O que é o período latino e por que ele suspende o sentido até o fim; um método em cinco passos para ler uma frase longa (achar o verbo principal, abrir e fechar colchetes pelas palavras introdutórias e pelos verbos, medir o encaixe, separar as camadas de particípios e ablativos absolutos, reler da esquerda para a direita prevendo o que vem); três períodos autênticos (César, Cícero, Lívio) desmontados em camadas; e a ponte para a leitura dos autores na Parte IV.
Neste capítulo você vai
Explicar o que é um período latino e por que a flexão permite suspender o sentido até a última palavra.
Achar o verbo principal de uma frase longa e delimitar cada oração subordinada pela palavra que a introduz e pelo verbo que a fecha.
Representar um período em camadas (níveis de encaixe), distinguindo orações, particípios, ablativos absolutos e infinitivos.
Ler da esquerda para a direita formulando expectativas (verbo no fim, correlativos, sujeito comum, ordem típica das subordinadas) e corrigi-las à medida que o texto avança.
Analisar e traduzir períodos autênticos de César, Cícero e Lívio, preservando a hierarquia das ideias.
períodosubordinação e coordenaçãoestilo periódicoverbo principalpalavras introdutóriascolchetes e níveis de encaixeparticípio conjunto e ablativo absoluto como camadasordem das palavrassujeito comum antes das subordinadascorrelativosleitura da esquerda para a direitaprevisãoCésar, Guerra da Gália 1.13.2Cícero, Em defesa de Árquias 1Lívio 1.6.4ponte para a Parte IVanálise de frase autêntica
Antes deste capítulo: Capítulo 30 (o ablativo absoluto) e capítulo 38 (o discurso indireto). Na prática, este capítulo usa todo o percurso da sintaxe: o relativo (capítulo 16), os particípios (capítulo 29), o gerúndio e o gerundivo (capítulo 31), as orações com ut, nē e cum (capítulos 33 e 34), a interrogativa indireta (capítulo 35), as condicionais (capítulo 36) e as causais, concessivas e comparativas (capítulo 37). · capítulo 16 · capítulo 29 · capítulo 30 · capítulo 31 · capítulo 33 · capítulo 34 · capítulo 35 · capítulo 36 · capítulo 37 · capítulo 38
Uma frase como Mīles flūmen trānsit se lê de uma vez. Mas, a partir de agora, a maior parte do latim que você vai ler é feita de frases de três, quatro, às vezes dez linhas, em que uma ideia principal vem cercada de circunstâncias: quando, por quê, apesar de quê, com que fim, segundo quem. A gramática chama essa construção de período. Ravizza (n. 414) explica o nome: a palavra grega significa "circuito", porque as orações não se dispõem em linha reta, mas a primeira como que reentra circularmente na última. Em sentido estrito, diz Bennett (§ 351.5), período é a frase em que as orações subordinadas se encaixam dentro da principal, de modo que o sentido fica suspenso até o fim.
O latim pode fazer isso porque marca as relações entre as palavras pela flexão, e não pela posição (Allen e Greenough § 600). Um sujeito no nominativo pode esperar trinta palavras pelo seu verbo sem que o leitor se perca, desde que saiba que está esperando. O português, ao contrário, tende a coordenar: põe as ideias em fila, como orações independentes ligadas por "e", "então", "mas". O latim tende a subordinar: escolhe uma ideia principal e pendura as outras nela (Ravizza n. 415). Compare a mesma sequência de fatos nas duas línguas:
Os embaixadores chegaram ao acampamento. Viram o general. Pediram a paz, porque temiam o exército romano.
Português: três orações principais em fila, a última com uma causal.
Lēgātī, cum in castra vēnissent ducemque vīdissent, quod exercitum Rōmānum timēbant, pācem petīvērunt.
Latim: uma única principal (Lēgātī … pācem petīvērunt), com as outras ideias encaixadas: duas orações com cum e uma causal.
Lēgātī in castra ductī, exercitū Rōmānō perterritī, pācem ā duce petīvērunt.
Latim mais compacto: as circunstâncias viram particípios (ductī, perterritī), sem nenhuma oração subordinada.
As três frases contam a mesma coisa, mas a latina organiza a informação em hierarquia: o fato que importa (pediram a paz) está na principal; o resto é moldura. Allen e Greenough (§ 601.d) chamam a atenção para isto: onde o português mudaria de sujeito a cada frase, o latim prefere manter um só sujeito e fundir o que é menos importante em particípios e subordinadas. Ler um período, portanto, é reconstruir essa hierarquia: achar a ideia principal e saber de que cada pedaço depende.
Diante de uma frase longa, a tentação é traduzir palavra por palavra na ordem e ir colando os pedaços. Isso funciona nas frases simples e falha nos períodos, porque o primeiro verbo que aparece raramente é o principal. O método abaixo transforma a leitura num trabalho de marcação. No começo, faça-o por escrito, com lápis; com a prática, ele passa a acontecer na cabeça, durante a leitura.
Ache o verbo principal. Procure os verbos finitos (as formas pessoais) e elimine os que vêm depois de uma palavra subordinante. O que sobrar, num tempo do indicativo, no imperativo ou num subjuntivo independente (capítulo 32), é o verbo principal; em César e Lívio, ele costuma estar no fim. Se o verbo principal for um verbo de dizer, a principal pode continuar em infinitivos (capítulo 38).
Abra e feche colchetes. Cada palavra introdutória (cum, ut, nē, sī, quod, quia, postquam, ubi, dum, etsī, quamquam, um relativo, um interrogativo) abre uma oração; o verbo dessa oração, em geral, a fecha. Marque com [ ] cada oração, do começo ao seu verbo.
Meça o encaixe. Se um colchete abre antes de outro fechar, a segunda oração está dentro da primeira. Numere os níveis: 0 para a principal, 1 para o que depende dela, 2 para o que depende de uma subordinada, e assim por diante.
Separe as camadas que não são orações. Particípios conjuntos (capítulo 29), ablativos absolutos (capítulo 30), gerúndios e gerundivos (capítulo 31) e orações infinitivas (capítulo 28) não têm conjunção, mas são circunstâncias ou complementos tão importantes quanto as orações. Ligue cada particípio ao nome com que concorda; trate o ablativo absoluto como uma oração reduzida.
