Elementa Linguae Latinae·Parte III · Lectio·Capítulo 39·90 minReportar problema

Dē periodō

O período complexo: como ler uma frase longa

O que é o período latino e por que ele suspende o sentido até o fim; um método em cinco passos para ler uma frase longa (achar o verbo principal, abrir e fechar colchetes pelas palavras introdutórias e pelos verbos, medir o encaixe, separar as camadas de particípios e ablativos absolutos, reler da esquerda para a direita prevendo o que vem); três períodos autênticos (César, Cícero, Lívio) desmontados em camadas; e a ponte para a leitura dos autores na Parte IV.

Neste capítulo você vai
  • Explicar o que é um período latino e por que a flexão permite suspender o sentido até a última palavra.
  • Achar o verbo principal de uma frase longa e delimitar cada oração subordinada pela palavra que a introduz e pelo verbo que a fecha.
  • Representar um período em camadas (níveis de encaixe), distinguindo orações, particípios, ablativos absolutos e infinitivos.
  • Ler da esquerda para a direita formulando expectativas (verbo no fim, correlativos, sujeito comum, ordem típica das subordinadas) e corrigi-las à medida que o texto avança.
  • Analisar e traduzir períodos autênticos de César, Cícero e Lívio, preservando a hierarquia das ideias.
períodosubordinação e coordenaçãoestilo periódicoverbo principalpalavras introdutóriascolchetes e níveis de encaixeparticípio conjunto e ablativo absoluto como camadasordem das palavrassujeito comum antes das subordinadascorrelativosleitura da esquerda para a direitaprevisãoCésar, Guerra da Gália 1.13.2Cícero, Em defesa de Árquias 1Lívio 1.6.4ponte para a Parte IVanálise de frase autêntica

Antes deste capítulo: Capítulo 30 (o ablativo absoluto) e capítulo 38 (o discurso indireto). Na prática, este capítulo usa todo o percurso da sintaxe: o relativo (capítulo 16), os particípios (capítulo 29), o gerúndio e o gerundivo (capítulo 31), as orações com ut, nē e cum (capítulos 33 e 34), a interrogativa indireta (capítulo 35), as condicionais (capítulo 36) e as causais, concessivas e comparativas (capítulo 37). · capítulo 16 · capítulo 29 · capítulo 30 · capítulo 31 · capítulo 33 · capítulo 34 · capítulo 35 · capítulo 36 · capítulo 37 · capítulo 38

  1. O que é um período
  2. Um método em cinco passos
  3. Ler da esquerda para a direita, prevendo
  4. Um período de César em camadas
  5. Um período de Cícero: três condições e uma conclusão
  6. Um período de Lívio e a ponte para os autores
  7. Erros comuns
  8. Prática guiada
  9. Exercícios independentes
  10. Leituras recomendadas
  11. Créditos e fontes

O que é um período ⚑

Uma frase como Mīles flūmen trānsit se lê de uma vez. Mas, a partir de agora, a maior parte do latim que você vai ler é feita de frases de três, quatro, às vezes dez linhas, em que uma ideia principal vem cercada de circunstâncias: quando, por quê, apesar de quê, com que fim, segundo quem. A gramática chama essa construção de período. Ravizza (n. 414) explica o nome: a palavra grega significa "circuito", porque as orações não se dispõem em linha reta, mas a primeira como que reentra circularmente na última. Em sentido estrito, diz Bennett (§ 351.5), período é a frase em que as orações subordinadas se encaixam dentro da principal, de modo que o sentido fica suspenso até o fim.

O latim pode fazer isso porque marca as relações entre as palavras pela flexão, e não pela posição (Allen e Greenough § 600). Um sujeito no nominativo pode esperar trinta palavras pelo seu verbo sem que o leitor se perca, desde que saiba que está esperando. O português, ao contrário, tende a coordenar: põe as ideias em fila, como orações independentes ligadas por "e", "então", "mas". O latim tende a subordinar: escolhe uma ideia principal e pendura as outras nela (Ravizza n. 415). Compare a mesma sequência de fatos nas duas línguas:

Os embaixadores chegaram ao acampamento. Viram o general. Pediram a paz, porque temiam o exército romano.
Português: três orações principais em fila, a última com uma causal.
Lēgātī, cum in castra vēnissent ducemque vīdissent, quod exercitum Rōmānum timēbant, pācem petīvērunt.
Latim: uma única principal (Lēgātī … pācem petīvērunt), com as outras ideias encaixadas: duas orações com cum e uma causal.
Lēgātī in castra ductī, exercitū Rōmānō perterritī, pācem ā duce petīvērunt.
Latim mais compacto: as circunstâncias viram particípios (ductī, perterritī), sem nenhuma oração subordinada.

As três frases contam a mesma coisa, mas a latina organiza a informação em hierarquia: o fato que importa (pediram a paz) está na principal; o resto é moldura. Allen e Greenough (§ 601.d) chamam a atenção para isto: onde o português mudaria de sujeito a cada frase, o latim prefere manter um só sujeito e fundir o que é menos importante em particípios e subordinadas. Ler um período, portanto, é reconstruir essa hierarquia: achar a ideia principal e saber de que cada pedaço depende.

Um método em cinco passos ⚑

Diante de uma frase longa, a tentação é traduzir palavra por palavra na ordem e ir colando os pedaços. Isso funciona nas frases simples e falha nos períodos, porque o primeiro verbo que aparece raramente é o principal. O método abaixo transforma a leitura num trabalho de marcação. No começo, faça-o por escrito, com lápis; com a prática, ele passa a acontecer na cabeça, durante a leitura.

  1. Ache o verbo principal. Procure os verbos finitos (as formas pessoais) e elimine os que vêm depois de uma palavra subordinante. O que sobrar, num tempo do indicativo, no imperativo ou num subjuntivo independente (capítulo 32), é o verbo principal; em César e Lívio, ele costuma estar no fim. Se o verbo principal for um verbo de dizer, a principal pode continuar em infinitivos (capítulo 38).
  2. Abra e feche colchetes. Cada palavra introdutória (cum, ut, nē, sī, quod, quia, postquam, ubi, dum, etsī, quamquam, um relativo, um interrogativo) abre uma oração; o verbo dessa oração, em geral, a fecha. Marque com [ ] cada oração, do começo ao seu verbo.
  3. Meça o encaixe. Se um colchete abre antes de outro fechar, a segunda oração está dentro da primeira. Numere os níveis: 0 para a principal, 1 para o que depende dela, 2 para o que depende de uma subordinada, e assim por diante.
  4. Separe as camadas que não são orações. Particípios conjuntos (capítulo 29), ablativos absolutos (capítulo 30), gerúndios e gerundivos (capítulo 31) e orações infinitivas (capítulo 28) não têm conjunção, mas são circunstâncias ou complementos tão importantes quanto as orações. Ligue cada particípio ao nome com que concorda; trate o ablativo absoluto como uma oração reduzida.
  5. Releia da esquerda para a direita. Com o mapa feito, leia de novo na ordem latina, bloco por bloco, traduzindo cada bloco no lugar em que está. Só no fim reorganize o português.

