Leitura comentada de um artigo inteiro da Suma de Teologia (I, q. 2, a. 1: se a existência de Deus é conhecida por si mesma), no texto da edição Leonina de 1888. A estrutura do artigo escolástico (Videtur quod, Sed contra, Respondeo dicendum quod, Ad primum) como método de leitura, o vocabulário técnico (ratiō, ēns, esse, essentia, āctus e potentia), as orações com quod e quia, o gerundivo e a passiva impessoais e o ablativo absoluto da argumentação, com tradução própria. O capítulo fecha o livro com um roteiro de leituras.
Neste capítulo você vai
Reconhecer as partes de um artigo escolástico e usar essa estrutura como roteiro de leitura (primeiro o título, o Sed contrā e o Respondeō; depois as objeções e as respostas).
Ler e traduzir, com apoio do vocabulário, o artigo I, q. 2, a. 1 da Suma de Teologia, distinguindo a opinião das objeções da posição de Tomás.
Explicar o sentido técnico de per sē nōtum, quoad nōs, ratiō, ēns, esse, essentia, āctus e potentia.
Analisar as construções típicas do latim escolástico: Deum esse como sujeito, quod e quia no lugar da oração infinitiva, dīcendum e prōcēditur impessoais, ablativos absolutos como cognitīs terminīs e datō quod.
Escolher no catálogo as próximas leituras, de acordo com o próprio interesse e nível.
Tomás de AquinoSuma de Teologiaedição Leonina (1888)quaestiō e articulusa estrutura do artigo escolásticoVidetur quod, Praetereā, Sed contrāRespondeō dīcendum quodAd prīmum ergō dīcendum quodcomo citar a Sumaper sē nōtum, quoad nōs, secundum sēratiō, ēns, esse, essentiaāctus e potentiaoração infinitiva como sujeito (Deum esse)quod e quia no lugar da oração infinitivainterrogativa indireta no indicativogerundivo impessoal (dīcendum)passiva impessoal (prōcēditur)ablativo absoluto argumentativo (cognitīs terminīs, datō quod)Anselmo e o Proslogionleitura comentadaroteiro de leituras
Antes deste capítulo: Capítulo 35 (a interrogativa indireta) e capítulo 53 (Agostinho), que fecha a leitura do latim cristão antigo. Você vai usar também a oração infinitiva (capítulo 28), o ablativo absoluto (capítulo 30), o gerundivo e a perifrástica passiva (capítulo 31), a voz passiva (capítulos 23 e 24) e o que o capítulo 50 explica sobre quod e quia no latim cristão e medieval. · capítulo 23 · capítulo 28 · capítulo 30 · capítulo 31 · capítulo 35 · capítulo 50 · capítulo 53
Tomás nasceu por volta de 1225 em Roccasecca, perto de Aquino, no sul da Itália, entrou contra a vontade da família na Ordem dos Pregadores (os dominicanos), estudou em Paris e em Colônia com Alberto Magno e ensinou teologia em Paris, em Roma e em Nápoles. Morreu em 1274, a caminho do Concílio de Lyon, com menos de cinquenta anos. A Suma de Teologia (Summa theologiae), começada por volta de 1265–1266 e deixada inacabada, foi escrita, diz o prólogo, para os "principiantes" na teologia: é um manual, embora imenso.
A obra divide-se em três partes (a segunda em duas): a Prīma pars (Deus e a criação), a Prīma secundae e a Secunda secundae (o agir humano, as virtudes) e a Tertia pars (Cristo e os sacramentos), interrompida na questão 90 e completada depois por discípulos (o Supplēmentum). Cada parte divide-se em questões (quaestiōnēs), grandes temas, e cada questão em artigos (articulī), perguntas precisas a que se responde sim ou não. A citação segue essa divisão: I, q. 2, a. 1 é a primeira parte, questão 2, artigo 1; acrescenta-se co. (o corpo do artigo), arg. 1 (a primeira objeção) ou ad 1 (a resposta à primeira objeção) quando se quer remeter a um trecho.
O artigo que você vai ler abre a questão 2, "Se Deus existe", e pergunta se a existência de Deus é conhecida por si mesma, isto é, evidente sem demonstração, como "o todo é maior que a parte". Se fosse, não haveria nada a provar. Tomás responde que não, para nós, e por isso, no artigo 3, apresenta as famosas "cinco vias". O artigo dialoga com três autoridades: João Damasceno (século VIII), Aristóteles, a quem Tomás chama simplesmente Philosophus, "o Filósofo", e, sem nomeá-lo, Anselmo de Cantuária, cujo argumento do Proslogion aparece na segunda objeção.
O artigo da Suma não é um ensaio: é a forma escrita de uma disputa universitária, a quaestiō disputāta das escolas medievais. Tem sempre as mesmas partes, na mesma ordem, cada uma anunciada por uma fórmula fixa. Quem conhece as fórmulas sabe a cada linha quem está falando: o adversário, a autoridade ou o próprio Tomás.
As partes de um artigo da Suma
Parte
Fórmula latina
Tradução
Quem fala, e o que faz
Título
Utrum… (com subjuntivo)
"Se…"
a pergunta, como interrogativa indireta: Utrum Deum esse sit per sē nōtum
Objeções (argūmenta)
Ad prīmum sīc prōcēditur. Vidētur quod…; depois Praetereā…
"Quanto ao primeiro [artigo], procede-se assim. Parece que…"; "Além disso…"
os argumentos a favor da resposta que Tomás vai rejeitar; cada um termina com Ergō…
Sed contrā
Sed contrā… (ou Sed contrā est quod…)
"Mas, em sentido contrário…"
uma autoridade (a Bíblia, um Padre, Aristóteles) a favor da resposta oposta; ainda não é a demonstração
Corpo (corpus)
Respondeō dīcendum quod…
"Respondo: deve-se dizer que…"
a solução de Tomás, com distinções e razões; é a parte que se cita como co.
Respostas
Ad prīmum ergō dīcendum quod…; Ad secundum dīcendum quod…
"Quanto ao primeiro, portanto, deve-se dizer que…"
a resposta a cada objeção, na ordem: o que ela tem de verdadeiro e onde erra
O erro clássico do leitor novato é tomar a primeira frase, Vidētur quod…, pela opinião de Tomás. É o contrário: vidētur, "parece", introduz a tese que vai ser examinada e, neste artigo, recusada. Daí um conselho prático de ordem de leitura, que os professores de escolástica repetem há gerações:
Leia o título (Utrum…) e formule a pergunta em português.