Releia da esquerda para a direita. Com o mapa feito, leia de novo na ordem latina, bloco por bloco, traduzindo cada bloco no lugar em que está. Só no fim reorganize o português.
O passo 2 depende de reconhecer as palavras que abrem orações e o modo que elas costumam pedir. A tabela reúne as que você já estudou:
Palavras que abrem orações
Palavra introdutória
Valor
Modo habitual
Capítulo
quī, quae, quod; ubi, unde, quō (relativos)
relativa
indicativo; subjuntivo se for final, consecutiva, causal ou de discurso indireto
16, 33, 37, 38
ut / nē
final, consecutiva, completiva
subjuntivo
33
ut, ubi (= "quando", "assim que"), postquam, simul ac
indicativo; subjuntivo se a causa é alegada por outro
37
etsī, quamquam; quamvīs
concessiva
indicativo; quamvīs com subjuntivo
37
dum, dōnec, quoad
temporal ("enquanto", "até que")
indicativo; subjuntivo se houver ideia de intenção
veja a nota abaixo; dum "contanto que": 36
As conjunções puramente temporais (postquam, "depois que"; ubi e ut, "quando", "assim que"; simul ac, "logo que"; dum, "enquanto"; dōnec e quoad, "até que") levam em regra o indicativo e se traduzem como as conjunções portuguesas correspondentes; para a marcação dos colchetes, funcionam como qualquer outra palavra introdutória. Só quando exprimem intenção ou expectativa ("até que aconteça", "esperando que") passam ao subjuntivo, como você viu no capítulo 34 (seção "Outras orações temporais").
Duas armadilhas na marcação. Primeira: ut, cum, quod e ubi têm vários valores, e só o modo e o contexto decidem; marque o colchete primeiro e classifique depois. Segunda: o verbo que fecha uma oração pode estar subentendido, sobretudo est ou sunt, e a mesma conjunção pode governar dois verbos coordenados (cum … vēnissent … vīdissent). Um colchete só se fecha de vez quando aparece algo que não pode pertencer à oração aberta: um verbo de outra pessoa, uma nova conjunção no mesmo nível, ou o sujeito de outra oração.
Os romanos não liam marcando colchetes: ouviam a frase uma vez, na ordem, e entendiam. Eles faziam isso porque cada palavra criava expectativas que as palavras seguintes confirmavam. Um nominativo no começo anunciava um verbo no fim; um cum anunciava um verbo no subjuntivo e, depois dele, a volta à oração principal; um tam anunciava um ut. O leitor moderno pode aprender a fazer o mesmo. O método da seção 2 serve para os casos difíceis; o objetivo é ler cada vez mais com as expectativas, e cada vez menos com o lápis.
As gramáticas descrevem as tendências que alimentam essas expectativas. O sujeito tende a vir no começo e o predicado no fim, e o latim tem uma tendência especial a pôr o verbo em último lugar (Bennett § 348; Allen e Greenough § 596.a). Quando um termo é ao mesmo tempo sujeito (ou objeto) da principal e de uma subordinada, ele vem antes das duas (Bennett § 351.2): Haeduī cum sē dēfendere nōn possent, lēgātōs ad Caesarem mittunt. As subordinadas temporais, condicionais e concessivas costumam vir antes da principal; as finais, as consecutivas e as interrogativas indiretas, depois (Bennett § 351.3), na ordem natural das ideias: a causa antes do resultado, o fim e o modo antes do ato (Allen e Greenough § 601.b). E, quando há várias subordinadas, o latim as arranja de modo a evitar uma série de verbos seguidos (Bennett § 351.6), o que o leva a encaixá-las umas nas outras.
Sinais que anunciam o que vem a seguir
Quando você lê…
Espere…
Exemplo
um nominativo no início, sem verbo
o verbo principal no fim; tudo o que vier no meio é moldura
Helvētiī … lēgātōs ad eum mittunt
um nome no início seguido de cum, sī, ubi
o nome serve às duas orações; depois do verbo da subordinada, a principal continua com ele
Haeduī cum … nōn possent, lēgātōs … mittunt
etsī, quamquam, cum concessivo
tamen no começo da principal
Caesar etsī intellegēbat …, tamen … iussit
tam, ita, sīc, adeō, tantus, tālis
ut + subjuntivo (consecutiva)
ita īnstitūtōs esse utī … cōnsuērint
nōn modo, nōn sōlum
sed etiam, vērum etiam
nōn modo … sed nē … quidem
et … , aut … , vel … , nec … no início de um membro
um segundo membro paralelo, com a mesma construção
et veteris incommodī … et prīstinae virtūtis
eō, idcircō, proptereā
a explicação: quod, ut, quō
proptereā quod aliud iter habērent nūllum
um ablativo com particípio, solto (hīs rēbus cognitīs)
um ablativo absoluto; o sujeito da principal vem depois
Hōc proeliō factō, … pontem … faciendum cūrat
um verbo de dizer, saber, perceber
acusativo + infinitivo; depois, talvez, discurso indireto longo
certior factus est … Helvētiōs … trādūxisse
As expectativas também servem para corrigir erros. Se você leu Helvētiī como sujeito e chegou ao fim da frase sem um verbo de 3ª pessoa do plural que lhe sirva, alguma coisa está errada: talvez o verbo estivesse dentro de uma subordinada, talvez Helvētiī fosse genitivo. Ler prevendo é ler formulando hipóteses e testando-as a cada palavra, como você fez desde o capítulo 2 com as frases simples, agora em escala maior.
César conta que, depois de atravessar o Arar com o exército num único dia, os helvécios mandaram embaixadores. A frase tem vinte e cinco palavras, um particípio, uma oração com cum, uma oração infinitiva e, dentro dela, duas orações subordinadas:
Helvētiī repentīnō eius adventū commōtī cum id quod ipsī diēbus XX aegerrimē cōnfēcerant, ut flūmen trānsīrent, illum ūnō diē fēcisse intellegerent, lēgātōs ad eum mittunt.
