, irrompeu para fora. (Cícero, Contra Catilina 2.1: quatro verbos sem "e", em gradação, para a fuga de Catilina)
Vēnī, vīdī, vīcī.
Vim, vi, venci. (Suetônio, César 37: o letreiro do triunfo de César sobre o Ponto; assíndeto, tricolon e aliteração juntos)
…e a casa, e o lar, e as armas, e o cão de Amiclas, e a aljava cretense (Vergílio, Geórgicas 3.344–345: o pastor africano leva tudo consigo; os cinco -que fazem sentir o peso da bagagem)
Zeugma: um só verbo serve a dois membros e fica subentendido num deles. No sentido estrito de Bennett (§ 374.2a) e do glossário de A&G, o verbo convém propriamente a um só dos membros; no sentido mais amplo de Ravizza (n. 496, observação), basta que a palavra seja subentendida no segundo membro, ainda que com outra forma.
obsequium amīcōs, vēritās odium parit
a complacência gera amigos, a franqueza [gera] ódio (Terêncio, Ândria 68: parit, "gera", serve aos dois membros; zeugma no sentido amplo de Ravizza)
pācem an bellum gerēns
"estando em paz ou em guerra", literalmente "conduzindo a paz ou a guerra" (Salústio, Guerra de Jugurta 46.8, citado por Lewis & Short s.v. gerō: gerere convém propriamente a bellum, e só por extensão a pācem; zeugma no sentido estrito)
Ordem das palavras
Quiasmo: dois pares de palavras em ordem inversa, A B | B A, desenhando um X (a letra grega chi) (Bennett § 350.11c; A&G § 598.f; Ravizza n. 496.20, que cita este exemplo).
…sīc fragilecorpusanimussempiternus movet.
…assim o espírito eterno move o corpo frágil. (Cícero, Sonho de Cipião = Da república 6.26: adjetivo–nome | nome–adjetivo, e os opostos "frágil" e "eterno" nas pontas)
Hipérbato: separação de palavras que normalmente andam juntas, como um adjetivo e o seu nome (Bennett § 350.11a). Na poesia ele é constante, muitas vezes na forma entrelaçada (sínquise), em que os pares se cruzam: a b A B (Bennett § 350.11d; A&G § 598.h).
saevae memorem Iūnōnis ob īram
por causa da ira rancorosa da cruel Juno (Vergílio, Eneida 1.4: saevae concorda com Iūnōnis, memorem com īram; a ordem entrelaçada prende o verso inteiro até a última palavra)
Hipérbato não é qualquer ordem livre. O latim já põe as palavras em muitas ordens possíveis (capítulo 2). Fale de hipérbato quando a separação é marcada: quando você precisa de um par de terminações para reunir duas palavras distantes, como saevae … Iūnōnis.
Sentido
Lítotes: afirmar algo negando o contrário, quase sempre para dizer mais, com discrição (Bennett § 375.1).
Nōn ignāra malī miserīs succurrere discō.
Não ignorante do sofrimento, aprendo a socorrer os infelizes. (Vergílio, Eneida 1.630: Dido quer dizer que conhece o sofrimento muito bem)
Metonímia: usar o nome de uma coisa por outra ligada a ela (o instrumento pela atividade, o símbolo pela instituição). Sinédoque: usar a parte pelo todo, ou o todo pela parte (Glossário de A&G).
cēdant arma togae, concēdat laurea laudī
cedam as armas à toga, ceda o louro ao louvor (verso de Cícero citado por ele mesmo em Dos deveres 1.77: arma é a guerra, toga a vida civil, laurea o triunfo militar: metonímias)
Pānem nostrum quotīdiānum dā nōbīs hodiē.
O pão nosso de cada dia dá-nos hoje. (Lc 11,3, Vulgata: o "pão" é todo o sustento, sinédoque)
Hendíadis ("um por meio de dois"): dois nomes ligados por "e" exprimem uma só ideia, em que um deles qualifica o outro (Bennett § 374.4).