Leia o Sed contrā: ele costuma indicar o lado que Tomás vai defender, embora nem sempre com a mesma razão.
Leia o corpo (Respondeō dīcendum quod…) e procure a distinção que resolve o problema; em Tomás quase sempre há uma (dupliciter, "de dois modos").
Só então leia cada objeção com a sua resposta, aos pares (arg. 1 com ad 1, arg. 2 com ad 2…).
Os conectores são a sua bússola.Ergō e igitur anunciam a conclusão; enim, a prova ("pois"); sed, a premissa menor ou a objeção ("ora", "mas"); autem, um passo adiante ("ora", "por outro lado"); praetereā, um novo argumento; unde, uma consequência ("daí"). Sublinhe-os antes de traduzir: o esqueleto lógico do artigo aparece sozinho.
Leia o texto inteiro, parte por parte. Na coluna da direita está uma tradução própria deste livro, próxima do latim; per sē nōtum foi traduzido por "conhecido por si", e o seu sentido técnico é explicado na seção 4.
Utrum Deum esse sit per sē nōtum
Ad prīmum sīc prōcēditur. Vidētur quod Deum esse sit per sē nōtum.
[Objeção 1] Quanto ao primeiro, procede-se assim. Parece que a existência de Deus é conhecida por si.
Illa enim nōbīs dīcuntur per sē nōta, quōrum cognitiō nōbīs nātūrāliter inest, sīcut patet dē prīmīs prīncipiīs.
Pois dizem-se conhecidas por si, para nós, aquelas coisas cujo conhecimento está em nós por natureza, como se vê nos primeiros princípios.
Sed, sīcut dīcit Damascēnus in prīncipiō librī suī, omnibus cognitiō existendī Deum nātūrāliter est īnserta. Ergō Deum esse est per sē nōtum.
Ora, como diz o Damasceno no princípio do seu livro, o conhecimento de que Deus existe está naturalmente inserido em todos. Logo, que Deus existe é conhecido por si.
2. Praetereā, illa dīcuntur esse per sē nōta, quae statim, cognitīs terminīs, cognōscuntur: quod Philosophus attribuit prīmīs dēmōnstrātiōnis prīncipiīs, in I Poster.:
[Objeção 2] Além disso, dizem-se conhecidas por si as coisas que se conhecem logo que se conhecem os termos: o que o Filósofo atribui aos primeiros princípios da demonstração, no livro I dos Analíticos posteriores:
scītō enim quid est tōtum et quid pars, statim scītur quod omne tōtum maius est suā parte.
pois, sabido o que é o todo e o que é a parte, logo se sabe que todo todo é maior que a sua parte.
Sed intellēctō quid significet hōc nōmen Deus, statim habētur quod Deus est.
Ora, entendido o que significa este nome, "Deus", logo se tem que Deus existe.
Significātur enim hōc nōmine id quō maius significārī nōn potest: maius autem est quod est in rē et intellēctū, quam quod est in intellēctū tantum:
Pois com este nome se significa aquilo maior do que o qual nada pode ser significado; ora, é maior o que existe na realidade e no intelecto do que o que existe só no intelecto;
unde cum, intellēctō hōc nōmine Deus, statim sit in intellēctū, sequitur etiam quod sit in rē. Ergō Deum esse est per sē nōtum.
daí que, como, entendido o nome "Deus", ele logo está no intelecto, segue-se que está também na realidade. Logo, que Deus existe é conhecido por si.
3. Praetereā, vēritātem esse est per sē nōtum: quia quī negat vēritātem esse, concēdit vēritātem esse: sī enim vēritās nōn est, vērum est vēritātem nōn esse.
[Objeção 3] Além disso, que a verdade existe é conhecido por si: porque quem nega que a verdade existe concede que a verdade existe; pois, se a verdade não existe, é verdade que a verdade não existe.
Sī autem est aliquid vērum, oportet quod vēritās sit. Deus autem est ipsa vēritās, Ioann. XIV: Ego sum via, vēritās et vīta. Ergō Deum esse est per sē nōtum.
Ora, se algo é verdadeiro, é necessário que a verdade exista. E Deus é a própria verdade, João 14: "Eu sou o caminho, a verdade e a vida". Logo, que Deus existe é conhecido por si.
Sed contrā, nūllus potest cōgitāre oppositum eius quod est per sē nōtum, ut patet per Philosophum, in IV Metaphys. et I Poster., circā prīma dēmōnstrātiōnis prīncipia.
[Sed contra] Mas, em sentido contrário, ninguém pode pensar o oposto daquilo que é conhecido por si, como mostra o Filósofo, no livro IV da Metafísica e no I dos Analíticos posteriores, a propósito dos primeiros princípios da demonstração.
Cōgitārī autem potest oppositum eius quod est Deum esse, secundum illud Psalmī LII: Dīxit īnsipiēns in corde suō, nōn est Deus. Ergō Deum esse nōn est per sē nōtum.
Ora, pode-se pensar o oposto de "Deus existe", segundo aquilo do Salmo 52: "Disse o insensato no seu coração: não há Deus". Logo, que Deus existe não é conhecido por si.
Respondeō dīcendum quod contingit aliquid esse per sē nōtum dupliciter: ūnō modō, secundum sē et nōn quoad nōs; aliō modō, secundum sē et quoad nōs.
[Corpo] Respondo: deve-se dizer que algo pode ser conhecido por si de dois modos: de um modo, em si e não para nós; de outro modo, em si e para nós.
Ex hōc enim aliqua prōpositiō est per sē nōta, quod praedicātum inclūditur in ratiōne subiectī, ut homō est animal: nam animal est dē ratiōne hominis.
Pois uma proposição é conhecida por si pelo fato de o predicado estar incluído na noção do sujeito, como "o homem é animal": pois "animal" pertence à noção de homem.
Sī igitur nōtum sit omnibus dē praedicātō et dē subiectō quid sit, prōpositiō illa erit omnibus per sē nōta: sīcut patet in prīmīs dēmōnstrātiōnum prīncipiīs, quōrum terminī sunt quaedam commūnia quae nūllus ignōrat, ut ēns et nōn ēns, tōtum et pars, et similia.
Se, portanto, for sabido por todos, do predicado e do sujeito, o que são, essa proposição será conhecida por si para todos: como se vê nos primeiros princípios das demonstrações, cujos termos são noções comuns que ninguém ignora, como ente e não ente, todo e parte, e semelhantes.
Sī autem apud aliquōs nōtum nōn sit dē praedicātō et subiectō quid sit, prōpositiō quidem quantum in sē est, erit per sē nōta: nōn tamen apud illōs quī praedicātum et subiectum prōpositiōnis ignōrant.