O passo 2 depende de reconhecer as palavras que abrem orações e o modo que elas costumam pedir. A tabela reúne as que você já estudou:

Palavras que abrem orações
Palavra introdutóriaValorModo habitualCapítulo
quī, quae, quod; ubi, unde, quō (relativos)relativaindicativo; subjuntivo se for final, consecutiva, causal ou de discurso indireto16, 33, 37, 38
ut / nēfinal, consecutiva, completivasubjuntivo33
ut, ubi (= "quando", "assim que"), postquam, simul actemporalindicativoveja a nota abaixo
cumtemporal, causal, concessiva, circunstancialsubjuntivo (histórica, causal, concessiva); indicativo (temporal pura)34
quis, quid, cūr, quandō, num, -ne, utruminterrogativa indiretasubjuntivo35
sī, nisi, sīncondicionalindicativo ou subjuntivo, conforme o tipo36
quod, quia, quoniamcausalindicativo; subjuntivo se a causa é alegada por outro37
etsī, quamquam; quamvīsconcessivaindicativo; quamvīs com subjuntivo37
dum, dōnec, quoadtemporal ("enquanto", "até que")indicativo; subjuntivo se houver ideia de intençãoveja a nota abaixo; dum "contanto que": 36

As conjunções puramente temporais (postquam, "depois que"; ubi e ut, "quando", "assim que"; simul ac, "logo que"; dum, "enquanto"; dōnec e quoad, "até que") levam em regra o indicativo e se traduzem como as conjunções portuguesas correspondentes; para a marcação dos colchetes, funcionam como qualquer outra palavra introdutória. Só quando exprimem intenção ou expectativa ("até que aconteça", "esperando que") passam ao subjuntivo, como você viu no capítulo 34 (seção "Outras orações temporais").

Duas armadilhas na marcação. Primeira: ut, cum, quod e ubi têm vários valores, e só o modo e o contexto decidem; marque o colchete primeiro e classifique depois. Segunda: o verbo que fecha uma oração pode estar subentendido, sobretudo est ou sunt, e a mesma conjunção pode governar dois verbos coordenados (cum … vēnissent … vīdissent). Um colchete só se fecha de vez quando aparece algo que não pode pertencer à oração aberta: um verbo de outra pessoa, uma nova conjunção no mesmo nível, ou o sujeito de outra oração.

Ler da esquerda para a direita, prevendo ⚑

Os romanos não liam marcando colchetes: ouviam a frase uma vez, na ordem, e entendiam. Eles faziam isso porque cada palavra criava expectativas que as palavras seguintes confirmavam. Um nominativo no começo anunciava um verbo no fim; um cum anunciava um verbo no subjuntivo e, depois dele, a volta à oração principal; um tam anunciava um ut. O leitor moderno pode aprender a fazer o mesmo. O método da seção 2 serve para os casos difíceis; o objetivo é ler cada vez mais com as expectativas, e cada vez menos com o lápis.

As gramáticas descrevem as tendências que alimentam essas expectativas. O sujeito tende a vir no começo e o predicado no fim, e o latim tem uma tendência especial a pôr o verbo em último lugar (Bennett § 348; Allen e Greenough § 596.a). Quando um termo é ao mesmo tempo sujeito (ou objeto) da principal e de uma subordinada, ele vem antes das duas (Bennett § 351.2): Haeduī cum sē dēfendere nōn possent, lēgātōs ad Caesarem mittunt. As subordinadas temporais, condicionais e concessivas costumam vir antes da principal; as finais, as consecutivas e as interrogativas indiretas, depois (Bennett § 351.3), na ordem natural das ideias: a causa antes do resultado, o fim e o modo antes do ato (Allen e Greenough § 601.b). E, quando há várias subordinadas, o latim as arranja de modo a evitar uma série de verbos seguidos (Bennett § 351.6), o que o leva a encaixá-las umas nas outras.

Sinais que anunciam o que vem a seguir
Quando você lê…Espere…Exemplo
um nominativo no início, sem verboo verbo principal no fim; tudo o que vier no meio é molduraHelvētiī … lēgātōs ad eum mittunt
um nome no início seguido de cum, sī, ubio nome serve às duas orações; depois do verbo da subordinada, a principal continua com eleHaeduī cum … nōn possent, lēgātōs … mittunt
etsī, quamquam, cum concessivotamen no começo da principalCaesar etsī intellegēbat …, tamen … iussit
tam, ita, sīc, adeō, tantus, tālisut + subjuntivo (consecutiva)ita īnstitūtōs esse utī … cōnsuērint
nōn modo, nōn sōlumsed etiam, vērum etiamnōn modo … sed nē … quidem
et … , aut … , vel … , nec … no início de um membroum segundo membro paralelo, com a mesma construçãoet veteris incommodī … et prīstinae virtūtis
eō, idcircō, proptereāa explicação: quod, ut, quōproptereā quod aliud iter habērent nūllum
um ablativo com particípio, solto (hīs rēbus cognitīs)um ablativo absoluto; o sujeito da principal vem depoisHōc proeliō factō, … pontem … faciendum cūrat
um verbo de dizer, saber, perceberacusativo + infinitivo; depois, talvez, discurso indireto longocertior factus est … Helvētiōs … trādūxisse

As expectativas também servem para corrigir erros. Se você leu Helvētiī como sujeito e chegou ao fim da frase sem um verbo de 3ª pessoa do plural que lhe sirva, alguma coisa está errada: talvez o verbo estivesse dentro de uma subordinada, talvez Helvētiī fosse genitivo. Ler prevendo é ler formulando hipóteses e testando-as a cada palavra, como você fez desde o capítulo 2 com as frases simples, agora em escala maior.