…quālem paterīs lībāmus et aurō
…[um vinho] tal como o que libamos em páteras e ouro, isto é, em páteras de ouro (Vergílio, Geórgicas 2.192)
Resumo das figuras
Figura
Em uma frase
aliteração
mesmo som repetido em palavras vizinhas
anáfora
mesma palavra no início de membros sucessivos
tricolon
três membros paralelos, em geral crescentes
assíndeto / polissíndeto
conjunções omitidas / repetidas
zeugma
um verbo serve a dois membros
quiasmo
pares em ordem inversa: A B | B A
hipérbato
palavras que andam juntas aparecem separadas
lítotes
afirmar negando o contrário
metonímia / sinédoque
coisa por coisa ligada / parte pelo todo
hendíadis
dois nomes coordenados por uma ideia só
Quando encontrar uma figura, faça sempre duas perguntas: qual é e o que ela faz ali. "Há uma anáfora" é só metade da resposta; "a anáfora de nihil martela a ideia de que nada intimida Catilina" é a leitura inteira.
Erro: Achar que, na sílaba longa por posição, a vogal também fica longa, e pronunciar ēst ou tērra.
Por quê, e como evitar: O que é longo é a sílaba, não a vogal: em est e terra o e continua breve e se pronuncia breve; a duração extra vem da consoante que fecha a sílaba (A&G § 11.b). Por isso os textos com macrons não marcam o e de est.
Erro: Contar as sílabas elididas ao escandir.
Por quê, e como evitar: Vogal, ditongo ou -m final antes de vogal ou h desaparece na leitura métrica (Bennett § 366.7). Antes de dividir o verso em pés, risque as elisões: em multum ille et, o -um e o -e não contam. Se o seu verso tiver sílabas demais, procure primeiro uma elisão esquecida.
Erro: Escandir pelo acento tônico, como num verso português.
Por quê, e como evitar: O acento da palavra e a quantidade da sílaba são coisas diferentes: canō tem acento em ca, que é breve, e a sílaba longa é nō. Escanda pelas durações; o acento tônico só serve para ler as palavras naturalmente.
Erro: Tratar a muda + líquida sempre do mesmo jeito.
Por quê, e como evitar: Em patrem, tenebrae, agrī, a sílaba antes de tr, br, gr é comum: o poeta a usa como breve ou como longa, conforme o verso pede (A&G § 11.c). Deixe essas sílabas por último e decida-as pelo esquema do verso.
Erro: Procurar longas e breves num hino medieval rítmico (ou contar só sílabas num verso de Vergílio).
Por quê, e como evitar: São dois sistemas. O Diēs īrae mede número de sílabas e acentos e usa rima; a Eneida mede durações e não rima. Antes de ler um poema, pergunte de que época e de que tipo ele é.
Erro: Chamar de figura qualquer coisa estranha, sem dizer o efeito; ou ver hipérbato em toda ordem livre.
Por quê, e como evitar: A ordem latina é naturalmente flexível (capítulo 2). Identifique a figura com o critério da definição (há mesmo três membros paralelos? há mesmo inversão A B | B A?) e diga o que ela faz no texto: rapidez, ênfase, contraste, solenidade.
Resolvida passo a passo: leia a pergunta, tente responder e só então abra cada passo.
Prática guiada 1 · Escandir um verso com elisões
Escanda lītora, multum ille et terrīs iactātus et altō (Vergílio, Eneida 1.3: "[às] costas, muito ele, atirado por terras e por mar"). Use os quatro passos da seção 3.
Passo 1: quais sílabas são longas por natureza?Ver o passo
As que têm vogal longa marcada: lī, rīs (de terrīs, ablativo plural), tā (de iactātus) e tō (de altō).
Passo 2: quais são longas por posição?Ver o passo
mul (l + t), il (ll), et antes de terrīs (t + t, entre palavras), ter (rr), iac (c + t) e al (l + t).
Passo 3: onde há elisão?Ver o passo
Duas vezes: multum antes de ille perde o -um, e ille antes de et perde o -e. Lê-se mul-til-let-ter-rīs. Também tātus et altō se emenda: tā-tu-se-tal-tō, e tu e se ficam breves, porque as consoantes passam para as vogais seguintes.
Passo 4: comece pelo fim. Quais são o 5º e o 6º pés?Ver o passo
6º: altō (al-tō, – ×). 5º: tātus et (tā-tu-se, – ˘ ˘), o dáctilo obrigatório.
Distribua o resto em quatro pés.Ver o passo
1º lītora (– ˘ ˘, dáctilo); 2º mult(um) il- (mul-til, – –, espondeu); 3º -l(e) et ter- (let-ter, – –, espondeu); 4º -rīs iac- (– –, espondeu). Seis pés: D E E E D E (D = dáctilo, E = espondeu).
