Leitura comentada do começo das Metamorfoses de Ovídio: o proêmio (1,1–4), o Caos (1,5–20) e a separação dos elementos (1,21–31), no texto de Hugo Magnus (1892). Vocabulário e notas, escansão do hexâmetro em tabelas, particípios e gerúndio no verso, figuras (antítese, lítotes, hipérbato, metonímia dos nomes divinos), comparação com o Gênesis, análise palavra a palavra, exercícios e tradução própria.
Neste capítulo você vai
Situar Ovídio e as Metamorfoses e explicar o programa do poema a partir do proêmio (1,1–4).
Ler e traduzir Metamorfoses 1,5–31 com o vocabulário e as notas, reconhecendo os particípios, o gerúndio e os ablativos que estruturam a descrição.
Escandir hexâmetros datílicos, marcando elisões, dáctilos, espondeus e a cesura principal, e usar a métrica para decidir casos (nātūra nominativo × nātūrā ablativo).
Reconhecer antítese, lítotes, hipérbato e a metonímia dos nomes divinos, e explicar como elas desenham o Caos e a ordem.
Comparar a cosmogonia de Ovídio com o começo do Gênesis, identificando semelhanças de quadro e diferenças de concepção.
OvídioMetamorfosesproêmioCaoscriação do mundoos quatro elementoshexâmetro datílicoescansãocesura pentemímeraelisãoquantidade das palavras gregas (āēr, aethēr)perfeito em -ēreperfeitos sincopadosparticípio conjuntoparticípio × ablativo absolutogerúndio no ablativoablativo de comparaçãoablativo de limitaçãoantíteselítoteshipérbatometonímiaGênesis 1 e Metamorfoses 1leitura comentadaanálise de frase autêntica
Antes deste capítulo: Capítulo 30 (o ablativo absoluto e, com ele, a leitura dos particípios do capítulo 29) e capítulo 40 (quantidade, pés, elisão, o hexâmetro e as figuras). O capítulo 45 já treinou a leitura de poesia com escansão; aqui o metro é o hexâmetro narrativo. Ajudam também os capítulos 18 (ablativo de comparação) e 31 (gerúndio). · capítulo 30 · capítulo 40 · capítulo 29 · capítulo 45 · capítulo 18 · capítulo 31
Públio Ovídio Nasão (Pūblius Ovidius Nāsō, 43 a.C.–c. 17 d.C.), nascido em Sulmona, no centro da Itália, foi o poeta mais fecundo e mais lido da época de Augusto. Começou com poesia amorosa em dísticos elegíacos (os Amōrēs), escreveu cartas fictícias de heroínas, um poema sobre o calendário romano e, por volta dos cinquenta anos, a sua obra maior, as Metamorfoses. Em 8 d.C., por razões que ele mesmo chama de "um poema e um erro", Augusto o exilou em Tomis, à beira do mar Negro, onde morreu sem ter sido chamado de volta.
As Metamorfoses são quinze livros de hexâmetros, quase doze mil versos, que encadeiam umas duzentas e cinquenta histórias de transformação: deuses e homens mudados em árvores, pedras, animais, fontes e estrelas. O fio que as une é o tempo, da criação do mundo até a época do próprio poeta. Para a Idade Média e o Renascimento, o poema foi o grande manual da mitologia clássica, e é por ele que muita gente conhece Dafne, Narciso, Píramo e Tisbe ou Orfeu. Este capítulo lê o começo: os quatro versos do proêmio e a descrição do Caos e da sua ordenação. O texto é o da edição de Hugo Magnus (1892), conferido na Perseus Digital Library; os macrons são nossos, e as traduções também.
In nova fert animus mūtātās dīcere fōrmās corpora; dī, coeptīs (nam vōs mūtāstis et illās) adspīrāte meīs prīmāque ab orīgine mundī ad mea perpetuum dēdūcite tempora carmen.
O ânimo me leva a cantar as formas mudadas em novos / corpos; deuses, (pois vós também as mudastes) aos meus começos / sede propícios e, desde a primeira origem do mundo / até os meus tempos, conduzi um canto contínuo. (Tradução nossa.)
Quatro versos bastam para o programa. O assunto: mūtātās … fōrmās, "as formas mudadas", com o hipérbato que abraça o verso inteiro e o enjambement de corpora, que só aparece no verso seguinte, como se as palavras também se transformassem. Os deuses são invocados porque eles mesmos são os autores das transformações: nam vōs mūtāstis et illās, "pois também a elas (as formas) vós mudastes"; mūtāstis é a forma sincopada de mūtāvistis (Bennett § 116.1). O plano: prīmā ab orīgine mundī / ad mea … tempora, da origem do mundo até hoje. E o gênero: perpetuum carmen, "um canto contínuo", sem interrupção, isto é, um poema longo em hexâmetros, o verso da epopeia.
Ovídio descreve o estado anterior ao mundo em dezesseis versos, e quase todos dizem o que ainda não havia. O procedimento é a negação acumulada (nec … nec … nec): sem sol, sem lua, sem terra suspensa, sem mar com margens. Leia o trecho inteiro antes de entrar nas notas:
Ante mare et terrās et quod tegit omnia caelum (5) ūnus erat tōtō nātūrae vultus in orbe, quem dīxēre chaos: rudis indīgestaque mōlēs nec quicquam nisi pondus iners congestaque eōdem nōn bene iūnctārum discordia sēmina rērum. nūllus adhūc mundō praebēbat lūmina Tītān, (10) nec nova crēscendō reparābat cornua Phoebē, nec circumfūsō pendēbat in āere tellūs ponderibus lībrāta suīs, nec bracchia longō margine terrārum porrēxerat Amphitrītē; utque āēr, tellūs illīc et pontus et aethēr. (15) Sīc erat īnstabilis tellūs, innābilis unda, lūcis egēns āēr: nūllī sua fōrma manēbat, obstābatque aliīs aliud, quia corpore in ūnō frīgida pugnābant calidīs, ūmentia siccīs, mollia cum dūrīs, sine pondere habentia pondus. (20)
Antes do mar, das terras e do céu que cobre todas as coisas, / havia em todo o universo uma só face da natureza, / a que chamaram Caos: massa bruta e desordenada, / nada mais que um peso inerte, e, amontoadas no mesmo lugar, / as sementes discordantes de coisas mal unidas. / Nenhum Titã dava ainda luz ao mundo, / nem Febe, crescendo, renovava os seus chifres novos, / nem a terra pendia no ar derramado à sua volta, / equilibrada pelo próprio peso, nem os braços, ao longo da extensa / margem das terras, Anfitrite tinha estendido; / e, assim como o ar, estavam ali a terra, o mar e o éter. / Assim, a terra era instável, a água impossível de nadar, / o ar privado de luz: nenhuma coisa conservava a sua forma, / e uma coisa se opunha às outras, porque num só corpo / o frio lutava com o quente, o úmido com o seco, / o mole com o duro, o que não tem peso com o que tem peso. (Tradução nossa, literal; as barras marcam o fim dos versos latinos.)