Um período de César em camadas ⚑

César conta que, depois de atravessar o Arar com o exército num único dia, os helvécios mandaram embaixadores. A frase tem vinte e cinco palavras, um particípio, uma oração com cum, uma oração infinitiva e, dentro dela, duas orações subordinadas:

Helvētiī repentīnō eius adventū commōtī cum id quod ipsī diēbus XX aegerrimē cōnfēcerant, ut flūmen trānsīrent, illum ūnō diē fēcisse intellegerent, lēgātōs ad eum mittunt.
Os helvécios, abalados com a chegada repentina dele, como percebessem que ele tinha feito num só dia aquilo que eles mesmos tinham realizado a muito custo em vinte dias, isto é, atravessar o rio, enviam-lhe embaixadores. (César, Guerra da Gália 1.13.2)

Vocabulário: repentīnus, -a, -um, repentino; adventus, -ūs, chegada; commoveō, -ēre, -mōvī, -mōtum, abalar; XX = vīgintī, vinte; aegerrimē, com muitíssima dificuldade (superlativo de aegrē); cōnficiō, -ere, -fēcī, -fectum, realizar; trānseō, -īre, atravessar.

Aplique o método. Passo 1: os verbos finitos são cōnfēcerant, trānsīrent, intellegerent e mittunt. Os três primeiros vêm depois de palavras subordinantes (quod, ut, cum); sobra mittunt, presente histórico, no fim: é o verbo principal, e o seu sujeito é Helvētiī, a primeira palavra. Passos 2 e 3: cum abre uma oração que só fecha em intellegerent; dentro dela, quod abre e cōnfēcerant fecha uma relativa, e ut abre e trānsīrent fecha outra oração. Passo 4: commōtī é um particípio conjunto que concorda com Helvētiī, e illum … fēcisse é uma oração infinitiva, objeto de intellegerent. O resultado, em camadas:

César, Guerra da Gália 1.13.2, em camadas
NívelLatimO que éTradução
0Helvētiīsujeito da principal (e também de intellegerent: Bennett § 351.2)Os helvécios
0  repentīnō eius adventū commōtīparticípio conjunto, com ablativo de causaabalados com a chegada repentina dele
1  cum … intellegerentoração com cum + subjuntivo (causal-circunstancial)como percebessem
2    illum ūnō diē fēcisse idoração infinitiva, objeto de intellegerentque ele tinha feito num só dia aquilo
3      quod ipsī diēbus XX aegerrimē cōnfēcerantrelativa no indicativo, ligada a idque eles mesmos tinham realizado a muito custo em vinte dias
3      ut flūmen trānsīrentoração com ut que explica id (substantiva de resultado depois de cōnficiō: Allen e Greenough § 568)isto é, atravessar o rio
0lēgātōs ad eum mittuntobjeto, direção e verbo principalenviam-lhe embaixadores

Dois detalhes mostram como a gramática ajuda a leitura. Primeiro, ipsī e illum se opõem: "eles mesmos" (os helvécios) levaram vinte dias, "ele" (César) fez em um. Segundo, cōnfēcerant está no indicativo, embora dentro de uma oração com cum no subjuntivo: é um fato que o próprio César afirma, e não parte do raciocínio dos helvécios, como as subordinadas no indicativo que você viu no capítulo 38 (Bennett § 314.3; Allen e Greenough § 583). Já trānsīrent está no subjuntivo porque ut o exige. Veja agora o esqueleto da frase, sem as camadas internas:

Helvētiīsujeitoabre o períodocommōtīparticípio conjuntocausaintellegerentverbo da subordinadacum + subjuntivolēgātōs ad eumobjeto e direçãomittuntverbo principalfecha o período
O esqueleto de César 1.13.2: o sujeito na primeira palavra, o verbo principal na última, e tudo o mais encaixado entre os dois.
César, Guerra da Gália 1.13.2, palavra a palavra
PalavraDicionárioAnáliseFunção
HelvētiīHelvētiī, -ōrum (m. pl.), os helvéciosnominativo pluralsujeito de mittunt e de intellegerent
repentīnōrepentīnus, -a, -um, repentinoablativo singular masculinoconcorda com adventū
eiusis, ea, idgenitivo singular"dele", de César
adventūadventus, -ūs (m.), chegadaablativo singular, 4ª declinaçãoablativo de causa, com commōtī
commōtīcommoveō, -ēre, -mōvī, -mōtum, abalarparticípio perfeito passivo, nominativo plural masculinoparticípio conjunto com Helvētiī
cumcum (conjunção)com subjuntivointroduz a oração de nível 1
idis, ea, idacusativo singular neutroobjeto de fēcisse; antecedente de quod
quodquī, quae, quod (relativo)acusativo singular neutroobjeto de cōnfēcerant
ipsīipse, ipsa, ipsumnominativo plural masculinoreforça o sujeito de cōnfēcerant: "eles mesmos"
diēbus XXdiēs, -ēī (m.), dia; vīgintī, vinteablativo plural, 5ª declinaçãotempo em que algo se faz (capítulo 19)
aegerrimēaegrē (advérbio), com dificuldadesuperlativomodifica cōnfēcerant
cōnfēcerantcōnficiō, -ere, -fēcī, -fectum, realizarmais-que-perfeito do indicativo ativo, 3ª pl.verbo da relativa (nível 3)
utut (conjunção)com subjuntivointroduz a oração que explica id
flūmenflūmen, -inis (n.), rioacusativo singularobjeto de trānsīrent
trānsīrenttrānseō, -īre, -iī, -itum, atravessarimperfeito do subjuntivo, 3ª pl.verbo da oração com ut (sequência histórica)
illumille, illa, illudacusativo singular masculinosujeito do infinitivo: "ele", César
ūnō diēūnus, -a, -um, um; diēs, diaablativo singulartempo: "num só dia"
fēcissefaciō, -ere, fēcī, factum, fazerinfinitivo perfeito ativoverbo da oração infinitiva (anterior a intellegerent)
intellegerentintellegō, -ere, -lēxī, -lēctum, perceberimperfeito do subjuntivo, 3ª pl.verbo da oração com cum
lēgātōslēgātus, -ī (m.), embaixadoracusativo pluralobjeto de mittunt
ad eumad + acusativo de isacusativo singulardireção: "a ele", César
mittuntmittō, -ere, mīsī, missum, enviarpresente do indicativo ativo, 3ª pl. (presente histórico)verbo principal

Um período de Cícero: três condições e uma conclusão ⚑

O discurso de Cícero em defesa do poeta Árquias (62 a.C.) começa com uma das frases mais citadas da oratória latina. É um período no sentido pleno: o sentido só se completa na última palavra, e o caminho até lá é feito de três membros paralelos, cada um com a sua oração subordinada encaixada.