Conferência: se você não tivesse feito as elisões, sobrariam duas sílabas e os pés não fechariam. É o sinal mais seguro de que uma elisão foi esquecida.
Prática guiada 2 · Reconhecer figuras num período de Cícero
Leia Sed plēnī omnēs sunt librī, plēnae sapientium vōcēs, plēna exemplōrum vetustās. (Cícero, Em defesa de Árquias 14). Vocabulário: plēnus, -a, -um, cheio; sapiēns, -entis, sábio; vōx, vōcis (f.), voz; exemplum, -ī, exemplo; vetustās, -ātis (f.), antiguidade.
Quantos membros paralelos há, e como você sabe?Ver o passo
Três: cada um tem a forma "cheio + nome". Plēnī … librī, plēnae … vōcēs, plēna … vetustās. É um tricolon.
Que palavra se repete, e onde?Ver o passo
O adjetivo plēnus, sempre no início de cada membro: anáfora. Ele muda de forma para concordar com cada nome (plēnī masc. pl., plēnae fem. pl., plēna fem. sing.), o que confirma a que nome cada um pertence.
Há conjunções entre os membros? E o verbo?Ver o passo
Não há "e": assíndeto. E o verbo sunt aparece só no primeiro membro e fica subentendido nos outros dois (no terceiro, no singular: est): é o tipo de omissão que Ravizza chama de zeugma no sentido amplo.
Que efeito o conjunto produz?Ver o passo
A acumulação sem conjunções e a repetição de plēnus dão a impressão de uma evidência esmagadora: tudo, livros, sábios e história, está cheio de exemplos de virtude. É o argumento de Cícero a favor das letras.
Faça por escrito ou em voz alta; abra "Ver resposta" só depois de tentar. A explicação da resposta faz parte da lição.
Exercício 1 · Longa, breve ou comum?
Diga a quantidade da sílaba destacada e a regra aplicada.
RōmānusVer resposta
Longa por natureza: vogal longa ā.
poenaVer resposta
Longa por natureza: ditongo oe.
magisterVer resposta
Longa por posição: i breve seguido de s + t.
viaVer resposta
Breve: vogal seguida imediatamente de outra vogal.
agrīVer resposta
Comum: a breve seguido de muda + líquida (gr); breve na prosa, longa ou breve no verso.
et terrīs (num verso)Ver resposta
Longa por posição: o t de et e o t de terrīs somam duas consoantes, mesmo em palavras diferentes (Bennett § 362.3).
prīmus ab (num verso)Ver resposta
Breve: o -s passa para a vogal de ab (prī-mu-sab), e a sílaba mu fica aberta com vogal breve.
Exercício 2 · Elisões
Marque as elisões e diga quantas sílabas cada trecho tem na leitura métrica. Todos os versos são da Eneida, livro 1.
multa quoque et bellō passus (v. 5: "tendo sofrido muito também na guerra")Ver resposta
Uma elisão: quoqu(e) et. Sílabas: mul-ta-quo-quet-bel-lō-pas-sus, oito.
Albānīque patrēs, atque altae moenia Rōmae (v. 7: "e os pais albanos, e as muralhas da alta Roma")Ver resposta
Uma elisão: atqu(e) altae. São 15 sílabas escritas (Al-bā-nī-que-pa-trēs-at-que-al-tae-moe-ni-a-Rō-mae) e 14 na leitura métrica, porque o -que de atque cai: …at-qual-tae….
impulerit. Tantaene animīs caelestibus īrae? (v. 11: "…[a] impeliu. Tão grandes iras há nos espíritos celestes?")Ver resposta
Uma elisão: Tantaen(e) animīs. A pausa de sentido depois de impulerit não impede a elisão seguinte, que se dá entre Tantaene e animīs.
Arma virumque canō, Trōiae quī prīmus ab ōrīs (v. 1)Ver resposta
Nenhuma elisão: nenhuma palavra terminada em vogal ou -m vem antes de vogal. (Canō, Trōiae: Trōiae começa por consoante.)
Exercício 3 · Escanda hexâmetros
Divida em seis pés, diga o tipo de cada um (D = dáctilo, E = espondeu) e localize a cesura principal.
