Elementa Linguae Latinae·Parte IV · Auctores·Capítulo 45·90 minReportar problema

Catullus et Horātius

Catulo e Horácio: dois poemas líricos

Leitura comentada de dois poemas líricos completos: o poema 5 de Catulo (Vīvāmus, mea Lesbia), em hendecassílabos, e a ode I,11 de Horácio (carpe diem), em asclepiadeus maiores. Texto em edição de domínio público, vocabulário, notas verso a verso, escansão em tabelas, o subjuntivo exortativo, jussivo e proibitivo em ação, figuras de linguagem, análise palavra a palavra e tradução própria.

Neste capítulo você vai
  • Situar Catulo e Horácio na história da poesia latina e reconhecer o tema comum aos dois poemas: a brevidade da vida e o que fazer com ela.
  • Ler e traduzir o poema 5 de Catulo e a ode I,11 de Horácio com a ajuda do vocabulário e das notas, justificando cada escolha de tradução pela forma latina.
  • Escandir um hendecassílabo falécio, um asclepiadeu maior e um dístico elegíaco, marcando elisões e sílabas longas por natureza e por posição.
  • Identificar nos dois poemas o subjuntivo exortativo, o jussivo de 2ª pessoa e a proibição com nē + perfeito, e distingui-los do indicativo futuro e futuro perfeito que os cercam.
  • Reconhecer figuras (anáfora, antítese, hipérbato, metáfora) e explicar o efeito delas no sentido do poema.
CatuloHoráciopoesia líricaCatulo 5 (Vīvāmus, mea Lesbia)Catulo 85 (Ōdī et amō)Odes I,11 (carpe diem)hendecassílabo faléciodístico elegíacoasclepiadeu maiorestrofe sáfica (menção)escansãoelisãosinizesesubjuntivo exortativosubjuntivo jussivo na 2ª pessoaproibição com nē + perfeito do subjuntivoperfeitos sincopadosgenitivo de valorhipérbatoanáforaantíteseleitura comentadaanálise de frase autêntica

Antes deste capítulo: Capítulo 32 (o subjuntivo e os seus usos independentes: exortativo, jussivo, proibição) e capítulo 40 (quantidade das sílabas, pés, elisão e escansão; figuras de linguagem). Ajudam também os capítulos 8 (técnica de leitura), 20 (genitivo de valor), 31 (gerundivo) e 33 (orações finais), que este capítulo só relembra. · capítulo 32 · capítulo 40 · capítulo 8 · capítulo 20 · capítulo 31 · capítulo 33

  1. Dois poetas e uma pergunta
  2. Catulo 5: Vīvāmus, mea Lesbia
  3. O hendecassílabo de Catulo (e um dístico elegíaco)
  4. Horácio, Odes I,11: carpe diem
  5. O asclepiadeu maior e a ordem das palavras de Horácio
  6. O subjuntivo nos dois poemas; análise palavra a palavra
  7. Erros comuns
  8. Prática guiada
  9. Exercícios independentes
  10. Leituras recomendadas
  11. Créditos e fontes

Dois poetas e uma pergunta ⚑

Os dois poemas deste capítulo foram escritos com cerca de trinta anos de distância e respondem, cada um a seu modo, à mesma pergunta: se a vida é curta, como vivê-la? Caio Valério Catulo (Gāius Valerius Catullus, c. 84–54 a.C.), nascido em Verona, viveu em Roma nos últimos anos da República, no círculo de jovens poetas que imitavam os alexandrinos gregos: poemas curtos, muito trabalhados, cheios de erudição e de sentimento pessoal. Restou dele um único livro, com os poemas numerados de 1 a 116, em metros variados, sobre amizades, inimizades, viagens, a morte de um irmão e, sobretudo, o amor por uma mulher que ele chama Lésbia. O nome é um pseudônimo poético, uma homenagem à poetisa grega Safo, da ilha de Lesbos; a identidade da mulher é discutida desde a Antiguidade e não importa para a leitura.

Quinto Horácio Flaco (Quīntus Horātius Flaccus, 65–8 a.C.), filho de um ex-escravo de Venúsia, estudou em Roma e em Atenas, lutou do lado perdedor na guerra civil e acabou amigo de Mecenas e do imperador Augusto. Os três primeiros livros das Odes (Carmina), publicados em 23 a.C., são o projeto mais ambicioso da lírica latina: adaptar ao latim os metros de Safo e Alceu, poetas gregos de seis séculos antes. As odes de Horácio são curtas, densas, de uma ordem de palavras difícil e calculada, e falam de amizade, vinho, política, religião e, sempre, do tempo que passa.

"Lírico" quer dizer, na origem, poesia cantada com a lira; em Roma, esses poemas eram lidos, mas conservaram os metros da canção. Por isso, além do sentido, este capítulo vai ler o ritmo, com as noções de quantidade e escansão do capítulo 40. Os textos são os das edições de domínio público de E. T. Merrill (Catulo, 1893) e de P. Shorey e G. J. Laing (Horácio, 1919), conferidos na Perseus Digital Library; os macrons foram acrescentados por nós, e as traduções são nossas.

Os dois poemas lado a lado
Catulo 5Horácio, Odes I,11
Dataanos 60–50 a.C. (data exata incerta)publicada em 23 a.C., no livro I das Odes
DestinatáriaLésbia, a amadaLeucônoe, uma jovem (nome grego inventado)
Metrohendecassílabo falécio (13 versos)asclepiadeu maior (8 versos)
Tomapaixonado, provocador, quase infantil na contagemcalmo, de conselho, filosófico
Modo verbal dominantesubjuntivo exortativo (1ª pl.) e imperativosubjuntivo de proibição e jussivo de 2ª pessoa, e um imperativo final
Resposta à brevidade da vidaamar agora, sem dar ouvidos a ninguémnão querer saber o futuro; aproveitar o dia presente

Catulo 5: Vīvāmus, mea Lesbia ⚑

O poema começa com três subjuntivos de 1ª pessoa do plural e termina com uma conta de beijos que ninguém pode conferir. No meio, nos versos 4 a 6, está o argumento: o sol se põe e volta todos os dias; nós, uma vez apagada a nossa breve luz, não voltamos. Leia primeiro o texto inteiro:

