Leitura comentada do exórdio da Primeira Catilinária (In Catilinam I, 1–2): "Quō usque tandem abūtēre, Catilīna, patientiā nostrā?". O contexto de 8 de novembro de 63 a.C., texto da edição Clark, vocabulário e notas, o depoente abūtor com ablativo e o futuro em -ēre, as figuras da oratória (perguntas retóricas, anáfora, trícolon, assíndeto, Ō tempora, ō mōrēs) e a análise de dois períodos.
Neste capítulo você vai
Situar a Primeira Catilinária no seu momento histórico (8 de novembro de 63 a.C.) e reconhecer a função do exórdio.
Ler e traduzir In Catilinam I, 1–2 com apoio das notas.
Explicar abūtēre … patientiā nostrā: depoente composto de ūtor, regência do ablativo e futuro em -ēre.
Identificar e nomear as figuras do trecho (pergunta retórica, anáfora, trícolon, assíndeto, exclamação, correção) e dizer o que cada uma faz no discurso.
Analisar um período ciceroniano com interrogativas indiretas antecipadas e encaixadas numa oração infinitiva.
CíceroCatilináriasleitura comentadaoratóriaexórdioabūtor + ablativofuturo em -ēre (2ª sing. passiva)depoentespergunta retóricaanáforatrícolonassíndetoacusativo de exclamaçãocorreção (immō vērō)iste depreciativogenitivo partitivo (quid cōnsilī, quem nostrum)gerundivo (habendī senātūs)interrogativas indiretas antecipadasvideor pessoaloportēbat + infinitivo presenteperíodo ciceroniano
Antes deste capítulo: Capítulo 39 (o período complexo, que já analisou um período de Cícero), que traz consigo o discurso indireto, a interrogativa indireta e a oração infinitiva (capítulos 28, 35 e 38). Usamos também as figuras de linguagem (capítulo 40), os depoentes (capítulo 25), a 2ª pessoa passiva em -re (capítulo 23), o gerundivo (capítulo 31) e os demonstrativos, inclusive iste (capítulo 15). · capítulo 39 · capítulo 25 · capítulo 35 · capítulo 28
Marco Túlio Cícero (Mārcus Tullius Cicerō, 106–43 a.C.) foi o maior orador de Roma e, para a posteridade, o modelo da prosa latina. Nascido em Arpino, sem antepassados no senado (um homō novus), chegou ao consulado em 63 a.C. graças à advocacia e à palavra. Foi nesse ano que enfrentou Lúcio Sérgio Catilina, nobre arruinado e derrotado nas eleições, que reuniu endividados, veteranos e jovens aristocratas numa conspiração para tomar o poder.
No fim de outubro o senado já havia dado aos cônsules poderes de emergência. Na noite de 6 para 7 de novembro os conjurados se reuniram e combinaram, entre outras coisas, matar Cícero na manhã seguinte; o atentado falhou porque o cônsul fora avisado. No dia 8, Cícero convocou o senado no templo de Júpiter Estator, ao pé do Palatino, sob forte guarda, e Catilina teve a audácia de comparecer. O discurso que lemos começa sem nenhuma das fórmulas de cortesia habituais: Cícero se volta diretamente para o acusado. Na mesma noite, Catilina deixou Roma para juntar-se às suas tropas na Etrúria.
O que temos é a versão escrita, revista e publicada por Cícero alguns anos depois, em 60 a.C., junto com os outros discursos do seu consulado. O começo, conhecido de cor por gerações de estudantes, é um exórdio ex abruptō: em vez de preparar os ouvintes, ataca.
Leia o texto em voz alta, como um discurso: as perguntas pedem entonação de pergunta, e as repetições só funcionam ouvidas.