Vocabulário e notas: Metamorfoses 1,5–20
v.
Palavra
Dicionário
Sentido e nota
5
ante
preposição + acusativo
antes de; rege mare, terrās e caelum
5
quod tegit omnia
tegō, -ere, tēxī, tēctum
"que cobre todas as coisas": oração relativa que antecipa o seu antecedente, caelum
6
vultus
vultus, -ūs (m.)
rosto, face, aspecto; sujeito de erat
6
tōtō … in orbe
tōtus, -a, -um; orbis, -is (m.)
"em todo o orbe", em todo o universo; hipérbato
7
dīxēre
dīcō, -ere, dīxī, dictum
= dīxērunt, 3ª pl. do perfeito (Bennett § 101): "chamaram", sujeito indeterminado
7
chaos
chaos (n., palavra grega)
Caos, o "abismo, vazio"; aqui, a massa informe
7
rudis indīgestaque mōlēs
rudis, -e; indīgestus, -a, -um; mōlēs, -is (f.)
"massa bruta e não ordenada": aposto de chaos
8
nec quicquam nisi
quisquam, quicquam
"e nada senão": nec quicquam = et nihil
8
pondus iners
pondus, -eris (n.); iners, inertis
"peso inerte, sem movimento"
8
congesta … eōdem
congerō, -ere, -gessī, -gestum; eōdem (adv.)
"amontoadas no mesmo lugar"; particípio perfeito, concorda com sēmina
9
nōn bene iūnctārum … rērum
iungō, -ere, iūnxī, iūnctum
"de coisas mal unidas": particípio no genitivo plural; nōn bene é lítotes
9
discordia sēmina
discors, -cordis; sēmen, -inis (n.)
"sementes discordantes": nom. pl. neutro, sujeito (com pondus) do erat subentendido
10
Tītān
Tītān, -ānis (m.)
o Titã, isto é, o Sol (filho do titã Hiperíon); metonímia
10
praebēbat lūmina
praebeō, -ēre; lūmen, -inis (n.)
"oferecia as luzes", dava luz; imperfeito
11
crēscendō
crēscō, -ere, crēvī
gerúndio no ablativo: "crescendo", "pelo crescimento" (capítulo 31)
11
reparābat cornua Phoebē
reparō, -āre; cornū, -ūs (n.); Phoebē, -ēs (f.)
"Febe (a Lua) renovava os chifres": os "chifres" são as pontas do crescente
12
circumfūsō … in āere
circumfundō, -ere, -fūdī, -fūsum; āēr, āeris (m.)
"no ar derramado à volta"; in + ablativo, não ablativo absoluto
12
pendēbat
pendeō, -ēre
estar suspenso, pender
12
tellūs
tellūs, -ūris (f.)
a terra (palavra poética, sinônimo de terra)
13
ponderibus lībrāta suīs
lībrō, -āre
"equilibrada pelo próprio peso": particípio perfeito + ablativo de meio; o plural ponderibus é poético
13–14
bracchia … porrēxerat
bracchium, -ī (n.); porrigō, -ere, -rēxī, -rēctum
"tinha estendido os braços": mais-que-perfeito
14
margine
margō, -inis (m.)
margem, borda; longō … margine, "ao longo da extensa margem" (hipérbato)
14
Amphitrītē
Amphitrītē, -ēs (f.)
deusa do mar, esposa de Netuno; por metonímia, o próprio mar
15
pontus; aethēr
pontus, -ī (m.); aethēr, -eris (m.)
o mar (palavra poética); o éter, o ar puro e luminoso das alturas
16
īnstabilis; innābilis
adjetivos em -bilis
"instável" (onde não se pode ficar de pé); "impossível de nadar"
17
lūcis egēns
egeō, -ēre (+ gen. ou abl.)
"carente de luz": particípio presente com genitivo
17
nūllī sua fōrma manēbat
maneō, -ēre
"a nenhuma coisa permanecia a sua forma": nūllī é dativo
18
obstābat aliīs aliud
obstō, -āre (+ dat.); alius, -a, -ud
"uma coisa se opunha às outras"
18
corpore in ūnō
corpus, -oris (n.)
"num só corpo": a preposição vem depois do primeiro nome (anástrofe)
19–20
frīgida … calidīs; ūmentia … siccīs; mollia cum dūrīs
frīgidus, calidus, ūmēns, siccus, mollis, dūrus
adjetivos neutros plurais substantivados: "as coisas frias" lutavam "com as quentes"; dativo com verbo de luta, construção dos poetas (Bennett § 358.3: contendis Homērō) e, no fim, cum + ablativo
20
sine pondere habentia pondus
habeō, -ēre
"as coisas sem peso com as que têm peso": sine pondere funciona como substantivo; habentia é particípio presente neutro plural
Notas de leitura
Versos 5–9. O primeiro período é uma frase só: ante mare … ūnus erat … vultus, "antes do mar … havia uma única face". O sujeito, vultus, vem só no fim do verso 6, separado do seu adjetivo ūnus; tōtō … in orbe faz o mesmo. Em seguida, três apostos redefinem a coisa: chaos, rudis indīgestaque mōlēs, pondus iners, discordia sēmina. A expressão nōn bene iūnctārum é uma lítotes, a afirmação de uma ideia pela negação do contrário (Bennett § 375.1): "não bem unidas" = mal unidas, desunidas.