Sī quid est in mē ingenī, iūdicēs, quod sentiō quam sit exiguum, aut sī qua exercitātiō dīcendī, in quā mē nōn īnfitior mediocriter esse versātum, aut sī huiusce reī ratiō aliqua ab optimārum artium studiīs ac disciplīnā profecta, ā quā ego nūllum cōnfiteor aetātis meae tempus abhorruisse, eārum rērum omnium vel in prīmīs hīc A. Licinius frūctum ā mē repetere prope suō iūre dēbet.
Se há em mim algum talento, juízes, e sinto quão pequeno ele é; ou alguma prática de discursar, na qual não nego ter-me exercitado razoavelmente; ou algum método nesta atividade, nascido do estudo e da disciplina das artes mais nobres, do qual confesso que nenhum período da minha vida se afastou: de todas essas coisas é este Aulo Licínio, talvez antes de qualquer outro, quem tem quase o direito de reclamar de mim o fruto. (Cícero, Em defesa de Árquias 1)

Vocabulário: ingenium, -ī, talento (ingenī é o genitivo contraído, Bennett § 25.2, partitivo depois de quid: "algo de talento"); iūdex, -icis, juiz; exiguus, -a, -um, pequeno; exercitātiō, -ōnis, prática; īnfitior, -ārī (depoente), negar; mediocriter, razoavelmente; versor, -ārī, versātus sum (depoente), ocupar-se, exercitar-se; ratiō, -ōnis, método, teoria; disciplīna, -ae, ensino; proficīscor, -ī, profectus sum, partir, provir; cōnfiteor, -ērī, confessar; aetās, -ātis, idade, vida; abhorreō, -ēre, -uī (com ā), afastar-se de; repetō, -ere, reclamar; iūs, iūris, direito.

O passo 1 mostra a dificuldade e a lógica do período. Os verbos finitos são est, sentiō, sit, īnfitior, cōnfiteor e dēbet. Est vem depois de sī; sit depois de quam (interrogativo); īnfitior e cōnfiteor estão em relativas (in quā, ā quā); sentiō, como você viu na seção 3, está dentro da relativa quod. O verbo principal é dēbet, a última palavra, depois de sessenta e três outras. Os três membros com sī são a prótase de uma condicional (capítulo 36) e compartilham o mesmo est, que só aparece no primeiro. Eārum rērum omnium, "de todas essas coisas", resume os três membros e abre a apódose.

Cícero, Em defesa de Árquias 1, em camadas
NívelLatimO que éTradução
1Sī quid est in mē ingenī, iūdicēs,1ª prótase (iūdicēs: vocativo intercalado)Se há em mim algum talento, juízes,
2  quod sentiōrelativa (o relativo é sujeito de sit)o qual sinto
3    quam sit exiguum,interrogativa indireta, objeto de sentiōquão pequeno é,
1aut sī qua exercitātiō dīcendī [est],2ª prótase, com est subentendido; dīcendī, gerúndioou alguma prática de discursar,
2  in quā mē nōn īnfitiorrelativana qual não nego
3    mē mediocriter esse versātum,oração infinitiva, objeto de īnfitiorter-me exercitado razoavelmente,
1aut sī huiusce reī ratiō aliqua [est]3ª prótase, est subentendidoou algum método nesta atividade
1  ab optimārum artium studiīs ac disciplīnā profecta,particípio conjunto com ratiōnascido do estudo e da disciplina das artes mais nobres,
2  ā quā ego nūllum cōnfiteorrelativado qual confesso
3    nūllum aetātis meae tempus abhorruisse,oração infinitiva, objeto de cōnfiteorque nenhum período da minha vida se afastou,
0eārum rērum omnium vel in prīmīs hīc A. Licinius frūctum ā mē repetere prope suō iūre dēbet.apódose: oração principalde todas essas coisas este Aulo Licínio, talvez antes de qualquer outro, tem quase o direito de reclamar de mim o fruto.

Repare na arquitetura. Os três membros crescem: o primeiro tem uma relativa curta; o segundo, uma relativa com infinitivo; o terceiro, um particípio e uma relativa com infinitivo. Cada um termina com uma oração em que Cícero fala de si mesmo (sentiō, nōn īnfitior, cōnfiteor), numa falsa modéstia calculada: diz que o seu talento é pequeno, mas admite que se exercitou e que nunca deixou de estudar. Só então chega o que interessa ao processo: tudo isso ele deve ao réu, que por isso tem o direito de contar com o seu socorro. Um ouvinte romano sabia, desde o primeiro sī, que viria uma apódose; a cada aut sī, a espera aumentava. É assim que o período cria tensão.

Traduzir sem perder a hierarquia. Um período deste tamanho, posto palavra por palavra num único período português, fica pesado. Uma boa solução é conservar a ordem dos blocos latinos (as três condições primeiro, a conclusão no fim) e marcar a passagem com dois-pontos ou com uma retomada ("de todas essas coisas"), como fizemos acima. O que não se pode fazer é inverter a hierarquia, transformando uma das relativas em ideia principal.

Um período de Lívio e a ponte para os autores ⚑

Lívio conta que Rômulo e Remo, depois de restituir o trono de Alba ao avô Numitor, decidiram fundar uma cidade no lugar em que tinham sido criados. Mas eram gêmeos, e era preciso decidir quem daria o nome à nova cidade. A frase que descreve a solução é um período narrativo típico do historiador, que você reencontrará no capítulo 49:

Quoniam geminī essent nec aetātis verēcundia discrīmen facere posset, ut dī quōrum tūtēlae ea loca essent auguriīs legerent quī nōmen novae urbī daret, quī conditam imperiō regeret, Palātium Rōmulus, Remus Aventīnum ad inaugurandum templa capiunt.
Como eram gêmeos e o respeito pela idade não podia decidir entre eles, para que os deuses sob cuja proteção estavam aqueles lugares escolhessem por meio dos augúrios quem daria o nome à nova cidade e quem a governaria depois de fundada, Rômulo toma o Palatino e Remo o Aventino como recintos para observar os augúrios. (Tito Lívio, Ab urbe condita 1.6.4)

Vocabulário: quoniam, já que; geminus, -ī, gêmeo; verēcundia, -ae, respeito; discrīmen, -inis, decisão, distinção; tūtēla, -ae, proteção; augurium, -ī, augúrio (sinal dado pelo voo das aves); legō, -ere, escolher; condō, -ere, -didī, -ditum, fundar; imperium, -ī, poder, comando; regō, -ere, governar; Palātium, Aventīnum, duas colinas de Roma; inaugurō, -āre, observar os augúrios; templum, -ī, recinto sagrado delimitado para a observação das aves.