Vīvāmus, mea Lesbia, atque amēmus,
rūmōrēsque senum sevēriōrum
omnēs ūnius aestimēmus assis.
sōlēs occidere et redīre possunt:
nōbīs, cum semel occidit brevis lūx, (5)
nox est perpetua ūna dormienda.
dā mī bāsia mīlle, deinde centum,
dein mīlle altera, dein secunda centum,
deinde usque altera mīlle, deinde centum,
dein, cum mīlia multa fēcerīmus, (10)
conturbābimus illa, nē sciāmus,
aut nē quis malus invidēre possit,
cum tantum sciat esse bāsiōrum.
Vivamos, minha Lésbia, e amemos, / e os falatórios dos velhos mais severos, / todos eles, avaliemos em um único asse. / Os sóis podem pôr-se e voltar: / para nós, quando de uma vez se põe a breve luz, / resta dormir uma única noite sem fim. / Dá-me mil beijos, depois cem, / depois outros mil, depois mais cem, / depois, sem parar, outros mil, depois cem. / Depois, quando tivermos feito muitos milhares, / vamos embaralhar a conta, para não sabermos quantos são, / ou para que nenhum malvado possa pôr-nos mau-olhado / quando souber que há tantos beijos. (Tradução nossa, literal, para acompanhar a leitura.)
Vocabulário e notas: Catulo 5
v.PalavraDicionárioSentido e nota
1vīvāmus, amēmusvīvō, -ere, vīxī; amō, -ārepresente do subjuntivo, 1ª pl.: exortativo, "vivamos, amemos"
2rūmōrēsrūmor, -ōris (m.)boato, falatório; acusativo plural, objeto de aestimēmus
2senum sevēriōrumsenex, senis (m.); sevērus, -a, -umgenitivo plural; sevēriōrum é comparativo: "mais severos (do que deviam)"
3ūnius … assisūnus, -a, -um (gen. ūnīus); as, assis (m.)genitivo de valor (capítulo 20): "em um único asse", a moeda de cobre de menor valor; ūnius com i breve, licença poética
3aestimēmusaestimō, -āreavaliar, dar preço; subjuntivo exortativo
4sōlēssōl, sōlis (m.)sol; no plural, "os sóis", isto é, os dias que se sucedem
4occidereoccidō, -ere, occidī (de ob + cadō)cair, pôr-se (o sol); não confundir com occīdō, "matar"
4redīreredeō, -īre, rediīvoltar; infinitivo complementar de possunt (capítulo 27)
5semeladvérbiouma vez; aqui, "uma vez por todas"
5cum … occiditcum + indicativo"quando se põe": cum temporal com indicativo (capítulo 34)
6dormiendadormiō, -īregerundivo: nox est dormienda, "a noite deve ser dormida"; nōbīs é o dativo de agente da perifrástica passiva (capítulo 31)
7dā mīdō, dare; mī = mihiimperativo singular; mī é a forma curta do dativo, frequente na poesia
7bāsiabāsium, -ī (n.)beijo; palavra afetiva, frequente em Catulo, de onde vem o português "beijo"
7–9mīlle; centumindeclináveismil; cem
7–10deinde, deinadvérbiodepois; dein é a forma abreviada, de uma sílaba
8–9alteraalter, altera, alterumoutro (de dois), segundo; neutro plural, concorda com o mīlia subentendido de mīlle
9usqueadvérbiosem parar, continuamente
10mīliamīlia, -ium (n. pl.)milhares; substantivo, plural de mīlle
10fēcerīmusfaciō, -ere, fēcīfuturo perfeito, 1ª pl.: "quando tivermos feito"
11conturbābimusconturbō, -āremisturar, embaralhar; termo de contabilidade, "confundir as contas"; futuro do indicativo
11nē sciāmussciō, -īreoração final negativa, "para não sabermos" (capítulo 33)
12nē quisquis = aliquis depois de nē"para que ninguém" (capítulo 17)
12invidēreinvideō, -ēre, invīdīolhar com maus olhos, lançar mau-olhado; invejar
13tantum … bāsiōrumtantum (n.) + genitivo"tanta quantidade de beijos": genitivo partitivo (capítulo 20); tantum é o sujeito do infinitivo esse (capítulo 28)

Notas de leitura

Versos 1–3. O poema abre com um convite que inclui quem fala: vīvāmus, amēmus, aestimēmus. É o subjuntivo exortativo do capítulo 32, sempre na 1ª pessoa do plural do presente. O terceiro verbo transforma o amor em uma questão de contas: os comentários dos velhos moralistas valem, todos juntos, ūnius assis, um único asse, o tostão romano. O genitivo de valor e o verbo aestimāre pertencem à linguagem do comércio, e essa linguagem volta no fim do poema.

Versos 4–6. O argumento está numa antítese rigorosa: sōlēs (plural, que voltam) contra nōbīs; occidere et redīre contra semel occidit; brevis lūx contra nox perpetua. O mesmo verbo, occidere, serve ao pôr do sol e à morte humana. O verso 6 é pesado de propósito: nox est perpetua ūna dormienda junta "noite", "perpétua" e "única" numa perifrástica passiva, "uma única noite perpétua tem de ser dormida (por nós)". Na tradução, "resta dormir" ou "temos de dormir" dá a obrigação sem forçar o português.

Versos 7–9. Do raciocínio o poema passa ao pedido: dā mī bāsia. A repetição de deinde e dein no começo de cada membro é uma anáfora, e a falta de conjunções (assíndeto) dá pressa à contagem: mil, cem, mil, cem, mil, cem. Os números são de propósito banais; o que importa é a impressão de excesso.

Versos 10–13. No fim, a contabilidade volta. Quando a soma for grande (cum mīlia multa fēcerīmus, futuro perfeito: a ação estará concluída antes da outra), os amantes vão conturbāre, "embaralhar as contas", por dois motivos, cada um numa oração final com nē: para que eles mesmos não saibam o total, e para que nenhum invejoso possa lançar mau-olhado (invidēre, literalmente "olhar contra"), coisa que, na crença popular, exigia saber o número exato do que se queria atingir. O verbo sciāmus (v. 11) e o sciat do último verso fecham o poema sobre a ideia de "saber a conta", que o verso 3 tinha aberto.

O hendecassílabo de Catulo (e um dístico elegíaco) ⚑

Catulo escreveu o poema 5 em hendecassílabos falécios (de Faleco, poeta grego; Ravizza n. 536 os chama "falêucios"). Como o nome diz, são versos de onze sílabas, e o esquema é fixo, sem as substituições do hexâmetro: uma base de duas sílabas (em Catulo quase sempre duas longas) e depois uma sequência invariável de longas e breves. Nas tabelas, – marca a sílaba longa, ˘ a breve e × a sílaba final, que pode ser longa ou breve (Bennett § 366.10).

O hendecassílabo falécio
PartePosiçõesEsquema
Base1–2× × (em Catulo, quase sempre – –)
Núcleo3–11– ˘ ˘ – ˘ – ˘ – ×

Primeiro verso. Duas elisões (Bennett § 366.7; capítulo 40): o -a final de Lesbia desaparece diante de atque, e o -que de atque desaparece diante de amēmus. Lido em voz alta: vī-vā-mus-me-a-Les-bi-at-qua-mē-mus, onze sílabas.