Mas, se para alguns não for sabido, do predicado e do sujeito, o que são, a proposição, quanto a si, será conhecida por si; não, porém, para aqueles que ignoram o predicado e o sujeito da proposição.
Et ideō contingit, ut dīcit Boētius in librō dē Hebdomadibus, quod quaedam sunt commūnēs animī conceptiōnēs et per sē nōtae, apud sapientēs tantum, ut incorporālia in locō nōn esse.
E por isso acontece, como diz Boécio no livro Sobre as hebdômadas, que certas coisas são concepções comuns do espírito e conhecidas por si só entre os sábios, como "as coisas incorpóreas não estão num lugar".
Dīcō ergō quod haec prōpositiō, Deus est, quantum in sē est, per sē nōta est: quia praedicātum est idem cum subiectō; Deus enim est suum esse, ut īnfrā patēbit.
Digo, pois, que esta proposição, "Deus existe", quanto a si, é conhecida por si: porque o predicado é idêntico ao sujeito; pois Deus é o seu próprio ser, como se verá adiante.
Sed quia nōs nōn scīmus dē Deō quid est, nōn est nōbīs per sē nōta: sed indiget dēmōnstrārī per ea quae sunt magis nōta quoad nōs, et minus nōta quoad nātūram, scīlicet per effectūs.
Mas, como nós não sabemos de Deus o que ele é, ela não é conhecida por si para nós: precisa ser demonstrada por meio das coisas que são mais conhecidas para nós e menos conhecidas por natureza, isto é, pelos efeitos.
Ad prīmum ergō dīcendum quod cognōscere Deum esse in aliquō commūnī, sub quādam cōnfūsiōne, est nōbīs nātūrāliter īnsertum, inquantum scīlicet Deus est hominis beātitūdō:
[Resposta 1] Quanto ao primeiro, portanto, deve-se dizer que conhecer que Deus existe de modo geral, sob certa confusão, está naturalmente inserido em nós, na medida em que Deus é a felicidade do homem:
homō enim nātūrāliter dēsīderat beātitūdinem, et quod nātūrāliter dēsīderātur ab homine, nātūrāliter cognōscitur ab eōdem.
pois o homem deseja naturalmente a felicidade, e o que é desejado naturalmente pelo homem é naturalmente conhecido por ele.
Sed hōc nōn est simpliciter cognōscere Deum esse; sīcut cognōscere venientem, nōn est cognōscere Petrum, quamvīs sit Petrus veniēns:
Mas isso não é, em sentido próprio, conhecer que Deus existe; assim como conhecer alguém que vem não é conhecer Pedro, ainda que seja Pedro quem vem:
multī enim perfectum hominis bonum, quod est beātitūdō, exīstimant dīvitiās; quīdam vērō voluptātēs; quīdam autem aliquid aliud.
pois muitos julgam que o bem perfeito do homem, que é a felicidade, são as riquezas; outros, os prazeres; outros ainda, alguma outra coisa.
Ad secundum dīcendum quod forte ille quī audit hōc nōmen Deus, nōn intelligit significārī aliquid quō maius cōgitārī nōn possit, cum quīdam crēdiderint Deum esse corpus.
[Resposta 2] Quanto ao segundo, deve-se dizer que talvez quem ouve o nome "Deus" não entenda que se significa algo maior do que o qual nada pode ser pensado, já que alguns acreditaram que Deus é um corpo.
Datō etiam quod quīlibet intelligat hōc nōmine Deus significārī hōc quod dīcitur, scīlicet illud quō maius cōgitārī nōn potest; nōn tamen propter hōc sequitur quod intelligat id quod significātur per nōmen, esse in rērum nātūrā; sed in apprehēnsiōne intellēctūs tantum.
E, dado mesmo que qualquer um entenda que pelo nome "Deus" se significa o que se diz, isto é, aquilo maior do que o qual nada pode ser pensado, nem por isso se segue que entenda que aquilo que o nome significa existe na realidade das coisas, mas só na apreensão do intelecto.
Nec potest arguī quod sit in rē, nisi darētur quod sit in rē aliquid quō maius cōgitārī nōn potest: quod nōn est datum ā pōnentibus Deum nōn esse.
E não se pode argumentar que existe na realidade, a não ser que se concedesse que existe na realidade algo maior do que o qual nada pode ser pensado: o que não é concedido pelos que afirmam que Deus não existe.
Ad tertium dīcendum quod vēritātem esse in commūnī, est per sē nōtum: sed prīmam vēritātem esse, hōc nōn est per sē nōtum quoad nōs.
[Resposta 3] Quanto ao terceiro, deve-se dizer que é conhecido por si que existe a verdade em geral; mas que existe a primeira verdade, isso não é conhecido por si para nós.
Algumas notas sobre as referências. Damascēnus é João Damasceno, teólogo grego do século VIII; a Leonina remete ao Dē fide orthodoxā, I, caps. 1 e 3. In I Poster. e in IV Metaphys. são os Analíticos posteriores e a Metafísica de Aristóteles, lidos por Tomás em tradução latina. O Salmo 52 da Vulgata é o 53 das Bíblias modernas (veja o capítulo 53 sobre a numeração). A segunda objeção reproduz, sem citar o nome, o argumento de Anselmo de Cantuária no capítulo 2 do Proslogion, que define Deus como aliquid quō nihil maius cōgitārī possit, "algo maior do que o qual nada se pode pensar", e que também parte do Dīxit īnsipiēns. O próprio Tomás retoma a fórmula de Anselmo na resposta 2 (quō maius cōgitārī nōn potest).
O latim escolástico usa palavras comuns com sentido técnico preciso, quase sempre herdado das traduções latinas de Aristóteles. Traduzir essas palavras pelo sentido clássico ou pelo português corrente é a fonte mais frequente de erro. A tabela reúne as do artigo e as que você vai encontrar logo nos artigos seguintes.