Versos 10–14. Ovídio dá aos elementos os nomes dos deuses que os presidem: o Sol é Tītān, a Lua é Phoebē, o mar é Amphitrītē. É uma metonímia (o deus pela coisa), muito frequente na poesia, e o leitor precisa reconhecê-la para não procurar personagens onde há só sol, lua e mar. As imagens são precisas: a lua "renova os chifres" a cada mês, crescendo (crēscendō, gerúndio de meio); a terra "pende" no ar, "equilibrada pelo próprio peso"; o mar "estende os braços" ao longo das costas.
Versos 15–20. O verso 15, na edição de Magnus, diz que o ar, a terra, o mar e o éter estavam todos "ali" (illīc), no mesmo lugar; daí a conclusão do verso 16, sīc, "assim": uma terra onde não se pisa, uma água onde não se nada, um ar sem luz. Os versos 19–20 fecham com uma série de antíteses em pares, frio e quente, úmido e seco, mole e duro, leve e pesado, que são as qualidades com que a física antiga descrevia os elementos. O último par é quase um paradoxo: sine pondere habentia pondus.
No verso 21, de repente, aparece um agente: deus et melior … nātūra, "um deus e uma natureza melhor". Ovídio não diz que deus é, e mais adiante (v. 32) o chamará de quisquis fuit ille deōrum, "quem quer que tenha sido aquele dos deuses". O que importa é a ação, contada numa sequência de perfeitos: separou, apartou, desembaraçou, tirou, uniu.
Hanc deus et melior lītem nātūra dirēmit. Nam caelō terrās et terrīs abscidit undās, et liquidum spissō sēcrēvit ab āere caelum. Quae postquam ēvolvit caecōque exēmit acervō, dissociāta locīs concordī pāce ligāvit. (25) Ignea convexī vīs et sine pondere caelī ēmicuit summāque locum sibi fēcit in arce: proximus est āēr illī levitāte locōque: dēnsior hīs tellūs, elementaque grandia trāxit et pressa est gravitāte suā: circumfluus ūmor (30) ultima possēdit solidumque coercuit orbem.
Esta discórdia, um deus e uma natureza melhor a resolveram. / Pois separou do céu as terras e das terras as águas, / e apartou do ar espesso o céu límpido. / Depois que os desembaraçou e os tirou do montão cego, / uniu-os, separados nos seus lugares, por uma paz concorde. / A força ígnea e sem peso do céu convexo / lançou-se para o alto e fez para si um lugar na cidadela mais elevada; / o ar é o mais próximo dele em leveza e em lugar; / mais densa que estes, a terra arrastou consigo os elementos pesados / e ficou comprimida pelo próprio peso; a água que corre em volta / ocupou os lugares extremos e encerrou o orbe sólido. (Tradução nossa.)
Vocabulário e notas: Metamorfoses 1,21–31
v.
Palavra
Dicionário
Sentido e nota
21
hanc … lītem
līs, lītis (f.)
"esta disputa", a luta descrita nos vv. 18–20; acusativo, com hipérbato
21
dirēmit
dirimō, -ere, dirēmī, dirēmptum
separar, resolver (uma disputa); o verbo concorda com o sujeito mais próximo, nātūra
22
abscidit
abscindō, -ere, abscidī, abscissum
arrancar, separar; o i breve (o metro o exige) mostra que vem de abscindō, não de abscīdō
22
caelō terrās et terrīs … undās
caelum, terra, unda
ablativos de separação sem preposição: "do céu as terras, e das terras as águas"
23
liquidum … caelum
liquidus, -a, -um
"o céu límpido", isto é, o éter, separado do ar mais denso
23
spissō … ab āere
spissus, -a, -um
"do ar espesso"
23
sēcrēvit
sēcernō, -ere, sēcrēvī, sēcrētum
separar, pôr à parte
24
quae
quī, quae, quod
relativo de ligação: "e estas coisas", neutro plural (os elementos)
24
ēvolvit
ēvolvō, -ere, ēvolvī
desenrolar, desembaraçar
24
caecō … acervō
caecus, -a, -um; acervus, -ī (m.)
"do montão cego (escuro)": ablativo de separação com exēmit
24
exēmit
eximō, -ere, exēmī, exēmptum
tirar para fora
25
dissociāta locīs
dissociō, -āre; locus, -ī (m.)
"separados nos (seus) lugares": particípio perfeito neutro plural, concorda com quae
25
concordī pāce ligāvit
concors, -cordis; pāx, pācis (f.); ligō, -āre
"uniu numa paz concorde": ablativo de meio
26
ignea … vīs
igneus, -a, -um; vīs (f.)
"a força ígnea", o fogo, o mais leve dos elementos
26
convexī … caelī
convexus, -a, -um
"do céu convexo (em forma de abóbada)"; hipérbato que abraça o verso
27
ēmicuit
ēmicō, -āre, ēmicuī
lançar-se, saltar para fora (como a chama)
27
summā … in arce
summus, -a, -um; arx, arcis (f.)
"no alto da cidadela", no ponto mais elevado
28
proximus … illī
proximus, -a, -um (+ dat.)
"o mais próximo dele (do fogo)"
28
levitāte locōque
levitās, -ātis (f.); locus
ablativos de limitação: "em leveza e em lugar"
29
dēnsior hīs
dēnsus, -a, -um; comparativo
"mais densa que estes": hīs é ablativo de comparação (capítulo 18)
29
elementa grandia
elementum, -ī (n.); grandis, -e
"os elementos pesados (grosseiros)"
30
pressa est
premō, -ere, pressī, pressum
perfeito passivo: "foi comprimida, ficou comprimida"
30
circumfluus ūmor
circumfluus, -a, -um; ūmor, -ōris (m.)