Texto latino: ed. A. C. Clark (Oxford, 1908), domínio público; macrons deste livro
§
Cícero, In Catilīnam I, 1–2
1
Quō usque tandem abūtēre, Catilīna, patientiā nostrā? Quam diū etiam furor iste tuus nōs ēlūdet? Quem ad fīnem sēsē effrēnāta iactābit audācia? Nihilne tē nocturnum praesidium Palātī, nihil urbis vigiliae, nihil timor populī, nihil concursus bonōrum omnium, nihil hīc mūnītissimus habendī senātūs locus, nihil hōrum ōra voltūsque mōvērunt? Patēre tua cōnsilia nōn sentīs, cōnstrictam iam hōrum omnium scientiā tenērī coniūrātiōnem tuam nōn vidēs? Quid proximā, quid superiōre nocte ēgeris, ubi fueris, quōs convocāveris, quid cōnsilī cēperis, quem nostrum ignōrāre arbitrāris?
2
Ō tempora, ō mōrēs! Senātus haec intellegit, cōnsul videt; hīc tamen vīvit. Vīvit? Immō vērō etiam in senātum venit, fit pūblicī cōnsilī particeps, notat et dēsignat oculīs ad caedem ūnum quemque nostrum. Nōs autem, fortēs virī, satis facere reī pūblicae vidēmur, sī istīus furōrem ac tēla vītāmus. Ad mortem tē, Catilīna, dūcī iussū cōnsulis iam prīdem oportēbat, in tē cōnferrī pestem quam tū in nōs omnīs iam diū māchināris.
Tradução deste livro:
[1] Até quando, afinal, Catilina, abusarás da nossa paciência? Por quanto tempo ainda esse teu furor zombará de nós? Até que limite vai se exibir essa audácia sem freio? Nada te abalaram a guarda noturna do Palatino, nada as sentinelas da cidade, nada o medo do povo, nada a afluência de todos os homens de bem, nada este lugar fortificadíssimo escolhido para a reunião do senado, nada o rosto e o semblante destes que aqui estão? Não percebes que os teus planos estão descobertos, não vês que a tua conjuração já está presa e dominada pelo conhecimento de todos estes? O que fizeste na noite passada, o que na anterior, onde estiveste, quem convocaste, que decisão tomaste: qual de nós julgas que ignora isso?
[2] Ó tempos, ó costumes! O senado sabe destas coisas, o cônsul as vê; e este homem, no entanto, vive. Vive? Mais ainda: vem até ao senado, toma parte no conselho público, marca e aponta com os olhos para a morte cada um de nós. E nós, homens valentes, achamos que cumprimos o nosso dever para com a república se nos esquivamos do furor e das armas desse homem. À morte, Catilina, há muito tempo devias ter sido levado por ordem do cônsul; contra ti devia ter sido lançada a ruína que tu, há tanto tempo, tramas contra todos nós.
Traduzir oratória. A tradução mantém as repetições (nada … nada …) e a ordem das perguntas, mesmo quando o português ficaria mais "limpo" sem elas: neste texto, a forma é o argumento. Onde o latim usa o pronome de desprezo iste, o português pede "esse", com o tom de quem aponta.
nihil como advérbio, "em nada", repetido seis vezes; -ne marca a pergunta. O verbo, no plural, só chega depois dos seis sujeitos.
1
praesidium Palātī
praesidium, "guarda, posto armado"; Palātī, genitivo de Palātium (forma em -ī).
1
concursus bonōrum omnium
concursus, -ūs, "afluência"; bonī, "os homens de bem", termo político: os cidadãos leais à ordem.
1
habendī senātūs locus
"lugar de reunir o senado": gerundivo no genitivo, concordando com senātūs (Bennett § 339.1; capítulo 31). O templo de Júpiter Estator, guardado por tropas: daí mūnītissimus.
1
hōrum ōra voltūsque
hōrum, "destes" (os senadores presentes); voltus = vultus, "expressão do rosto". Cícero aponta para a plateia.
1
patēre tua cōnsilia nōn sentīs
oração infinitiva depois de sentīs (capítulo 28; Bennett § 331): "não percebes que os teus planos estão à vista". Pateō, "estar aberto, descoberto".
1
cōnstrictam … tenērī coniūrātiōnem tuam
outra oração infinitiva, depois de vidēs: "que a tua conjuração está presa, amarrada"; scientiā, ablativo de meio.