Vocabulário técnico do artigo e das questões vizinhas
Termo
Sentido técnico
No texto ou na Suma
Cuidado
per sē nōtum
conhecido por si mesmo, evidente sem demonstração (proposição cujo predicado está contido no sujeito)
Deum esse sit per sē nōtum
não é "conhecido por ele mesmo" nem "conhecido sozinho"
secundum sē × quoad nōs
"em si mesmo" × "para nós, em relação a nós"
secundum sē et nōn quoad nōs
quoad aqui é preposição ("quanto a"), não a conjunção "até que": uso medieval que Du Cange explica como quod attinet ad (Glossarium, ed. 1883–1887, t. 6, col. 617c); o L&S só registra os sentidos clássicos
ratiō, -ōnis (f.)
noção, definição, conteúdo inteligível de algo; também razão, argumento, faculdade racional
in ratiōne subiectī; dē ratiōne hominis
nem sempre "razão": dē ratiōne hominis = "pertence à definição de homem"
subiectum, praedicātum
sujeito e predicado de uma proposição
praedicātum est idem cum subiectō
termos da lógica, não da gramática
terminus, -ī (m.)
termo de uma proposição (sujeito ou predicado)
cognitīs terminīs
não é "fim" nem "limite" aqui
ēns, entis
ente, o que é (particípio de esse, criado pelos filósofos)
ēns et nōn ēns; nihil scītur nisi vērum, quod cum ente convertitur (I, q. 1, a. 1, arg. 2)
substantivo filosófico, praticamente ausente da prosa clássica
esse (n., indeclinável)
o ser, o existir; o ato de existir
Deus enim est suum esse
infinitivo usado como substantivo; suum esse = "o seu ser"
essentia, -ae (f.)
essência, o que uma coisa é
Sua igitur essentia est suum esse (I, q. 3, a. 4)
distinta de esse: em Deus, as duas coincidem
āctus, -ūs × potentia, -ae
ato (o que já é) × potência (o que pode ser)
Movēre enim nihil aliud est quam ēdūcere aliquid dē potentiā in āctum (I, q. 2, a. 3)
potentia não é "poder, força", mas "possibilidade real"
effectus, -ūs (m.)
efeito (o que é causado)
per effectūs
a prova "pelos efeitos" é a das cinco vias
simpliciter
absolutamente, em sentido próprio
nōn est simpliciter cognōscere Deum esse
não é "simplesmente, apenas"
in rē, in rērum nātūrā
na realidade, fora da mente
sit in rē; esse in rērum nātūrā
oposto a in intellēctū, in apprehēnsiōne intellēctūs
beātitūdō, -inis (f.)
felicidade perfeita, bem-aventurança
Deus est hominis beātitūdō
O par āctus/potentia merece uma frase inteira, porque estrutura a primeira das cinco vias, no artigo 3 da mesma questão: Movēre enim nihil aliud est quam ēdūcere aliquid dē potentiā in āctum, "pois mover não é outra coisa senão levar algo da potência ao ato". O exemplo de Tomás é o fogo, quente em ato, que torna quente em ato a madeira, que era quente só em potência. E o par essentia/esse resume o artigo 4 da questão 3: em toda criatura, o que a coisa é (a essência) e o fato de existir (o ser) são distintos; em Deus, sua essentia est suum esse, "a sua essência é o seu ser". É exatamente a razão dada no corpo do nosso artigo (Deus enim est suum esse, ut īnfrā patēbit): na proposição "Deus existe", o predicado (existir) está contido no sujeito.
A gramática da escola: quod, dīcendum e prōcēditur ⚑
A gramática do artigo é a que você estudou nas partes II e III, com algumas preferências do latim medieval, já anunciadas no capítulo 50. Seis construções fazem quase todo o trabalho.
1. Deum esse: a oração infinitiva como sujeito.Deum esse est per sē nōtum não é "ser Deus é conhecido por si", mas "que Deus existe é conhecido por si". Deum esse é uma oração infinitiva (capítulo 28) com sujeito no acusativo (Deum) e funciona como sujeito de est, como em apertum est sibi quemque nātūrā esse cārum (Bennett § 330; A&G § 452). Por isso o predicativo vai para o neutro singular (nōtum): concorda com a oração, não com Deum. O mesmo acontece com vēritātem esse est per sē nōtum. Repare também em esse com o sentido pleno de "existir", e não de "ser" + predicativo.
2. Quod no lugar da oração infinitiva. Depois de verbos impessoais e de expressões como "parece", "é preciso", "segue-se", Tomás usa muitas vezes quod + verbo finito, como o "que" português, onde Cícero usaria a oração infinitiva ou, depois de sequitur e contingit, ut + subjuntivo (Bennett § 297.2): oportet quod vēritās sit (clássico: oportet vēritātem esse); sequitur… quod sit in rē (clássico: sequitur ut sit in rē); Vidētur quod Deum esse sit per sē nōtum. O verbo da oração com quod pode estar no indicativo (scītur quod omne tōtum maius est; habētur quod Deus est) ou no subjuntivo (vidētur quod… sit; oportet quod… sit); o subjuntivo aparece sobretudo depois de verbos que exprimem aparência, necessidade ou consequência e em contexto hipotético. Note que o mesmo artigo usa as duas construções: quī negat vēritātem esse (infinitiva) e oportet quod vēritās sit (quod). Já Ex hōc… quod praedicātum inclūditur, "pelo fato de que o predicado está incluído", é construção clássica: quod + indicativo em aposição a um demonstrativo (Bennett § 299.1.a; A&G § 572).
3. Dīcendum: o gerundivo impessoal.Respondeō dīcendum quod… e Ad prīmum ergō dīcendum quod… contêm um gerundivo neutro usado impessoalmente, com est subentendido: dīcendum (est), "deve-se dizer" (perifrástica passiva, capítulo 31; Bennett § 337.8.b.1; Kennedy § 382). O que deve ser dito vem na oração com quod. Traduções como "respondo dizendo que" são consagradas, mas não confunda dīcendum com o gerúndio português: o sentido é de obrigação.
4. Prōcēditur: a passiva impessoal.Ad prīmum sīc prōcēditur usa a passiva de um verbo intransitivo, sem sujeito: "procede-se assim", como ītur, "vai-se", ou pugnātur, "combate-se" (Bennett § 138 IV; A&G § 208.d; Ravizza n. 140 IV). Do mesmo tipo, com verbos que também podem ser pessoais, são patet ("é evidente"), contingit ("acontece, é possível"), sequitur ("segue-se") e as passivas dīcitur, scītur, habētur.
5. O ablativo absoluto do raciocínio. O ablativo absoluto (capítulo 30) serve, na escolástica, para pôr uma premissa: cognitīs terminīs, "conhecidos os termos"; scītō… quid est tōtum, "sabido o que é o todo"; intellēctō quid significet hōc nōmen, "entendido o que significa este nome"; datō… quod quīlibet intelligat, "dado que qualquer um entenda". Nos três últimos, o "sujeito" do ablativo absoluto é uma oração inteira (uma interrogativa indireta ou uma oração com quod), e o particípio fica no neutro singular.