Os helvécios, abalados com a chegada repentina dele, como percebessem que ele tinha feito num só dia aquilo que eles mesmos tinham realizado a muito custo em vinte dias, isto é, atravessar o rio, enviam-lhe embaixadores. (César, Guerra da Gália 1.13.2)
Aplique o método. Passo 1: os verbos finitos são cōnfēcerant, trānsīrent, intellegerent e mittunt. Os três primeiros vêm depois de palavras subordinantes (quod, ut, cum); sobra mittunt, presente histórico, no fim: é o verbo principal, e o seu sujeito é Helvētiī, a primeira palavra. Passos 2 e 3: cum abre uma oração que só fecha em intellegerent; dentro dela, quod abre e cōnfēcerant fecha uma relativa, e ut abre e trānsīrent fecha outra oração. Passo 4: commōtī é um particípio conjunto que concorda com Helvētiī, e illum … fēcisse é uma oração infinitiva, objeto de intellegerent. O resultado, em camadas:
César, Guerra da Gália 1.13.2, em camadas
Nível
Latim
O que é
Tradução
0
Helvētiī
sujeito da principal (e também de intellegerent: Bennett § 351.2)
Os helvécios
0
repentīnō eius adventū commōtī
particípio conjunto, com ablativo de causa
abalados com a chegada repentina dele
1
cum … intellegerent
oração com cum + subjuntivo (causal-circunstancial)
como percebessem
2
illum ūnō diē fēcisse id
oração infinitiva, objeto de intellegerent
que ele tinha feito num só dia aquilo
3
quod ipsī diēbus XX aegerrimē cōnfēcerant
relativa no indicativo, ligada a id
que eles mesmos tinham realizado a muito custo em vinte dias
3
ut flūmen trānsīrent
oração com ut que explica id (substantiva de resultado depois de cōnficiō: Allen e Greenough § 568)
isto é, atravessar o rio
0
lēgātōs ad eum mittunt
objeto, direção e verbo principal
enviam-lhe embaixadores
Dois detalhes mostram como a gramática ajuda a leitura. Primeiro, ipsī e illum se opõem: "eles mesmos" (os helvécios) levaram vinte dias, "ele" (César) fez em um. Segundo, cōnfēcerant está no indicativo, embora dentro de uma oração com cum no subjuntivo: é um fato que o próprio César afirma, e não parte do raciocínio dos helvécios, como as subordinadas no indicativo que você viu no capítulo 38 (Bennett § 314.3; Allen e Greenough § 583). Já trānsīrent está no subjuntivo porque ut o exige. Veja agora o esqueleto da frase, sem as camadas internas:
O esqueleto de César 1.13.2: o sujeito na primeira palavra, o verbo principal na última, e tudo o mais encaixado entre os dois.
verbo da oração infinitiva (anterior a intellegerent)
intellegerent
intellegō, -ere, -lēxī, -lēctum, perceber
imperfeito do subjuntivo, 3ª pl.
verbo da oração com cum
lēgātōs
lēgātus, -ī (m.), embaixador
acusativo plural
objeto de mittunt
ad eum
ad + acusativo de is
acusativo singular
direção: "a ele", César
mittunt
mittō, -ere, mīsī, missum, enviar
presente do indicativo ativo, 3ª pl. (presente histórico)
verbo principal
Um período de Cícero: três condições e uma conclusão ⚑
O discurso de Cícero em defesa do poeta Árquias (62 a.C.) começa com uma das frases mais citadas da oratória latina. É um período no sentido pleno: o sentido só se completa na última palavra, e o caminho até lá é feito de três membros paralelos, cada um com a sua oração subordinada encaixada.
Sī quid est in mē ingenī, iūdicēs, quod sentiō quam sit exiguum, aut sī qua exercitātiō dīcendī, in quā mē nōn īnfitior mediocriter esse versātum, aut sī huiusce reī ratiō aliqua ab optimārum artium studiīs ac disciplīnā profecta, ā quā ego nūllum cōnfiteor aetātis meae tempus abhorruisse, eārum rērum omnium vel in prīmīs hīc A. Licinius frūctum ā mē repetere prope suō iūre dēbet.
Se há em mim algum talento, juízes, e sinto quão pequeno ele é; ou alguma prática de discursar, na qual não nego ter-me exercitado razoavelmente; ou algum método nesta atividade, nascido do estudo e da disciplina das artes mais nobres, do qual confesso que nenhum período da minha vida se afastou: de todas essas coisas é este Aulo Licínio, talvez antes de qualquer outro, quem tem quase o direito de reclamar de mim o fruto. (Cícero, Em defesa de Árquias 1)
O passo 1 mostra a dificuldade e a lógica do período. Os verbos finitos são est, sentiō, sit, īnfitior, cōnfiteor e dēbet. Est vem depois de sī; sit depois de quam (interrogativo); īnfitior e cōnfiteor estão em relativas (in quā, ā quā); sentiō, como você viu na seção 3, está dentro da relativa quod. O verbo principal é dēbet, a última palavra, depois de sessenta e três outras. Os três membros com sī são a prótase de uma condicional (capítulo 36) e compartilham o mesmo est, que só aparece no primeiro. Eārum rērum omnium, "de todas essas coisas", resume os três membros e abre a apódose.
Cícero, Em defesa de Árquias 1, em camadas
Nível
Latim
O que é
Tradução
1
Sī quid est in mē ingenī, iūdicēs,
1ª prótase (iūdicēs: vocativo intercalado)
Se há em mim algum talento, juízes,
2
quod sentiō
relativa (o relativo é sujeito de sit)
o qual sinto
3
quam sit exiguum,
interrogativa indireta, objeto de sentiō
quão pequeno é,
1
aut sī qua exercitātiō dīcendī [est],
2ª prótase, com est subentendido; dīcendī, gerúndio
ou alguma prática de discursar,
2
in quā mē nōn īnfitior
relativa
na qual não nego
3
mē mediocriter esse versātum,
oração infinitiva, objeto de īnfitior
ter-me exercitado razoavelmente,
1
aut sī huiusce reī ratiō aliqua [est]
3ª prótase, est subentendido
ou algum método nesta atividade
1
ab optimārum artium studiīs ac disciplīnā profecta,
particípio conjunto com ratiō
nascido do estudo e da disciplina das artes mais nobres,
2
ā quā ego nūllum cōnfiteor
relativa
do qual confesso
3
nūllum aetātis meae tempus abhorruisse,
oração infinitiva, objeto de cōnfiteor
que nenhum período da minha vida se afastou,
0
eārum rērum omnium vel in prīmīs hīc A. Licinius frūctum ā mē repetere prope suō iūre dēbet.
apódose: oração principal
de todas essas coisas este Aulo Licínio, talvez antes de qualquer outro, tem quase o direito de reclamar de mim o fruto.