"a umidade que corre em volta", a água
31
ultima possēdit
ultimus, -a, -um; possīdō, -ere, possēdī
"ocupou os (lugares) extremos": ultima é neutro plural substantivado
31
coercuit
coerceō, -ēre, coercuī
conter, cercar
Notas de leitura
Versos 21–25. O verso 21 é o eixo do trecho, e a análise da seção 6 o examina palavra a palavra. Repare que deus et melior nātūra pode ser lido como dois sujeitos ("um deus e a natureza") ou como uma só ideia com duas palavras ("um deus, isto é, uma natureza melhor"); a gramática, com o verbo no singular, admite as duas leituras. Nos versos 22–23, o poeta repete as palavras em casos diferentes (terrās et terrīs), uma figura chamada poliptoto, para mostrar a separação em cadeia: céu / terras / águas; éter / ar. No verso 25, a expressão dissociāta … concordī pāce ligāvit junta separação e união: o deus separa para poder unir, e a ordem do mundo é uma "paz" entre elementos que antes lutavam (pugnābant, v. 19).
Versos 26–31. A descrição segue a física antiga dos quatro elementos, ordenados pelo peso: o fogo, sem peso (sine pondere), sobe ao ponto mais alto; logo abaixo vem o ar, "o mais próximo em leveza e lugar"; a terra, mais densa, desce e fica comprimida "pelo próprio peso"; a água corre em volta e cerca o orbe sólido. Quatro elementos, quatro sujeitos (vīs, āēr, tellūs, ūmor), na ordem do mais leve ao mais pesado.
As Metamorfoses estão em hexâmetros datílicos, o verso da epopeia, que você conheceu no capítulo 40 e encontrou como primeiro verso do dístico de Catulo 85 (capítulo 45). O esquema tem seis pés: os quatro primeiros podem ser dáctilos (– ˘ ˘) ou espondeus (– –); o quinto é quase sempre dáctilo; o sexto tem duas sílabas, a última indiferente (Bennett § 368.1; Kennedy § 477; Ravizza n. 536). Ovídio prefere hexâmetros rápidos, com muitos dáctilos, e evita elisões duras: é um bom autor para aprender a escandir.
O hexâmetro datílico
Pés
Esquema
Observação
1–4
– ˘ ˘ ou – –
dáctilo ou espondeu, à escolha do poeta
5
– ˘ ˘
quase sempre dáctilo (com espondeu, o verso se diz espondaico)
6
– ×
duas sílabas; a última indiferente
Primeiro verso do Caos, com uma elisão (mar(e) et):
Escansão de Metamorfoses 1,5: Ante mare et terrās et quod tegit omnia caelum
Pé
Sílabas
Tipo
Por quê
1
An | te | ma
dáctilo
An- longa por posição (n + t); te, ma breves
2
r(e) et | ter
espondeu
o -e de mare se elide; ret longa por posição (t + t); ter longa (r + r)
3
rās ‖ et
espondeu
-ās do acusativo plural, longo; et longa por posição (t + qu). Cesura depois de terrās
4
quod | te | git
dáctilo
quod longa (d + t); te, git breves (git antes de vogal)
5
om | ni | a
dáctilo
om- longa (m + n); -ni-a breves
6
cae | lum
espondeu
ditongo ae; sílaba final
Escansão de Metamorfoses 1,6: ūnus erat tōtō nātūrae vultus in orbe
Pé
Sílabas
Tipo
Por quê
1
ū | nu | se
dáctilo
ū longo por natureza; -nus + e-: o s passa à sílaba seguinte, e nu, se ficam breves
2
rat | tō
espondeu
rat longa por posição (t + t); tō longo por natureza
3
tō ‖ nā
espondeu
ablativo tōtō, longo; nā longo por natureza. Cesura depois de tōtō
4
tū | rae
espondeu
ū longo; ditongo ae
5
vul | tu | si
dáctilo
vul- longa (l + t); tus in → tu-sin, breves
6
nor | be
troqueu
nor longa (r + b); be final indiferente
Agora o verso 21, que traz uma lição de gramática dentro da métrica:
Escansão de Metamorfoses 1,21: Hanc deus et melior lītem nātūra dirēmit
Pé
Sílabas
Tipo
Por quê
1
Hanc | de | us
dáctilo
hanc longa (n + c); de breve antes de vogal; us breve (o s se junta a et)
2
et | me | li
dáctilo
et longa por posição (t + m); me, li breves
3
or ‖ lī
espondeu
or longa por posição (r + l); lī longo por natureza (līs, lītis). Cesura depois de melior
4
tem | nā
espondeu
tem longa (m + n); nā longo
5
tū | ra | di
dáctilo
tū longo; ra breve; di breve
6
rē | mit
espondeu
rē longo (perfeito dirēmī); final indiferente
A métrica decide o caso. Sem macrons, natura pode ser nominativo (nātūra, a breve) ou ablativo (nātūrā, ā longo; Bennett § 363.1.a). No verso 21, o quinto pé tem de ser dáctilo, e tū-ra-di só é dáctilo se o a for breve: é nominativo, sujeito de dirēmit, e não um ablativo "pela natureza". O mesmo raciocínio mostra, no verso 22, que abscidit tem i breve (pé 5: abs-ci-dit) e vem de abscindō.
A cesura
Nos três versos, uma palavra termina logo depois da primeira sílaba longa do terceiro pé: depois de terrās, de tōtō, de melior. É a cesura pentemímera (de "cinco meios pés"), a mais comum do hexâmetro (Bennett § 368.3.a; Kennedy § 477; Ravizza n. 536), que divide o verso em duas partes desiguais e marca uma pausa leve na leitura. Às vezes a cesura cai entre as duas breves do terceiro pé (cesura feminina, Bennett § 368.3.c), ou no quarto pé, acompanhada de outra no segundo (Bennett § 368.3.b).