6. A interrogativa indireta, às vezes no indicativo.Intellēctō quid significet tem o subjuntivo clássico (Bennett § 300.1). Mas scītō quid est tōtum et quid pars e nōs nōn scīmus dē Deō quid est têm o indicativo, que a prosa clássica só admite excepcionalmente (Bennett § 300.6) e que o latim medieval usa com frequência (capítulo 50). Reconheça a construção pelo interrogativo (quid) e pelo verbo de saber, qualquer que seja o modo.
Suma de Teologia I, q. 2, a. 1, co.: Respondeō dīcendum quod contingit aliquid esse per sē nōtum dupliciter: ūnō modō, secundum sē et nōn quoad nōs; aliō modō, secundum sē et quoad nōs.
Palavra
Dicionário
Análise
Função
Respondeō
respondeō, -ēre, respondī, respōnsum, responder
1ª pess. sing. do presente do indicativo ativo
verbo principal
dīcendum
dīcō, -ere, dīxī, dictum, dizer
gerundivo, nominativo singular neutro, impessoal; est subentendido
"deve-se dizer": perifrástica passiva impessoal
quod
quod (conjunção)
invariável
"que": introduz o que deve ser dito
contingit
contingō, -ere, contigī, acontecer; ser possível
3ª pess. sing. do presente do indicativo, impessoal
verbo da oração com quod
aliquid
aliquis, aliquid (indefinido)
acusativo singular neutro
sujeito da oração infinitiva
esse
sum, esse
infinitivo presente
verbo da oração infinitiva, sujeito de contingit
per sē
per (prep. com acusativo) + sē
acusativo do reflexivo
expressão técnica com nōtum: "por si"
nōtum
nōtus, -a, -um, conhecido (de nōscō)
acusativo singular neutro
predicativo de aliquid
dupliciter
dupliciter (advérbio, de duplex)
invariável
"de dois modos": anuncia a distinção
ūnō modō
ūnus, -a, -um + modus, -ī (m.)
ablativo singular
ablativo de modo: "de um modo"
secundum sē
secundum (prep. com acusativo) + sē
acusativo do reflexivo
"segundo si, em si mesmo"
et nōn
et + nōn
invariável
coordena e nega o membro seguinte
quoad nōs
quoad (prep. com acusativo, no latim escolástico) + nōs
acusativo plural
"quanto a nós, para nós"
aliō modō
alius, -a, -ud + modus
ablativo singular
"de outro modo"; correlato de ūnō modō
A frase tem a forma típica de um corpo de artigo: a fórmula de abertura, uma tese geral e a distinção (dupliciter: ūnō modō… aliō modō…) que vai resolver a questão. Repare que a oração infinitiva aliquid esse per sē nōtum depende do impessoal contingit (Bennett § 138 III), aqui no sentido de "é possível que algo seja…", e que a oração com quod depende de dīcendum: Tomás usa as duas construções na mesma linha, cada uma no seu lugar.
O período da conclusão do corpo mostra outra combinação de subordinadas:
Dīcō ergō quod haec prōpositiō, Deus est, quantum in sē est, per sē nōta est: quia praedicātum est idem cum subiectō. A completiva com quod ocupa o lugar de uma oração infinitiva; a restritiva quantum in sē est fica encaixada entre o sujeito e o predicado.
Resumo
Partes do artigo: título (Utrum…), objeções (Vidētur quod…, Praetereā…), Sed contrā, corpo (Respondeō dīcendum quod…), respostas (Ad prīmum ergō dīcendum quod…). Vidētur introduz a tese que Tomás vai examinar e, em geral, recusar.
Ordem de leitura: título → Sed contrā → corpo (a distinção) → objeções e respostas aos pares.
Termos técnicos: per sē nōtum (evidente), quoad nōs × secundum sē, ratiō (noção, definição), ēns, esse, essentia, āctus e potentia.
Deum esse = "que Deus existe"; quod + indicativo ou subjuntivo no lugar da infinitiva; dīcendum = "deve-se dizer"; prōcēditur = "procede-se"; ablativos absolutos como premissas.
Este é o último capítulo do livro. Você começou no capítulo 1 perguntando o que é o latim e termina lendo, no texto da edição crítica, um artigo de Tomás de Aquino; no caminho leu Fedro, Eutrópio, César, Catulo e Horácio, Ovídio, Virgílio, Cícero e Lívio, a Vulgata, dois hinos e Agostinho. A gramática está toda aí. O que falta agora não é mais um capítulo, mas horas de leitura: o vocabulário, a velocidade e o ouvido só vêm assim. Algumas sugestões de caminho, todas no catálogo da Bibliotheca Latina:
Roteiros de leitura a partir deste capítulo
Se você quer…
Leia
Por quê
continuar com Tomás
Suma de Teologia, primeira parte: q. 1 (o que é a teologia) e q. 2, a. 3 (as cinco vias); depois o Dē ente et essentiā
mesmo vocabulário, mesma estrutura; o Dē ente é curto e define ēns, essentia, esse
ler os autores que Tomás discute
Anselmo, Proslogion (caps. 2–4); Boécio, Cōnsōlātiō Philosophiae
o argumento da segunda objeção no original; Boécio alterna prosa e verso e é a ponte entre a Antiguidade e a Idade Média
ler a espiritualidade medieval
Bernardo de Claraval, Dē dīligendō Deō; Hugo de São Vítor, Didascalicon; Tomás de Kempis, Imitação de Cristo
prosa medieval de dificuldade crescente; o Didascalicon é um programa de estudos do século XII
voltar a Agostinho
Confissões (livros I, VIII e XI); A Cidade de Deus (trechos)
o latim cristão no seu ponto mais alto (capítulo 53)
ver o latim filosófico depois da Idade Média
Descartes, Meditationes dē prīmā philosophiā
o latim escolástico usado contra a escolástica, em 1641
textos que o leitor de Tomás e de Agostinho também deve conhecer: eles os conheciam
Três hábitos ajudam mais que qualquer gramática. Leia todos os dias, ainda que pouco, e em voz alta. Leia muito texto fácil (a Vulgata, a Imitação de Cristo, o Epitome historiae sacrae de Lhomond) além do texto difícil: a fluência vem do fácil. E mantenha à mão os instrumentos que você aprendeu a usar no capítulo 7: um bom dicionário (Lewis e Short, o Logeion) e uma gramática de consulta (Bennett, Allen e Greenough, Ravizza), voltando a este livro sempre que uma construção resistir. Tolle, lege.
Por quê, e como evitar: As objeções apresentam a tese que vai ser examinada e, em geral, recusada. A posição de Tomás está no corpo (Respondeō dīcendum quod…), e o Sed contrā costuma indicar o lado dele. Leia na ordem: título, Sed contrā, corpo, depois objeções e respostas aos pares.