Repare na arquitetura. Os três membros crescem: o primeiro tem uma relativa curta; o segundo, uma relativa com infinitivo; o terceiro, um particípio e uma relativa com infinitivo. Cada um termina com uma oração em que Cícero fala de si mesmo (sentiō, nōn īnfitior, cōnfiteor), numa falsa modéstia calculada: diz que o seu talento é pequeno, mas admite que se exercitou e que nunca deixou de estudar. Só então chega o que interessa ao processo: tudo isso ele deve ao réu, que por isso tem o direito de contar com o seu socorro. Um ouvinte romano sabia, desde o primeiro sī, que viria uma apódose; a cada aut sī, a espera aumentava. É assim que o período cria tensão.
Traduzir sem perder a hierarquia. Um período deste tamanho, posto palavra por palavra num único período português, fica pesado. Uma boa solução é conservar a ordem dos blocos latinos (as três condições primeiro, a conclusão no fim) e marcar a passagem com dois-pontos ou com uma retomada ("de todas essas coisas"), como fizemos acima. O que não se pode fazer é inverter a hierarquia, transformando uma das relativas em ideia principal.
Lívio conta que Rômulo e Remo, depois de restituir o trono de Alba ao avô Numitor, decidiram fundar uma cidade no lugar em que tinham sido criados. Mas eram gêmeos, e era preciso decidir quem daria o nome à nova cidade. A frase que descreve a solução é um período narrativo típico do historiador, que você reencontrará no capítulo 49:
Quoniam geminī essent nec aetātis verēcundia discrīmen facere posset, ut dī quōrum tūtēlae ea loca essent auguriīs legerent quī nōmen novae urbī daret, quī conditam imperiō regeret, Palātium Rōmulus, Remus Aventīnum ad inaugurandum templa capiunt.
Como eram gêmeos e o respeito pela idade não podia decidir entre eles, para que os deuses sob cuja proteção estavam aqueles lugares escolhessem por meio dos augúrios quem daria o nome à nova cidade e quem a governaria depois de fundada, Rômulo toma o Palatino e Remo o Aventino como recintos para observar os augúrios. (Tito Lívio, Ab urbe condita 1.6.4)
Vocabulário: quoniam, já que; geminus, -ī, gêmeo; verēcundia, -ae, respeito; discrīmen, -inis, decisão, distinção; tūtēla, -ae, proteção; augurium, -ī, augúrio (sinal dado pelo voo das aves); legō, -ere, escolher; condō, -ere, -didī, -ditum, fundar; imperium, -ī, poder, comando; regō, -ere, governar; Palātium, Aventīnum, duas colinas de Roma; inaugurō, -āre, observar os augúrios; templum, -ī, recinto sagrado delimitado para a observação das aves.
Lívio 1.6.4, em camadas
Nível
Latim
O que é
Tradução
1
Quoniam geminī essent
causal; o subjuntivo apresenta a razão como os personagens a viam
Como eram gêmeos
1
nec aetātis verēcundia discrīmen facere posset,
segunda causal, coordenada pela nec
e o respeito pela idade não podia decidir,
1
ut dī … auguriīs legerent
oração final
para que os deuses escolhessem pelos augúrios
2
quōrum tūtēlae ea loca essent
relativa no subjuntivo, dentro da final (Bennett § 324); tūtēlae é genitivo predicativo: os lugares "pertenciam à proteção" desses deuses
sob cuja proteção estavam aqueles lugares
2
quī nōmen novae urbī daret,
objeto de legerent, com subjuntivo
quem daria o nome à nova cidade,
2
quī conditam imperiō regeret,
segundo objeto, paralelo; conditam: particípio, "a cidade fundada"
oração principal (presente histórico); templa é predicativo
Rômulo toma o Palatino, Remo o Aventino, como recintos
0
ad inaugurandum
gerúndio com ad: finalidade (capítulo 31)
para observar os augúrios
Três traços do estilo de Lívio aparecem aqui. A ordem das subordinadas mostra que as tendências da seção 3 não são leis: as causais vêm antes da principal, como se espera, mas a final também, embora Bennett (§ 351.3) diga que as finais costumam vir depois. Allen e Greenough (§ 601.b) registram a outra tendência, a de pôr o fim antes do ato: aqui a intenção explica o gesto que vai ser narrado, e por isso vem primeiro. A principal é curta e fica para o fim, com um quiasmo (Palātium Rōmulus, Remus Aventīnum: objeto, sujeito; sujeito, objeto) que põe os dois irmãos frente a frente, como as duas colinas. E a final contém duas orações paralelas com quī, que dependem de legerent e cujo antecedente fica subentendido ("aquele que"). É a leitura de Greenough (edição escolar de 1891), que toma quī como relativo, "aquele que daria"; Seeley (1871) admite também que quī esteja por quis numa interrogativa indireta, "quem daria". As duas análises são defensáveis, e a tradução é a mesma: "quem daria… quem governaria". Os mesmos dois comentários confirmam as outras escolhas da tabela: o subjuntivo de quoniam … essent … posset exprime as considerações dos próprios irmãos (Seeley), e tūtēlae é genitivo (Greenough; Seeley).
A ponte para a Parte IV
Com este capítulo termina o percurso gramatical do livro. Os capítulos 40 e 41 tratam da métrica, das figuras e da composição; a partir do capítulo 42 você lê autores, e o método deste capítulo passa a ser a ferramenta de todos os dias. Fedro e Eutrópio (capítulos 42 e 43) escrevem frases curtas, em que o método quase não é necessário, e servem para ganhar velocidade. César (capítulo 44) constrói períodos como o da seção 4: sujeito na frente, ablativos absolutos, verbo no fim, discurso indireto. Cícero (capítulo 48, a Primeira Catilinária) e Lívio (capítulo 49) exigem o método inteiro, porque os seus períodos são longos e cheios de encaixes. Em todos eles, a regra é a mesma: ache o verbo principal, marque os colchetes, separe as camadas, e só então traduza.