Língua e estilo: particípios, gerúndio, figuras; Ovídio e o Gênesis ⚑
A descrição do Caos é feita, em boa parte, com particípios (capítulo 29). Quase todos são particípios conjuntos, isto é, concordam com um nome da frase e o qualificam: congesta (com sēmina), iūnctārum (com rērum), lībrāta (com tellūs), dissociāta (com quae), habentia (neutro plural substantivado). Um caso pede atenção: circumfūsō … in āere (v. 12) é um particípio no ablativo concordando com um nome no ablativo, mas não é ablativo absoluto (capítulo 30), porque a preposição in liga o grupo ao verbo pendēbat: "pendia no ar derramado em volta". O ablativo absoluto é gramaticalmente independente da oração (Bennett § 227) e nunca vem regido por preposição.
Os particípios de Metamorfoses 1,5–31
Forma
Verso
Tipo
Concorda com
Tradução
congesta
8
particípio perfeito passivo, nom. pl. n.
sēmina
amontoadas
iūnctārum
9
particípio perfeito passivo, gen. pl. f.
rērum
unidas
circumfūsō
12
particípio perfeito passivo, abl. sing. m.
āere (com in)
derramado em volta
lībrāta
13
particípio perfeito passivo, nom. sing. f.
tellūs
equilibrada
egēns
17
particípio presente, nom. sing.
āēr
carente
habentia
20
particípio presente, nom. pl. n. (substantivado)
nenhum nome: vale por si
as coisas que têm
dissociāta
25
particípio perfeito passivo, ac. pl. n.
quae
separados
pressa est
30
perfeito passivo (particípio + est)
sujeito tellūs
foi comprimida
O único gerúndio do trecho é crēscendō (v. 11), no ablativo sem preposição, com valor de meio ou de modo: a Lua renovava os chifres "crescendo", "pelo crescimento" (Bennett § 338.4.a, com o exemplo mēns discendō alitur, "a mente se alimenta aprendendo"). Entre os ablativos, distinga ainda os de separação (caelō terrās … abscidit, caecō exēmit acervō), o de comparação (dēnsior hīs), os de limitação (levitāte locōque, "em leveza e lugar") e os de meio (ponderibus lībrāta suīs, concordī pāce ligāvit; Bennett § 218).
O primeiro período do Caos (vv. 5–6) reduzido ao essencial: Ante mare … ūnus erat nātūrae vultus tōtō in orbe = Antes do mar … havia em todo o orbe uma só face da natureza. Os dois hipérbatos (ūnus … vultus, tōtō … in orbe) obrigam a guardar o adjetivo na memória até o fim do verso.
Ovídio e o começo do Gênesis
Muitos leitores, desde a Antiguidade cristã, compararam esta página com o início da Bíblia. A Vulgata começa assim (Gênesis 1,1–3):
In prīncipiō creāvit Deus caelum et terram. Terra autem erat inānis et vacua, et tenebrae erant super faciem abyssī: et spīritus Deī ferēbātur super aquās. Dīxitque Deus: Fīat lūx. Et facta est lūx.
No princípio, Deus criou o céu e a terra. Ora, a terra era informe e vazia, e as trevas estavam sobre a face do abismo, e o Espírito de Deus pairava sobre as águas. E Deus disse: Faça-se a luz. E a luz foi feita. (Vulgata Clementina; tradução nossa)
Duas narrativas do começo
Ponto
Ovídio, Metamorfoses 1
Gênesis 1 (Vulgata)
Estado inicial
chaos, rudis indīgestaque mōlēs: matéria já existente, misturada
terra … inānis et vacua, tenebrae super faciem abyssī
Quem age
deus et melior nātūra; "quem quer que tenha sido aquele dos deuses" (v. 32)
Deus, o único, nomeado desde a primeira frase
Como age
separa e ordena o que já existia (abscidit, sēcrēvit, ligāvit)
cria (creāvit) e ordena pela palavra (Dīxitque Deus: Fīat lūx)
Imagem da ordem
cada elemento no seu lugar, por peso; uma concors pāx
separação da luz e das trevas, das águas e da terra, em seis dias
A semelhança de quadro é real, e a palavra-chave dos dois textos é a mesma: separar (dīvīsit, no Gênesis 1,4; abscidit, sēcrēvit, em Ovídio). A diferença também é clara: em Ovídio a matéria já estava lá, e o deus é anônimo e quase um artesão; no Gênesis, Deus cria (creāvit) e chama as coisas ao ser pela palavra. Ler os dois textos lado a lado ajuda a perceber o que cada um afirma, sem fazer de um a cópia do outro.
O verso 21 resolve a luta descrita nos dezesseis versos anteriores e é um bom exercício de ordem das palavras: o objeto abre o verso, o sujeito se divide em dois e o verbo fecha.
Três observações. O demonstrativo hanc retoma tudo o que veio antes: "esta luta" é a dos frios com os quentes, dos úmidos com os secos (vv. 18–20). O verbo no singular com dois sujeitos é normal quando o verbo concorda com o mais próximo, e aqui reforça a possibilidade de que "deus" e "natureza melhor" sejam uma só realidade vista de dois lados. E dirimere lītem é linguagem jurídica, "dirimir um litígio", expressão que o português conservou: o deus age como um juiz que põe fim a um processo.
Os versos seguintes completam o período com a mesma construção, agora com ablativos de separação:
O proêmio anuncia o assunto (mūtātās fōrmās), a fonte (os deuses, autores das mudanças) e o plano (da origem do mundo ao tempo do poeta, num perpetuum carmen).
O Caos é descrito por negações (nec … nec), metonímias (Tītān, Phoebē, Amphitrītē) e antíteses (frīgida … calidīs); a ordem, por uma série de perfeitos de separação (dirēmit, abscidit, sēcrēvit, exēmit, ligāvit).
Hexâmetro: quatro pés livres (dáctilo ou espondeu), quinto dáctilo, sexto de duas sílabas; cesura principal pentemímera.