Erro: Traduzir Deum esse est per sē nōtum por *"ser Deus é conhecido por si".
Por quê, e como evitar:Deum esse é uma oração infinitiva com sujeito no acusativo, usada como sujeito: "que Deus existe" (Bennett § 330). Esse tem aqui o sentido pleno de "existir", e nōtum fica no neutro porque concorda com a oração inteira.
Erro: Ler dīcendum como gerúndio: *"respondo dizendo que" no sentido de modo.
Por quê, e como evitar:Dīcendum é gerundivo impessoal com est subentendido: "deve-se dizer" (perifrástica passiva, capítulo 31). "Respondo dizendo que" é uma tradução consagrada, mas o sentido latino é de obrigação: "respondo que se deve dizer que".
Erro: Traduzir ratiō sempre por "razão" e potentia por "poder".
Por quê, e como evitar: Em Tomás, ratiō é muitas vezes a noção ou a definição de algo (animal est dē ratiōne hominis, "animal pertence à definição de homem"), e potentia, em par com āctus, é a possibilidade real de ser (dē potentiā in āctum). Observe o contexto e os pares técnicos.
Erro: Ler quoad nōs como a conjunção quoad, "até que".
Por quê, e como evitar: Em secundum sē et nōn quoad nōs, quoad funciona como preposição com acusativo, "quanto a, em relação a": "em si mesmo, e não para nós". Ao lado de secundum sē, o paralelo deixa isso claro.
Erro: Exigir subjuntivo em toda interrogativa indireta e "corrigir" nōn scīmus dē Deō quid est.
Por quê, e como evitar: O latim medieval usa com frequência o indicativo na interrogativa indireta (capítulo 50; Bennett § 300.6 registra o uso na poesia e no latim arcaico). Não é erro de cópia: reconheça a interrogativa pelo quid e pelo verbo de saber. Ao escrever latim clássico, use o subjuntivo.
Resolvida passo a passo: leia a pergunta, tente responder e só então abra cada passo.
Prática guiada 1 · A estrutura de uma objeção
Leia a terceira objeção e reconstrua o seu esqueleto lógico: Praetereā, vēritātem esse est per sē nōtum: quia quī negat vēritātem esse, concēdit vēritātem esse: sī enim vēritās nōn est, vērum est vēritātem nōn esse. Sī autem est aliquid vērum, oportet quod vēritās sit. Deus autem est ipsa vēritās. Ergō Deum esse est per sē nōtum.
Qual é a tese da objeção, e onde ela aparece?Ver o passo
Na primeira e na última frase (a tese é enunciada e depois concluída com Ergō): primeiro vēritātem esse est per sē nōtum, "que a verdade existe é conhecido por si"; no fim, aplicada a Deus: Deum esse est per sē nōtum.
Que palavras marcam a prova da primeira premissa?Ver o passo
Quia ("porque") e enim ("pois"): quem nega a verdade a afirma, porque, se não há verdade, "é verdade" que não há verdade. O argumento se refuta a si mesmo.
Analise quī negat vēritātem esse e oportet quod vēritās sit.Ver o passo
A primeira é uma oração infinitiva clássica, objeto de negat (capítulo 28). A segunda substitui a infinitiva por quod + subjuntivo depois do impessoal oportet; no latim clássico seria oportet vēritātem esse.
Qual é a premissa que liga a verdade a Deus?Ver o passo
Deus autem est ipsa vēritās, "ora, Deus é a própria verdade", apoiada em João 14,6. Autem introduz a premissa menor.
Onde está a resposta de Tomás, e o que ela distingue?Ver o passo
Na resposta 3 (Ad tertium): é evidente que existe verdade "em geral" (in commūnī), mas não que existe "a primeira verdade", isto é, Deus, para nós (quoad nōs). A distinção do corpo (em si × para nós) desfaz a objeção.
Prática guiada 2 · Um ablativo absoluto com uma oração dentro
Analise e traduza: Sed intellēctō quid significet hōc nōmen Deus, statim habētur quod Deus est.
Qual é o verbo principal?Ver o passo
Habētur, presente passivo de habeō, usado impessoalmente: "tem-se, obtém-se". O seu conteúdo é a oração quod Deus est, "que Deus existe", com indicativo.
Que forma é intellēctō, e com que concorda?Ver o passo
Particípio perfeito passivo de intellegō (intellēctum), ablativo singular neutro. Não há substantivo para concordar: o "sujeito" do ablativo absoluto é a oração quid significet hōc nōmen Deus. Daí o neutro singular.
Que oração é quid significet hōc nōmen Deus?Ver o passo
Interrogativa indireta (capítulo 35), com o verbo no subjuntivo, significet; o sujeito é hōc nōmen, e Deus está em aposição, citado como palavra: "o que significa este nome, Deus".
Monte a tradução.Ver o passo
"Ora, entendido o que significa este nome, 'Deus', logo se tem que Deus existe." Mais livre: "Ora, uma vez entendido o significado do nome 'Deus', segue-se imediatamente que Deus existe."
Conclusão: na escolástica, o ablativo absoluto é a forma latina de "dado que", "suposto que", "uma vez entendido que"; o particípio neutro singular é o sinal de que o "sujeito" é uma oração.
Faça por escrito ou em voz alta; abra "Ver resposta" só depois de tentar. A explicação da resposta faz parte da lição.
Exercício 1 · A estrutura do artigo
Responda com base no texto da seção 3.
Qual é a pergunta do artigo, e qual a resposta de Tomás?Ver resposta
Se a existência de Deus é conhecida por si (evidente sem demonstração). Resposta: em si, sim (porque em Deus essência e ser coincidem); para nós, não, porque não sabemos o que Deus é; por isso a existência de Deus precisa ser demonstrada pelos efeitos.
Que autoridade aparece no Sed contrā, e que argumento ela fornece?Ver resposta
Aristóteles (a impossibilidade de pensar o oposto do que é evidente) e o Salmo 52 (o insensato que diz "não há Deus"). Se alguém pode pensar que Deus não existe, a existência de Deus não é evidente para todos.
Qual é a distinção central do corpo?Ver resposta
Ser conhecido por si "em si mesmo" (secundum sē) e "para nós" (quoad nōs). Uma proposição é evidente em si quando o predicado está na noção do sujeito; é evidente para nós só se conhecemos o que são o sujeito e o predicado.