Mūsa, mihī causās memorā, quō nūmine laesō (Eneida 1.8: "Musa, recorda-me as causas, por qual divindade ofendida…")Ver resposta
Mūsa mi- | -hī cau- | -sās ‖ memo- | -rā quō | nūmine | laesō: D E D E D E. Cesura depois de causās, primeira sílaba do 3º pé. Sa e mi são breves; mihī aqui tem o ī final longo (Bennett § 363.3 admite as duas quantidades).
multa quoque et bellō passus, dum conderet urbem (Eneida 1.5)Ver resposta
multa quo- | -qu(e) et bel- | -lō ‖ pas- | -sus dum | conderet | urbem: D E E E D E. Ta e quo são breves (qu vale uma consoante); quet é longa por posição (t + b). Cesura principal depois de bellō (3º pé); há outra depois de passus (4º pé). No fim, conderet urbem se lê con-de-re-tur-bem: o -t passa para urbem, re fica breve e o 5º pé é o dáctilo con-de-re.
Dētur inoffēnsō vītae tibi tangere mētam (Ovídio, Tristia 1.9.1: "Que te seja dado tocar sem tropeço a meta da vida")Ver resposta
Dētur i- | -noffēn- | -sō ‖ vī- | -tae tibi | tangere | mētam: D E E D D E. Tu e ri são breves (dē-tu-ri-nof); nof é longa por posição (ff). Cesura depois de inoffēnsō.
Exercício 4 · O pentâmetro
Escanda o pentâmetro que completa o dístico do exercício anterior e responda.
quī legis hōc nōbīs nōn inimīcus opus (Tristia 1.9.2: "tu que lês, sem hostilidade, esta obra minha")Ver resposta
1ª metade: quī legi- | -s hōc nō- | -bīs ‖ = – ˘ ˘ | – – | –. 2ª metade: nōn ini- | -mīcus o- | -pus = – ˘ ˘ | – ˘ ˘ | ×. O h de hōc não conta como consoante, por isso gis fica breve (le-gi-shōc).
Por que a segunda metade do pentâmetro é mais previsível que a primeira?Ver resposta
Porque nela os dois pés são sempre dáctilos (Bennett § 369.1); na primeira, cada pé pode ser dáctilo ou espondeu.
Em que lugar do pentâmetro há sempre fim de palavra?Ver resposta
No meio, depois da sílaba longa que fecha a primeira metade: em nōbīs ‖ e em fuerint ‖ (Bennett § 369.1).
Exercício 5 · Que figura é esta?
Identifique a figura principal e diga o efeito. Todos os exemplos estão na seção 6.
Abiit, excessit, ēvāsit, ērūpit.Ver resposta
Assíndeto (e gradação): os verbos se seguem sem conjunção, cada vez mais fortes, e a frase imita a pressa da fuga.
Nōn ignāra malīVer resposta
Lítotes: "não ignorante" quer dizer "bem conhecedora". A negação torna a afirmação discreta e, por isso mesmo, mais forte.
cēdant arma togaeVer resposta
Metonímia: as armas representam a guerra e a toga, a vida civil. O verso diz que a política deve prevalecer sobre a força militar.
paterīs lībāmus et aurōVer resposta
Hendíadis: "páteras e ouro" = páteras de ouro. Os dois nomes coordenados exprimem uma ideia só.
fragile corpus animus sempiternusVer resposta
Quiasmo: adjetivo + nome, nome + adjetivo. As pontas opõem "frágil" a "eterno", e o centro aproxima "corpo" e "espírito".
Vēnī, vīdī, vīcī.Ver resposta
Três figuras juntas: tricolon (três membros), assíndeto (sem "e") e aliteração (v-). O efeito é de rapidez e de vitória sem esforço.
obsequium amīcōs, vēritās odium paritVer resposta
Zeugma (no sentido amplo): parit serve aos dois membros. A frase fica curta como um provérbio, e o paralelismo destaca a oposição amīcōs / odium.
Exercício 6 · Lírica e hino
Responda com base na seção 5.
Quantas sílabas tem Integer vītae scelerisque pūrus, e qual é a quantidade da 4ª?Ver resposta
Onze: in-te-ger-vī-tae-sce-le-ris-que-pū-rus. A 4ª, vī, é longa, como Horácio sempre a faz no sáfico.