A métrica decide quantidades e casos: nātūra nominativo no v. 21, abscĭdit de abscindō no v. 22.
Particípios conjuntos não são ablativos absolutos: circumfūsō in āere depende de in e do verbo.
No próximo capítulo, o hexâmetro volta com Virgílio, na noite da queda de Troia (Eneida II).
Erro: Ler nātūra (v. 21) como ablativo, "pela natureza", e fazer de deus o único sujeito.
Por quê, e como evitar: Sem macrons a forma é ambígua, mas o metro exige o a breve no quinto pé (tū-ra-di), e o a breve é do nominativo. Nātūra é sujeito ao lado de deus, e melior (nominativo feminino) concorda com ela.
Erro: Tomar circumfūsō in āere por um ablativo absoluto.
Por quê, e como evitar: O ablativo absoluto é independente da oração e não vem com preposição. Aqui in + ablativo indica o lugar onde a terra "pendia" (pendēbat), e circumfūsō é um particípio que concorda com āere: "no ar derramado em volta".
Erro: Procurar personagens em Tītān, Phoebē e Amphitrītē e traduzir como se fossem deuses agindo na cena.
Por quê, e como evitar: São metonímias: o nome do deus pelo elemento que ele preside. Tītān é o Sol, Phoebē a Lua, Amphitrītē o mar. Na tradução, mantenha o nome e, se preciso, explique numa nota; o sentido é "não havia sol, nem lua, nem mar".
Erro: Traduzir dīxēre (v. 7) como infinitivo ("dizer").
Por quê, e como evitar: O infinitivo de dīcō é dīcere. Dīxēre, com o tema do perfeito dīx- e o ē longo, é a 3ª pessoa do plural do perfeito, variante poética de dīxērunt (Bennett § 101): "chamaram".
Erro: Escandir sem elidir: An-te-ma-re-et-ter-rās…
Por quê, e como evitar: Vogal final diante de vogal se elide (Bennett § 366.7): mar(e) et conta como uma sílaba, ret, longa por posição. Marque todas as elisões antes de dividir os pés; um hexâmetro tem, salvo raríssimas exceções, entre treze e dezessete sílabas.
Erro: Ligar os adjetivos à palavra mais próxima: em longō margine isso funciona, mas ler ūnus erat como "um era" ou tōtō nātūrae como "de toda a natureza" está errado.
Por quê, e como evitar: Em ūnus erat tōtō nātūrae vultus in orbe, ūnus concorda com vultus (nominativo masculino), quatro palavras adiante; tōtō com orbe (ablativo). Deixe o adjetivo em suspenso até encontrar o nome com o mesmo gênero, número e caso.
Resolvida passo a passo: leia a pergunta, tente responder e só então abra cada passo.
Prática guiada 1 · Ler os versos 10–12
Leia e traduza, na ordem latina: nūllus adhūc mundō praebēbat lūmina Tītān, nec nova crēscendō reparābat cornua Phoebē, nec circumfūsō pendēbat in āere tellūs. Use o vocabulário da seção 2.
Que forma é nūllus, e o que ela faz esperar?Ver o passo
Nominativo singular masculino de nūllus. Espera-se um nome masculino no nominativo com que ele concorde, e esse nome só aparece no fim do verso: Tītān. Até lá, nūllus fica em suspenso.
Analise mundō praebēbat lūmina.Ver o passo
Mundō: dativo singular, "ao mundo"; praebēbat: imperfeito, 3ª sing., "oferecia"; lūmina: acusativo plural neutro de lūmen, objeto. "Nenhum Titã dava ainda luz ao mundo."
No segundo verso, com que nome concorda nova?Ver o passo
Nova pode ser nominativo feminino singular ou neutro plural (nominativo ou acusativo). O sujeito feminino é Phoebē, mas o sentido e a posição indicam cornua (acusativo plural neutro): "os chifres novos". O hipérbato separa nova de cornua por duas palavras.
Que forma é crēscendō?Ver o passo
Gerúndio no ablativo, sem preposição, com valor de meio ou de modo: "crescendo, pelo crescimento". A Lua renova as pontas do crescente a cada mês.
Traduza o terceiro verso e diga se há ablativo absoluto.Ver o passo
"Nem a terra pendia no ar derramado em volta." Não há ablativo absoluto: circumfūsō concorda com āere, e o grupo é regido pela preposição in; tellūs, nominativo, é o sujeito de pendēbat.
Não: calidīs termina em s, e nenhuma palavra termina em vogal diante de outra vogal. O verso tem quinze sílabas (ūmentia conta quatro): frī-gi-da-pug-nā-bant-ca-li-dīs-ū-men-ti-a-sic-cīs.
Os dois primeiros pés?Ver o passo
frī-gi-da: frī longo por natureza, gi e da breves, dáctilo. pug-nā: pug longa por posição (g + n), nā longo por natureza: espondeu.
Terceiro e quarto pés?Ver o passo
bant-ca-li: bant longa por posição, ca e li breves: dáctilo. dīs-ū: -īs longo do ablativo/dativo plural (Bennett § 364.5.a) e ū longo por natureza: espondeu. A cesura cai depois de pugnābant, na primeira sílaba do terceiro pé: pentemímera.
Termine o verso.Ver o passo
men-ti-a: men longa por posição (n + t), ti e a breves: dáctilo (o quinto pé, como deve ser). sic-cīs: espondeu.
Esquema: – ˘ ˘ | – – | – ˘ ˘ | – – | – ˘ ˘ | – –. A métrica confirma que calidīs e siccīs são formas em -īs (dativo plural), e não um nominativo singular em -is.
Faça por escrito ou em voz alta; abra "Ver resposta" só depois de tentar. A explicação da resposta faz parte da lição.
Exercício 1 · Compreensão
Responda em português, citando o latim.
Que três coisas "ainda não" existiam, segundo os versos 10–14?Ver resposta
O sol (nūllus … Tītān), a lua com as suas fases (nec … Phoebē) e a terra suspensa no ar (nec … pendēbat … tellūs); também não havia o mar com margens (nec bracchia … porrēxerat Amphitrītē).