Que objeção corresponde ao argumento de Anselmo, e como Tomás responde?Ver resposta
A segunda. Tomás responde que nem todos entendem "Deus" como "aquilo maior do que o qual nada se pode pensar" e que, mesmo entendendo, daí só se segue que isso existe no intelecto, não na realidade, a não ser que se conceda de antemão o que está em questão.
Na resposta 1, o que significa o exemplo de Pedro?Ver resposta
Conhecer "alguém que vem" não é conhecer Pedro, mesmo que seja Pedro quem vem. Do mesmo modo, desejar a felicidade (que de fato é Deus) não é conhecer que Deus existe: muitos põem a felicidade nas riquezas ou nos prazeres.
Exercício 2 · Vocabulário técnico
Traduza as expressões no sentido técnico e explique.
animal est dē ratiōne hominisVer resposta
"Animal pertence à noção (definição) de homem": ratiō = noção, definição. Não "da razão do homem".
secundum sē et nōn quoad nōsVer resposta
"Em si mesmo, e não em relação a nós": a coisa pode ser evidente na sua natureza sem ser evidente para o nosso conhecimento.
Deus enim est suum esseVer resposta
"Pois Deus é o seu próprio ser (existir)": esse é infinitivo substantivado; em Deus, o que ele é e o fato de existir coincidem (I, q. 3, a. 4).
ēdūcere aliquid dē potentiā in āctumVer resposta
"Levar algo da potência ao ato": fazer passar o que pode ser ao que é de fato. Potentia não é "poder".
doctrīna nōn potest esse nisi dē ente: nihil enim scītur nisi vērum, quod cum ente convertitur (I, q. 1, a. 1, arg. 2)Ver resposta
"Não pode haver ciência senão do ente: pois nada se sabe senão o verdadeiro, que é convertível com o ente." Ēns, entis = "o que é"; "convertível" = um termo vale onde vale o outro (todo ente é verdadeiro, todo verdadeiro é ente).
Exercício 3 · Latim escolástico e latim clássico
Reescreva em latim clássico, com oração infinitiva, e explique a mudança.
oportet quod vēritās sitVer resposta
oportet vēritātem esse: com oportet, a prosa clássica usa a oração infinitiva como sujeito (Bennett § 330: nihil in bellō oportet contemnī). O sujeito passa ao acusativo e o verbo ao infinitivo.
sequitur etiam quod sit in rēVer resposta
sequitur ut etiam sit in rē: depois de sequitur, fit, accidit, contingit, a prosa clássica usa ut + subjuntivo (Bennett § 297.2: ex quō efficitur, ut voluptās nōn sit summum bonum). O subjuntivo de Tomás depois de quod é o mesmo; muda só a conjunção.
Et ideō contingit… quod quaedam sunt commūnēs animī conceptiōnēsVer resposta
Et ideō contingit ut quaedam sint commūnēs animī conceptiōnēs: com contingit ("acontece que"), o clássico usa ut + subjuntivo (Bennett § 297.2). Tomás usa quod + indicativo, como o "que" português.
nōn scīmus dē Deō quid estVer resposta
nōn scīmus quid sit Deus: na interrogativa indireta, a prosa clássica usa o subjuntivo (Bennett § 300.1); a construção dē Deō quid… ("a respeito de Deus, o que…") antecipa o assunto e é comum no latim escolástico.
Exercício 4 · Morfologia e construções impessoais
Analise cada forma e traduza a expressão.
prōcēditur (Ad prīmum sīc prōcēditur)Ver resposta
3ª pess. sing. do presente do indicativo passivo de prōcēdō, verbo intransitivo, usado impessoalmente: "procede-se" (Bennett § 138 IV; A&G § 208.d).
dīcendum (Ad secundum dīcendum quod…)Ver resposta
Gerundivo de dīcō, nominativo neutro singular, impessoal, com est omitido: "quanto ao segundo, deve-se dizer que…".
cognitīs terminīsVer resposta
Ablativo absoluto: particípio perfeito passivo de cognōscō (ablativo plural masculino) concordando com terminīs: "conhecidos os termos", "uma vez conhecidos os termos".
datō (Datō etiam quod quīlibet intelligat…)Ver resposta
Particípio perfeito passivo de dō, ablativo neutro singular, em ablativo absoluto cujo "sujeito" é a oração com quod: "dado que qualquer um entenda".
ā pōnentibus (quod nōn est datum ā pōnentibus Deum nōn esse)Ver resposta
Particípio presente substantivado de pōnō, ablativo plural, agente da passiva com ā: "pelos que afirmam (põem) que Deus não existe". Pōnere = "pôr como tese, afirmar".
existendī (cognitiō existendī Deum)Ver resposta
Gerúndio no genitivo de existō (exsistō), dependente de cognitiō, acompanhado de Deum no acusativo: "o conhecimento de Deus existir", isto é, "de que Deus existe". É uma construção pouco clássica, que dá ao gerúndio um sujeito no acusativo, como se fosse uma oração infinitiva (Deum não pode ser objeto de cognitiō, que é substantivo); traduza pelo sentido. O próprio Tomás repete o torneio em I, q. 8, a. 3: modī existendī Deum in rēbus, "os modos de Deus existir nas coisas".
Exercício 5 · Tradução
Traduza estas frases da Suma, conferidas na edição Leonina, e comente uma construção de cada.
Certum est enim, et sēnsū cōnstat, aliqua movērī in hōc mundō. (I, q. 2, a. 3)Ver resposta
"Pois é certo, e consta pelos sentidos, que algumas coisas se movem neste mundo." Aliqua movērī é oração infinitiva sujeito de certum est e cōnstat; movērī é infinitivo passivo com sentido médio, "mover-se".
Omne autem quod movētur, ab aliō movētur. (I, q. 2, a. 3)Ver resposta
"Ora, tudo o que se move é movido por outro." Quod movētur é relativa sujeito; ab aliō, agente da passiva.
Sua igitur essentia est suum esse. (I, q. 3, a. 4)Ver resposta
"Logo, a sua essência é o seu ser." Igitur anuncia a conclusão; esse é infinitivo substantivado, predicativo.
Ad tertium dīcendum quod vēritātem esse in commūnī, est per sē nōtum.Ver resposta
"Quanto ao terceiro, deve-se dizer que é conhecido por si que existe a verdade em geral." Vēritātem esse: oração infinitiva sujeito dentro da oração com quod.
Cōgitārī autem potest oppositum eius quod est Deum esse.Ver resposta
"Ora, pode-se pensar o oposto de 'Deus existe'." Literalmente: "pode ser pensado o oposto daquilo que é 'Deus existir'". Cōgitārī: infinitivo passivo dependente de potest, cujo sujeito é oppositum.