Em Maecēnās atavīs ēdite rēgibus, onde fica a cesura e por que ela é fácil de achar?Ver resposta
Depois de atavīs, a 6ª sílaba. No asclepiadeu menor ela é fixa, e coincide com o fim de palavra e com o meio do verso.
Por que solvet saeclum in favilla tem oito sílabas, e não sete?Ver resposta
Porque o verso rítmico medieval não faz elisão: -clum in conta duas sílabas (sol-vet-sae-clum-in-fa-vil-la). Num hexâmetro clássico, saecl(um) in se leria sae-clin, e -clum in se fundiria numa só sílaba.
Que três traços do Diēs īrae mostram que ele não é um verso quantitativo?Ver resposta
O número fixo de sílabas (oito), a alternância regular de sílabas tônicas e átonas e a rima (illa / favilla / Sibylla).
Leituras recomendadas
Para treinar o hexâmetro, escanda em voz alta os primeiros versos das Eneida (seleções), sempre com um texto com macrons; dez versos por dia bastam para que o ouvido aprenda a cadência. Os Amores de Ovídio dão prática do dístico elegíaco; as Odes de Horácio e Catulo trazem o sáfico e o asclepiadeu, que você lerá no capítulo 45. Para as figuras, leia o primeiro parágrafo da Primeira Catilinária, que concentra anáfora, tricolon e perguntas retóricas. O Dies irae é o modelo do verso rítmico (capítulo 52).
Etapa V · Auctores RomaniDificuldade 4 · AvançadoOriginal ÁudioCom notas
Aeneis (seleções)
Publius Vergilius Maro
Mais de 1.600 versos da Eneida (livro I; a queda de Troia no II; Dido no IV; a descida aos infernos no VI), com macrons, vocabulário corrente, notas e áudio. A seleção tradicional para quem lê Virgílio pela primeira vez.
Poesia épica · Clássico · alguns meses · Dickinson College Commentaries
Etapa V · Auctores RomaniDificuldade 4 · AvançadoOriginal ÁudioCom notasTexto na biblioteca
Amores, liber I
Publius Ovidius Naso
O livro I dos Amores completo (15 elegias), com vocabulário por poema, notas, ensaios e gravações em áudio. A poesia latina mais acessível para começar: frases claras, humor e dísticos regulares. Edição impressa e PDF gratuitos na Open Book Publishers.
Poesia elegíaca · Clássico · algumas semanas · Dickinson College Commentaries
Ler aqui: texto latino da edição de Rudolf Ehwald (1907)
Etapa V · Auctores RomaniDificuldade 5 · SuperiorOriginalTexto na biblioteca
Carmina et Epodi (Odes e Epodos)
Quintus Horatius Flaccus
As Odes (quatro livros), o Carmen Saeculare e os Epodos, texto latino sem notas. A ordem das palavras de Horácio é a mais difícil da poesia latina; leia com um comentário ou tradução ao lado.
Poesia lírica · Clássico · alguns meses · Project Gutenberg
Ler aqui: texto latino da edição de Paul Shorey e Gordon J. Laing (1919); Friedrich Vollmer (1912)
Etapa V · Auctores RomaniDificuldade 4 · AvançadoOriginal ÁudioTexto na biblioteca
Catulli Carmina
Gaius Valerius Catullus
Os poemas de Catulo na edição crítica de Oxford (Ellis, 1904), em latim, com aparato. Poemas curtos, diretos e emocionais ("Odi et amo", "Vivamus, mea Lesbia"); os metros variados pedem um pouco de estudo. Os poemas 3, 5 e 8 têm gravação no LibriVox.
Poesia lírica · Clássico · algumas semanas · Project Gutenberg
Ler aqui: texto latino da edição de Elmer Truesdell Merrill (1893)
Etapa V · Auctores RomaniDificuldade 4 · AvançadoOriginalCom notasTexto na biblioteca
In Catilinam I–IV
Marcus Tullius Cicero
As quatro Catilinárias completas (edição Clark, 1908), o discurso mais lido de Cícero ("Quo usque tandem abutere, Catilina, patientia nostra?"). Sem notas; cada palavra abre a análise morfológica e o dicionário. EPUB (edição diferente) no Project Gutenberg.