1
quid proximā, quid superiōre nocte ēgeris …
quatro interrogativas indiretas no subjuntivo perfeito (ēgeris, fueris, convocāveris, cēperis) que dependem de ignōrāre, no fim (seção 6). Superiōre nocte, "na noite anterior".
1
quid cōnsilī
"que decisão": genitivo partitivo com o neutro quid (Bennett § 201.2, que cita justamente quid cōnsilī).
1
quem nostrum
"qual de nós": nostrum é o genitivo partitivo do pronome (Bennett § 242.2), não o possessivo.
2
Ō tempora, ō mōrēs!
acusativos de exclamação (Bennett § 183; A&G § 397.d): "que tempos, que costumes!"
2
hīc tamen vīvit
hīc, pronome: "este homem". O advérbio hīc, "aqui", tem a mesma grafia; aqui é o pronome, porque é o sujeito de vīvit.
2
immō vērō
"mais ainda, ou melhor": corrige o que veio antes, para mais.
satis faciō + dativo, "cumprir o dever para com"; vidēmur + infinitivo, construção pessoal: "parecemos cumprir", isto é, "achamos que cumprimos" (Bennett § 332; capítulo 28).
2
istīus furōrem ac tēla
istīus, genitivo de iste, de novo com desprezo; tēlum, "arma de arremesso, arma".
2
dūcī … oportēbat
oportet, "é necessário", com oração infinitiva passiva (tē dūcī). O imperfeito oportēbat com infinitivo presente vale "devia ter (sido)" (Bennett § 270.2).
2
iussū cōnsulis
iussū, ablativo de iussus (4ª declinação, só neste caso): "por ordem do cônsul".
2
pestem quam … māchināris
pestis, "peste, ruína"; māchinor (depoente), "tramar"; māchināris, presente, 2ª sing.
A primeira frase do discurso concentra uma lição de morfologia. Abūtor é um verbo depoente (capítulo 25): forma passiva, sentido ativo. É composto de ūtor, "usar", que pede ablativo, e herda essa regência, como os demais compostos dos cinco depoentes com ablativo (ūtor, fruor, fungor, potior, vescor; Bennett § 218.1; A&G § 410). Por isso o "objeto" do abuso está no ablativo: patientiā nostrā, e não patientiam nostram. O prefixo ab- dá a ideia de "usar até gastar", e daí "abusar".
A forma abūtēre é a 2ª pessoa do singular. Como você viu no capítulo 23, a 2ª pessoa singular passiva tem duas terminações, -ris e -re (Bennett § 96), e os depoentes, que se conjugam como passivos, também as têm. Num verbo da 3ª conjugação, o que distingue presente e futuro nessa pessoa é apenas a quantidade da vogal:
Abūtor, 2ª pessoa do singular
Forma
Tempo
Tradução
abūteris / abūtere
presente (vogal breve)
abusas
abūtēris / abūtēre
futuro (vogal longa)
abusarás
abūtēbāris / abūtēbāre
imperfeito
abusavas
abūtere!
imperativo (igual ao presente em -re)
abusa!
Nos manuscritos e nas edições sem macrons, abutere é ambíguo. Por que futuro? Pelo sentido e pelo paralelo: a pergunta seguinte tem ēlūdet e a terceira iactābit, ambos futuros. Cícero não pergunta "até quando abusas", mas "até quando continuarás a abusar": o futuro projeta a paciência do senado, já gasta, para a frente. Bennett registra o padrão nos paradigmas: regēris, or -re no futuro (§ 106).
O trecho tem outros depoentes, todos no presente e na 2ª pessoa com -ris: arbitrāris ("julgas", de arbitror) e māchināris ("tramas", de māchinor). Compare as três formas lado a lado e note que a terminação -ris ou -re, num verbo depoente, nunca é passiva no sentido.