Resumo
O período encaixa as ideias secundárias dentro da principal e suspende o sentido até o fim; o latim prefere a subordinação, o português a coordenação.
Método: (1) ache o verbo principal; (2) abra um colchete em cada palavra introdutória e feche-o no verbo da oração; (3) numere os níveis de encaixe; (4) separe particípios, ablativos absolutos, gerúndios e infinitivos; (5) releia da esquerda para a direita, bloco por bloco.
Expectativas: nominativo no início, verbo no fim; termo comum antes das duas orações; temporais, condicionais e concessivas antes da principal; finais, consecutivas e interrogativas indiretas depois; correlativos (etsī … tamen, ita … ut, nōn modo … sed etiam).
Na tradução, conserve a hierarquia: a ideia da principal continua principal em português, mesmo que você divida o período em duas frases.
Erro: Tomar como principal o primeiro verbo que aparece: em Cícero, Em defesa de Árquias 1, traduzir Sī quid est in mē ingenī e procurar logo a seguir o que "é".
Por quê, e como evitar: O primeiro verbo de um período quase sempre pertence a uma subordinada. Elimine os verbos que vêm depois de sī, cum, ut, quod, de um relativo ou de um interrogativo; o principal é o que sobra, muitas vezes no fim (dēbet).
Erro: Fechar um colchete cedo demais e ligar uma palavra à oração errada: em César 1.13.2, ler illum como objeto de cōnfēcerant, ou lēgātōs como parte da oração com cum.
Por quê, e como evitar: Uma oração vai, em geral, da palavra introdutória até o seu verbo; o que vem depois pertence ao nível de cima, a menos que seja claramente um complemento desse verbo (por exemplo, uma oração infinitiva que o completa). Cōnfēcerant fecha a relativa; illum … fēcisse é a oração infinitiva que depende de intellegerent, e lēgātōs vem depois de intellegerent, que fecha a oração com cum.
Erro: Traduzir um particípio conjunto ou um ablativo absoluto como verbo principal: "Os helvécios foram abalados com a chegada dele…".
Por quê, e como evitar:Commōtī não é um verbo finito, e sim um particípio que concorda com o sujeito: é moldura, não ação principal. Traduza como circunstância ("abalados com…", "como estavam abalados…") e guarde o verbo principal para mittunt.
Erro: Ignorar o modo dentro do período e achar que tudo o que é subordinado está no subjuntivo (ou que um indicativo encerra o período).
Por quê, e como evitar: O modo informa: subjuntivo depois de cum, ut, nē ou num discurso relatado; indicativo nas relativas e nas temporais simples, ou quando o autor afirma um fato por conta própria (cōnfēcerant em César 1.13.2). Um indicativo dentro de um colchete aberto não fecha o período.
Erro: Esquecer os correlativos e perder a estrutura: ler etsī sem esperar tamen, ou ita sem esperar ut.
Por quê, e como evitar: Palavras como etsī, ita, tam, tantus, nōn modo, et … et anunciam o que vem depois. Anote a expectativa quando a palavra aparece e confira quando o correlativo chega: é ele que mostra onde termina um membro e começa o outro.
Erro: Traduzir o período inteiro numa única frase portuguesa na ordem latina, ou, no extremo oposto, picá-lo em frases soltas que mudam a ideia principal.
Por quê, e como evitar: Entenda primeiro a hierarquia; depois escreva um português que a respeite. Pode dividir em duas frases (como na tradução de Cícero acima), mas a ideia da oração principal latina deve continuar sendo a ideia principal do português.
Resolvida passo a passo: leia a pergunta, tente responder e só então abra cada passo.
Prática guiada 1 · César parte para a Gália
Leia com o método: Caesarī cum id nūntiātum esset, eōs per prōvinciam nostram iter facere cōnārī, mātūrat ab urbe proficīscī et quam maximīs potest itineribus in Galliam ulteriōrem contendit et ad Genavam pervenit. (César, Guerra da Gália 1.7.1). Vocabulário: nūntiō, -āre, anunciar; cōnor, -ārī (depoente), tentar; mātūrō, -āre, apressar-se; proficīscor, -ī, partir; quam maximīs potest itineribus, "com as maiores marchas que pode" (quam + superlativo + possum); ulterior, -ius, ulterior, mais distante; contendō, -ere, dirigir-se depressa; Genava, -ae, Genebra; perveniō, -īre, chegar.
Quais são os verbos finitos, e qual é o principal?Ver o passo
Nūntiātum esset, mātūrat, potest, contendit, pervenit. Nūntiātum esset vem depois de cum; potest está na expressão quam maximīs potest itineribus. Os principais são três verbos coordenados por et: mātūrat, contendit, pervenit, todos no presente histórico.
Quem é o sujeito dos verbos principais? Onde ele está?Ver o passo
César, que aparece como Caesarī, dativo, na primeira palavra: é a quem a notícia foi dada (objeto indireto de nūntiātum esset). Bennett (§ 351.2.a) descreve exatamente isto: quando o sujeito da principal é complemento da subordinada, ele vem antes das duas. Os verbos principais, sem sujeito expresso, retomam César.
Onde abre e fecha a oração com cum, e o que está dentro dela?Ver o passo
Abre em cum e fecha em nūntiātum esset; o sujeito desse verbo é id, e a oração infinitiva que vem logo depois (eōs … iter facere cōnārī) está em aposição a id, explicando o que foi anunciado: "isto: que eles tentavam…". Por isso ela ainda pertence ao nível da oração com cum, embora venha depois do verbo. Eōs são os helvécios.
Que camadas não são orações?Ver o passo
Proficīscī, infinitivo complementar de mātūrat; facere, complementar de cōnārī; quam maximīs … itineribus, ablativo de modo.