Lívio 1.6.4, em camadas
NívelLatimO que éTradução
1Quoniam geminī essentcausal; o subjuntivo apresenta a razão como os personagens a viamComo eram gêmeos
1nec aetātis verēcundia discrīmen facere posset,segunda causal, coordenada pela nece o respeito pela idade não podia decidir,
1ut dī … auguriīs legerentoração finalpara que os deuses escolhessem pelos augúrios
2  quōrum tūtēlae ea loca essentrelativa no subjuntivo, dentro da final (Bennett § 324); tūtēlae é genitivo predicativo: os lugares "pertenciam à proteção" desses deusessob cuja proteção estavam aqueles lugares
2  quī nōmen novae urbī daret,objeto de legerent, com subjuntivoquem daria o nome à nova cidade,
2  quī conditam imperiō regeret,segundo objeto, paralelo; conditam: particípio, "a cidade fundada"quem a governaria depois de fundada,
0Palātium Rōmulus, Remus Aventīnum … templa capiunt.oração principal (presente histórico); templa é predicativoRômulo toma o Palatino, Remo o Aventino, como recintos
0  ad inaugurandumgerúndio com ad: finalidade (capítulo 31)para observar os augúrios

Três traços do estilo de Lívio aparecem aqui. A ordem das subordinadas mostra que as tendências da seção 3 não são leis: as causais vêm antes da principal, como se espera, mas a final também, embora Bennett (§ 351.3) diga que as finais costumam vir depois. Allen e Greenough (§ 601.b) registram a outra tendência, a de pôr o fim antes do ato: aqui a intenção explica o gesto que vai ser narrado, e por isso vem primeiro. A principal é curta e fica para o fim, com um quiasmo (Palātium Rōmulus, Remus Aventīnum: objeto, sujeito; sujeito, objeto) que põe os dois irmãos frente a frente, como as duas colinas. E a final contém duas orações paralelas com quī, que dependem de legerent e cujo antecedente fica subentendido ("aquele que"). É a leitura de Greenough (edição escolar de 1891), que toma quī como relativo, "aquele que daria"; Seeley (1871) admite também que quī esteja por quis numa interrogativa indireta, "quem daria". As duas análises são defensáveis, e a tradução é a mesma: "quem daria… quem governaria". Os mesmos dois comentários confirmam as outras escolhas da tabela: o subjuntivo de quoniam … essent … posset exprime as considerações dos próprios irmãos (Seeley), e tūtēlae é genitivo (Greenough; Seeley).

A ponte para a Parte IV

Com este capítulo termina o percurso gramatical do livro. Os capítulos 40 e 41 tratam da métrica, das figuras e da composição; a partir do capítulo 42 você lê autores, e o método deste capítulo passa a ser a ferramenta de todos os dias. Fedro e Eutrópio (capítulos 42 e 43) escrevem frases curtas, em que o método quase não é necessário, e servem para ganhar velocidade. César (capítulo 44) constrói períodos como o da seção 4: sujeito na frente, ablativos absolutos, verbo no fim, discurso indireto. Cícero (capítulo 48, a Primeira Catilinária) e Lívio (capítulo 49) exigem o método inteiro, porque os seus períodos são longos e cheios de encaixes. Em todos eles, a regra é a mesma: ache o verbo principal, marque os colchetes, separe as camadas, e só então traduza.

Resumo

Erros comuns ⚑

Prática guiada ⚑

Resolvida passo a passo: leia a pergunta, tente responder e só então abra cada passo.

Prática guiada 1 · César parte para a Gália

Leia com o método: Caesarī cum id nūntiātum esset, eōs per prōvinciam nostram iter facere cōnārī, mātūrat ab urbe proficīscī et quam maximīs potest itineribus in Galliam ulteriōrem contendit et ad Genavam pervenit. (César, Guerra da Gália 1.7.1). Vocabulário: nūntiō, -āre, anunciar; cōnor, -ārī (depoente), tentar; mātūrō, -āre, apressar-se; proficīscor, -ī, partir; quam maximīs potest itineribus, "com as maiores marchas que pode" (quam + superlativo + possum); ulterior, -ius, ulterior, mais distante; contendō, -ere, dirigir-se depressa; Genava, -ae, Genebra; perveniō, -īre, chegar.

  1. Quais são os verbos finitos, e qual é o principal?
    Ver o passo

    Nūntiātum esset, mātūrat, potest, contendit, pervenit. Nūntiātum esset vem depois de cum; potest está na expressão quam maximīs potest itineribus. Os principais são três verbos coordenados por et: mātūrat, contendit, pervenit, todos no presente histórico.

  2. Quem é o sujeito dos verbos principais? Onde ele está?
    Ver o passo

    César, que aparece como Caesarī, dativo, na primeira palavra: é a quem a notícia foi dada (objeto indireto de nūntiātum esset). Bennett (§ 351.2.a) descreve exatamente isto: quando o sujeito da principal é complemento da subordinada, ele vem antes das duas. Os verbos principais, sem sujeito expresso, retomam César.

  3. Onde abre e fecha a oração com cum, e o que está dentro dela?
    Ver o passo

    Abre em cum e fecha em nūntiātum esset; o sujeito desse verbo é id, e a oração infinitiva que vem logo depois (eōs … iter facere cōnārī) está em aposição a id, explicando o que foi anunciado: "isto: que eles tentavam…". Por isso ela ainda pertence ao nível da oração com cum, embora venha depois do verbo. Eōs são os helvécios.

  4. Que camadas não são orações?
    Ver o passo

    Proficīscī, infinitivo complementar de mātūrat; facere, complementar de cōnārī; quam maximīs … itineribus, ablativo de modo.

  5. Monte a tradução.
    Ver o passo

    "Como lhe tinham anunciado que eles tentavam passar pela nossa província, César apressa-se a partir da Cidade, dirige-se à Gália ulterior com as maiores marchas que pode e chega a Genebra."