Escansão de Catulo 5,1: Vīvāmus, mea Lesbia, atque amēmus
PosiçãoSílabaQuantidadePor quê
1Vī–ī longo por natureza (vīvō)
2vā–ā longo por natureza: é a vogal do subjuntivo (vīvāmus)
3mus–longa por posição: u breve seguido de s + m (mus mea)
4me˘vogal breve seguida de vogal
5a˘-a final do vocativo, breve
6Les–longa por posição (s + b)
7bi(a)˘i breve antes de vogal; o -a é elidido diante de atque
8at–longa por posição (t + qu)
9qu(e) a˘-que elidido; fica o a- breve de amēmus
10mē–ē longo por natureza: vogal do subjuntivo da 1ª conjugação
11mus×sílaba final, indiferente

Quarto verso, com uma elisão no meio (occider(e) et):

Escansão de Catulo 5,4: sōlēs occidere et redīre possunt
PosiçãoSílabaQuantidadePor quê
1Sō–ō longo por natureza (sōl, sōlis)
2lēs–-ēs do nominativo plural, longo
3oc–longa por posição (c + c)
4ci˘i breve de occĭdō ("cair"); o verbo "matar", occīdō, teria ī longo e não caberia aqui
5de˘vogal breve
6r(e) et–o -e final de occidere é elidido; et fica longo por posição (t + r de redīre)
7re˘prefixo re-, breve
8dī–ī longo do infinitivo redīre
9re˘vogal breve
10pos–longa por posição (s + s)
11sunt×sílaba final
A métrica confirma a gramática. No verso 4, o metro distingue occĭdere ("pôr-se") de occīdere ("matar"). No verso 3, ūnius precisa ter o i breve (ū-nĭ-us), uma licença que Bennett § 362.1.a registra para a poesia. No verso 10, fēcerīmus precisa do ī longo na posição 8; a quantidade desse i oscila na poesia, no futuro perfeito e no perfeito do subjuntivo (A&G § 604.i.5 registra a mesma oscilação em -eris). E dein, nos versos 8 e 10, vale uma sílaba só: é a sinizese (ou sinérese, capítulo 40), que Bennett § 367.1 exemplifica justamente com deinde.

Um dístico elegíaco: Catulo 85

O mesmo livro de Catulo tem poemas em dístico elegíaco: um hexâmetro seguido de um pentâmetro (Bennett § 369; Kennedy § 478; Ravizza n. 536). O mais famoso tem dois versos e é uma pequena aula de subjuntivo e de antítese:

Ōdī et amō. quārē id faciam, fortasse requīris.
nesciō, sed fierī sentiō et excrucior.
Odeio e amo. Por que faço isso, talvez perguntes. / Não sei, mas sinto que acontece, e sou torturado. (Catulo 85; tradução nossa)

Quārē id faciam é uma interrogativa indireta, com o verbo no subjuntivo (capítulo 35), dependente de requīris; fierī é o infinitivo de fīō ("acontecer"), numa oração infinitiva com sujeito subentendido (id) depois de sentiō (capítulo 28). O par ōdī et amō, dois sentimentos contrários afirmados ao mesmo tempo, aproxima-se do oximoro (Bennett § 375.2). A escansão mostra o hexâmetro (seis pés) e o pentâmetro (duas metades de dois pés e meio):

Escansão de Catulo 85
PéHexâmetroEsquemaPentâmetroEsquema
1Ō | de | ta (Ōd(ī) et a-)– ˘ ˘nes | ci | ŏ– ˘ ˘
2mō | quā– –sed | fi | e– ˘ ˘
3r(ē) id | fa | ci– ˘ ˘rī ‖– (meio pé; pausa obrigatória)
4am | for– –sen | ti(ō) | e– ˘ ˘
5tas | se | re– ˘ ˘tex | cru | ci– ˘ ˘
6quī | ris– ×or× (meio pé)

Três detalhes. Em Ōd(ī) et amō, o -ī longo de ōdī se elide, e o t de et passa para a sílaba seguinte (e-ta-mō). Em nesciŏ, o -ō final do verbo é lido breve, licença registrada por Bennett § 363.4.b e por A&G § 604.g (o o final é "comum"). E fĭerī tem o i breve, como manda a regra de fīō diante de -er- (Bennett § 362.1.c).

Horácio, Odes I,11: carpe diem ⚑

A ode é dirigida a Leucônoe, uma jovem de nome grego, provavelmente inventado, que consulta os "cálculos babilônicos", isto é, os horóscopos dos astrólogos orientais, muito procurados em Roma, para saber quantos anos de vida ela e o poeta ainda têm. Horácio responde com uma proibição, um conselho em três verbos e uma imagem tirada do campo: carpe diem, "colhe o dia", como se colhe um fruto maduro antes que apodreça.

Tū nē quaesierīs, scīre nefās, quem mihi, quem tibi
fīnem dī dederint, Leuconoē, nec Babylōniōs
temptārīs numerōs. ut melius, quidquid erit, patī.
seu plūrīs hiemēs seu tribuit Iuppiter ultimam,
quae nunc oppositīs dēbilitat pūmicibus mare (5)
Tyrrhēnum: sapiās, vīna liquēs et spatiō brevī
spem longam resecēs. dum loquimur, fūgerit invida
aetās: carpe diem quam minimum crēdula posterō.
Não procures saber (saber é proibido) que fim os deuses deram a mim, que fim a ti, / Leucônoe, nem consultes os cálculos / babilônicos. Como é melhor suportar o que vier, seja o que for! / Quer Júpiter nos tenha concedido mais invernos, quer este como o último, / este que agora cansa o mar Tirreno contra os rochedos que se lhe opõem: / sê sensata, coa o vinho e, sendo breve o espaço, / corta a esperança longa. Enquanto falamos, terá fugido o tempo / invejoso: colhe o dia, confiando o menos possível no amanhã. (Tradução nossa, literal; as barras marcam o fim dos versos latinos.)
Vocabulário e notas: Horácio, Odes I,11
v.PalavraDicionárioSentido e nota
1quaesierīsquaerō, -ere, quaesīvī, quaesītumperfeito do subjuntivo sincopado (= quaesīverīs): com nē, proibição, "não procures"
1scīre nefāssciō, -īre; nefās (n., indecl.)parêntese: "[é] proibido [pela lei divina] saber"; est subentendido
1–2quem … fīnemquī, quae, quod (interrogativo adjetivo); fīnis, -is (m.)"que fim": acusativo, objeto de dederint; o adjetivo está separado do nome (hipérbato)
2dī dederintdeus, -ī (nom. pl. dī); dō, dare, dedīperfeito do subjuntivo: interrogativa indireta dependente de quaesierīs (capítulo 35)
2LeuconoēLeuconoē, -ēs (f.)vocativo de um nome grego, com -ē longo
2–3Babylōniōs … numerōsBabylōnius, -a, -um; numerus, -ī (m.)"os cálculos babilônicos": os horóscopos dos astrólogos
3temptārīstemptō, -āreperfeito do subjuntivo sincopado (= temptāverīs): segunda proibição, ligada por nec
3ut melius … patīut (exclamativo); patior, patī (depoente)"como é melhor suportar…!": exclamação sem verbo finito; patī é o infinitivo presente do depoente (capítulo 25)
3quidquid eritquisquis, quidquid"o que quer que seja (venha a ser)": relativo indefinido com futuro
4seu … seuconjunçãoquer… quer
4plūrīs hiemēsplūrēs, plūra; hiems, hiemis (f.)acusativo plural (plūrīs = plūrēs, forma de tema em -i, capítulo 10): "mais invernos", isto é, mais anos
4tribuittribuō, -ere, tribuīperfeito do indicativo: "concedeu"
4ultimamultimus, -a, -umconcorda com hiemem subentendido: "[este inverno] como o último"
5oppositīs … pūmicibusoppōnō, -ere, -posuī, -positum; pūmex, -icis (m.)ablativo: "contra os rochedos (de pedra porosa) postos à frente"; oppositīs é particípio perfeito (capítulo 29)
5dēbilitatdēbilitō, -āreenfraquecer, quebrar; o inverno "cansa" o mar, arremessando-o contra as rochas
5–6mare Tyrrhēnummare, -is (n.); Tyrrhēnus, -a, -umo mar Tirreno, a oeste da Itália; o adjetivo começa o verso seguinte (enjambement)
6sapiāssapiō, -ereter juízo, ser sensato; presente do subjuntivo, 2ª sing.: jussivo, "sê sensata"
6vīna liquēsvīnum, -ī (n.); liquō, -ārecoar o vinho (para tirar a borra e servi-lo logo); jussivo
6spatiō brevīspatium, -ī (n.); brevis, -eablativo: "sendo breve o espaço (da vida)"
7spem longam resecēsspēs, speī (f.); resecō, -āre"corta, poda a esperança longa": imagem do vinhateiro que poda a videira; jussivo
7dum loquimurloquor, loquī (depoente)"enquanto falamos": dum com presente
7fūgeritfugiō, -ere, fūgīfuturo perfeito do indicativo: "terá fugido" (antes que acabemos de falar)
7–8invida aetāsinvidus, -a, -um; aetās, -ātis (f.)"o tempo invejoso", que não quer que aproveitemos; hipérbato entre os dois versos
8carpecarpō, -ere, carpsīimperativo: "colhe", como se colhem flores e frutos
8quam minimumquam + superlativo"o menos possível" (capítulo 18)
8crēdula posterōcrēdulus, -a, -um (+ dat.); posterus, -a, -um"confiando no (dia) seguinte"; crēdula é nominativo feminino e concorda com o sujeito, Leucônoe; posterō é dativo, com diēī subentendido