Por que nada conservava a sua forma (v. 17)?Ver resposta
Porque tudo estava num só corpo (corpore in ūnō) e os contrários lutavam entre si: frio com quente, úmido com seco, mole com duro, leve com pesado (vv. 18–20).
Quem pôs fim à desordem?Ver resposta
Deus et melior nātūra (v. 21), "um deus e uma natureza melhor"; Ovídio não diz que deus, e mais adiante o chama "quem quer que tenha sido aquele dos deuses".
Em que ordem ficaram os elementos, e por quê?Ver resposta
Do mais leve ao mais pesado: o fogo no alto, o ar logo abaixo, a terra comprimida embaixo, a água em volta. O critério é o peso (sine pondere, levitāte, gravitāte suā).
Exercício 2 · Morfologia
Dê a análise completa e a forma de dicionário.
dīxēre (v. 7)Ver resposta
Perfeito do indicativo ativo, 3ª pl., de dīcō, -ere, dīxī, dictum; = dīxērunt.
porrēxerat (v. 14)Ver resposta
Mais-que-perfeito do indicativo ativo, 3ª sing., de porrigō, -ere, porrēxī, porrēctum: "tinha estendido".
egēns (v. 17)Ver resposta
Particípio presente ativo, nominativo singular, de egeō, -ēre; concorda com āēr e rege o genitivo lūcis.
sēcrēvit (v. 23)Ver resposta
Perfeito do indicativo ativo, 3ª sing., de sēcernō, -ere, sēcrēvī, sēcrētum.
pressa est (v. 30)Ver resposta
Perfeito do indicativo passivo, 3ª sing. feminino, de premō, -ere, pressī, pressum; concorda com tellūs.
dēnsior (v. 29)Ver resposta
Comparativo de dēnsus, -a, -um, nominativo singular feminino (concorda com tellūs); o segundo termo, hīs, está no ablativo de comparação.
Exercício 3 · Sintaxe dos casos
Diga o caso e a função das palavras destacadas.
nūllī sua fōrma manēbat (v. 17)Ver resposta
Dativo singular: "a nenhuma coisa permanecia a sua forma", isto é, nenhuma coisa conservava a sua forma (dativo de posse ou de interesse).
nam caelō terrās et terrīs abscidit undās (v. 22)Ver resposta
Ablativos de separação, sem preposição, com um verbo de separar: "do céu", "das terras".
proximus est āēr illīlevitāte locōque (v. 28)Ver resposta
Illī: dativo regido por proximus, "dele (do fogo)". Levitāte (e locō): ablativos de limitação, "em leveza e em lugar".
dēnsior hīs tellūs (v. 29)Ver resposta
Ablativo de comparação: "mais densa que estes (o fogo e o ar)".
crēscendō (v. 11)Ver resposta
Ablativo do gerúndio, sem preposição: meio ou modo, "crescendo".
Exercício 4 · Métrica
Escanda e justifique.
Escanda o verso 7: quem dīxēre chaos: rudis indīgestaque mōlēs.Ver resposta
quem dī | xē re cha | os ‖ ru dis | in dī | ges ta que | mō lēs: espondeu, dáctilo, dáctilo, espondeu, dáctilo, espondeu. Os fica longa por posição (s + r); in- também (n + d). Cesura depois de chaos.
Escanda o verso 22: Nam caelō terrās et terrīs abscidit undās.Ver resposta
Nam cae | lō ter | rās ‖ et | ter rīs | abs ci dit | un dās: quatro espondeus, dáctilo e espondeu. O quinto pé (abs-ci-dit) só é dáctilo com i breve: o verbo é abscindō.
Por que o verso 28 começa por um dáctilo (prox-i-mus) se -mus é seguido de est?Ver resposta
Porque est começa por vogal: o s de -mus passa para a sílaba seguinte (mu-sest), e mu fica aberta e breve. Só uma consoante depois da vogal não faz posição.
Exercício 5 · Tradução e comentário
Traduza e comente brevemente.
Traduza os versos 26–27: Ignea convexī vīs et sine pondere caelī / ēmicuit summāque locum sibi fēcit in arce.Ver resposta
"A força ígnea e sem peso do céu convexo lançou-se para cima e fez para si um lugar no ponto mais alto." Vīs é o sujeito, com ignea e sine pondere; convexī … caelī, genitivo, abraça o verso (hipérbato); sibi é dativo de interesse.
Traduza os versos 30–31: circumfluus ūmor / ultima possēdit solidumque coercuit orbem.Ver resposta
"A água que corre em volta ocupou os lugares extremos e encerrou o orbe sólido." Ultima é neutro plural substantivado, objeto de possēdit; solidum orbem é o objeto de coercuit.
Em três ou quatro linhas, compare o agente da ordem em Ovídio (v. 21) e no Gênesis 1,1–3.Ver resposta
Em Ovídio, o agente é indeterminado, deus et melior nātūra, e trabalha sobre uma matéria que já existe, separando e unindo (abscidit, sēcrēvit, ligāvit). No Gênesis, Deus é nomeado desde a primeira frase, cria (creāvit) o céu e a terra e dá forma ao mundo pela palavra (Dīxitque Deus: Fīat lūx). Os dois textos têm em comum a ideia de que ordenar é separar.
Leituras recomendadas
Continue na edição de Magnus (Perseus) com o resto da criação (1,32–88), até o nascimento do homem, e depois com as Quatro Idades (1,89–150): os mesmos hábitos de leitura deste capítulo bastam. Para um episódio inteiro com vocabulário e notas em página oposta, a edição comentada de Gildenhard e Zissos traz Penteu e Baco (livro III), de acesso aberto. Se quiser treinar o dístico elegíaco de Ovídio, o livro I dos Amores na edição comentada do DCC tem vocabulário, notas e áudio. Para a comparação com a Bíblia, leia Gênesis 1 inteiro na Vulgata. As regras de métrica estão em Ravizza (nn. 533–536) e em Bennett (§§ 366–368).