A Primeira Catilinária é o texto escolar clássico para estudar as figuras da oratória porque as usa todas de uma vez e com função clara: isolar Catilina, mostrar que ele foi descoberto e envergonhar o próprio senado pela inércia. O capítulo 40 apresentou as principais figuras; aqui elas aparecem em ação. Nas gramáticas de referência, Bennett trata da anáfora e do hipérbato entre os recursos de ênfase (§ 350.11), do assíndeto no § 346 e de outras figuras nos §§ 374–375; A&G registra a anáfora no § 598.f. O trícolon e a correção não têm parágrafo próprio nessas gramáticas: os nomes são os da tradição retórica escolar, e as definições, as mais simples possíveis.
Figuras de In Catilinam I, 1–2
Figura
Onde
O que faz
Pergunta retórica: pergunta que não espera resposta, porque a resposta é óbvia
Quō usque tandem…? Quam diū…? Quem ad fīnem…?
acusa sem afirmar: obriga o ouvinte (e o acusado) a responder mentalmente "basta".
Trícolon: três membros paralelos
as três perguntas iniciais
diz a mesma coisa três vezes com palavras diferentes (quō usque, quam diū, quem ad fīnem; patientia, furor, audācia), martelando a ideia.
Anáfora: a mesma palavra no início de membros sucessivos
nihil … nihil … nihil … (seis vezes); quid … quid …
enumera todas as defesas da cidade, do mais distante (o Palatino) ao mais próximo (o rosto dos senadores), em gradação.
Assíndeto: coordenação sem conjunção
Senātus haec intellegit, cōnsul videt; hīc tamen vīvit.
frases curtas, secas, em sequência rápida (Bennett § 346).
Exclamação
Ō tempora, ō mōrēs!
interrompe a argumentação com indignação; gramaticalmente, acusativo de exclamação.
Correção (lat. correctiō): retomar uma palavra para corrigi-la, em geral para mais
Vīvit? Immō vērō etiam in senātum venit…
faz a indignação crescer: não só vive, como vem ao senado, e não só vem, como marca as vítimas.
Antítese
Nōs autem fortēs virī … × tū; in tē × in nōs
opõe a passividade dos senadores (com ironia em fortēs virī) à ação de Catilina; a pena que deveria cair in tē é a que ele trama in nōs.
A ordem das palavras também é retórica. O latim põe no início o que quer destacar (Bennett § 349; A&G § 598): Ad mortem tē, Catilīna, dūcī … oportēbat abre com "à morte"; e na terceira pergunta o sujeito audācia é guardado para o fim, depois de sēsē effrēnāta iactābit, como um golpe final. Observe ainda o uso dos demonstrativos: hīc e hōrum apontam para o que está diante de todos (o lugar, os senadores); iste e istīus apontam para Catilina, com desprezo.
Nihilne tē nocturnum praesidium Palātī, nihil urbis vigiliae, nihil timor populī …
Nada te abalaram a guarda noturna do Palatino, nada as sentinelas da cidade, nada o medo do povo… (anáfora em gradação)
A&G (§ 600) define o período como a frase em que "o sentido é expresso pelo todo e fica em suspenso até a última palavra". O capítulo 39 ensinou a ler esses períodos: identificar o verbo principal (muitas vezes no fim), separar as subordinadas, ver de que cada uma depende. A última pergunta do § 1 é um exemplo perfeito, porque o que vem primeiro depende do que vem por último.
Quid proximā, quid superiōre nocte ēgeris, ubi fueris, quōs convocāveris, quid cōnsilī cēperis, quem nostrum ignōrāre arbitrāris?
O que fizeste na noite passada, o que na anterior, onde estiveste, quem convocaste, que decisão tomaste: qual de nós julgas que ignora isso?
Três níveis: as interrogativas indiretas dependem de ignōrāre, que é o infinitivo de uma oração infinitiva dependente de arbitrāris.
Leia de trás para a frente para entender, e de frente para trás para sentir. O verbo principal é arbitrāris, "julgas", que pede uma oração infinitiva (capítulo 28): o seu sujeito no acusativo é quem (interrogativo: "quem … julgas que ignora?"), especificado pelo partitivo nostrum, e o seu verbo é ignōrāre. O objeto de ignōrāre são as quatro interrogativas indiretas (capítulo 35), no subjuntivo perfeito porque o verbo de que dependem está no presente (sequência primária) e os fatos são anteriores. Cícero as põe todas na frente, em anáfora, como uma lista de acusações; só a última linha revela que a pergunta é outra: "quem de nós não sabe?". O efeito é dizer a Catilina, sem afirmá-lo, que tudo foi descoberto.