Notas de leitura

Versos 1–3. A ode começa por uma proibição: nē quaesierīs, e, coordenada a ela por nec, temptārīs. Os dois verbos estão no perfeito do subjuntivo, na forma sincopada que o perfectum admite quando perde o -v- (quaesierīs por quaesīverīs, temptārīs por temptāverīs; Bennett § 116.1; A&G § 181). É a construção de proibição do capítulo 32, e o perfeito, aqui, não tem valor de passado. O objeto de quaesierīs é uma pergunta indireta, quem mihi, quem tibi fīnem dī dederint, "que fim os deuses deram a mim, que fim a ti", com a anáfora de quem separando o adjetivo do seu nome fīnem. No verso 3, depois da proibição, a alternativa: ut melius, quidquid erit, patī!, "como é melhor suportar o que vier!".

Versos 4–6. A frase com seu… seu admite as duas hipóteses e as declara indiferentes: talvez Júpiter nos tenha dado muitos invernos, talvez este seja o último. Repare que Horácio conta a vida em invernos, e que este inverno, descrito com o mar batendo nas rochas da costa, é real e presente (nunc). A imagem do mar que se cansa contra a pedra prepara os conselhos que vêm em seguida.

Versos 6–8. Três subjuntivos de 2ª pessoa do singular dão o conselho: sapiās, liquēs, resecēs. É o jussivo do capítulo 32, mas com uma diferença que vale a pena notar: na prosa, o jussivo de 2ª pessoa costuma ter sujeito indeterminado; na poesia, ele se dirige a uma pessoa definida, aqui Leucônoe (A&G § 439.a; Bennett § 275.2, com o exemplo modestē vīvās, "vive com moderação"). Ravizza (n. 371, observação) diz bem o tom: na 2ª pessoa, "mais que uma ordem, se dá conselho". Só no fim vem o imperativo seco, carpe, e a mudança de modo marca o ponto alto do poema. Entre os conselhos, a frase dum loquimur, fūgerit invida aetās usa o futuro perfeito para dizer que o tempo terá fugido antes que a própria conversa acabe: o poema inteiro, lido em voz alta, já consumiu um pouco do dia que manda colher.

O asclepiadeu maior e a ordem das palavras de Horácio ⚑

A ode I,11 está escrita em asclepiadeus maiores (de Asclepíades, poeta grego), versos de dezesseis sílabas formados por um espondeu inicial, três coriambos e um final de duas sílabas: é o asclepiadeu menor do capítulo 40 com um coriambo a mais. O coriambo é o pé – ˘ ˘ – (Ravizza n. 533), uma longa, duas breves e outra longa. Ravizza (n. 536) escande justamente o primeiro verso desta ode como exemplo do metro. Uma pausa de fim de palavra (diérese) separa o primeiro coriambo do segundo e o segundo do terceiro, de modo que o verso se ouve em três blocos.

Escansão de Horácio, Odes I,11, versos 1 e 8 (‖ = pausa de fim de palavra)
ParteEsquemav. 1: sílabasv. 8: sílabas
Espondeu– –Tū | nēae | tās
1º coriambo– ˘ ˘ –quae | si | e | rīs ‖car | pe | di | em ‖
2º coriambo– ˘ ˘ –scī | re | ne | fās ‖quam | mi | ni | mum ‖
3º coriambo– ˘ ˘ –quem | mi | hi | quemcrē | du | la | pos
Final˘ ×ti | bite | rō

Confira algumas quantidades do verso 1. Tū e nē são monossílabos terminados em vogal, longos (Bennett § 363.2.d). Em quaesierīs, o -rīs do perfeito do subjuntivo é longo (Bennett § 364.5.b), além de longo por posição antes de sc-. Nefās termina em -ās, longo (Bennett § 364.2). Em mihi e tibi, o i final é breve (Bennett § 363.3). No verso 8, diem não se elide, porque a palavra seguinte, quam, começa por consoante; e o -em, seguido de m + q, é longo por posição. Pratique os outros versos: todos seguem o mesmo esquema, sem substituições.

A ordem das palavras

A ordem das palavras de Horácio é a mais difícil da poesia latina, e a razão é que ela é calculada: o metro obriga, mas o poeta aproveita a obrigação para criar efeitos. A figura principal é o hipérbato, a separação de palavras que normalmente andam juntas (Bennett § 350.11.a). Em quem mihi, quem tibi / fīnem, o adjetivo interrogativo fica no verso 1 e o nome no verso 2; em invida / aetās, o adjetivo fecha o verso 7 e o nome abre o 8, de modo que o "tempo invejoso" literalmente atravessa a linha. Quando dois pares se cruzam numa ordem a-b-a-b, a figura se chama sínquise (Bennett § 350.11.d). A técnica de leitura é a do capítulo 8: avance pelo texto, anote o caso de cada adjetivo e deixe-o "em suspenso" até encontrar o nome com que concorda.