Prática guiada 2 · Ler prevendo

Leia esta frase (original) palavra por palavra, dizendo a cada passo o que você espera: Rōmānī, cum hostēs, quōs Caesar fugāverat, in silvās sē recēpisse cognōvissent, castrīs relictīs eōs persecūtī sunt. Vocabulário: fugō, -āre, pôr em fuga; sē recipere, retirar-se; cognōscō, -ere, -nōvī, saber, ficar sabendo; relinquō, -ere, -līquī, -lictum, deixar; persequor, -ī, persecūtus sum, perseguir.

  1. Rōmānī,
    Ver o passo

    Nominativo plural (ou genitivo singular de Rōmānus, mas a vírgula e a posição favorecem o nominativo). Expectativa: um verbo de 3ª pessoa do plural, provavelmente no fim.

  2. cum
    Ver o passo

    Abre uma subordinada. Expectativa: um verbo no subjuntivo (se for cum histórico) e, depois dele, a volta à principal com Rōmānī como sujeito (Bennett § 351.2).

  3. hostēs,
    Ver o passo

    Nominativo ou acusativo plural. Dentro do cum, pode ser sujeito ou objeto; fica em suspenso.

  4. quōs Caesar fugāverat,
    Ver o passo

    Relativa completa (abre em quōs, fecha em fugāverat), ligada a hostēs: "que César tinha posto em fuga". O mais-que-perfeito do indicativo é um fato narrado pelo autor. Continuamos dentro do cum.

  5. in silvās sē recēpisse
    Ver o passo

    Infinitivo perfeito com sē: uma oração infinitiva! Então hostēs é acusativo, sujeito do infinitivo, e falta o verbo que a rege (de saber, dizer, perceber).

  6. cognōvissent,
    Ver o passo

    É o verbo esperado: rege a oração infinitiva e fecha o cum (mais-que-perfeito do subjuntivo: anterioridade). "Quando os romanos souberam que os inimigos… tinham se retirado para as matas."

  7. castrīs relictīs
    Ver o passo

    Ablativo com particípio, solto: ablativo absoluto (capítulo 30), "deixado o acampamento". Agora estamos na principal; espera-se o verbo de Rōmānī.

  8. eōs persecūtī sunt.
    Ver o passo

    Objeto (eōs = os inimigos) e verbo principal, perfeito do depoente persequor, 3ª pessoa do plural, concordando com Rōmānī. Tradução: "Os romanos, quando souberam que os inimigos que César tinha posto em fuga tinham se retirado para as matas, deixaram o acampamento e os perseguiram."

Repare que só uma expectativa foi corrigida no caminho (hostēs, que passou de "sujeito ou objeto" a sujeito do infinitivo). Ler bem é isso: manter as hipóteses abertas até que o texto as decida.

Exercícios independentes ⚑

Faça por escrito ou em voz alta; abra "Ver resposta" só depois de tentar. A explicação da resposta faz parte da lição.

Exercício 1 · Ache o verbo principal

Em cada período, indique o verbo principal (ou os verbos principais coordenados), o seu sujeito e as palavras que abrem orações subordinadas. Os três primeiros são de César; o último é original.

  1. Caesar, etsī intellegēbat quā dē causā ea dīcerentur quaeque eum rēs ab īnstitūtō cōnsiliō dēterrēret, tamen, nē aestātem in Trēverīs cōnsūmere cōgerētur omnibus ad Britannicum bellum rēbus comparātīs, Indutiomarum ad sē cum CC obsidibus venīre iussit. (5.4.1)
    Ver resposta

    Verbo principal: iussit, a última palavra; sujeito: Caesar, a primeira. Abrem orações: etsī (concessiva, fechada por intellegēbat), quā e quae (interrogativas indiretas, fechadas por dīcerentur e dēterrēret), nē (final, fechada por cōgerētur). Tamen responde a etsī. É o exemplo de período que Bennett dá no § 351.5.

  2. Ubi per explōrātōrēs Caesar certior factus est trēs iam partēs cōpiārum Helvētiōs id flūmen trādūxisse, quārtam vērō partem citrā flūmen Ararim reliquam esse, dē tertiā vigiliā cum legiōnibus tribus ē castrīs profectus ad eam partem pervēnit quae nōndum flūmen trānsierat. (1.12.2)
    Ver resposta

    Verbo principal: pervēnit; sujeito: Caesar (posto dentro da oração com ubi, que ele também comanda). Abrem orações: ubi (temporal, indicativo, fechada por certior factus est, seguida de duas orações infinitivas) e quae (relativa, fechada por trānsierat). Profectus é particípio conjunto, não verbo principal.

  3. Helvētiī repentīnō eius adventū commōtī cum id quod ipsī diēbus XX aegerrimē cōnfēcerant, ut flūmen trānsīrent, illum ūnō diē fēcisse intellegerent, lēgātōs ad eum mittunt. (1.13.2)
    Ver resposta

    Verbo principal: mittunt; sujeito: Helvētiī. Abrem orações: cum, quod, ut (veja a seção 4).

  4. Mīles, quī cum vulnere domum redierat, cum patrem vīdisset, lacrimāre coepit.
    Ver resposta

    Verbo principal: coepit (com o infinitivo lacrimāre); sujeito: mīles. Abrem orações: quī (relativa, fechada por redierat; o cum que vem logo depois é preposição, com vulnere) e o segundo cum, conjunção (fechada por vīdisset). Tradução: "O soldado, que tinha voltado para casa com um ferimento, quando viu o pai, começou a chorar."

Exercício 2 · Em camadas

Monte, para César 5.4.1 (exercício 1, item 1), a tabela em níveis, como nas seções 4 a 6. Vocabulário: quā dē causā, por que motivo; īnstituō, -ere, -uī, -ūtum, estabelecer; dēterreō, -ēre, desviar, afastar; aestās, -ātis, verão; Trēverī, -ōrum, os tréveros, povo gaulês; cōnsūmō, -ere, passar (o tempo); cōgō, -ere, obrigar; comparō, -āre, preparar; Indutiomarus, -ī, chefe dos tréveros; CC = ducentī, duzentos.

  1. Nível 0
    Ver resposta

    Caesar … tamen … Indutiomarum ad sē cum CC obsidibus venīre iussit: a principal, com uma oração infinitiva (Indutiomarum … venīre) como objeto de iussit. "César ordenou que Induciomaro viesse até ele com duzentos reféns."

  2. Nível 1 (antes de tamen)
    Ver resposta

    etsī intellegēbat: concessiva no indicativo, "embora percebesse".