Monte a tradução.Ver o passo
"Como lhe tinham anunciado que eles tentavam passar pela nossa província, César apressa-se a partir da Cidade, dirige-se à Gália ulterior com as maiores marchas que pode e chega a Genebra."
Prática guiada 2 · Ler prevendo
Leia esta frase (original) palavra por palavra, dizendo a cada passo o que você espera: Rōmānī, cum hostēs, quōs Caesar fugāverat, in silvās sē recēpisse cognōvissent, castrīs relictīs eōs persecūtī sunt. Vocabulário: fugō, -āre, pôr em fuga; sē recipere, retirar-se; cognōscō, -ere, -nōvī, saber, ficar sabendo; relinquō, -ere, -līquī, -lictum, deixar; persequor, -ī, persecūtus sum, perseguir.
Rōmānī,Ver o passo
Nominativo plural (ou genitivo singular de Rōmānus, mas a vírgula e a posição favorecem o nominativo). Expectativa: um verbo de 3ª pessoa do plural, provavelmente no fim.
cumVer o passo
Abre uma subordinada. Expectativa: um verbo no subjuntivo (se for cum histórico) e, depois dele, a volta à principal com Rōmānī como sujeito (Bennett § 351.2).
hostēs,Ver o passo
Nominativo ou acusativo plural. Dentro do cum, pode ser sujeito ou objeto; fica em suspenso.
quōs Caesar fugāverat,Ver o passo
Relativa completa (abre em quōs, fecha em fugāverat), ligada a hostēs: "que César tinha posto em fuga". O mais-que-perfeito do indicativo é um fato narrado pelo autor. Continuamos dentro do cum.
in silvās sē recēpisseVer o passo
Infinitivo perfeito com sē: uma oração infinitiva! Então hostēs é acusativo, sujeito do infinitivo, e falta o verbo que a rege (de saber, dizer, perceber).
cognōvissent,Ver o passo
É o verbo esperado: rege a oração infinitiva e fecha o cum (mais-que-perfeito do subjuntivo: anterioridade). "Quando os romanos souberam que os inimigos… tinham se retirado para as matas."
castrīs relictīsVer o passo
Ablativo com particípio, solto: ablativo absoluto (capítulo 30), "deixado o acampamento". Agora estamos na principal; espera-se o verbo de Rōmānī.
eōs persecūtī sunt.Ver o passo
Objeto (eōs = os inimigos) e verbo principal, perfeito do depoente persequor, 3ª pessoa do plural, concordando com Rōmānī. Tradução: "Os romanos, quando souberam que os inimigos que César tinha posto em fuga tinham se retirado para as matas, deixaram o acampamento e os perseguiram."
Repare que só uma expectativa foi corrigida no caminho (hostēs, que passou de "sujeito ou objeto" a sujeito do infinitivo). Ler bem é isso: manter as hipóteses abertas até que o texto as decida.
Faça por escrito ou em voz alta; abra "Ver resposta" só depois de tentar. A explicação da resposta faz parte da lição.
Exercício 1 · Ache o verbo principal
Em cada período, indique o verbo principal (ou os verbos principais coordenados), o seu sujeito e as palavras que abrem orações subordinadas. Os três primeiros são de César; o último é original.
Caesar, etsī intellegēbat quā dē causā ea dīcerentur quaeque eum rēs ab īnstitūtō cōnsiliō dēterrēret, tamen, nē aestātem in Trēverīs cōnsūmere cōgerētur omnibus ad Britannicum bellum rēbus comparātīs, Indutiomarum ad sē cum CC obsidibus venīre iussit. (5.4.1)Ver resposta
Verbo principal: iussit, a última palavra; sujeito: Caesar, a primeira. Abrem orações: etsī (concessiva, fechada por intellegēbat), quā e quae (interrogativas indiretas, fechadas por dīcerentur e dēterrēret), nē (final, fechada por cōgerētur). Tamen responde a etsī. É o exemplo de período que Bennett dá no § 351.5.
Ubi per explōrātōrēs Caesar certior factus est trēs iam partēs cōpiārum Helvētiōs id flūmen trādūxisse, quārtam vērō partem citrā flūmen Ararim reliquam esse, dē tertiā vigiliā cum legiōnibus tribus ē castrīs profectus ad eam partem pervēnit quae nōndum flūmen trānsierat. (1.12.2)Ver resposta
Verbo principal: pervēnit; sujeito: Caesar (posto dentro da oração com ubi, que ele também comanda). Abrem orações: ubi (temporal, indicativo, fechada por certior factus est, seguida de duas orações infinitivas) e quae (relativa, fechada por trānsierat). Profectus é particípio conjunto, não verbo principal.
Helvētiī repentīnō eius adventū commōtī cum id quod ipsī diēbus XX aegerrimē cōnfēcerant, ut flūmen trānsīrent, illum ūnō diē fēcisse intellegerent, lēgātōs ad eum mittunt. (1.13.2)Ver resposta
Verbo principal: mittunt; sujeito: Helvētiī. Abrem orações: cum, quod, ut (veja a seção 4).
Mīles, quī cum vulnere domum redierat, cum patrem vīdisset, lacrimāre coepit.Ver resposta
Verbo principal: coepit (com o infinitivo lacrimāre); sujeito: mīles. Abrem orações: quī (relativa, fechada por redierat; o cum que vem logo depois é preposição, com vulnere) e o segundo cum, conjunção (fechada por vīdisset). Tradução: "O soldado, que tinha voltado para casa com um ferimento, quando viu o pai, começou a chorar."
Exercício 2 · Em camadas
Monte, para César 5.4.1 (exercício 1, item 1), a tabela em níveis, como nas seções 4 a 6. Vocabulário: quā dē causā, por que motivo; īnstituō, -ere, -uī, -ūtum, estabelecer; dēterreō, -ēre, desviar, afastar; aestās, -ātis, verão; Trēverī, -ōrum, os tréveros, povo gaulês; cōnsūmō, -ere, passar (o tempo); cōgō, -ere, obrigar; comparō, -āre, preparar; Indutiomarus, -ī, chefe dos tréveros; CC = ducentī, duzentos.