Tūnom.sujeito (Leucônoe)nē quaesierīsnē + perf. subj.proibiçãoquem … fīnemac.objeto da perguntadī dederintperf. subj.pergunta indireta
O período do verso 1, reduzido ao essencial: Tū nē quaesierīs quem fīnem dī dederint = Não procures saber que fim os deuses (te) deram. A proibição governa a pergunta indireta; mihi, tibi (dativos) e o parêntese scīre nefās ficaram de fora do esquema.
Figuras de linguagem nos dois poemas (capítulo 40)
FiguraOndeEfeito
Anáforadeinde … dein … deinde (Catulo 5,7–10); quem … quem (Horácio, v. 1)ritmo de contagem; insistência
Antítesesōlēs … redīre × nōbīs … semel; brevis lūx × nox perpetua (Catulo 5,4–6)o sol volta, nós não
OximoroŌdī et amō (Catulo 85)dois sentimentos contrários no mesmo instante
Hipérbatoquem … fīnem; invida … aetās (Horácio, vv. 1–2, 7–8)a ordem das palavras imita o sentido ou cria expectativa
Metáforalūx e nox por vida e morte (Catulo); carpe, resecēs (Horácio)a vida como dia; o tempo como colheita e poda
Assíndetodā mī bāsia mīlle, deinde centum, dein mīlle altera…pressa, acúmulo sem pausa

O subjuntivo nos dois poemas; análise palavra a palavra ⚑

Os dois poemas são um pequeno catálogo dos usos independentes do subjuntivo que o capítulo 32 apresentou, cercados de formas do indicativo que é preciso não confundir com eles. O quadro abaixo junta todos os verbos finitos dos dois textos:

Os verbos finitos dos dois poemas
FormaOndeModo, tempo, pessoaUsoTradução
vīvāmus, amēmus, aestimēmusCatulo 5,1.3subj. presente, 1ª pl.exortativovivamos, amemos, avaliemos
dāCatulo 5,7imperativo, 2ª sing.ordem diretadá
fēcerīmusCatulo 5,10ind. futuro perfeito, 1ª pl.com cum temporalquando tivermos feito
conturbābimusCatulo 5,11ind. futuro, 1ª pl.afirmaçãoembaralharemos
sciāmus; possitCatulo 5,11–12subj. presenteorações finais com nē (capítulo 33)para não sabermos; para que ninguém possa
sciatCatulo 5,13subj. presente, 3ª sing.cum dentro de uma oração no subjuntivo (capítulo 34)quando souber
nē quaesierīs; nec temptārīsHorácio, vv. 1–3subj. perfeito, 2ª sing.proibiçãonão procures; nem consultes
dederintHorácio, v. 2subj. perfeito, 3ª pl.interrogativa indireta (capítulo 35)(que fim) deram
sapiās, liquēs, resecēsHorácio, vv. 6–7subj. presente, 2ª sing.jussivo (conselho)sê sensata, coa, corta
fūgeritHorácio, v. 7ind. futuro perfeito, 3ª sing.afirmaçãoterá fugido
carpeHorácio, v. 8imperativo, 2ª sing.ordem diretacolhe
Futuro perfeito ou perfeito do subjuntivo? Fūgerit e fēcerīmus têm a mesma cara do perfeito do subjuntivo (fūgerit, fēcerimus): as duas séries só diferem na 1ª pessoa do singular (fūgerō × fūgerim). Quem decide é a construção. Em Horácio, fūgerit está numa oração principal sem nē, ao lado de dum loquimur: é uma afirmação sobre o futuro, "terá fugido". Em nē quaesierīs, ao contrário, o nē mostra que se trata de uma proibição, e portanto de subjuntivo.

Agora, a análise palavra a palavra do começo de Catulo, que reúne o exortativo, o vocativo e o genitivo de valor:

Catulo 5,1–3, palavra a palavra
PalavraDicionárioAnáliseFunção
Vīvāmusvīvō, -ere, vīxī, vīctum, viverpresente do subjuntivo ativo, 1ª pl.exortativo: "vivamos"
meameus, -a, -um, meuvocativo singular femininoconcorda com Lesbia
LesbiaLesbia, -ae (f.)vocativo singulara quem se fala
atqueatque (conjunção)invariávelliga vīvāmus e amēmus
amēmusamō, -āre, amāvī, amātum, amarpresente do subjuntivo ativo, 1ª pl.exortativo: "amemos"
rūmōrēsquerūmor, rūmōris (m.), boato + -queacusativo pluralobjeto de aestimēmus
senumsenex, senis (m.), velhogenitivo pluralde quem são os boatos
sevēriōrumsevērus, -a, -um; comparativo sevērior, -iusgenitivo plural masculinoconcorda com senum: "mais severos"
omnēsomnis, -e, todoacusativo plural masculinoconcorda com rūmōrēs, separado dele (hipérbato)
ūniusūnus, -a, -um, um sógenitivo singular (i breve, licença poética)concorda com assis
aestimēmusaestimō, -āre, avaliarpresente do subjuntivo ativo, 1ª pl.exortativo: "avaliemos"
assisas, assis (m.), asse (moeda)genitivo singulargenitivo de valor: "em (o preço de) um asse"

E o centro da ode de Horácio, com o jussivo, o futuro perfeito e o imperativo lado a lado:

Horácio, Odes I,11,6–8 (sapiās … posterō), palavra a palavra
PalavraDicionárioAnáliseFunção
sapiāssapiō, -ere, ter juízopresente do subjuntivo, 2ª sing.jussivo de conselho: "sê sensata"
vīnavīnum, -ī (n.), vinhoacusativo plural neutroobjeto de liquēs
liquēsliquō, -āre, coarpresente do subjuntivo, 2ª sing. (1ª conj.: -ā- → -ē-)jussivo: "coa"
etet (conjunção)invariávelliga o terceiro conselho
spatiō brevīspatium, -ī (n.); brevis, -eablativo singular neutrocircunstância: "sendo breve o espaço"
spem longamspēs, speī (f.); longus, -a, -umacusativo singular femininoobjeto de resecēs
resecēsresecō, -āre, cortar, podarpresente do subjuntivo, 2ª sing.jussivo: "corta"
dumdum (conjunção)invariável"enquanto", com o presente
loquimurloquor, loquī, locūtus sum, falarpresente do indicativo, 1ª pl. (depoente)oração temporal
fūgeritfugiō, -ere, fūgī, fugitum, fugirfuturo perfeito do indicativo, 3ª sing.verbo principal: "terá fugido"
invida aetāsinvidus, -a, -um; aetās, -ātis (f.)nominativo singular femininosujeito de fūgerit
carpecarpō, -ere, carpsī, carptum, colherimperativo presente, 2ª sing.ordem direta
diemdiēs, diēī (m.), diaacusativo singularobjeto de carpe
quam minimumquam + minimum (superlativo de parum)advérbio"o menos possível"
crēdulacrēdulus, -a, -um, que confianominativo singular femininopredicativo do sujeito (Leucônoe): "confiando"
posterōposterus, -a, -um, seguintedativo singular masculino (diēī subentendido)complemento de crēdula: "no (dia) seguinte"

Resumo

No próximo capítulo, Ovídio leva a leitura poética ao hexâmetro narrativo, com a criação do mundo no início das Metamorfoses.