O outro grande período do trecho fecha o § 2. Aqui a dificuldade é diferente: um verbo impessoal (oportēbat) com duas orações infinitivas passivas coordenadas sem conjunção.
In Catilinam I, 2 (final), palavra a palavra
Palavra
Dicionário
Análise
Função
Ad mortem
ad (prep. + ac.); mors, mortis (f.), morte
acusativo singular
direção: "à morte"; posto em destaque no início
tē
tū, tuī
acusativo singular
sujeito do infinitivo dūcī
Catilīna
Catilīna, -ae (m.)
vocativo
chamamento
dūcī
dūcō, -ere, dūxī, ductum, levar
infinitivo presente passivo
verbo da 1ª oração infinitiva
iussū
iussus, -ūs (m.), ordem (só no ablativo)
ablativo singular
causa: "por ordem"
cōnsulis
cōnsul, -is (m.)
genitivo singular
complemento de iussū
iam prīdem
advérbios
invariáveis
"já há muito tempo"
oportēbat
oportet, -ēre, oportuit (impessoal), é preciso
imperfeito do indicativo, 3ª sing.
verbo principal; com infinitivo presente = "devia ter (sido)"
in tē
in (prep. + ac.); tū
acusativo
direção hostil: "contra ti"
cōnferrī
cōnferō, -ferre, -tulī, collātum, lançar, dirigir
infinitivo presente passivo
verbo da 2ª oração infinitiva (assíndeto)
pestem
pestis, -is (f.), ruína, peste
acusativo singular
sujeito de cōnferrī; antecedente de quam
quam
quī, quae, quod
acusativo singular feminino
objeto de māchināris
tū
tū
nominativo
sujeito de māchināris, expresso por contraste (tē × tū)
in nōs omnīs
in; nōs; omnis, -e
acusativo plural (omnīs = omnēs)
"contra todos nós"
iam diū
advérbios
invariáveis
"há tanto tempo"
māchināris
māchinor, -ārī, māchinātus sum (depoente), tramar
presente do indicativo, 2ª sing.
verbo da relativa
Repare na simetria: ad mortem tē … dūcī / in tē cōnferrī pestem; e na volta final, em que a ruína que Catilina prepara in nōs omnīs deveria cair in tē. Para o tempo verbal, siga Bennett § 270.2: o latim usa o passado de oportet (ou de dēbeō, possum) com o infinitivo presente onde o português diz "devia ter sido".
Por quê, e como evitar:Abūtor é depoente: o infinitivo é abūtī. A forma em -ēre é a 2ª pessoa do singular (futuro), alternativa a abūtēris. O vocativo Catilīna logo depois confirma que Cícero fala com alguém: "tu abusarás".
Erro: Tomar patientiā nostrā como sujeito.
Por quê, e como evitar: É ablativo (-ā longo), regido por abūtor. Em português o complemento vem com "de" ("abusar da paciência"), mas em latim não há preposição: a regência está no verbo.
Erro: Traduzir Quid … ēgeris, ubi fueris … como perguntas diretas.
Por quê, e como evitar: O subjuntivo perfeito mostra que são interrogativas indiretas, que dependem de ignōrāre no fim do período. Pontuar como perguntas soltas ("O que fizeste? Onde estiveste?") é aceitável numa tradução livre, mas a análise precisa reconhecer a dependência.
Erro: Ler quem nostrum como "quem nosso" ou nostrum como possessivo.
Por quê, e como evitar:Nostrum aqui é genitivo partitivo do pronome nōs (Bennett § 242.2): "qual de nós". O possessivo neutro nostrum concordaria com um nome neutro, que não existe na frase.
Erro: Traduzir oportēbat por "devia" no presente ou por "era preciso" sem consequência.