Oratória · Clássico · algumas semanas · Perseus Digital Library
Ler aqui: texto latino da edição de Albert Curtis Clark (1908)
Etapa VI · Latinitas ChristianaDificuldade 3 · IntermediárioOriginal
Dies irae
Atribuído a Thomas de Celano
A sequência do Juízo Final (séc. XIII), em tercetos rimados de oito sílabas: "Dies irae, dies illa". Vocabulário concentrado e memorável. Texto transcrito de uma antologia de 1902. Sem notas.
Hino · Medieval · alguns minutos · Vicifons (Latin Wikisource)
Bibliotheca Latina. Conteúdo original com trechos de obras em domínio público; licença CC BY 4.0.
Fontes consultadas
New Latin Grammar, Charles E. Bennett (no catálogo) · domínio público · § 5 (quantidade de vogais e sílabas); § 360–361 (prosódia; verso baseado na quantidade, não no acento); § 362.1 e 362.3 (vogal antes de vogal; duas consoantes, mesmo na palavra seguinte); § 362.5 (vogal antes de j); §§ 363–364 (quantidade das sílabas finais); § 366.1–2 (mora; pés de três e de quatro tempos), 366.5 (ictus), 366.7 (elisão; 7a, hiato), 366.8 (cesura e diérese), 366.10 (sílaba final anceps); § 367.1 (sinizese); § 368 (hexâmetro: esquema, verso espondaico, cesuras; 368.3a escande Arma virumque canō); § 369 (pentâmetro e dístico elegíaco); § 346 (assíndeto); § 350.11 (hipérbato, anáfora, quiasmo, sínquise); § 374.2a (zeugma) e 374.4 (hendíadis); § 375.1 (lítotes) e 375.3 (aliteração, com sēnsim sine sēnsū aetās senēscit)
Allen and Greenough's New Latin Grammar, J. H. Allen e J. B. Greenough (no catálogo) · domínio público · §§ 9–11 (quantidade da vogal e da sílaba; 11.b posição; 11.c muda + l/r, sílaba "comum" no verso; notas 2–3: consoante final e h); § 603 (regras gerais de quantidade); § 598.f (anáfora e quiasmo), 598.h (ordem entrelaçada, sínquise); Glossário da edição DCC (figuras gramaticais e retóricas: aliteração, anáfora, assíndeto, polissíndeto, hendíadis, hipérbato, lítotes, metonímia, sinédoque, zeugma). A edição DCC não inclui a parte de versificação da obra impressa.
Kennedy's Revised Latin Primer, Benjamin Hall Kennedy (no catálogo) · domínio público · § 471 (regras gerais de quantidade; muda + líquida "duvidosa"), § 474 ("On the laws of metre": pés; elisão e ecthlipsis; hiato), §§ 475–476 (metro, ritmo, escansão e cesura), § 477 (hexâmetro), § 478 (pentâmetro e dístico elegíaco), §§ 481–482 (metros estróficos; estrofe sáfica). Números lidos no OCR e conferidos no índice do próprio livro (§§ 474 e 482).
Gramática Latina, Pe. João Ravizza (no catálogo) · domínio público · n. 496 (sintaxe figurada: assíndeto, zeugma, polissíndeto, anáfora, hipérbato, quiasmo); n. 522–523 (quantidade; muda + l/r no verso); n. 532 (métrica: verso quantitativo); n. 535 (licenças poéticas: elisão, sinalefa, sinérese); n. 536 (hexâmetro, pentâmetro, dístico); nn. 538–540 (composições: asclepiadeus, sáficos e adônio); n. 541 (metros clássicos na hinologia e passagem para a poesia acentual e rimada). Números lidos no OCR.
Vergílio, Aeneis I (vv. 1–11, 33, 630) (no catálogo) · domínio público · versos escandidos nas seções 3 e 4, na prática guiada e nos exercícios; texto conferido em The Latin Library (com macrons nos vv. 1–33)
Ovídio, Tristia 1.9.1–2 e 5–6 · domínio público · dístico analisado na seção 4; The Latin Library grafa sospes no v. 5 (Kennedy cita o verso com felix)
Terêncio, Andria 68 · domínio público · exemplo de zeugma no sentido amplo (Ravizza n. 496)
Vergílio, Georgica 2.192 e 3.344–345 · domínio público · hendíadis (paterīs et aurō) e polissíndeto (tēctumque laremque…); páginas geo2 e geo3 de The Latin Library