Erros comuns ⚑

Prática guiada ⚑

Resolvida passo a passo: leia a pergunta, tente responder e só então abra cada passo.

Prática guiada 1 · Ler e traduzir Catulo 5,4–6

Leia em voz alta e traduza, na ordem latina: sōlēs occidere et redīre possunt: nōbīs, cum semel occidit brevis lūx, nox est perpetua ūna dormienda. Use o vocabulário da seção 2.

  1. Qual é o primeiro verbo finito, e qual o seu sujeito?
    Ver o passo

    Possunt, 3ª pl. de possum. O sujeito, no nominativo plural, é sōlēs: "os sóis podem". Occidere e redīre são infinitivos complementares de possunt (capítulo 27): "podem pôr-se e voltar".

  2. Que caso é nōbīs, e por que fica em suspenso?
    Ver o passo

    Dativo ou ablativo plural de nōs. Não há preposição; fica em suspenso até aparecer a construção que o explique. Ele contrasta com sōlēs: "mas para nós…" (a ausência de "mas" é um assíndeto adversativo).

  3. O que faz a oração cum semel occidit brevis lūx?
    Ver o passo

    Cum com indicativo é temporal: "quando de uma vez se põe a breve luz". Lūx é o sujeito, brevis concorda com ele (nominativo singular feminino). Occidit pode ser presente ou perfeito (as duas formas coincidem); o paralelo com occidere do verso 4 e o valor geral da frase pedem o presente.

  4. Analise a oração principal nox est perpetua ūna dormienda.
    Ver o passo

    Nox, nominativo singular, é o sujeito; perpetua e ūna concordam com ele; est dormienda é a perifrástica passiva (gerundivo + sum, capítulo 31): "a noite deve ser dormida". E agora nōbīs se explica: é o dativo de agente da perifrástica, "por nós".

  5. Monte a tradução.
    Ver o passo

    Literal: "Os sóis podem pôr-se e voltar; por nós, quando de uma vez se põe a breve luz, uma única noite perpétua deve ser dormida." Mais natural: "Os sóis podem pôr-se e voltar: nós, quando se apaga de uma vez a breve luz, temos de dormir uma única noite sem fim."

Prática guiada 2 · Escandir Horácio, Odes I,11,3

Escanda o verso temptārīs numerōs. ut melius, quidquid erit, patī. sabendo que ele é um asclepiadeu maior (– – | – ˘ ˘ – | – ˘ ˘ – | – ˘ ˘ – | ˘ ×).

  1. Há elisões?
    Ver o passo

    Não. Em numerōs ut, a primeira palavra termina em consoante; em melius quidquid e erit patī, a segunda palavra começa por consoante. Sem elisões, o verso deve ter exatamente dezesseis sílabas: temp-tā-rīs-nu-me-rōs-ut-me-li-us-quid-quid-e-rit-pa-tī.

  2. Quais são as duas primeiras sílabas?
    Ver o passo

    temp (longa por posição: e + mpt) e tā (longa por natureza: o ā de temptāre). Espondeu.

  3. Escanda o primeiro coriambo.
    Ver o passo

    rīs (–: -īs longo do perfeito do subjuntivo, Bennett § 364.5.b), nu (˘), me (˘), rōs (–: acusativo plural em -ōs). Fim de palavra depois de numerōs: é a primeira pausa.

  4. E o segundo?
    Ver o passo

    ut (–: longa por posição, t + m), me (˘), li (˘: vogal antes de vogal), us (–: s + qu). Fim de palavra depois de melius: segunda pausa.

  5. Termine o verso.
    Ver o passo

    Terceiro coriambo: quid (–: d + qu), qui (˘), de (˘: o d passa para a sílaba seguinte, qui-de-rit), rit (–: t + p). Final: pa (˘), tī (×).

Conclusão: as quantidades do verso confirmam a forma sincopada temptārīs (com ā e ī longos) e mostram que o ritmo de Horácio é regular: o que parece difícil é a ordem das palavras, não o metro.

Exercícios independentes ⚑

Faça por escrito ou em voz alta; abra "Ver resposta" só depois de tentar. A explicação da resposta faz parte da lição.

Exercício 1 · Compreensão

Responda em português, apoiando cada resposta numa palavra ou expressão latina.

  1. Em Catulo 5, quanto valem os comentários dos velhos, e que palavra diz isso?
    Ver resposta

    Valem um asse, a menor moeda: ūnius aestimēmus assis, genitivo de valor. Isto é, não valem nada.

  2. Qual é, em Catulo 5,4–6, a diferença entre os sóis e nós?
    Ver resposta

    Os sóis "podem pôr-se e voltar" (occidere et redīre possunt); nós, quando a breve luz se põe "uma vez" (semel), temos uma "noite perpétua" (nox perpetua). O sol volta; a vida humana não.

  3. Por que os amantes vão "embaralhar" a conta dos beijos?
    Ver resposta

    Por dois motivos, em duas orações finais: nē sciāmus, para que eles mesmos não saibam o total, e nē quis malus invidēre possit, para que nenhum malvado possa lançar mau-olhado, o que, na crença antiga, exigia saber o número exato.

  4. O que Leucônoe estava fazendo, segundo Horácio?
    Ver resposta

    Consultando os "cálculos babilônicos" (Babylōniōs numerōs), isto é, horóscopos, para saber "que fim os deuses deram" a ela e ao poeta (quem mihi, quem tibi fīnem dī dederint).

  5. Que estação do ano é o "agora" da ode, e como se sabe?
    Ver resposta

    O inverno: o poeta fala do inverno "que agora (nunc) cansa o mar Tirreno contra os rochedos" (vv. 4–6). Quae retoma ultimam (hiemem).

Exercício 2 · Morfologia dos verbos

Dê o modo, o tempo, a pessoa e o número, e a forma de dicionário.

  1. aestimēmus
    Ver resposta

    Presente do subjuntivo ativo, 1ª pessoa do plural, de aestimō, -āre. O -ē- no lugar do -ā- é a marca do subjuntivo na 1ª conjugação.

  2. conturbābimus
    Ver resposta

    Futuro do indicativo ativo, 1ª pessoa do plural, de conturbō, -āre (sufixo -bi- da 1ª e 2ª conjugações).