Por quê, e como evitar:Iam prīdem oportēbat + infinitivo presente refere-se a algo que deveria ter acontecido e não aconteceu: "há muito tempo devias ter sido levado" (Bennett § 270.2).
Erro: Ler hīc como o advérbio "aqui" em hīc tamen vīvit.
Por quê, e como evitar: O pronome hīc e o advérbio hīc têm a mesma grafia, e só a construção os distingue. Em hīc tamen vīvit, a palavra é sujeito de vīvit: "este homem vive"; o advérbio "aqui" não pode ser sujeito. No § 1, hīc … locus também é o pronome, concordando com locus.
Resolvida passo a passo: leia a pergunta, tente responder e só então abra cada passo.
Prática guiada 1 · Nihilne … mōvērunt
Analise o período Nihilne tē nocturnum praesidium Palātī, nihil urbis vigiliae, nihil timor populī, nihil concursus bonōrum omnium, nihil hīc mūnītissimus habendī senātūs locus, nihil hōrum ōra voltūsque mōvērunt?
Onde está o verbo e em que número?Ver o passo
No fim: mōvērunt, perfeito de moveō, 3ª pessoa do plural. É plural porque tem vários sujeitos coordenados.
Quais são os sujeitos?Ver o passo
Seis grupos no nominativo: praesidium, vigiliae, timor, concursus, locus, ōra voltūsque. Cada um vem precedido de nihil.
Qual é o objeto?Ver o passo
Tē, acusativo, logo no início: "a ti". Catilina é o alvo de tudo o que segue.
E nihil? É sujeito?Ver o passo
Não: os sujeitos já estão preenchidos e o verbo tem objeto (tē). Nihil funciona como advérbio, "em nada" (Bennett § 176.2.b). O -ne do primeiro nihil faz da frase uma pergunta retórica.
Monte a tradução.Ver o passo
"Nada te abalaram a guarda noturna do Palatino, as sentinelas da cidade, o medo do povo, a afluência de todos os homens de bem, este lugar fortificadíssimo de reunião do senado, o rosto e o semblante destes que aqui estão?" Para manter a anáfora: "Nada te abalou a guarda…, nada as sentinelas…, nada…".
A gradação vai de fora para dentro: das guardas da cidade até os rostos dos senadores que Catilina tem diante de si naquele momento.
Faça por escrito ou em voz alta; abra "Ver resposta" só depois de tentar. A explicação da resposta faz parte da lição.
Exercício 1 · Compreensão
Responda em português.
Que elementos do § 1 mostram que o senado estava reunido num lugar protegido?Ver resposta
Nocturnum praesidium Palātī, urbis vigiliae e hīc mūnītissimus habendī senātūs locus: a sessão ocorria sob guarda armada, num templo escolhido por ser defensável.
O que Cícero diz saber a respeito de Catilina?Ver resposta
O que ele fez nas duas últimas noites, onde esteve, quem reuniu e o que decidiu (quid proximā, quid superiōre nocte ēgeris…): a reunião dos conjurados foi descoberta.
Qual é a crítica que Cícero faz ao próprio senado no § 2?Ver resposta
Que os senadores, "homens valentes" (com ironia), se contentam em esquivar-se do furor de Catilina em vez de puni-lo (satis facere reī pūblicae vidēmur, sī istīus furōrem ac tēla vītāmus).
Que pena Cícero diz que Catilina já merecia?Ver resposta
A morte, por ordem do cônsul (ad mortem tē … dūcī iussū cōnsulis … oportēbat).
Exercício 2 · Morfologia
Identifique a forma e dê o verbete.
abūtēreVer resposta
Futuro do indicativo, 2ª sing., do depoente abūtor, abūtī, abūsus sum; variante de abūtēris.
iactābitVer resposta
Futuro do indicativo ativo, 3ª sing.; iactō, -āre, "agitar, lançar".
mōvēruntVer resposta
Perfeito do indicativo ativo, 3ª pl.; moveō, -ēre, mōvī, mōtum.
cēperisVer resposta
Perfeito do subjuntivo ativo, 2ª sing.; capiō, -ere, cēpī, captum. Subjuntivo de interrogativa indireta.
arbitrārisVer resposta
Presente do indicativo, 2ª sing., do depoente arbitror, -ārī, arbitrātus sum, "julgar".
vidēmurVer resposta
Presente do indicativo passivo, 1ª pl., de videō; na construção pessoal, "parecemos".