Nível 0Ver resposta
Caesar … tamen … Indutiomarum ad sē cum CC obsidibus venīre iussit: a principal, com uma oração infinitiva (Indutiomarum … venīre) como objeto de iussit. "César ordenou que Induciomaro viesse até ele com duzentos reféns."
Nível 1 (antes de tamen)Ver resposta
etsī intellegēbat: concessiva no indicativo, "embora percebesse".
Nível 2 (dentro da concessiva)Ver resposta
quā dē causā ea dīcerentur e quaeque eum rēs ab īnstitūtō cōnsiliō dēterrēret: duas interrogativas indiretas coordenadas por -que, objetos de intellegēbat, no imperfeito do subjuntivo (sequência histórica). "por que motivo se diziam essas coisas e que razão o afastava do plano estabelecido".
Nível 1 (depois de tamen)Ver resposta
nē aestātem in Trēverīs cōnsūmere cōgerētur: final negativa, "para não ser obrigado a passar o verão entre os tréveros".
Camada não oracionalVer resposta
omnibus ad Britannicum bellum rēbus comparātīs: ablativo absoluto, "estando tudo preparado para a guerra na Britânia". Pelo lugar, ele explica por que César não podia perder o verão.
Tradução completaVer resposta
"César, embora percebesse por que motivo se diziam essas coisas e que razão o afastava do plano estabelecido, ainda assim, para não ser obrigado a passar o verão entre os tréveros, quando tudo já estava preparado para a guerra na Britânia, ordenou que Induciomaro viesse até ele com duzentos reféns."
Exercício 3 · O que vem a seguir?
Diga o que você espera depois de cada começo de frase e por quê. Não há uma única resposta certa: dê a expectativa mais provável.
Caesar cum …Ver resposta
Uma oração com cum, provavelmente com verbo no subjuntivo; depois dela, a principal, com Caesar como sujeito e verbo no fim (Bennett § 351.2).
Hīs rēbus cognitīs, …Ver resposta
Ablativo absoluto; em seguida o sujeito da principal (que não pode ser hīs rēbus) e o verbo principal.
Tanta erat tempestās …Ver resposta
Uma consecutiva com ut + subjuntivo: "a tempestade era tão grande que…".
Etsī hostēs erant multī, …Ver resposta
tamen no começo da principal: "embora os inimigos fossem muitos, ainda assim…".
Lēgātī nūntiāvērunt …Ver resposta
Uma oração infinitiva (acusativo + infinitivo) e, talvez, um trecho longo de discurso indireto, com subordinadas no subjuntivo (capítulo 38).
Nōn modo Gallī …Ver resposta
sed etiam (ou vērum etiam) com um segundo termo paralelo: "não só os gauleses, mas também…".
Exercício 4 · Desmonte e traduza
Desmonte César 1.12.2 (exercício 1, item 2) em frases curtas na ordem dos acontecimentos, e depois traduza o período inteiro. Vocabulário: explōrātor, -ōris, batedor; certiōrem facere, informar (passiva: certior fierī, ser informado); cōpiae, -ārum, tropas; trādūcō, -ere, -dūxī, fazer atravessar (com dois acusativos: as tropas e o rio); vērō, por outro lado; citrā (com acusativo), aquém de; reliquus, -a, -um, restante; vigilia, -ae, vigília (cada uma das quatro partes da noite); nōndum, ainda não.
As frases curtasVer resposta
(1) Os helvécios já tinham feito três partes das tropas atravessar o Arar. (2) A quarta parte tinha ficado aquém do rio. (3) Os batedores informaram César. (4) César partiu do acampamento na terceira vigília com três legiões. (5) Chegou àquela parte que ainda não tinha atravessado o rio.
Que ideia César pôs na oração principal, e quais rebaixou?Ver resposta
A principal é a chegada (pervēnit), o fato decisivo. A informação recebida ficou numa temporal (ubi … certior factus est) com duas orações infinitivas; a partida virou o particípio profectus; e a parte que não tinha atravessado virou uma relativa. É a regra de Allen e Greenough (§ 601.d): o menos importante se funde em particípios e subordinadas.
TraduçãoVer resposta
"Quando César foi informado pelos batedores de que os helvécios já tinham feito três partes das suas tropas atravessar aquele rio, e de que a quarta parte restava aquém do rio Arar, partiu do acampamento na terceira vigília com três legiões e chegou àquela parte que ainda não tinha atravessado o rio."
Exercício 5 · Do encadeado ao período
Junte as frases curtas num único período latino, com uma oração principal, usando a construção indicada. Vocabulário: moveō, -ēre, mōvī, mōtum, mover (castra movēre, levantar acampamento); fugiō, -ere, fūgī, fugir; trānseō, -īre, -iī, atravessar; oppugnō, -āre, atacar; capiō, -ere, cēpī, captum, tomar.
Caesar castra mōvit. Hostēs fūgērunt. (ablativo absoluto)Ver resposta
Castrīs ā Caesare mōtīs, hostēs fūgērunt. "Levantado o acampamento por César, os inimigos fugiram." O sujeito da principal (hostēs) é diferente do agente da circunstância, por isso o ablativo absoluto é possível (capítulo 30).
Lēgātī ad Caesarem vēnērunt. Pācem petīvērunt. (oração final)Ver resposta
Lēgātī ad Caesarem vēnērunt ut pācem peterent. A ideia que era uma segunda principal vira o fim da primeira; o imperfeito do subjuntivo segue a sequência histórica.
Mīlitēs flūmen trānsiērunt. Urbem oppugnāvērunt. Urbem cēpērunt. (cum + particípio)Ver resposta
Mīlitēs, cum flūmen trānsiissent, urbem oppugnātam cēpērunt. "Os soldados, depois de atravessarem o rio, atacaram a cidade e a tomaram" (lit. "tomaram a cidade atacada"). O sujeito comum vem antes das duas orações (Bennett § 351.2), e o particípio oppugnātam evita uma terceira oração.