  3. fēcerīmus
    Ver resposta

    Futuro perfeito do indicativo ativo, 1ª pessoa do plural, de faciō, -ere, fēcī. Com cum: "quando tivermos feito".

  4. quaesierīs
    Ver resposta

    Perfeito do subjuntivo ativo, 2ª pessoa do singular, de quaerō, -ere, quaesīvī, em forma sincopada (= quaesīverīs).

  5. liquēs
    Ver resposta

    Presente do subjuntivo ativo, 2ª pessoa do singular, de liquō, -āre. Cuidado: não é presente do indicativo da 2ª conjugação; o dicionário mostra que o verbo é da 1ª, e então -ē- é subjuntivo.

  6. fūgerit
    Ver resposta

    Futuro perfeito do indicativo ativo, 3ª pessoa do singular, de fugiō, -ere, fūgī. A forma é idêntica à do perfeito do subjuntivo; o contexto (oração principal, sem nē, ao lado de dum loquimur) decide.

  7. patī
    Ver resposta

    Infinitivo presente de patior, patī, passus sum, verbo depoente: forma passiva, sentido ativo, "suportar".

Exercício 3 · Sintaxe

Explique a construção destacada.

  1. nōbīs … nox est perpetua ūna dormienda (Catulo 5,5–6)
    Ver resposta

    Perifrástica passiva (gerundivo + sum), que exprime obrigação: "deve ser dormida". Nōbīs é o dativo de agente, próprio dessa construção: "por nós" (capítulo 31).

  2. omnēs ūnius aestimēmus assis (Catulo 5,3)
    Ver resposta

    Genitivo de valor com verbo de avaliar (aestimāre): "avaliemos em um asse" (capítulo 20).

  3. nē quaesierīs … nec temptārīs (Horácio, vv. 1–3)
    Ver resposta

    Proibição: nē + perfeito do subjuntivo, 2ª pessoa, continuada por nec + outro perfeito do subjuntivo. O perfeito não tem valor de passado (capítulo 32; A&G § 450).

  4. sapiās, vīna liquēs … resecēs (Horácio, vv. 6–7)
    Ver resposta

    Subjuntivo jussivo de 2ª pessoa, dirigido a uma pessoa definida, uso próprio da poesia (A&G § 439.a), com tom de conselho (Ravizza n. 371).

  5. crēdula posterō (Horácio, v. 8)
    Ver resposta

    Adjetivo no nominativo feminino singular, predicativo do sujeito de carpe (Leucônoe): "(tu,) confiando o menos possível no amanhã". Posterō é o dativo regido por crēdula.

Exercício 4 · Métrica

Responda e justifique com as regras de quantidade.

  1. Escanda Catulo 5,7: dā mī bāsia mīlle, deinde centum.
    Ver resposta

    dā (–) mī (–) | bā (–) si (˘) a (˘) mīl (–) le (˘) dein (–) de (˘) cen (–) tum (×). Onze sílabas, sem elisão (mīlle termina em vogal, mas deinde começa por consoante); dein- é uma só sílaba por sinizese.

  2. Quantas sílabas tem Horácio, Odes I,11,2 (fīnem dī dederint, Leuconoē, nec Babylōniōs), e onde caem as pausas?
    Ver resposta

    Dezesseis: fī-nem | dī-de-de-rint ‖ Leu-co-no-ē ‖ nec-Ba-by-lō | ni-ōs. As pausas de fim de palavra caem depois de dederint e de Leuconoē, isto é, depois do 1º e do 2º coriambo, como manda o asclepiadeu maior.

  3. Por que a primeira sílaba de occidere é longa, se o o é breve?
    Ver resposta

    Porque o o é seguido de duas consoantes (cc): a sílaba é longa por posição (Bennett § 5.B.1.c), embora a vogal continue breve.

  4. No pentâmetro de Catulo 85, como se lê sentiō et excrucior?
    Ver resposta

    O -ō final de sentiō se elide diante de et: sen-ti-e-tex-cru-ci-or, dois dáctilos (sen-ti-e, tex-cru-ci) e o meio pé final (or), como na segunda metade de todo pentâmetro.

Exercício 5 · Tradução e reflexão

Traduza com as suas palavras e responda.

  1. Traduza Horácio, vv. 3–4: ut melius, quidquid erit, patī. seu plūrīs hiemēs seu tribuit Iuppiter ultimam.
    Ver resposta

    "Como é melhor suportar o que vier! Quer Júpiter (nos) tenha concedido mais invernos, quer (este) como o último…". Ut é exclamativo; patī é o infinitivo do depoente patior; plūrīs é acusativo plural (= plūrēs) e ultimam concorda com hiemem subentendido.

  2. Traduza Catulo 5,10–11: dein, cum mīlia multa fēcerīmus, conturbābimus illa, nē sciāmus.
    Ver resposta

    "Depois, quando tivermos feito muitos milhares, vamos embaralhá-los, para não sabermos (quantos são)." Illa (neutro plural) retoma mīlia; nē sciāmus é oração final.

  3. Em que os dois poemas concordam, e em que diferem? Responda em três ou quatro linhas, citando o latim.
    Ver resposta

    Concordam no ponto de partida: a vida é breve (brevis lūx em Catulo; spatiō brevī em Horácio) e o presente é o que temos. Diferem no tom e na resposta: Catulo convida, com exortativos de 1ª pessoa (vīvāmus, amēmus), a um amor que ignora os outros e multiplica sem medida; Horácio aconselha, com jussivos de 2ª pessoa (sapiās, resecēs), a renunciar ao saber do futuro e a moderar a esperança. Em Catulo a resposta é a intensidade; em Horácio, a sensatez.

Leituras recomendadas

Depois deste capítulo, continue em Catulo com poemas curtos do mesmo livro (na edição de Ellis, Catulli Carmina): o 101, a despedida ao irmão morto, em dísticos, e os poemas 2 e 3, sobre o pardal de Lésbia, em hendecassílabos. Nas Odes de Horácio (Shorey e Laing), leia I,9 (o monte Soracte coberto de neve, com outro carpe diem) e I,22 (Integer vitae, em estrofes sáficas), sempre com o vocabulário ao lado. Para treinar a escansão do dístico elegíaco antes de Ovídio, o livro I dos Amores na edição comentada do DCC traz vocabulário, notas e áudio. As regras de métrica estão em Ravizza (nn. 533–536) e em Bennett (§§ 360–369).

Etapa V · Auctores RomaniDificuldade 4 · AvançadoOriginal ÁudioTexto na biblioteca

Catulli Carmina

Gaius Valerius Catullus

Os poemas de Catulo na edição crítica de Oxford (Ellis, 1904), em latim, com aparato. Poemas curtos, diretos e emocionais ("Odi et amo", "Vivamus, mea Lesbia"); os metros variados pedem um pouco de estudo. Os poemas 3, 5 e 8 têm gravação no LibriVox.