Exercício 3 · Sintaxe
Explique a construção destacada.
abūtēre … patientiā nostrāVer resposta
Ablativo regido por abūtor, composto de ūtor (Bennett § 218.1; A&G § 410).
Ō tempora, ō mōrēs!Ver resposta
Acusativos de exclamação (Bennett § 183): nomes no acusativo, com ō, exprimindo indignação.
nihil hīc mūnītissimus habendī senātūs locusVer resposta
Gerundivo no genitivo concordando com senātūs, em lugar do gerúndio com objeto (habendī senātum): "lugar de reunir o senado" (Bennett § 339.1).
Patēre tua cōnsilia nōn sentīsVer resposta
Oração infinitiva objeto de sentīs: sujeito cōnsilia (acusativo neutro plural), verbo patēre (Bennett § 331).
Nōs … satis facere reī pūblicae vidēmurVer resposta
Construção pessoal de videor com infinitivo (Bennett § 332): o sujeito de vidēmur é o mesmo do infinitivo. Em português: "achamos que cumprimos" ou "parece que cumprimos".
Exercício 4 · Retórica
Nomeie a figura e diga o efeito.
Quō usque tandem…? Quam diū etiam…? Quem ad fīnem…?Ver resposta
Trícolon de perguntas retóricas: três perguntas paralelas que dizem quase a mesma coisa e não esperam resposta; insistem na impaciência.
Senātus haec intellegit, cōnsul videt; hīc tamen vīvit.Ver resposta
Assíndeto: três orações curtas sem conjunção, com tamen marcando o contraste final. Efeito de secura e escândalo.
Vīvit? Immō vērō etiam in senātum venit.Ver resposta
Correção: Cícero retoma vīvit em forma de pergunta e o corrige para mais, aumentando a indignação.
in tē cōnferrī pestem quam tū in nōs omnīs … māchinārisVer resposta
Antítese (in tē × in nōs; tē × tū): a ruína tramada por Catilina deveria voltar-se contra ele.
Exercício 5 · Retroversão
Passe para o latim, imitando Cícero. Vocabulário: tempus, -oris (n.), tempo; Mārcus; audācia; nōscō, -ere, conhecer (perf. nōvī, "sei").
Até quando, Marco, abusarás do nosso tempo?Ver resposta
Quō usque tandem, Mārce, tempore nostrō abūtēre? (ou abūtēris). Ablativo com abūtor; vocativo Mārce.
Ó audácia!Ver resposta
Ō audāciam! Acusativo de exclamação.
Qual de nós não sabe onde estiveste?Ver resposta
Quis nostrum nōn nōvit ubi fueris?Nostrum partitivo; interrogativa indireta com subjuntivo perfeito, em sequência primária (nōvit tem valor de presente).
Leituras recomendadas
Para continuar o discurso, a edição escolar de Henderson traz notas e vocabulário completo; depois, as quatro Catilinárias no Perseus (texto de Clark, o deste capítulo). A Conjuração de Catilina de Salústio conta os mesmos fatos do ponto de vista de um historiador, em estilo oposto ao de Cícero: breve, arcaizante, sem períodos longos. Para outras amostras de oratória com apoio completo, o DCC tem as Verrinas (episódio de Lâmpsaco) e o discurso sobre o comando de Pompeu.
Etapa V · Auctores RomaniDificuldade 4 · AvançadoOriginalCom notas
In Catilinam I, com notas e vocabulário
Marcus Tullius Cicero (ed. John Henderson)
A Primeira Catilinária em edição escolar com introdução, notas em inglês e vocabulário completo. A maneira mais apoiada de ler o discurso mais famoso de Cícero; depois, siga para as outras três no Perseus.