Leituras recomendadas
Para praticar o método, comece por períodos de complexidade crescente. As seleções comentadas de César e The Gate to Caesar oferecem períodos claros, com notas que ajudam a delimitar as orações; o segundo tem a vantagem de mostrar a mesma passagem simplificada e original, o que é um ótimo exercício de comparação. A Vida de Aníbal, de Cornélio Nepos, tem períodos médios e uma narrativa contínua. Depois, a Primeira Catilinária, na edição escolar de Henderson, e o livro I de Lívio, que serão lidos nos capítulos 48 e 49, exigem o método completo. Allen e Greenough (§§ 595–601) trazem uma boa descrição da ordem das palavras e da estrutura do período, com exemplos de Lívio e de Nepos.
Etapa IV · Ad FontesDificuldade 3 · IntermediárioOriginal ÁudioCom notas
Commentarii de Bello Gallico (seleções)
Gaius Iulius Caesar
Seleções dos livros I, IV, V e VI da Guerra da Gália (a campanha contra os helvécios, a travessia para a Britânia, o cerco ao acampamento de Cícero, os druidas), com macrons, vocabulário corrente e notas em inglês. A porta de entrada clássica para a prosa autêntica.
Historiografia · Clássico · algumas semanas · Dickinson College Commentaries
Etapa III · FundamentaDificuldade 2 · BásicoSimplificadoCom notas
The Gate to Caesar (De Bello Gallico II, simplificado e original)
Gaius Iulius Caesar (ed. W. C. Collar)
O livro II da Guerra da Gália apresentado duas vezes: primeiro numa versão simplificada, depois no original, com notas, exercícios e vocabulário (1891). A ponte perfeita entre os leitores graduados e César autêntico.
Historiografia · Clássico · algumas semanas · Project Gutenberg
Etapa IV · Ad FontesDificuldade 3 · IntermediárioOriginalCom notas
Vita Hannibalis
Cornelius Nepos
A Vida de Aníbal completa (13 capítulos), em latim simples e direto, com vocabulário por capítulo, notas e mapas. Costuma ser o primeiro autor autêntico lido nos cursos universitários. Edição impressa e PDF gratuitos na Open Book Publishers.
Biografia · Clássico · uma ou duas semanas · Dickinson College Commentaries
Etapa V · Auctores RomaniDificuldade 4 · AvançadoOriginalCom notas
In Catilinam I, com notas e vocabulário
Marcus Tullius Cicero (ed. John Henderson)
A Primeira Catilinária em edição escolar com introdução, notas em inglês e vocabulário completo. A maneira mais apoiada de ler o discurso mais famoso de Cícero; depois, siga para as outras três no Perseus.
Oratória · Clássico · uma ou duas semanas · Project Gutenberg
Etapa V · Auctores RomaniDificuldade 4 · AvançadoOriginalCom notasTexto na biblioteca
Ab urbe condita, liber I
Titus Livius
O livro I da história de Roma (Rômulo e Remo, os reis, Lucrécia), na edição Conway e Walters (1914), sem notas. Períodos mais longos que os de César; as lendas da fundação são o melhor ponto de entrada em Tito Lívio.
Historiografia · Clássico · algumas semanas · Perseus Digital Library
Ler aqui: texto latino da edição de Wilhelm Weissenborn e Hermann Johannes Müller (1884–1911)
Allen and Greenough's New Latin Grammar (edição DCC)
J. H. Allen e J. B. Greenough
A gramática de referência clássica em inglês (1903), em hipertexto com os parágrafos numerados tradicionais: pronúncia, morfologia, sintaxe, prosódia. Os comentários do DCC remetem a ela em cada nota. Para consultar, não para decorar.
Bibliotheca Latina. Conteúdo original com trechos de obras em domínio público; licença CC BY 4.0.
Fontes consultadas
New Latin Grammar, Charles E. Bennett (no catálogo) · domínio público · § 25.2 (genitivo contraído em -ī: ingenī), § 314.3 (indicativo nas observações do autor), § 324 (subjuntivo por atração), §§ 348–349 (ordem normal: sujeito no início, predicado no fim; deslocamento por ênfase), § 351.1–6 (estrutura da frase: unidade de sujeito; o termo comum antes da principal e da subordinada; temporais, condicionais e concessivas antes, finais, consecutivas e interrogativas indiretas depois; o verbo principal dentro da subordinada, com o exemplo de Cícero, Em defesa de Árquias 1; o período e a suspensão do sentido, com o exemplo de César 5.4; evitar a sucessão de verbos)
Allen and Greenough's New Latin Grammar, J. H. Allen e J. B. Greenough (no catálogo) · domínio público · § 583 (subordinada no indicativo: fato afirmado pelo autor), §§ 595–599 (ordem das palavras; 596 sujeito primeiro e predicado por último, com a tendência do verbo para o fim), §§ 600–601 (estrutura do período: o sentido suspenso até a última palavra; 601.a sujeito e objeto principais na oração principal; 601.b causa antes do resultado, fim e modo antes do ato; 601.d mudança de sujeito evitada com particípios e subordinadas, com o exemplo de Lívio 4.10)
Gramática Latina, Pe. João Ravizza (no catálogo) · domínio público · n. 414 (noção do período: proposições principais e dependentes; tipos de dependentes), n. 415 (o período latino: o latim prefere a subordinação, as línguas modernas a coordenação)
César, Commentarii de bello Gallico 1.7.1; 1.12.2; 1.13.2; 5.4.1, Caio Júlio César (no catálogo) · domínio público · edição de T. Rice Holmes (Oxford, 1914) na Perseus Digital Library (1.13), conferida com The Latin Library (https://www.thelatinlibrary.com/caesar/gall1.shtml e gall5.shtml) para todos os trechos; macrons acrescentados
Cícero, Pro A. Licinio Archia poeta 1, Marco Túlio Cícero · domínio público · primeira frase do discurso, conferida na Latin Library e na Wikisource latina (https://la.wikisource.org/wiki/Pro_A._Licinio_Archia_poeta), que coincidem; macrons acrescentados
Tito Lívio, Ab urbe condita 1.6.4, Tito Lívio (no catálogo) · domínio público · frase conferida na Latin Library e na Wikisource latina (que escreve dii por dī); numeração do parágrafo conferida na tradução da Perseus; macrons acrescentados; análise conferida nos comentários de J. B. Greenough (Livy, Books I and 2.1891) e J. R. Seeley (Livy, Book 1.1871), em domínio público no archive.org