Leituras recomendadas
Comece pela própria Suma: a questão 1 da primeira parte (o que é a "doutrina sagrada"), depois o artigo 3 da questão 2 (as cinco vias), lendo cada artigo na ordem proposta na seção 2. O Dē ente et essentiā, opúsculo juvenil de Tomás, define o vocabulário técnico deste capítulo e é mais difícil, mas curto. O Proslogion de Anselmo (caps. 2–4) traz o argumento discutido na segunda objeção, num latim de oração parecido com o de Agostinho. A Consolação da Filosofia, de Boécio, autor citado no corpo do artigo, alterna prosa e verso. O Dē dīligendō Deō, de Bernardo, mostra outra prosa do século XII, e as Meditationes de Descartes mostram o latim filosófico depois da escolástica. A seção "E agora?" sugere outros roteiros.
Etapa VII · Sapientia MediaevalisDificuldade 3 · IntermediárioOriginal
Summa Theologiae, Prima pars
Thomas de Aquino
A Summa Theologiae no texto leonino, no Corpus Thomisticum (edição eletrônica Busa e Alarcón). A Prima pars começa na questão 1 (a natureza da teologia) e na questão 2 (as cinco vias). Sintaxe simples e estrutura fixa (objeções, sed contra, respondeo); a dificuldade está no vocabulário técnico. Sem notas.
Teologia · Medieval · meses, um artigo por dia · Corpus Thomisticum
Etapa VII · Sapientia MediaevalisDificuldade 4 · AvançadoOriginal
De ente et essentia
Thomas de Aquino
O opúsculo sobre o ente e a essência, obra de juventude de Tomás, em página única no Corpus Thomisticum. Texto curto e denso; a metafísica tomista em forma concentrada. Sem notas.
Filosofia · Medieval · uma ou duas semanas · Corpus Thomisticum
Etapa VII · Sapientia MediaevalisDificuldade 3 · IntermediárioOriginal
Proslogion
Anselmus Cantuariensis
O Proslogion completo, com o célebre argumento da existência de Deus (capítulos II–IV), no texto da Patrologia Latina. Latim límpido e curto; uma das melhores portas de entrada na filosofia medieval. Sem notas.
Filosofia · Medieval · uma ou duas semanas · Corpus Corporum
Etapa VII · Sapientia MediaevalisDificuldade 4 · AvançadoOriginal Áudio
De consolatione philosophiae
Anicius Manlius Severinus Boethius
A Consolação da Filosofia completa (cinco livros alternando prosa e verso), no texto da Patrologia Latina. A prosa é clássica e clara; os poemas em metros variados são mais exigentes. Sem notas. EPUB bilíngue latim-inglês (edição Loeb, 1918) no Project Gutenberg. Gravação completa no LibriVox.
Filosofia · Tardio e patrístico · algumas semanas · Corpus Corporum
Etapa VII · Sapientia MediaevalisDificuldade 4 · AvançadoOriginal
Meditationes de prima philosophia
René Descartes
As seis Meditações de Descartes no original latino (1641), edição estudantil de 1913. Latim escolástico tardio, claro e argumentativo: mostra como a tradição medieval desemboca na filosofia moderna.
Filosofia · Renascentista e neolatino · algumas semanas · Project Gutenberg
Bibliotheca Latina. Conteúdo original com trechos de obras em domínio público; licença CC BY 4.0.
Fontes consultadas
Summa Theologiae, Prima pars, q. 2, a. 1 (edição Leonina, tomo IV, Roma, 1888), Thomas de Aquino (no catálogo) · domínio público · texto-base conferido na digitalização do tomo IV da edição Leonina (Sancti Thomae Aquinatis Opera omnia iussu impensaque Leonis XIII P. M. edita, tomus quartus: Pars prima Summae theologiae a quaestione I ad quaestionem XLIX, Romae, ex typographia polyglotta S. C. de Propaganda Fide, 1888), pp. 27–28, em domínio público. Também conferidos na mesma digitalização: I, q. 1, a. 1, arg. 2; I, q. 2, a. 3 (início da primeira via); I, q. 3, a. 4 (Sua igitur essentia est suum esse). A pontuação segue a Leonina; ortografia mantida (intelligit), macrons acrescentados
Summa Theologiae, Prima pars, Quaestio II (Wikisource latina), Thomas de Aquino · transcrição usada para a leitura corrente e comparada palavra a palavra com a digitalização da Leonina; o Corpus Thomisticum (edição eletrônica Busa/Alarcón, com direitos reservados sobre a edição) foi apenas consultado para conferência e não é a fonte do texto
Proslogion, cap. 2, Anselmus Cantuariensis (no catálogo) · domínio público · a fórmula aliquid quo nihil maius cogitari possit e a citação de Salmo 13,1 (dixit insipiens), conferidas na The Latin Library
New Latin Grammar, Charles E. Bennett (no catálogo) · domínio público · § 115 (conjugação perifrástica passiva), § 138 III e IV (impessoais: contingit; passiva de verbos intransitivos: ītur, ventum est, veniendum est), § 297.2 (ut + subjuntivo como sujeito de fit, accidit, contingit, sequitur), § 299.1.a (quod "o fato de que" em aposição a um demonstrativo, ex eō), § 300.1 e 300.6 (interrogativa indireta no subjuntivo; indicativo no latim arcaico e na poesia), § 330 (oração infinitiva como sujeito de esse e de impessoais: oportet, cōnstat), § 337.8.b.1 (gerundivo predicativo; uso impessoal)
Allen and Greenough's New Latin Grammar, J. H. Allen e J. B. Greenough (no catálogo) · domínio público · §§ 193–194 (conjugações perifrásticas), §§ 207–208 e 208.d (verbos impessoais; passiva impessoal de intransitivos), § 419 (ablativo absoluto), § 452 e § 454 (infinitivo como sujeito), § 500 (gerundivo; uso impessoal na perifrástica passiva), § 572 (quod + indicativo, "o fato de que"), § 574 (interrogativa indireta no subjuntivo)
Kennedy's Revised Latin Primer, Benjamin Hall Kennedy (no catálogo) · domínio público · §§ 299–301 (passiva impessoal de verbos intransitivos; agente omitido), §§ 381–383 (gerúndio e gerundivo de obrigação; uso impessoal: eundum est)
Gramática Latina, Pe. João Ravizza (no catálogo) · domínio público · n. 140, IV (verbos intransitivos usados impessoalmente na passiva: curritur, pugnatur, ventum est; tibi eundum est; imitandum est)