Poesia lírica · Clássico · algumas semanas · Project Gutenberg

Ler aqui: texto latino da edição de Elmer Truesdell Merrill (1893)

Etapa V · Auctores RomaniDificuldade 5 · SuperiorOriginalTexto na biblioteca

Carmina et Epodi (Odes e Epodos)

Quintus Horatius Flaccus

As Odes (quatro livros), o Carmen Saeculare e os Epodos, texto latino sem notas. A ordem das palavras de Horácio é a mais difícil da poesia latina; leia com um comentário ou tradução ao lado.

Poesia lírica · Clássico · alguns meses · Project Gutenberg

Ler aqui: texto latino da edição de Paul Shorey e Gordon J. Laing (1919); Friedrich Vollmer (1912)

Etapa V · Auctores RomaniDificuldade 4 · AvançadoOriginal ÁudioCom notasTexto na biblioteca

Amores, liber I

Publius Ovidius Naso

O livro I dos Amores completo (15 elegias), com vocabulário por poema, notas, ensaios e gravações em áudio. A poesia latina mais acessível para começar: frases claras, humor e dísticos regulares. Edição impressa e PDF gratuitos na Open Book Publishers.

Poesia elegíaca · Clássico · algumas semanas · Dickinson College Commentaries

Ler aqui: texto latino da edição de Rudolf Ehwald (1907)

Etapa I · Prima VerbaDidáticoCom notas

Gramática Latina

Pe. João Ravizza

Gramática latina completa em português, usada por gerações nas escolas brasileiras, com um compêndio de história da literatura latina. Nona edição (1940), em domínio público (autor falecido em 1941). Fac-símile em PDF no Internet Archive.

Gramática · Moderno (material didático) · consulta · Internet Archive

Ler na fonte ↗PDF na fonte ↗
Etapa II · Primae FabulaeDidático

New Latin Grammar

Charles E. Bennett

Gramática de referência compacta (1918), em inglês, com macrons: sons, flexões, sintaxe, prosódia. Mais curta e mais fácil de consultar que Allen & Greenough; cabe num leitor de EPUB.

Gramática · Moderno (material didático) · consulta · Project Gutenberg

Ler na fonte ↗EPUB na fonte ↗
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Créditos e fontes

Autoria
Bibliotheca Latina. Conteúdo original com trechos de obras em domínio público; licença CC BY 4.0.
Fontes consultadas
  • Catullus, ed. Elmer Truesdell Merrill (Boston: Ginn and Company, 1893), Gaius Valerius Catullus · domínio público · texto dos poemas 5 e 85 conferido no arquivo TEI da Perseus (canonical-latinLit, phi0472.phi001.perseus-lat2), que declara a edição de Merrill e o metro de cada poema (Phalaecean; Elegiac); comparado com The Latin Library (thelatinlibrary.com/catullus.shtml), que só difere na pontuação. Macrons acrescentados por nós.
  • Horace, Odes and Epodes, ed. Paul Shorey e Gordon J. Laing (Chicago: Benj. H. Sanborn, 1919), Quintus Horatius Flaccus · domínio público · texto da ode I,11 (e do verso I,22,1) conferido no arquivo TEI da Perseus (phi0893.phi001.perseus-lat2), que indica o metro "Fifth (Greater) Asclepiadean"; comparado com The Latin Library (horace/carm1.shtml), que só difere na pontuação. Macrons acrescentados por nós.
  • Catulli Carmina, Gaius Valerius Catullus (no catálogo) · domínio público · edição de Robinson Ellis (Oxford, 1904) indicada no catálogo para a leitura dos demais poemas
  • Carmina et Epodi (Odes e Epodos), Quintus Horatius Flaccus (no catálogo) · domínio público · a mesma edição Shorey e Laing, no Project Gutenberg
  • New Latin Grammar, Charles E. Bennett (no catálogo) · domínio público · § 5 (quantidade das vogais e das sílabas; sílaba longa por posição; sílabas comuns), § 101 (3ª pl. do perfeito em -ēre), § 116.1 (perfeitos sincopados: amārim por amāverim), § 189.1 (dativo de agente com o gerundivo), § 274 (exortativo), § 275 (jussivo; 275.2 na 2ª pessoa: modestē vīvās), § 276 (proibição com nē, presente ou perfeito), § 350.11 (hipérbato, anáfora, quiasmo, sínquise), § 361 (o verso latino baseado na quantidade), § 362.1.a (ūnius com i breve na poesia), § 363.2.d e 363.3 (nē longo; mihi, tibi com i breve), § 363.4.b (o final breve na 1ª pessoa do verbo), § 364.2 e 364.5.b (-ās longo; -īs longo no perfeito do subjuntivo), § 366 (pés, ictus, elisão, cesura, sílaba final anceps), § 367.1 (sinérese: deinde), §§ 368–369 (hexâmetro, pentâmetro e dístico elegíaco), § 375.2 (oximoro)
  • Allen and Greenough's New Latin Grammar, J. H. Allen e J. B. Greenough (no catálogo) · domínio público · § 181.a–b (formas contraídas do perfectum: amārim, audieram), § 439 (exortativo; nota 2: exortativo e jussivo são a mesma construção; 439.a: 2ª pessoa com sujeito definido só em proibições, no latim arcaico e na poesia), § 450 (proibições: nōlī + infinitivo, cavē + subjuntivo, nē + perfeito do subjuntivo), § 603 (regras gerais de quantidade; 603.c nota: sinérese em deinde), § 604 (quantidade das sílabas finais; 604.g: o final comum; 604.i.5: -is longo às vezes em -eris). A edição DCC consultada não traz a parte de versificação (metros líricos), por isso os metros foram conferidos em Bennett, Kennedy e Ravizza.
  • Kennedy's Revised Latin Primer, Benjamin Hall Kennedy (no catálogo) · domínio público · § 347 (proibições), § 474 (pés; elisão), §§ 475–476 (metro, escansão, cesura forte e fraca), § 477 (hexâmetro), § 478 (pentâmetro e dístico elegíaco), § 481 (metros estróficos; base), § 482 (estrofe sáfica). Números lidos no OCR local.
  • Gramática Latina, Pe. João Ravizza (no catálogo) · domínio público · n. 371 (subjuntivo exortativo; observação: na 2ª pessoa do singular, "mais que uma ordem, se dá conselho"), n. 533 (pés: espondeu, dáctilo, coriambo), n. 534 (cesura), n. 535 (elisão, sinérese, sístole), n. 536 (espécies de versos: hexâmetro, pentâmetro e dístico; asclepiadeu maior, com a escansão de "Tu ne quaesieris"; falécio ou hendecassílabo, com um verso de Catulo; sáfico e adônio, com "Integer vitae"). Números lidos no OCR local, que às vezes os deforma (552 por 532, 555 por 533).
Para ir além
Catulli Carmina, Carmina et Epodi (Odes e Epodos), Amores, liber I, Gramática Latina, New Latin Grammar (ver Leituras recomendadas acima).