  3. Nível 2 (dentro da concessiva)
    Ver resposta

    quā dē causā ea dīcerentur e quaeque eum rēs ab īnstitūtō cōnsiliō dēterrēret: duas interrogativas indiretas coordenadas por -que, objetos de intellegēbat, no imperfeito do subjuntivo (sequência histórica). "por que motivo se diziam essas coisas e que razão o afastava do plano estabelecido".

  4. Nível 1 (depois de tamen)
    Ver resposta

    nē aestātem in Trēverīs cōnsūmere cōgerētur: final negativa, "para não ser obrigado a passar o verão entre os tréveros".

  5. Camada não oracional
    Ver resposta

    omnibus ad Britannicum bellum rēbus comparātīs: ablativo absoluto, "estando tudo preparado para a guerra na Britânia". Pelo lugar, ele explica por que César não podia perder o verão.

  6. Tradução completa
    Ver resposta

    "César, embora percebesse por que motivo se diziam essas coisas e que razão o afastava do plano estabelecido, ainda assim, para não ser obrigado a passar o verão entre os tréveros, quando tudo já estava preparado para a guerra na Britânia, ordenou que Induciomaro viesse até ele com duzentos reféns."

Exercício 3 · O que vem a seguir?

Diga o que você espera depois de cada começo de frase e por quê. Não há uma única resposta certa: dê a expectativa mais provável.

  1. Caesar cum …
    Ver resposta

    Uma oração com cum, provavelmente com verbo no subjuntivo; depois dela, a principal, com Caesar como sujeito e verbo no fim (Bennett § 351.2).

  2. Hīs rēbus cognitīs, …
    Ver resposta

    Ablativo absoluto; em seguida o sujeito da principal (que não pode ser hīs rēbus) e o verbo principal.

  3. Tanta erat tempestās …
    Ver resposta

    Uma consecutiva com ut + subjuntivo: "a tempestade era tão grande que…".

  4. Etsī hostēs erant multī, …
    Ver resposta

    tamen no começo da principal: "embora os inimigos fossem muitos, ainda assim…".

  5. Lēgātī nūntiāvērunt …
    Ver resposta

    Uma oração infinitiva (acusativo + infinitivo) e, talvez, um trecho longo de discurso indireto, com subordinadas no subjuntivo (capítulo 38).

  6. Nōn modo Gallī …
    Ver resposta

    sed etiam (ou vērum etiam) com um segundo termo paralelo: "não só os gauleses, mas também…".

Exercício 4 · Desmonte e traduza

Desmonte César 1.12.2 (exercício 1, item 2) em frases curtas na ordem dos acontecimentos, e depois traduza o período inteiro. Vocabulário: explōrātor, -ōris, batedor; certiōrem facere, informar (passiva: certior fierī, ser informado); cōpiae, -ārum, tropas; trādūcō, -ere, -dūxī, fazer atravessar (com dois acusativos: as tropas e o rio); vērō, por outro lado; citrā (com acusativo), aquém de; reliquus, -a, -um, restante; vigilia, -ae, vigília (cada uma das quatro partes da noite); nōndum, ainda não.

  1. As frases curtas
    Ver resposta

    (1) Os helvécios já tinham feito três partes das tropas atravessar o Arar. (2) A quarta parte tinha ficado aquém do rio. (3) Os batedores informaram César. (4) César partiu do acampamento na terceira vigília com três legiões. (5) Chegou àquela parte que ainda não tinha atravessado o rio.

  2. Que ideia César pôs na oração principal, e quais rebaixou?
    Ver resposta

    A principal é a chegada (pervēnit), o fato decisivo. A informação recebida ficou numa temporal (ubi … certior factus est) com duas orações infinitivas; a partida virou o particípio profectus; e a parte que não tinha atravessado virou uma relativa. É a regra de Allen e Greenough (§ 601.d): o menos importante se funde em particípios e subordinadas.

  3. Tradução
    Ver resposta

    "Quando César foi informado pelos batedores de que os helvécios já tinham feito três partes das suas tropas atravessar aquele rio, e de que a quarta parte restava aquém do rio Arar, partiu do acampamento na terceira vigília com três legiões e chegou àquela parte que ainda não tinha atravessado o rio."

Exercício 5 · Do encadeado ao período

Junte as frases curtas num único período latino, com uma oração principal, usando a construção indicada. Vocabulário: moveō, -ēre, mōvī, mōtum, mover (castra movēre, levantar acampamento); fugiō, -ere, fūgī, fugir; trānseō, -īre, -iī, atravessar; oppugnō, -āre, atacar; capiō, -ere, cēpī, captum, tomar.

  1. Caesar castra mōvit. Hostēs fūgērunt. (ablativo absoluto)
    Ver resposta

    Castrīs ā Caesare mōtīs, hostēs fūgērunt. "Levantado o acampamento por César, os inimigos fugiram." O sujeito da principal (hostēs) é diferente do agente da circunstância, por isso o ablativo absoluto é possível (capítulo 30).

  2. Lēgātī ad Caesarem vēnērunt. Pācem petīvērunt. (oração final)
    Ver resposta

    Lēgātī ad Caesarem vēnērunt ut pācem peterent. A ideia que era uma segunda principal vira o fim da primeira; o imperfeito do subjuntivo segue a sequência histórica.

  3. Mīlitēs flūmen trānsiērunt. Urbem oppugnāvērunt. Urbem cēpērunt. (cum + particípio)
    Ver resposta

    Mīlitēs, cum flūmen trānsiissent, urbem oppugnātam cēpērunt. "Os soldados, depois de atravessarem o rio, atacaram a cidade e a tomaram" (lit. "tomaram a cidade atacada"). O sujeito comum vem antes das duas orações (Bennett § 351.2), e o particípio oppugnātam evita uma terceira oração.

Leituras recomendadas

Para praticar o método, comece por períodos de complexidade crescente. As seleções comentadas de César e The Gate to Caesar oferecem períodos claros, com notas que ajudam a delimitar as orações; o segundo tem a vantagem de mostrar a mesma passagem simplificada e original, o que é um ótimo exercício de comparação. A Vida de Aníbal, de Cornélio Nepos, tem períodos médios e uma narrativa contínua. Depois, a Primeira Catilinária, na edição escolar de Henderson, e o livro I de Lívio, que serão lidos nos capítulos 48 e 49, exigem o método completo. Allen e Greenough (§§ 595–601) trazem uma boa descrição da ordem das palavras e da estrutura do período, com exemplos de Lívio e de Nepos.