Oratória · Clássico · uma ou duas semanas · Project Gutenberg
Etapa V · Auctores RomaniDificuldade 4 · AvançadoOriginalCom notasTexto na biblioteca
In Catilinam I–IV
Marcus Tullius Cicero
As quatro Catilinárias completas (edição Clark, 1908), o discurso mais lido de Cícero ("Quo usque tandem abutere, Catilina, patientia nostra?"). Sem notas; cada palavra abre a análise morfológica e o dicionário. EPUB (edição diferente) no Project Gutenberg.
Oratória · Clássico · algumas semanas · Perseus Digital Library
Ler aqui: texto latino da edição de Albert Curtis Clark (1908)
Etapa V · Auctores RomaniDificuldade 4 · AvançadoOriginalCom notasTexto na biblioteca
Bellum Catilinae
Gaius Sallustius Crispus
A Conjuração de Catilina completa (edição Ahlberg, 1919), sem notas. Monografia curta, de estilo arcaizante e sentencioso; combina bem com as Catilinárias de Cícero sobre os mesmos fatos. EPUB com notas em inglês (edição Schmitz e Zumpt) no Project Gutenberg.
Historiografia · Clássico · algumas semanas · Perseus Digital Library
Ler aqui: texto latino da edição de Axel W. Ahlberg (1919)
Etapa V · Auctores RomaniDificuldade 4 · AvançadoOriginal ÁudioCom notas
In Verrem II.1, 53–86
Marcus Tullius Cicero
O episódio de Lâmpsaco das Verrinas, com macrons, vocabulário, comentário, perguntas e áudio. Narrativa forense vívida; mais fácil que a Segunda Filípica.
Oratória · Clássico · algumas semanas · Dickinson College Commentaries
Etapa V · Auctores RomaniDificuldade 4 · AvançadoOriginal ÁudioCom notas
De Imperio Cn. Pompei, 27–49
Marcus Tullius Cicero
O elogio de Pompeu como general (sections 27–49), com vocabulário completo, comentário, resumos, perguntas e tradução. A melhor introdução à oratória de Cícero: períodos longos, mas tudo explicado passo a passo. PDF gratuito na Open Book Publishers.
Oratória · Clássico · algumas semanas · Dickinson College Commentaries
Cícero, In Catilinam I (The Latin Library) (no catálogo) · domínio público · segunda conferência: lê vītēmus por vītāmus e cōnsiliī por cōnsilī, e põe entre colchetes [omnēs iam diū]
New Latin Grammar, Charles E. Bennett (no catálogo) · domínio público · § 96 (terminação -re da 2ª sing. passiva), § 106 (futuro regēris ou -re), § 113 (depoentes), § 176.2.b (nihil como acusativo interno), § 183 (acusativo de exclamação: Ō fallācem spem), § 201.2 (genitivo partitivo com neutros: quid cōnsilī), § 218.1 (ūtor e compostos com ablativo), § 242.2 (nostrum como genitivo partitivo), § 246.4 (iste com desprezo), § 270.2 (oportēbat + infinitivo presente: "devia ter"), § 300 (interrogativa indireta), § 331 (acusativo com infinitivo depois de sentiō, videō, arbitror), § 332 (videor pessoal), § 339.1 (gerundivo em lugar do gerúndio com objeto), § 346 (assíndeto), § 349 (ordem enfática), § 350.11 (anáfora e hipérbato como recursos de ênfase)
Allen and Greenough's New Latin Grammar, J. H. Allen e J. B. Greenough (no catálogo) · domínio público · § 190 (depoentes), § 397.d (acusativo em exclamações), § 410 e notas (ūtor, fruor, fungor, potior, vescor e compostos com ablativo; origem instrumental; acusativo no latim arcaico), §§ 573–574 (interrogativa indireta), § 598 (ordem das palavras e ênfase; 598.f anáfora e quiasmo), §§ 600–601 (estrutura do período)
Gramática Latina, Pe. João Ravizza (no catálogo) · domínio público · nn. 484–490 (discurso direto e indireto; as subordinadas no subjuntivo), úteis para as interrogativas indiretas do § 1