Etapa V · Auctores RomaniDificuldade 4 · AvançadoOriginalCom notasTexto na biblioteca
Metamorphoses (texto integral)
Publius Ovidius Naso
Os quinze livros das Metamorfoses (edição Magnus, 1892), sem notas, com análise de palavras ao clique. Episódios curtos e autocontidos (Dafne, Faetonte, Píramo e Tisbe, Orfeu) permitem leitura aos poucos.
Poesia épica · Clássico · muitos meses · Perseus Digital Library
Ler aqui: texto latino da edição de Hugo Magnus (1892)
Etapa V · Auctores RomaniDificuldade 4 · AvançadoOriginalCom notas
Metamorphoses III, 511–733 (Penteu)
Publius Ovidius Naso
O episódio de Penteu e Baco nas Metamorfoses, com introdução, texto latino com vocabulário e notas em página oposta, comentário e apêndices. Livro de acesso aberto (CC BY 4.0), PDF gratuito.
Poesia épica · Clássico · algumas semanas · Open Book Publishers
Etapa V · Auctores RomaniDificuldade 4 · AvançadoOriginal ÁudioCom notasTexto na biblioteca
Amores, liber I
Publius Ovidius Naso
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Poesia elegíaca · Clássico · algumas semanas · Dickinson College Commentaries
Ler aqui: texto latino da edição de Rudolf Ehwald (1907)
Etapa VI · Latinitas ChristianaDificuldade 2 · BásicoOriginal Áudio
Biblia Sacra Vulgata (editio Clementina)
Hieronymus Stridonensis (Vulgata)
A Vulgata Clementina completa, do Gênesis ao Apocalipse, livro a livro. Comece por Marcos, Gênesis ou os Salmos: frases curtas, vocabulário repetitivo e um texto que você já conhece em português. A leitura cristã fundamental e, para muitos, a primeira obra longa lida em latim. No LibriVox há, por ora, só o Salmo 22 gravado.
Escritura (Vulgata) · Tardio e patrístico · anos, um capítulo por dia · Vicifons (Latin Wikisource)
Gramática latina completa em português, usada por gerações nas escolas brasileiras, com um compêndio de história da literatura latina. Nona edição (1940), em domínio público (autor falecido em 1941). Fac-símile em PDF no Internet Archive.
Gramática · Moderno (material didático) · consulta · Internet Archive
Gramática de referência compacta (1918), em inglês, com macrons: sons, flexões, sintaxe, prosódia. Mais curta e mais fácil de consultar que Allen & Greenough; cabe num leitor de EPUB.
Bibliotheca Latina. Conteúdo original com trechos de obras em domínio público; licença CC BY 4.0.
Fontes consultadas
P. Ovidius Naso, Metamorphoses, ed. Hugo Magnus (Gotha: F. A. Perthes, 1892), Publius Ovidius Naso (no catálogo) · domínio público · versos 1,1–31 conferidos no arquivo TEI da Perseus (canonical-latinLit, phi0959.phi006.perseus-lat2), que declara a edição de Magnus; comparados com The Latin Library (ovid/ovid.met1.shtml), que traz outra leitura no v. 15 (ver a nota da seção 2); vv. 2 e 15 conferidos também em Magnus 1885 (archive.org bub_gb_ycgzAQAAMAAJ), Merkel–Ehwald (Teubner, archive.org operadivo02ovid) e Miller (Loeb, 1916, archive.org metamorphoses01ovid). Macrons acrescentados por nós.
New Latin Grammar, Charles E. Bennett (no catálogo) · domínio público · § 5 (quantidade; vogal longa antes de ns, nf), § 101 (3ª pl. do perfeito em -ēre: amāvērunt, -ēre), § 116.1 (perfeitos sincopados: amāstī, amāsse), § 189.1 (dativo de agente com o gerundivo, só para comparação), § 218 (ablativo de meio), § 227 (o ablativo absoluto é gramaticalmente independente da oração), § 338.4.a (ablativo do gerúndio como meio: mēns discendō alitur), § 350.11.a (hipérbato), § 358.3 (dativo com verbos de luta e de mistura nos poetas: contendis Homērō), § 362.1.d e § 365 (quantidade das palavras gregas: āēr, aethēr), § 363.1.a (-ā longo no ablativo da 1ª declinação), § 363.3 (sibi com i breve), § 364.1 (illīc), § 364.5.a (-īs longo nos plurais), § 364.6.b (tellūs, -ūris), § 366 (pés, ictus, elisão, cesura, anceps), § 368 (hexâmetro: esquema, espondaico, cesuras masculina e feminina, diérese bucólica), § 375.1 (lítotes)
Allen and Greenough's New Latin Grammar, J. H. Allen e J. B. Greenough (no catálogo) · domínio público · § 181.a (formas contraídas do perfectum), § 603 (regras gerais de quantidade; 603.a.4: palavras gregas conservam a vogal longa, com o exemplo āēr; 603.f: posição e sílabas comuns), § 604 (quantidade das sílabas finais; 604.j: āēr, aethēr entre as exceções). A edição DCC consultada não traz a parte de versificação.
Kennedy's Revised Latin Primer, Benjamin Hall Kennedy (no catálogo) · domínio público · § 474 (pés; elisão), § 476 (escansão; cesura forte e fraca; exemplos de Virgílio), § 477 (hexâmetro: quinto pé dáctilo, sexto espondeu ou troqueu; cesuras pentemímera, heptemímera e tritemímera). Números lidos no OCR local.
Gramática Latina, Pe. João Ravizza (no catálogo) · domínio público · n. 533 (pés: dáctilo e espondeu), n. 534 (cesura; masculina e feminina), n. 535 (elisão), n. 536 (hexâmetro, com exemplos de Ovídio; principais cesuras masculinas: tritemímera, pentemímera, heptemímera). Números lidos no OCR local, que às vezes os deforma.