Etapa IV · Ad FontesDificuldade 3 · IntermediárioOriginal ÁudioCom notas

Commentarii de Bello Gallico (seleções)

Gaius Iulius Caesar

Seleções dos livros I, IV, V e VI da Guerra da Gália (a campanha contra os helvécios, a travessia para a Britânia, o cerco ao acampamento de Cícero, os druidas), com macrons, vocabulário corrente e notas em inglês. A porta de entrada clássica para a prosa autêntica.

Historiografia · Clássico · algumas semanas · Dickinson College Commentaries

Ler na fonte ↗ Áudio ↗
Etapa III · FundamentaDificuldade 2 · BásicoSimplificadoCom notas

The Gate to Caesar (De Bello Gallico II, simplificado e original)

Gaius Iulius Caesar (ed. W. C. Collar)

O livro II da Guerra da Gália apresentado duas vezes: primeiro numa versão simplificada, depois no original, com notas, exercícios e vocabulário (1891). A ponte perfeita entre os leitores graduados e César autêntico.

Historiografia · Clássico · algumas semanas · Project Gutenberg

Ler na fonte ↗EPUB na fonte ↗
Etapa IV · Ad FontesDificuldade 3 · IntermediárioOriginalCom notas

Vita Hannibalis

Cornelius Nepos

A Vida de Aníbal completa (13 capítulos), em latim simples e direto, com vocabulário por capítulo, notas e mapas. Costuma ser o primeiro autor autêntico lido nos cursos universitários. Edição impressa e PDF gratuitos na Open Book Publishers.

Biografia · Clássico · uma ou duas semanas · Dickinson College Commentaries

Etapa V · Auctores RomaniDificuldade 4 · AvançadoOriginalCom notas

In Catilinam I, com notas e vocabulário

Marcus Tullius Cicero (ed. John Henderson)

A Primeira Catilinária em edição escolar com introdução, notas em inglês e vocabulário completo. A maneira mais apoiada de ler o discurso mais famoso de Cícero; depois, siga para as outras três no Perseus.

Oratória · Clássico · uma ou duas semanas · Project Gutenberg

Ler na fonte ↗EPUB na fonte ↗
Etapa V · Auctores RomaniDificuldade 4 · AvançadoOriginalCom notasTexto na biblioteca

Ab urbe condita, liber I

Titus Livius

O livro I da história de Roma (Rômulo e Remo, os reis, Lucrécia), na edição Conway e Walters (1914), sem notas. Períodos mais longos que os de César; as lendas da fundação são o melhor ponto de entrada em Tito Lívio.

Historiografia · Clássico · algumas semanas · Perseus Digital Library

Ler aqui: texto latino da edição de Wilhelm Weissenborn e Hermann Johannes Müller (1884–1911)

Etapa III · FundamentaDidático

Allen and Greenough's New Latin Grammar (edição DCC)

J. H. Allen e J. B. Greenough

A gramática de referência clássica em inglês (1903), em hipertexto com os parágrafos numerados tradicionais: pronúncia, morfologia, sintaxe, prosódia. Os comentários do DCC remetem a ela em cada nota. Para consultar, não para decorar.

Gramática · Moderno (material didático) · consulta · Dickinson College Commentaries

Ler na fonte ↗
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Créditos e fontes

Autoria
Bibliotheca Latina. Conteúdo original com trechos de obras em domínio público; licença CC BY 4.0.
Fontes consultadas
  • New Latin Grammar, Charles E. Bennett (no catálogo) · domínio público · § 25.2 (genitivo contraído em -ī: ingenī), § 314.3 (indicativo nas observações do autor), § 324 (subjuntivo por atração), §§ 348–349 (ordem normal: sujeito no início, predicado no fim; deslocamento por ênfase), § 351.1–6 (estrutura da frase: unidade de sujeito; o termo comum antes da principal e da subordinada; temporais, condicionais e concessivas antes, finais, consecutivas e interrogativas indiretas depois; o verbo principal dentro da subordinada, com o exemplo de Cícero, Em defesa de Árquias 1; o período e a suspensão do sentido, com o exemplo de César 5.4; evitar a sucessão de verbos)
  • Allen and Greenough's New Latin Grammar, J. H. Allen e J. B. Greenough (no catálogo) · domínio público · § 583 (subordinada no indicativo: fato afirmado pelo autor), §§ 595–599 (ordem das palavras; 596 sujeito primeiro e predicado por último, com a tendência do verbo para o fim), §§ 600–601 (estrutura do período: o sentido suspenso até a última palavra; 601.a sujeito e objeto principais na oração principal; 601.b causa antes do resultado, fim e modo antes do ato; 601.d mudança de sujeito evitada com particípios e subordinadas, com o exemplo de Lívio 4.10)
  • Gramática Latina, Pe. João Ravizza (no catálogo) · domínio público · n. 414 (noção do período: proposições principais e dependentes; tipos de dependentes), n. 415 (o período latino: o latim prefere a subordinação, as línguas modernas a coordenação)
  • César, Commentarii de bello Gallico 1.7.1; 1.12.2; 1.13.2; 5.4.1, Caio Júlio César (no catálogo) · domínio público · edição de T. Rice Holmes (Oxford, 1914) na Perseus Digital Library (1.13), conferida com The Latin Library (https://www.thelatinlibrary.com/caesar/gall1.shtml e gall5.shtml) para todos os trechos; macrons acrescentados
  • Cícero, Pro A. Licinio Archia poeta 1, Marco Túlio Cícero · domínio público · primeira frase do discurso, conferida na Latin Library e na Wikisource latina (https://la.wikisource.org/wiki/Pro_A._Licinio_Archia_poeta), que coincidem; macrons acrescentados
  • Tito Lívio, Ab urbe condita 1.6.4, Tito Lívio (no catálogo) · domínio público · frase conferida na Latin Library e na Wikisource latina (que escreve dii por dī); numeração do parágrafo conferida na tradução da Perseus; macrons acrescentados; análise conferida nos comentários de J. B. Greenough (Livy, Books I and 2.1891) e J. R. Seeley (Livy, Book 1.1871), em domínio público no archive.org
Para ir além
Commentarii de Bello Gallico (seleções), The Gate to Caesar (De Bello Gallico II, simplificado e original), Vita Hannibalis, In Catilinam I, com notas e vocabulário, Ab urbe condita, liber I, Allen and Greenough's New Latin Grammar (edição DCC) (ver Leituras recomendadas acima).